Para estruturação do sistema de informações geográficas (SIG), os dados sócio-ambientais foram organizados em planos de informação, que foram distribuídos em 6 temas: Ecologia de paisagem, Agroecologia, Solos, Modelo de ocupação da terra, Aspectos sociais e Uso da terra (Figura 2). Cada tema é composto de descritores e indicadores.
Figura 2. Organograma das atividades realizadas a campo e em laboratório.
Para a realização das atividades de geoprocessamento, utilizou-se o sistema de informações Geográficas ArcGIS 9.1® (ORMSBY, 2001). A base cartográfica foi elaborada a partir de plantas topográficas na escala de
1:10.000, rasterizadas e digitalizadas em tela, utilizando o módulo de edição do ArcGIS. Os dados de hidrografia, parcelamento e rede viária foram sistematizados e ajustados à base cartográfica oficial do Estado do Acre, na escala de 1:100.000 (ACRE, 2006).
a) Ecologia de paisagem
Foram utilizadas as aerofotos verticais na escala de 1:10.000, relativas aos anos de 2003 e 2006. Para cada ano, foram realizadas análises estatísticas espaciais, utilizando-se o módulo de análise do Arc View 3.2a que avaliou o número, densidade e configuração das manchas, bem como análises de mudança no que se refere à evolução do uso e as diferentes formas de transição e indicadores relacionados às bordas.
Uma mancha constitui uma superfície não-linear que difere em aparência do seu entorno. As manchas variam em tamanho, forma, tipo, heterogeneidade e características de borda (FORMAN & GODRON, 1986). Desta forma, as manchas são as diferentes tipologias de uso mapeadas, analisadas de forma individualizada, de acordo com as suas características internas como aquelas das bordas. Para exemplicar, na Amazônia há dois grandes grupos de manchas: manchas florestais e manchas antrópicas. Dentro das manchas antrópicas, têm-se os mais diversos tipos de usos, que vão sendo detalhadados á medida que a escala do trabalho diminui. Neste contexto, as bordas correspondem as áreas de transição das manchas.
b) Agroecologia
Para avaliação do grau de conservação dos recursos naturais, foram utilizadas as áreas de preservação permanente. As áreas de preservação permanente são protegidas nos termos dos arts. 2º e 3º da Lei Federal Nº 4.771, de 15 de setembro de 1965, coberta ou não por vegetação nativa, com a função ambiental de preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas (incluído pela Medida Provisória 2.166-67, de 24 de agosto de 2001). As áreas de preservação permanente foram avaliadas por lote, no que se refere à manutenção de sua cobertura original.
Em confronto com uso da terra mapeado em 2006, foi realizada uma análise por lote, resultando um índice que relaciona a diversidade de uso á área do lote.
c) Solos
A descrição detalhada das características morfológicas e a nomenclatura de horizontes e coleta de amostras de solos foram baseadas nas normas e definições, adotadas pela Embrapa (EMBRAPA, 1997; LEMOS & SANTOS, 1996; SANTOS et al., 2005). As cores das amostras de solos foram determinadas, através de comparação com a Munsell Color Chart (Munsell Color Company, 2000). Os solos foram classificados, segundo os critérios e definições contidas no Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (EMBRAPA, 2006). Após a realização das análises físicas e químicas de rotina (EMBRAPA, 1997) e mineralógicas (raio-X) (EMBRAPA, 1997; BESOAIN, 1985; RESENDE et al., 2002), procederam-se alterações e revisões da legenda preliminar e elaboração da legenda final de identificação dos solos, acertos finais no mapeamento, revisão das descrições e interpretação dos resultados analíticos dos perfis com a confecção do mapa de solos na escala de 1:10.000.
O mapa de solos foi, então, utilizado para classificação da aptidão agroflorestal. Nesta classificação, foram utilizados os pressupostos de AMARAL, SILVA e ARAÚJO (1999), que inseriram novas indicações de uso na Aptidão Agrícola proposta por (RAMALHO FILHO & BEEK, 1995). Esta metodologia foi modificada de acordo com a proposta de CERQUEIRA (1996) e inserindo as considerações propostas por RESENDE et al. (2002), onde se estimou os deltas quanto a nutrientes, água, oxigênio, erosão e mecanização, o que permitiu a geração de mapas temáticos intermediários de cada delta e mapas com indicações de redução e convivência com as limitações ambientais. Para avaliação da potencialidade foram consideradas as propostas de avaliação paramétrica do solo disponíveis em STORIE (1970).
d) Modelo de ocupação da terra
Para avaliar o processo de ocupação da terra, foi realizada uma análise da distribuição dos lotes, em relação ao acesso aos recursos hídricos e em relação à acessibilidade do lote, no que se refere às distâncias entre o lote e as vias de acesso ao pólo, bem como a distribuição e arranjo dos lotes no imóvel.
e) Aspectos sociais
Para avaliar a percepção da comunidade frente a seus problemas e a ação das diferentes instituições no pólo, foi realizada uma série de reuniões, utilizando-se três metodologias: Grupos Focais, Zopp e Hierarquização de Sistema de interesses (ACRE, 2006). Estas metodologias de abordagem foram
escolhidas em razão do enfoque participativo, sendo utilizadas amplamente em reuniões de representantes e representados dos vinte e dois municípios do Estado do Acre. Os dados inseridos no trabalho foram obtidos nos estudos do eixo político-cultural do Zoneamento Econômico, Ambiental, Social e Cultural de Rio Branco (PMRB, 2006).
Para caracterização dos aspectos culturais e políticos, foi utilizada a metodologia de coleta de dados proposta em Rio Branco (2005), que consta de uma abordagem, agregando procedimentos distintos para obtenção da percepção da comunidade sobre seus problemas e as soluções que esta propõe para esses problemas.
Na base de dados de RIO BRANCO (2005), há uma listagem de problemas de acordo com a percepção da comunidade e esta percepção está identificada pelos respectivos lotes dos participantes. Numa primeira abordagem, as feições foram associadas ao perímetro de cada lote, o que não permitiu ter uma visão integral do assentamento, mas centrada no lote, o que culminou com 30% dos lotes sem informação.
Se for realizada uma análise inversa, em que tem 70% de produtores participaram das reuniões e que estas estão georreferenciadas, é possível obter uma visão geral do pólo. As variáveis coletadas foram reagrupadas em cinco grandes grupos (Tabela 1). Para os problemas ambientais foram criados três subgrupos, ou água, floresta e solo, de forma a possibilitar uma visão ainda compartimentalizada.
Os valores dos diferentes critérios não são comparáveis entre si, o que inviabiliza sua agregação imediata. Para resolver este problema, foi necessário normalizar, para uma mesma escala (0 a 1) de valores, a avaliação dos critérios.
Para a normalização, foi adotada variação linear definida seguinte forma (EASTMAN et al., 1997):
xi = (Ri-Rmim)/(Rmax-Rmim) * intervalo normalizado
em que Ri é o valor de score a normalizar; e Rmin e Rmax são os scores mínimo e máximo, respectivamente.
Para realizar o geoprocessamento, construiu-se o mapa-base, utilizando o centróide de cada lote para integrar com a base de dados normalizada.
Tabela 1. Agrupamentos dos problemas levantados pela comunidade do Pólo Agroflorestal Geraldo Mesquita, município de Rio Branco, Estado do Acre
Problemas Subgrupo de problemas Grupo de problemas
Água inadequada para consumo
Escassez de água Água
Desmatamento Floresta Solo degradado
Má qualidade do solo Solo
Problemas ambientais
Queimadas indevidas
Destinação e produção de lixo Acesso ao lote
Problemas de gestão do território
Crédito
Acesso ao mercado consumidor Problemas econômicos
Saneamento básico Segurança Disponibilidade de energia Problemas sociais Falta de equipamentos Transporte insuficiente Má gestão da agroindústria Assistência técnica Gestão da produção
Esta camada de informação foi interpolada para cada problema, utilizando-se o algoritmo “spline”, que considera dois requisitos básicos na realização da interpolação: a superfície tem que atravessar os pontos de dados exatamente; e a superfície deve ter uma curvatura mínima (MITAS & MITASOVA, 1988). Neste caso, como os valores de cada variável estão entre 0 e 1 e havia necessidade de se ter as curvas utilizando exatamente os pontos do centróide, este modelo foi mais adequado para trabalhar com as variáveis da percepção social.
Este modelo gera linhas mais suaves e permitiu a visão do Pólo com um todo, uma vez que a amostragem estava distribuída por todo o assentamento.
Utilizando álgebra de mapas, foi realizada a soma dos problemas nos subgrupos que, por sua vez, foram somados para obter os cinco grupos de problemas. Estes cinco grupos de problemas foram, então, adicionados a fim de obter a percepção de problemas da comunidade num mapa-síntese.
f) Uso da terra
Para analisar o uso da terra e da eficiência dos sistemas produtivos, utilizou-se o banco de dados de informações socioeconômicas, construído por MACIEL (2007), cujo objetivo era realizar o diagnóstico sócio-econômico do pólo agroflorestal, através de entrevistas estruturadas, realizadas junto aos produtores para entender o desempenho econômico da produção rural, com ênfase nos produtores familiares.
Neste tema avaliaram-se o uso da terra e a eficiência do manejo. Para a adequação do uso, foi realizada a sobreposição e cruzamento do uso atual com a aptidão agroflorestal, classificando as áreas como: a) subutilização da terra (áreas utilizadas com uso inferior áquele indicado pela aptidão agroflorestal); b) uso adequado da terra (uso de acordo com aptidão); c) sobre- utilização da terra (áreas utilizadas mais intensamente que o indicado); e d) passivo ambiental (uso em desacordo com a legislação ambiental).
Utilizando os dados de renda e outras variáveis econômicas, MACIEL (2007) avaliou a eficiência da propriedade quanto à geração de renda, que está diretamente ligada aos aspectos de manejo da terra utilizados pelo produtor.
Os estudos realizados no Pólo foram integrados em três camadas de informação: social, econômica e ambiental. Para a camada de informação social, foi utilizado o potencial sóciocultural, que está sintetizado na percepção do produtor sobre seus problemas e potenciais. Para a camada de informação de recursos naturais, utilizou-se a informação da aptidão agroflorestal, que sintetiza informações sobre o ambiente, tendo o solo como elemento de estratificação, constituindo-se assim na percepção do pedólogo. Para a camada de informação econômica, foi utilizado o índice de eficiência econômica, que avalia a eficiência do sistema produtivo familiar e se constitui na visão do economista.
No processo de integração dos diferentes temas, foi utilizada como unidade territorial básica, a célula hexagonal de 0,1 hectare, para permitir uma análise além dos limites da propriedade e obter uma relação de fluxo, uma vez que, no hexágono, é possível interagir em seis direções.
Da integração das três camadas de informação normalizadas, foi obtida a síntese etnopedológica, que representa a base do processo de tomada de decisão para o uso sustentável do território, uma vez que engloba todas as dimensões: ambiental, social e econômica.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO