4.3 Simulations 2D lagrangiennes demi-modes
4.3.1 Simulations monomodes sur une demi-longueur d’onde
Quando uma pessoa tem dinheiro, o ensino dela vai ser melhor porque vai estar numa escola que vai ensinar muito mais coisas, o mundo vai ser diferente para ela. Agora numa escola pública já não, você vê nego matando aula, aí você vai querer matar aula também. (Billy, 22 anos, ensino médio completo, transmissão por transfusão)
A juventude deveria ser vista como uma fase de possibilidades e aprendizagens para que a população jovem tivesse condições de consolidar seus sonhos e suas conquistas. Nessas condições, viabilizariam a inserção profissional mais capacitada e, de preferência, um pouco mais tardia para que esse sujeito tenha condições de procurar mais investimentos para sua formação como sujeito social. Em tempos atuais, não é com essa realidade que nos deparamos, mas, sim, com o aumento da mão de obra “escrava”, do analfabetismo, do analfabetismo funcional e do tráfico de drogas. Assim, constatamos que os jovens brasileiros estão cada vez mais expostos à violência social e ao estrangulamento das oportunidades que lhe são necessárias para conquistar seus investimentos.
A partir dos dados da Tabela 3 temos condições de conhecer o investimento profissional dos jovens que vivem com HIV/aids, por meio do estudo e da participação em cursos para a inserção no mercado de trabalho com melhor capacitação.
Tabela 3: A relação dos jovens no seu processo de capacitação profissional
no % Está estudando
Sim
Não 11 4 26,6 73,3
Qual série está cursando
Ensino médio 2 50,0 Supletivo do ensino fundamental Ensino Superior 1 1 25,0 25,0
Estuda atualmente Público Privada 2 2 50,0 50,0 Até que série cursou
Ensino médio completo 11 100,0
Houve algum momento em que
precisou parar de estudar Sim 6 40,0
Não 9 60,0
Por qual motivo
Por causa do trabalho 2 33,3
Não tinha dinheiro para pagar os estudos Perdeu o interesse Adoecimento 1 1 2 16,6 16,6 33,3 Participa de algum curso de
capacitação profissional Sim 1 6,6
Não 14 93,3
Qual curso
Língua estrangeira 1 100,0
Nos últimos 2 anos, realizou curso de
capacitação profissional Sim
Não 9 6 60,0 40,0 Qual curso Curso profissionalizante Informática Língua estrangeira
Preparo para o mercado de trabalho 4 4 2 1 44,4 44,4 22,2 11,1 Fonte: Elaboração própria
Dos jovens pesquisados, constatamos que 73,3% não estão estudando; já dos 26,6% que estudam, 50% cursam o ensino médio; quanto aos que não estudam, 100% cursaram até o ensino médio completo. Analisamos que 40% precisaram parar de estudar, sendo que 66,5% devido às questões da vida cotidiana.
No que se refere à capacitação profissional, 93,3% não realizam cursos atualmente; já nos últimos 2 anos, 60% realizaram cursos, com prevalência de 44% dos jovens em cursos profissionalizantes.
Tabela 4: Situação ocupacional dos jovens do estudo
n° % Sexo
Masculino 9 60,0
Idade 18 3 20,0 19 3 20,0 20 5 33,3 21 1 6,6 23 3 20,0 Está estudando Sim Não 4 11 26,6 73,3 Está trabalhando Sim Não 6 9 40,0 60,0
Fonte: Elaboração própria
No que se refere à faixa etária, entre os jovens, 60,0% possuem de 20 a 23 anos, sendo que, dentre eles, 33,3% têm 20 anos. Do universo da pesquisa, é interessante notar que 73,3% não estão estudando e 60% não estão trabalhando.
A partir desses dados, podemos constatar que existe uma parcela maior de jovens não inseridos no mercado de trabalho e nem participando do processo de capacitação profissional. O que deveria ser feito, então, para que a juventude conseguisse ser absorvida pelas políticas públicas? Não só os jovens que vivem com o HIV, mas as populações jovens de modo geral. Mesmo sendo uma pequena amostra dos jovens, esses dados representam o espelho da sociedade brasileira, pelo fato da não capacitação técnica profissional corroborar para a não inserção no mercado de trabalho.
No Brasil, o que se observou, pelos dados da PNAD de 2009, é que 58% da população jovem, na faixa etária de 18 a 24 anos, não está inserida no mercado de trabalho. Quanto à frequência escolar na faixa etária de 15 a 17 anos, 26% estudam; com relação à faixa etária de 18 a 24 anos, 21% estudam. Desta forma, podemos constatar que esses dados de escolarização na faixa etária de 15 a 24 anos representam uma frequência ainda baixa para o País.
Os trabalhadores jovens brasileiros tornaram-se um dos segmentos populacionais mais afetados pelo tipo de desenvolvimento econômico e social vigente, que contribuiu para um processo de fragilidade profissional e para a exclusão social devido ao aumento do desemprego e à precariedade da ocupação profissional para esse segmento. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2009, a taxa de desemprego para os jovens na faixa etária entre 18 a 24 anos estava em torno de 16,6%, quando a
média brasileira de 25 anos a mais de 50 é de 9,7%(IBGE). Podemos avaliar que a juventude não está sendo alcançada pelas políticas públicas de inclusão no mercado de trabalho, tornando-se importante compreender esse trinômio que se apresenta quanto à ação que o jovem mantém com o mercado de trabalho, a forma como o mercado se apresenta e o diálogo entre o mercado e as políticas públicas.
Neste momento, opto por explicitar o trinômio acima relatado a partir do olhar de dois jovens participantes do estudo, referente a suas percepções sobre as políticas públicas para a juventude na área do trabalho.
É bom e é ruim, é bom porque já ensina competir, entendeu, você chega lá tem 50, mas são 2 vagas, mas eles não falam que são duas vagas. Então, eles ligam na sua casa falam que você foi selecionado que precisa fazer a inscrição que pode ser feita pela internet ou até mesmo na rua eles te chamam, aí você fica todo contente. Chega lá tem 50 pessoas, aí começa faz aqui, faz ali, quando vê já está fora. É bom porque aprende.
Entrevistadora: Você acha que as políticas são suficientes para todos os jovens que procuram emprego?
Não, se não não teria mais jovem roubando, matando aí, entendeu? Aí é só um meio para o governo dizer, tipo, estamos ajudando, entendeu? Mas não está ajudando não!
Entrevistadora: O que poderia ser feito?
Contratar mais jovens numa empresa, porque você vai numa empresa aí cadê os jovens daqui? Menores de 18 anos não têm, o que tem tá lá fora do mercado, ainda com salário lá embaixo. O que tiver, não ganha igual, tipo, eu faço a mesma função que o operador ali, só porque eu sou do projeto, eu ganho menos que ele e está fazendo a mesma coisa. Isso tá errado. (Billy, 20 anos, ensino médio completo, contaram sobre o HIV com 8 anos, transmissão por transfusão)
Relato sobre a política pública na área da educação:
Eu faço faculdade de enfermagem com bolsa do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies), mas se fosse faculdade particular, assim, eu não conseguiria, né... como eu não trabalho. Mas estou... mas pelo Fies! Tem muita gente pobre lá igual a mim, mas eu e minha irmã estamos lá, se não fosse pelo Fies não “tinha” conseguido. (Flor-de-lis , 20 anos, cursa ensino superior de enfermagem, transmissão vertical).
Entrevistadora: A faculdade pública é uma política pública, vocês acham que todos os jovens têm acesso?
Que nem numa Federal, você vai lá só tem playboy a cada 1.000 tem 1 ainda olha lá ainda! (Billy, 20 anos, ensino médio completo, transmissão por transfusão)
As formas que possibilitam a superação da vida cotidiana, segundo Lukács, in Heller (2008, p. 43), acontecem por meio da arte e da ciência, por proporcionarem o rompimento com a tendência espontânea do pensamento cotidiano. Isso possibilita uma consciência no momento da produção artística ou científica, que acaba deixando de lado a particularidade da teoria do homem singular.
Conforme explicação de Heller (2008, p. 43), o meio para a superação dialética parcial ou total da particularidade para sua decolagem da cotidianidade e sua elevação ao humano genérico é a homogeneização. Esse processo de homogeneização ocorre de forma livre, consciente, concentrada e de envolvimento do sujeito na tarefa que está empenhado para ter condições de elevar o cotidiano de forma mais plena. Podemos alegar que, muitas vezes, as decisões que tomamos em nossas vidas ocorrem no momento de elevação do humano-genérico.
Sendo assim, devemos dar condições e possibilidades para os jovens se libertarem da vida alienada que gera seu envolvimento com as ações centradas no ser particular, que cada dia está mais presente na estrutura da sociedade capitalista em que vivemos ou, até mesmo, sobrevivemos.
Um dos pontos importantes nesta discussão é o papel da educação como possibilidade de superação da vida cotidiana, Heller (2008) apresenta a arte e a ciência como estratégia de superação; a educação encontra-se imbricada nesses dois alicerces, a superação, por via da educação, conforme Mészáros (2008, p. 9), pode ser resgatada pelas possibilidades criativas e emancipadoras que despertam nos sujeitos sociais através de suas ações da vida cotidiana.
A educação não se faz presente somente pela via do “mundo da escola”, que utiliza materiais didáticos, muitas vezes, como forma de enquadramento e de professores que têm como papel socializar o conhecimento para a transformação da sociedade; esses profissionais da educação que acabam se tornando invisíveis e esquecíveis pelos olhos da sociedade capitalista. A questão se dá em como pensar num modelo de educação emancipatória numa sociedade capitalista. Conforme afirmação de Mészáros (2008) a educação não é um negócio, é criação. Essa mesma educação acabou sendo transformada em mercadoria, neste modelo regado de exclusão, onde o sujeito não tem o sentimento de pertencimento, pois vivenciamos um modelo educacional voltado para a não construção crítica, pronto para atender aos interesses do sistema.
Para que se alcance a superação desse modelo de educação imposta pelo capital, que tem como papel o domínio e a alienação da classe que vive do trabalho, seria necessário um modelo de sistema educacional voltado para a transformação, para a libertação, para uma educação política e esse tripé está fundamentado na construção histórica dos sujeitos sociais. Esse modelo de educação, capaz da transformação e da criação, está baseado na teoria da libertação de Paulo Freire, sendo uma educação pensada na vivência pessoal, carregada de significação, de experiência e de existência do sujeito social capaz de transformar a vida cotidiana e, consequentemente, o mundo em que vive.
Conforme Paulo Freire (1982), “a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo, mas por uma certa forma de „escrevê-lo‟, quer dizer, de transformá-lo por meio de nossa prática consciente” (p. 22). Com essa citação de Paulo Freire, podemos realizar uma analogia da leitura com o cotidiano em que vivemos, pois ambos são repletos de possibilidades para uma
mudança da realidade, sendo que a leitura de mundo que está para além das palavras lidas é resultado das experiências vividas. Desta forma, todo sujeito social é capaz de realizar transformações nos espaços em que vivencia suas experiências, como sujeito político.
Dando sequência à nossa caminhada para a compreensão do acesso ao mercado de trabalho pela juventude, tendo como recorte a análise do diagnóstico do HIV/aids no processo de inserção e capacitação profissional. Neste momento buscaremos compreender as propostas política e econômica desta sociedade que refletem diretamente nas transformações do mundo do trabalho, e, com isso, passa a repercutir no desenvolvimento e na consolidação das políticas públicas direcionadas para o mercado de trabalho e no processo de capacitação para o segmento juventude.
Capítulo 2
CENAS DO CONTEXTO HISTÓRICO BRASILEIRO
2.1 Promessa de mudanças do início dos novos tempos
Sim, eu acredito. E em milagre também, porque eu sou um milagre também, porque quando a minha mãe descobriu eu tinha quase 4 anos e ela não sabia que ela tinha e nem que eu, aí descobriu e o médico me deu 1 semana de vida, aí passou uma semana, duas, meses e anos e eu estou aqui. Meu sonho é estar casada com filhos, e acho que só. (Flor-de-lis, 20 anos, cursa ensino superior de enfermagem, transmissão vertical. Questionada sobre seus sonhos.)
O Brasil tem na sua memória histórica as marcas do período da ditadura registradas entre os anos de 1964 e 1985, após o golpe militar ocorrido em meados do século XX. Até hoje, no século XXI, se fazem presentes as repercussões dessa trajetória histórica nas questões que envolvem o desenvolvimento econômico, o político e o social da sociedade. Conforme reflexão de Martins (2008), “o moderno se constrói por meio do arcaico”, e para
compreendermos a história de uma sociedade devemos entender as estruturas, relações e os processos que a constituem.
A despedida do governo da ditadura da sociedade brasileira deixou como herança alta dívida externa e uma inflação que gerou difícil período de recessão para a classe trabalhadora. Como resposta a esse período, foi imposta no Brasil, a partir da década de 1990, uma proposta política que visava transformar os índices de recessão e o baixo crescimento econômico gerados pelo modelo econômico capitalista. Essa proposta, intitulada neoliberalismo, visava possibilitar o prodígio da sociedade brasileira e sua inserção no contexto global.
Conforme Chauí (1999), o neoliberalismo foi uma proposta política desenvolvida por um grupo de economistas, cientistas políticos e filósofos, dentre estes Popper e Lippman, que, em 1947, reuniu-se na Suíça com o austríaco Hayek e o norte-americano Friedman, tendo como ideal político o combate ao surgimento do Estado de Bem-Estar baseado no modelo keynesiano e social-democrata e contra a política norte-americana do New Deal.
A proposta neoliberal consolidou o seu espaço no início da década de 1970, primeiramente no Chile, depois na Inglaterra e nos Estados Unidos. Sua implantação foi vista de forma positiva, por ter conseguido responder aos motivos das crises mundiais. Isso ocorria por conter uma ideologia que buscava combater o poder dos sindicatos e dos movimentos operários que haviam forçado o Estado a garantir aumento de salários e dos encargos sociais. Os neoliberais alegavam que essas ações protetivas que o Estado desenvolve para a classe trabalhadora destruíam os níveis de lucro das empresas e geravam processos inflacionários incontroláveis para a sociedade do capital. Desta forma, o neoliberalismo foi apresentado como proposta política de combate aos interesses da classe trabalhadora.
A proposta política neoliberal tinha como ideal assegurar o equilíbrio da economia para atender ao interesse da classe produtora do capital. Essas soluções tinham como objetivo desenvolver um Estado forte para combater o poder dos sindicatos e dos movimentos operários, tendo como meta a estabilidade monetária e uma reforma fiscal que incentivasse os investimentos privados. Todas essas ações se deram à custa da classe trabalhadora, por
meio dos cortes nos gastos sociais e da desarticulação dos sindicatos, causando o aumento do desemprego e o rebaixamento de salário. Essas determinações visavam diminuir a influência dos sindicatos sobre a classe-que- vive-do-trabalho6.
O neoliberalismo foi implantado com o objetivo de possibilitar mais crescimento da economia capitalista, visando deter a inflação e assegurar a recuperação do lucro, tendo como um dos principais objetivos angariar fundos para investimentos privados pela via da privatização do Estado, que, por sua vez, vem atender aos interesses da burguesia monopolista.
Conforme Iamamoto (2005, p.118) ao explicitar sua ideia sobre as estratégias do Estado para garantir os fundos, essas ocorrem pela intervenção estatal a serviço dos interesses privados articulados no bloco do poder, sob a inspiração liberal, conclama-se a necessidade de reduzir a ação do Estado para o atendimento das necessidades das grandes maiorias mediante a restrição de gastos sociais, em nome da crise fiscal do Estado.
As estratégias acima relatadas foram desenvolvidas pelo Estado para garantir fundos e cada vez mais lucros para a economia capitalista, mas acabou por repercutir diretamente na vida cotidiana dos sujeitos sociais, isto é, nas relações que estes estabelecem com a sociedade, pois, em todas as instâncias da vida do sujeito, passou prevalecer cada vez mais o domínio do capital. Portanto, refletiu na sua relação com a sociedade por “construir” sujeitos cada vez mais individualistas, competitivos e gananciosos. Segundo Ianni (1998) o neoliberalismo como prática e ideologia gera uma guerra contra a social-democracia.
(...) Manteve e mantém uma campanha inexorável contra tudo o que possa ser ou parecer “social”, de modo a priorizar tudo o que possa ser ou parecer “econômico”. Em lugar do planejamento, o mercado; em substituição ao coletivismo, o individualismo; em vez de socialismo ou social-democracia, o capitalismo; mas sempre preservando e aperfeiçoando o planejamento das corporações
6A classe que vive do trabalho - a classe trabalhadora hoje, de modo ampliado, implica entender esse conjunto de seres sociais que vivem da força de trabalho, que são assalariados e desprovidos dos meios de produção. Como todo trabalho produtivo é assalariado, mas nem todo trabalhador assalariado é produtivo, uma noção contemporânea de classe trabalhadora deve incorporar a totalidade dos(as) trabalhadores(as) assalariados(as). (ANTUNES)
transnacionais e das organizações multilaterais, inclusive para fazer face às crises do capitalismo (...)(p. 112)
A partir das ideias de Ianni, podemos constatar a forma de alienação que o neoliberalismo exerce sobre o homem, pelo fato de interferir diretamente na sua relação com a sociedade, buscando extinguir o sujeito que tem um olhar direcionado para a totalidade para reforçar o sentimento centrado no indivíduo. Realizando uma aproximação maior com o nosso tema, podemos nos indagar: Qual é a relação que os jovens que vivem com HIV/aids mantém com essa proposta política neoliberal? Dessa forma, podemos intitulá-los como fruto dessa política neoliberal, pelo fato de terem nascido durante o processo de implantação ou até mesmo de exercício do neoliberalismo no Brasil. Constatamos em seus discursos.
Na verdade, eu acho que eles pagam muito pouco, as horas de trabalho são boas, mas tem algumas áreas que, pelo salário, não compensa trabalhar (como loja, quiosque), trabalha muito e ganha pouco. Eu trabalhava na Santa Casa 4 horas com salário de R$ 160,00 em 2010. (Angelina, 20 anos, ensino médio completo. Como avaliava as políticas públicas na área do trabalho e educação)
Na parte financeira acho que eu vou estar bem estável, porque meu sonho é ser empresário, já está no sangue da minha família, tem um tio meu que é empresário, e eu já tenho desde os 10 e 11 anos já falava que ia ser empresário. Meu sonho é ser empresário, ter um carrão, uma casona, ter minha mulher, ter filhos. Ah, viver e viver bem! (Billy, 20 anos, ensino médio completo, transmissão por transfusão. Questionada sobre seus sonhos)
Nesses discursos dos jovens, a proposta política neoliberal se faz presente a partir de duas concepções. Num primeiro momento, pelo Estado que busca precarizar o processo de trabalho, isto é, muitas vezes ocorrem pelo intermédio das políticas públicas que acaba por reforçar o papel paternalista e as ações focalistas desenvolvidas pelo próprio Estado como no relato da jovem nas ações de inserção e capacitação para o mercado de trabalho. No segundo
momento, pela supervalorização da necessidade de consumo, a ponto de incutir no jovem o sonho, o desejo do “carrão” e “casona”.
As discussões teóricas da autora Marilena Chauí (1999) colaboram para a reflexão sobre as repercussões da política neoliberal na sociedade brasileira, apresentando que existe um imaginário social que busca dissimular as formas de exploração e dominação predominante no neoliberalismo, isto é, as formas de dominação através da ideologia pós-moderna que apresentam a insegurança e violência que são geradas pelo mercado. Só que nesse processo de desmistificação do neoliberalismo existe também uma controversa na sociedade para efetivar essas ideologias.
Pelo fato de vivermos numa sociedade de consumo, onde tudo passa a ser valorizado pelo mercado e o sujeito que produziu passa a ser muito mais desvalorizado, não podemos deixar de discutir o papel dos avanços tecnológicos e científicos que aumentam a produção de mercadorias e logicamente asseguram o acúmulo de capital.
Desta forma, como será possível legitimar, dentro do imaginário social, todas as ideologias existentes no neoliberalismo dentro de uma sociedade capitalista, que tem como base a exploração da classe-que-vive-do trabalho para o aumento do consumo, onde tudo gira em torno da fetichização da mercadoria e a invisibilidade de quem as produz?
Netto (2001) contesta as concepções de Hayek e Friedman, que tinham como um dos princípios ideários para o neoliberalismo a defesa de um mercado livre. Portanto, sem qualquer mecanismo de regulação extra- econômico. A partir desse mercado livre, edificaria a construção de uma liberdade civil e política para a sociedade, só que a defesa por esse modelo de sistema não se restringia somente às questões econômicas.
Tendo como base as concepções do mercado livre, os neoliberais acreditavam que esse modelo de projeto político possibilitaria o livre acesso das classes sociais na sua relação com o mercado, tanto nas questões referentes ao trabalho (acesso) quanto à economia (autonomia), idealizando as