Chapitre II : Les simulations de dynamique
II.4 Les simulations de nanoalliages
A procura da felicidade que a criança faz, o desvendamento dos seus sentimentos, a adequação e aprendizagem que lhe serão necessárias a uma plena integração familiar e social, são pelo conto de fadas um caminho trilhado para aprender a pensar. Pensar para dentro de si e pensar para estar numa realidade exterior, uma realidade que é fora da segurança do seu lar. Este caminho trilhado permite-lhe sentir-se com confiança perante desafios, onde a análise, a deliberação e a escolha serão momentos que irão determinar os seus momentos futuros.
Encontrar o significado e dar o sentido à sua vida é um fazer constante, uma vez que a vida é constantemente permeada por sensações e sentimentos sempre diferentes. Por este motivo, o conto de fadas torna-se a possibilidade de resignificação constante perante as dúvidas incessantes que interpelam a criança.
O conto de fadas revela que há sempre uma justiça, embora no início esta não seja uma possibilidade manifesta. Aqui o ambicionado e viveram felizes para todo o sempre, torna-se efectivamente uma realidade e “a criança quer ouvir exactamente isso. Todas as crianças, por muito amadas e queridas que sejam, estão sob o poder dos adultos, vivem situações que consideram injustas, sonham com o dia em que o mundo vai descobrir que são muito mais inteligentes, muito mais bonitas, muito mais interessantes e dignas de ser amadas do que alguém reconheceu alguma vez. É maravilhoso para a criança pressentir que essa descoberta pode acontecer, que chegará o dia em que poderá ocupar legitimamente o lugar que legitimamente sente pertencer- lhe”77
.
Pensar e sentir o conto de fadas torna-se para ela a expressão de uma determinada experiência humana. É neste movimento de sair de si projectando-se e de assumir em si as consequências da sua própria estória que a criança irá desenvolver a sua capacidade de imaginação, comunicação e reconhecimento da sua própria maturidade.
O conto de fadas poderá ser a fusão de dois mundos: mundo fantástico e mundo real, mas é pela sua maturidade que a criança, aprendendo e tendo confiança em querer pensar, que saberá separá-los. Neste sentido dizemos que valoriza a sua capacidade criativa e inventiva, permitindo-lhe transportar-se de uma dimensão a outra.
77
Explorando estes limites e estes mundos simultaneamente, terá de reflectir para tomar decisões em ambos. Quer no seu mundo, quer no seu conto de fadas é o reconhecimento da sua perícia, tanto quanto o alcançar da felicidade que dependem do seu pensar. Estar “com um pé” num mundo real e num mundo fantástico fá-la-á estar em contacto com diferentes seres que cruzam o seu caminho de diversos modos e em diferentes tempos. Estabelecer o diálogo, aceitar apoios, sentir a alegria da vitória de conseguir algo, tanto quanto sofrer confrontos e desilusões são momentos e etapas inevitáveis e necessárias que irão fazer parte do seu processo de crescimento.
Todos os encontros e confrontos entre seres reais e seres feéricos no seu mundo possível e no seu mundo fantástico serão outro modo da criança aprender a pensar, arranjar as estratégias necessárias para ter força no caminho a trilhar na procura da sua felicidade. Confrontada com desafios, terá de reflectir, considerar, e neste movimento de introspecção reconhecer quais os seus próprios valores e finalmente ao decidir, apresentar maturidade na sua escolha e aceitação da consequência que daí advirá78. Esta tomada de decisão, este crescer que assim se expõe, reflecte-se na forma como a criança estabelecerá uma rede de relações intelectuais, afectivas e sociais como todos os que a rodeiam, em tempo presente e futuro na sua realidade.
O conto de fadas torna-se então o fulcro e o fundamento de um fazer que suscitará a curiosidade tanto quanto lhe permite penetrar num mundo fantástico e maravilhoso. Recorrendo à fantasia, permite à criança um olhar e um sentir protegido sobre a sua própria realidade envolvente, e é este olhar que lhe dá a possibilidade de reflexão sobre o mundo e a realidade que a rodeia. E é esta capacidade que assim desenvolve, esta reflexão (ainda incipiente e protegida) que a levará a ter confiança em si própria para que se torne não num espectador, mas sim num indivíduo capaz de questionar e transformar o mundo.
A questão com que a criança é confrontada: Como devemos viver a vida?, adquire então um sentido mais lato, pois ao incluírem-se nesta os propósitos de procura e alcance de felicidade, cruzam-se as dimensões do eu e do outro, valores, princípios
78
“Com as figuras do maravilhoso, ainda que nos remetam para “um mundo inteiramente arbitrário e impossível” (Furtado, 1981:34), os mais novos puderam aprender a encarar o mundo terreno e real com mais nitidez e a estabelecer melhor a fronteira do bem e do mal, do moral e do imoral. Com elas vive-se ao mesmo tempo dois mundos, o real e o imaginário, e aprende-se a optar por um deles no momento próprio. A presença de campos e de poderes insólitos, que geram a ansiedade, o medo e o terror, força a uma auto-interrogação sobre aquilo em que verdadeiramente se acredita, e as interrogações, sobretudo quando feitas para dentro de nós, são, afinal, as catapultas do nosso crescimento”, PARAFITA, Alexandre, O Maravilhoso Popular, op. cit., p. 16.
morais e éticos que a tornam um individuo multidimensional, preparado para se confrontar tanto quanto respeitar o outro à sua frente.
Adquirindo e reconhecendo em si uma auto-confiança, vai adquirindo as aprendizagens que a fazem reconhecer-se e sentir-se como um ser social. Neste sentido, poderemos dizer que todas as questões que a criança coloca e vai resolvendo no caminho que percorre no conto de fadas, são a porta de um reconhecimento em si de uma dimensão ética, como espelho e aplicação de valores que encontra em si mesma e sente então capaz de expor.
Sentindo o conto de fadas, a criança tal como o seu “herói vai ultrapassando as diversas etapas que conduzem à maturidade e a idade infantil começa a esbater-se. Uma forma nova e diferente de olhar o mundo tem agora lugar (…)”79
.
Portanto o conto de fadas pode ser encarado como um meio para que esta amplie o seu universo interior, enriquecendo e ampliando a sua própria experiência humana, pois é neste tempo sem-tempo e neste espaço do mundo do “faz-de-conta” que a criança pode parar, “tocar” e reflectir nos seus sentimentos mais íntimos, nas suas emoções mais sentidas, nos seus desejos que às vezes lhe podem parecer tão estranhos, nos seus anseios aparentemente impossíveis.
A partir de um conto de fadas, no caminho do mundo do “faz-de-conta” ninguém sai da mesma forma, seja física ou psicologicamente. Este espaço mágico que a criança percorre e onde se cruzam desejos e palavras deixa de ser uma dimensão inocente para se tornar um campo de batalha e de confronto, mas também um espaço de aprendizagem e de alegria.
O conto de fadas como possibilidade para aprender a pensar pode assim ser entendido como a dimensão do desequilíbrio que a leva à procura do necessário para a restituição do equilíbrio necessário ao seu próprio bem-estar. Esta acção de procura, de reorganização e enriquecimento pessoal, faz com que a criança sentindo-se então na segurança do mundo do “faz-de-conta” tenha tempo para se subtrair à sua realidade física e passe a dirigir o seu comportamento pelo seu mundo assim imaginado80. O seu pensamento é agora um pensamento que se consegue separar dos objectos que
79
COSTA, Maria da Conceição, No Reino das Fadas, op. cit., p. 143. 80
“A criação de um novo mundo, nascida de uma nova consciência de si, é garantida no conto. Os contos filtram a dupla impulsão da criança, o vínculo à célula familiar e a vontade de correr mundo”, MARQUES, Maria Helena Ferreira, “Identidades ficcionais e identidade da criança – sombras brancas em perpétuo recomeço” in MESQUITA, Armindo (Coord.), Pedagogias do Imaginário, op. cit., p. 127.
constituem a sua realidade física, pois a acção surge e compõe-se agora ideal e abstractamente.
O contacto que se estabelece entre a criança e o conto de fadas, pelo mundo do “faz-de-conta” pode ser então considerado como possibilidade de desenvolvimento para o seu pensamento abstracto. Numa eterna luta, valores como o Bem e o Mal são no conto de fadas postos em confronto e cabe-lhe na abordagem que faz de cada situação, poder deliberar livremente e assim fazer valer a sua vontade na decisão. Portanto, o conto de fadas deixou de ser apenas momento lúdico para se tornar possibilidade de deliberação, factor de aprendizagem e de relação da criança consigo mesma e com o mundo, pois permitindo a emergência de um eu que se transforma a si mesmo pela sua riqueza simbólica, assiste ao desabrochar de um sujeito, um eu pleno que sabe caminhar autonomamente na procura da sua felicidade.