É, claramente, uma função cerebral que implica o normal funcionamento de circui- tos em redes neuronais relacionadas com os impulsos originados nas estruturas senso- riais e sensitivas. Digamos que é uma função aberta que só se manifesta se for usada por estímulos externos que são, principalmente, os que são mediados pelos órgãos receptores das cinco sensorialidades – visão, audição, gosto, olfato e tato. Sem que os órgãos nervo- sos destes sentidos sejam estimulados de forma adequada – a luz para a visão, o aroma químico para o olfato ou o som para a audição, por exemplo – nada será memorizado.
Como escreveu Francis Crick, a propósito da visão como atividade de percepção consciente, é preciso encontrar um neural correlate da cognição visual e que os diversos processos psicológicos envolvidos na cognição visual estão situados em diferentes áreas cerebrais ativando grupos de neurónios específicos a partir dos quais emerge a cognição. Mesmo reconhecendo que não há, ainda, um entendimento coerente, no plano científico, quanto ao modo como um estímulo luminoso, atuando no sistema nervoso, a partir dos neurónios da retina, faz surgir, na consciência cognitiva, a imagem visual. Crick está con- fiante em que o neural correlate da atividade cognitiva será encontrado a partir do estudo de pessoas com lesões cerebrais conhecidas que provocam alterações na percepção visual (como nos casos de “cegueira” cromática, da não perceção do movimento de objetos vis- tos ou da sua não localização no espaço) e reproduzindo-as no cérebro de macacos.
A sua profunda convicção é que “You, your joys and your sorrows, your memories and your ambitions, your sense of personal identity and free will, are in fact no more than the behaviour of a vast assembly of nerve cells and their associated molecules”. Esta é a sua “hipótese surpreendente” na demonstração na qual trabalhou até à morte, sem suces- so. O seu principal discípulo Christof Koch – a quem dedica o seu livro Astonishing hypo- thesis – continuou na mesma linha. E na obra publicada em 2012 que subtitula Confessions of a romantic reductionist, Koch mostra-se adepto da teoria da informação integrada de G. Tononi para conceber a consciência, mas reconhece que ela apenas se ocupa das intera- ções causais que ocorrerão no interior do sistema cerebral e não da sua relação com o meio externo; e nada diz sobre a memória nem sobre a capacidade de os seres humanos planearem o futuro.
A memória, em uma definição simples, é a capacidade de adquirir, guardar, recu- perar ou evocar qualquer tipo de informações. Que tipo de informações são adquiridas, guardadas e evocadas? António Damásio, no seu recente livro Self comes to mind, dedica a maior atenção a esta pergunta no capítulo intitulado “An architecture for memory”. Tentando captar o essencial do pensamento de Damásio direi que a memória complexa dos seres humanos é o cerne da própria natureza específica dos humanos. Para nada nos serviria o registo das percepções sensoriais se a aprendizagem resultante das estimula- ções sensoriais se limitasse às caraterísticas físicas dos objetos percebidos e memorizados como tais. Os animais, em especial os mamíferos, e, no grau mais elevado desta memória episódica, os primatas não humanos, dispõem desta memorização das percepções e com ela regulam os seus comportamentos. O cérebro humano deu um grande passo em frente, um passo gigantesco, quando arquivou em si, não apenas o episódio externo percebido, mas o sentido que lhe atribuiu. Este jogo, incessante, ao longo de toda a vida dos hu- manos, entre percepção e sentidos, pratica-se num estádio sem balizas que é o campo
da consciência cognitiva. Para Damásio, é o self, mas de acordo com Merlin Donald, a memória exterior simbólica funciona como espelho da consciência cognitiva. Para mim, se trata de uma autoconsciência, é como percepção (misteriosa!) do “eu perceptivo” (self awareness, na língua inglesa).
Eric Kandel, Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia de 2000, apresentou em 2006 uma nova teoria do espírito num livro intitulado A la recherche de la mémoire. É um livro fas- cinante que expõe, com clareza meridiana, toda a investigação referente à neurobiologia da memória (que o Nobel consagrou), ao mesmo tempo em que narra a sua biografia de um jovem judeu austríaco que fugiu para os Estados Unidos da América e onde chegou a professor da Universidade de Columbia. Esta inclusão da sua biografia no texto não é por desfastio, mas é, sim, para documentar a sua tese de que a memória é o suporte do espí- rito humano; e, portanto, a neurobiologia da memória – v. g. a estruturação dos circuitos nas redes neuronais e toda a sinaptologia – são o suporte físico do espírito.
Kandel reconhece, na parte final do livro, no capítulo que dedica à consciência, que não dá uma demonstração cabal da sua tese. Começa por se referir à consciência per- ceptiva e não à autoconsciência (self awareness) afirmando, contudo, que “À sa racine, la conscience chez l’individu est une intuition de soi, une intuition d’être conscient”. Mas o que é a intuição? − pergunto-me.
Como é comum nos autores, Kandel assinala a evolução do pensamento dos gre- gos, Sócrates pela pena de Platão, autores medievais com destaque para Tomás de Aquino e, por fim, de Descartes na modernidade e K. Popper e J. Eccles assinalam que o espírito não é o corpo, nem pode ser conhecido através do corpo. A este propósito, MacCain resolve a questão afirmando que, no tempo atual, o cérebro humano não tem (ainda) capacidades estruturais para ser capaz de conhecer e resolver certos problemas, um dos quais é, precisamente, o da natureza do espírito humano. E. Kandel escreve que a sub- jetividade, a segunda caraterística da sensação de consciência, pose un défi plus formidable encore e, entrando mais a fundo na questão afirma “Ce qui nous échappe, c’est comment l’activité électrique des neurones peut donner naissance au sens que nous attribuons à cette couleur ou à cette fréquence sonore”.
Ao lado desta problemática que é a questão-chave – não sabemos como a estimula- ção elétrica neuronal faz emergir uma percepção consciente representativa e avaliadora – perfila-se uma outra, que é a da unidade deste quid, deste quem que conhece e avalia desta identidade afinal do self no qual acontece o feeling of what happens (Damásio).
Os neurocientistas modernos consideram que esta questão é, hoje, o maior desafio colocado aos investigadores. Crick e Koch, e depois só Koch – Crick morreu em 28 de julho de 2004, aos 88 anos –, dedicaram muita energia mental e algum trabalho experi- mental para encontrarem uma zona cerebral na qual pudessem situar a emergência do estado de consciência cognitiva, unitário e identitário. Os autores propuseram que fosse o claustrum, localizado entre o córtex insular e os gânglios basais, em cada hemisfério; mas, Damásio considera que esta proposta não tem suporte científico e contrapõe que o self autobiográfico (na sua linguagem) se constrói progressivamente usando grupos de percepções memorizadas como um “objeto” e articulando ou coordenando os vários “ob- jetos” numa síntese autobiográfica que, em cada momento do tempo vivido, seria o self.
Para Damásio, portanto, não existe um “eu” anterior à cognição perceptiva cons- ciente, o tal “teatro cartesiano” onde iriam ocorrer as percepções (conscientes por estarem
no teatro a representar o seu papel, no drama da vida individual) e na sua radicalidade afirma a propósito das estruturas de organização e coordenação dos “objetos” perspecti- vos que: “They are spontaneous organizers of a process. The results of the entire opera- tion materialize not within the coordinating devices, but rather elsewhere, specifically, within the image-making, mind-generating structures of the brain located in both the cerebral cortex and the brain stem”. Damásio recusa, portanto, que exista um centro de consciência perceptiva, mas propõe, como hipótese de trabalho que a consciência do “eu” individual seja o resultado de um trabalho orgânico cerebral que organiza as memórias perceptivas da vida corrente num fluxo contínuo que cria a “ilusão” de um centro. Assim, o self é o resultado do trabalho cerebral que transforma a biografia natural, a relação sen- sorial de cada um com o mundo envolvente, em autobiografia.
Não cabe aqui detalhar, de forma pormenorizada, que zonas cerebrais nas quais Damásio distribui como atividade de coordenação organizativa, é no entanto, a mais clara simpatia pelo córtex póstero-mediano, porque será aí que irá ocorrer a intercessão das vias associadas com a informação visceral interna (interoceptiva), do sistema músculo-esque- lético (proprioceptiva e cinestésica) e do mundo exterior (exteroceptiva). Para Damásio, esta não é uma conclusão, mas uma hipótese de trabalho. Mas a frase final de Kandel é muito sensata, prudente e verdadeira: “on ne peut déduire la totalité de l’activité nerveuse simplement de l’observation d’un petit nombre de circuits à l’antérieur du cerveau”.
E subscrevo o juízo antecipado de Crick que escreveu no final do seu livro:
Many of my readers might justifiably complain that what has been discussed in this book has very little to do with the human soul as they understand it. Nothing has been said about that most human of capabilities – language – nor about how we do mathematics, or problem sol- ving in general. Even for the visual system I have hardly mentioned visual imagination or our aesthetic responses to pictures, sculpture, architecture, and so on. There is not a word about the real pleasure we get from interacting with Nature. Topics such as self-awareness, religious experiences (which can be real enough, even if the customary explanations of them are false), to say nothing of falling in love, have been completely ignored. A religious person might aver that what is most important to him is relationship with God.
Ned Block, comparando as teorias mais recentes sobre a consciência percetiva, diz que, “it is hard to avoid the impression that the biology of the brain is what matters to consciousness – at least the kind we have – and that observation favours the biological account”. O tempo dirá qual dos dois pontos de vista será o mais correto.
Num fascinante livro publicado recentemente por Eric Kandel, The age of insight, o autor escreve:
I have illustrated the potential importance of the new biology of mind as an intellectual force, a font of new knowledge that is likely to facilitate a new dialogue between the natural sciences and the humanities and social sciences. This dialogue could help us understand better the me- chanisms in the brain that make creativity possible, whether in art, the sciences, or the huma- nities, and open up a new dimension in intellectual history.
Claro que, Kandel acentua neste livro dedicado ao entendimento do inconsciente na arte, na mente e no cérebro, o conhecimento da biologia cerebral e de forma nenhuma nega a riqueza e complexidade do pensamento. Por exemplo, Kandel demonstrou expe- rimentalmente que a percepção inconsciente do medo excita o núcleo baso-lateral da amígdala cerebral forma proporcionalmente à ansiedade de base do indivíduo, o que dá
suporte neurobiológico à afirmação, já feita por Freud, de que os processos mentais in- conscientes usam os mesmos sistemas cerebrais de tratamento da informação consciente. Portanto, as diferenças individuais no tratamento inconsciente das emoções podem levar a diferentes comportamentos e a diferentes interpretações do mundo e da relação pessoa/ mundo. As sete emoções básicas descritas por P. Ekman, a saber, medo, cólera, alegria, desprezo, surpresa, desgosto e tristeza, mesmo que percebidas inconscientemente atua- rão nos comportamentos e decisões individuais. De facto, a riqueza e a complexidade no pensamento humano ultrapassam largamente o que se vai conhecendo da “maquinaria” cerebral e da sua ativação.
Christof Koch, no artigo publicado no Scientific American MIND de maio/junho de 2014 dá conta da nova teoria da consciência cognitiva proposta por Changeux e Stanislas Dehaene. Trata-se de desenvolver experimentalmente a teoria do modelo “Espaço de Trabalho Global” proposto por Changeux e que Dehaene, um psicólogo, tem estado a testar. Quando temos consciência de qualquer coisa que está no ambiente exterior, regis- tamos esta percepção mental durante algum tempo, mesmo que essa coisa tenha desapa- recido já da nossa capacidade perceptiva, por exemplo, “vi a mosca, mas ela logo voou”. Se esta informação for passada a um blackboard informático e depois difundida pelo sistema computacional cibernético ou biológico, ela passa a ser consciente. Então, a consciência é uma ampla partilha cerebral de informação que está no blackboard memory buffer. Este amortecedor neuronal faz mais do que processar os inputs cerebrais recentes, ele pode ir buscar memórias antigas e colocá-las no amortecedor. Uma vez a informação colocada neste espaço de trabalho num post de processos cognitivos poderosos, pode usá-la e os dados podem ser enviados para uma área cerebral particular que processe a linguagem – o módulo linguístico – onde este conhecimento pode ser lido para ser partilhado com outra pessoa formulando através de uma explicação falada, por exemplo: “olha o que eu vi neste objeto…”, o que pode também ser enviado para o módulo de planeamento para sobre ele raciocinar ou ser arquivado na memória de longa duração.
O ato de transmitir estes dados dos buffers da memória cerebral para os seus vários módulos funcionais é o que dá origem à consciência. Infelizmente este espaço de trabalho tem uma capacidade extremamente limitada (amortecedor – memória de armazenamento temporário); em cada momento, nós só podemos estar conscientes de um ou de poucos eventos, embora possamos passar rapidamente de um para outro.
Em síntese, direi que a memória é resultante de um processamento cerebral das informações cognitivas, processamento muito seletivo que distingue entre conteúdos de utilização rápida, quase imediata, conteúdos com valor semântico dos quais irá dispor o pensamento slow (Kahneman) para a construção das decisões, e conteúdos com valor emocional forte que vão permanecer, por muito tempo arquivados e evocáveis, no que se chama a memória de longa duração. Destas várias formas de memorização se faz a me- mória pessoal.
A memória coletiva e social, como memória histórica, copia um pouco a memória individual. Há memória coletiva que origina respostas rápidas de todos os agentes sociais, há memória coletiva que provoca reflexões sociais mais dilatadas no tempo, mais ponde- radas, por ventura, mais eficazes; e há uma memória coletiva que vem de lá dos tempos antigos, a que Jung chamou inconsciente coletivo e que, misteriosamente, influencia com- portamentos sociais e, talvez, decisões individuais.
Identidade
Chamarei identidade ao que Damásio chama o “eu” autobiográfico. A questão não é a palavra usada, mas o conceito. Procurei, nas páginas antecedentes, desenvolver o lugar que o processo cerebral de memorização tem na estruturação de cada ser humano em crescimento. Memorizar o sentido que o cérebro atribui às percepções sensoriais é construir e arquivar uma representação do mundo exterior no mundo interior pessoal. A este processo, contínuo e progressivo, a esta biografia individual atribui Damásio a emer- gência de um “eu” íntimo.
Eric Kandel é certeiro quando afirma:
Modern cognitive psychology […] continues to be concerned with analyzing the process by which sensory information is transformed by the beholder into perception, emotion, empathy and action – that is, with evaluation how a stimulus leads to a particular perceptual, emotional, and behavioural response in a particular historical context. Only by uncovering how this trans- formation occurs can we hope to understand the relationship between a person’s actions and what that person sees, remembers, or believes.
De facto, a neurociência ainda não conseguiu dar este passo – e poderá não con- seguir nunca – pelo que a identidade, como marcador da natureza específica de cada ser humano contínua no campo da psicologia. A identidade, como resultado do exercício da capacidade de individuação, é um conceito resultante da análise filosófica das caraterísti- cas dos seres humanos, em ato. Recordo que o filósofo espanhol Ortega y Gasset escre- veu, a este propósito que “eu”, sou “eu” e a minha circunstância, a minha envolvência. Com esta frase e o seu desenvolvimento, Ortega queria assinalar que o “eu”, a identidade pessoal não é uma qualidade intrínseca do ser humano, mas é algo que se vai construindo progressivamente no tempo, em diálogo com o mundo exterior, tal como os órgãos senso- riais o recebem e interpretam. A circunstância é tanto a sociedade que condiciona os seus membros, quanto os outros seres humanos que nos interpelam ou a beleza cromática de um pôr do sol.
Fernando Pessoa, que durante a sua curta vida se debateu com esta questão da identidade por se sentir, intimamente, múltiplo e não uno, usou a metáfora da orquestra escondida em si dizendo, no Livro do Desassossego, não saber que instrumentos tocavam dentro de si, pelo que se reconhecia a si próprio como a sinfonia. Curiosamente Goldberg compara o cérebro executivo, que localiza no córtex frontal supraorbitário ao maestro de uma orquestra que faz trabalhar os diferentes grupos de neurónios para que possa emer- gir a sinfonia que é a expressão do “eu” individual.
Cultura
Para Damásio, quando o “self veio à mente” gerou-se a revolução biológica cerebral a que chamamos cultura. Como em publicações anteriores tenho referido a cultura atual que se vive nos países desenvolvidos tem uma raiz biológica evolutiva, uma archeobiologia que é onde se pode encontrar a sua compreensão. Como a evolução da capacidade cogni- tiva dos seres humanos se processa há milhões de anos, as fases que marcam patamares evolutivos foram analisadas por Merlin Donald e designadas assim de: episódica, miméti- ca, mítica e teórica. A espécie homo sapiens, que nós, hoje, representamos, terá 2.000.000
milhões de anos de evolução, tendo começado pelo reconhecimento de partes do mundo envolvente como episódios cognitivos que suscitam uma resposta corporal. Aqui começa a archeobiologia cerebral do que virá a ser o “eu” cognitivo, comunicacional – por atividade mimética, corporal e vocal – pela invenção da palavra portadora de um sentido e, final- mente, pela construção de objetos exteriores simbólicos, potenciada pela palavra escrita depositada em suportes cada vez menos perecíveis até à internet atual.
A cultura exterior simbólica, que é a nossa cultura atual, terá 5000 anos, nos quais se verificou uma aceleração quase vertiginosa da evolução do eu cognitivo que corre pa- ralela ao crescimento e expansão do neocórtex cerebral. Esta cultura exterior, expressão direta da criatividade cerebral humana tão diversificada nas várias partes do mundo ha- bitado por humanos, exprime a maturação do “eu” cognitivo. Depositada em suportes materiais externos – um livro, uma pintura, uma escultura – tem de ser objeto de per- cepção sensorial para que o cérebro lhe desvende o sentido que foi depositado nesses signos culturais e memorizar essas significâncias para, com elas, construir o eu cognitivo, consciente e, por sua vez, criador de cultura exterior – viu, entendeu, criou e transmitiu.
Assistimos, hoje, ao desenvolvimento de um novo tipo de cultura no qual a infor- mação vasta se transforma em conhecimento significante, não por ação de um cérebro hu- mano pensante, mas por um inteligente programa informático. Estes programas, usando a tecnologia das ligações em redes que agem como redes sinápticas cerebrais, constroem o que se pode designar por inteligência exterior. Faltar-lhes-á a intuição criativa − ou a cria- tividade intuitiva − que se perfila, hoje, como a capacidade mais especificamente humana.