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Chapitre II : Les simulations de dynamique

II.5 Conclusion

Viver uma realidade meramente física é para qualquer criança um empobrecimento psicológico. Transcender-se, criar e recriar mundo permitem-lhe um enriquecimento constante do seu pensamento, e por isso ser capaz de reflexões cada vez mais ilimitadas, mas também mais consistentes.

Criar e penetrar num universo simbólico é para esta a possibilidade de ser capaz de mobilizar afectos e por isso, tornar-se capaz de compreender acções até então consideradas incompreensíveis.

Contrariamente ao signo, cuja significação está directamente ligada a um objecto definido, a uma forma ou uma imagem concreta, sendo esta significação única e conhecida ou aparente, o símbolo apresenta-se como polivalente e polissémico permitindo um leque de atribuições e significações, que adequando-se a cada necessidade afectiva da criança lhe permitem reconstituir o seu real de forma serena e consistente.

Vimos anteriormente que pelo conto de fadas a criança reconhece os seus receios, os medos, mas pela protecção de distância que o próprio conto de fadas oferece, torna- se capaz de exteriorizar os sentimentos que lhe são mais profundos e compreendê-los. Preparando-se para se tornar indivíduo integrado e integrante numa sociedade, desenvolver a capacidade simbólica na criança, poderemos dizer que é dar-lhe instrumentos capazes de estimular o seu pensar. Então, e encontrando eco no pensamento de Bruno Duborgel: “O livro (neste estudo o conto de fadas) é a expressão de uma «questão» no seu duplo sentido de tema e de interrogação. Ele não é, sob a aparência de ficção, um relatório didactizante-moralizador de um saber, de uma ideologia ou de uma contra-ideologia. Ele é a encenação artística e literária de uma «questão», isto é, de um questionamento, de um despertar ou de uma meditação” 82

. Dando resposta e representando às pulsões mais íntimas e arcaicas do ser humano83, o conto de fadas permite que todas as pressões reprimidas pela criança, pelo

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DUBORGEL, Bruno, Imaginário e Pedagogia, op. cit., p. 86, itálicos nossos. 83

“Os contos de fadas são a expressão a mais pura e a mais simples do processo psíquico do inconsciente colectivo. (…) Representam os arquétipos na sua forma mais simples, mais descoberta, e mais concisa. Nesta forma pura, as imagens arquétipas dão-nos os melhores indícios para a compreensão do processo que se desenvolve na psique colectiva. Nos mitos ou nas lendas, ou em material mitológico mais elaborado, obtemos os mesmos padrões básicos da psique humana através de uma camada de material

seu conteúdo que ela mesma reconhece como violento e potencialmente destrutivo se reconheçam, sejam representadas e resolvidas no universo simbólico do conto de fadas através da vitória do herói e do castigo exemplar do mau. É esta resolução que a torna capaz de resolver os seus conflitos, pois regressando a uma realidade física e palpável sem anseios torna-se capaz de serenamente, ter tempo para reflectir, encontrar estratégias em si mesma para se confrontar com todos os desafios do seu quotidiano.

O apelo que o simbólico faz à sua capacidade imagética leva-a a de uma posição de espectador passivo da realidade a sujeito mobilizador e evocador de imagens que desenvolve na dimensão da fantasia. No conto de fadas, numa espécie de reificação cria-se e recria-se o mundo que responde a cada necessidade, e se cada ser, cada situação é formada a partir de uma realidade da criança, este imaginário transgride todas as regras e cada estímulo, cada recordação, cada ansiedade são transfigurados, transformados e deslocados enformando e criando uma toda uma rede de relações inexistentes no real84.

Considerando que a característica fundamental do símbolo é a ligação, não podemos deixar de considerar com a mesma importância a potencialidade que o mesmo carrega e que é a possibilidade de em si permanecer indefinidamente complexo e por isso mesmo aberto e sugestivo.

Este imaginário que responde com o simbólico às necessidades da criança é ele mesmo todo um processo mental que ultrapassa a competência intelectual e cognitiva desta pois as representações resultantes são elas mesmas resolutivas e estão na sua en-

cultural. Mas nos contos de fadas há um material cultural consciente muito menos específico, e consequentemente estes espelham os padrões básicos da psique mais claramente”:“Fairy tales are the purest and simplest expression of collective unconscious psychic process. (…) They represent the archetypes in their simplest, barest, and most concise form. In this pure form, the archetypal images afford us the best clues to the understanding of the process going on in the collective psyche. In myths or legends, or any more elaborate mythological material, we get the basic patterns of the human psyche through an overlay of cultural material. But in fairy tales there is much less specific conscious cultural material, and therefore they mirror the basic patterns of the psyche more clearly”, von FRANZ, Marie- Louise, The Interpretation of Fairy Tales, Boston, Shambhala Publications, Inc., Revised Edition, 1996, p.1.

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“(…) são abordadas as problemáticas da morte e da agressividade, das relações afectivas, pedagógicas, parentais, da dificuldade e da alegria de ser, de viver, de comunicar, de estar alerta, das armadilhas do bom senso, das metamorfoses da liberdade, etc. Questões fundamentais e que dão que pensar ao abalar as estruturas a priori do pensamento e da acção, ao suspeitar das provas, ao revelar os conformismos (incluindo o não conformismo fácil e superficial). Nesta perspectiva, o livro (neste estudo, o conto de fadas) vai ao encontro das funções elementares da literatura prospectora do sentido, das coisas e da vida (…)

Os conteúdos da imagem e/ou do texto, ao comportarem ou levarem a algo para além dos seus dados imediatos, constituem temas simbólicos”, DUBORGEL, Bruno, Imaginário e Pedagogia, op. cit., p.87, itálicos nossos.

formação in-formação, no seu enformar e na recordação que transportam, carregadas de afecto e emoções criadoras e ilimitadas.