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Securing NFS

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Chapter 4. Hardening Your System with Tools and Services

4.3. Securing Services

4.3.6. Securing NFS

Jornais da época publicaram matérias especiais como Mala Sinistra (12 out. 1928, p. 16) que davam detalhes da vida de Maria Fea. Em Canelli, província de Alessandria, Itália, uma pequena cidade cercada por colinas, zona de vinhedos, nascia em 31 de outubro de 1906 a pequena Maria Mercedes, filha de Paolo Fea e Vittoria Lazzarino. Tinha dois irmãos maiores, Esther e José Fea. Com a morte de seu pai, a Sra. Vittoria e o filho José resolveram tentar uma melhora de vida na América. Escolheram Buenos Aires, na Argentina. Maria Mercedes ficou morando na casa de uma tia com a irmã Esther, a qual era cantora lírica e tinha muitos compromissos. Em 05 de dezembro de 1925, atendendo um pedido da mãe, Maria e Esther embarcaram em Genova, com destino a Buenos Aires, no vapor Giulio Cesare. Durante o percurso, o qual levava vários dias, Maria Fea conheceu Giuseppe Pistone, que tempos depois viria a ser seu algoz , natural também de Canelli, nasc ido em 01 de maio de 1897, filho de Carlo Pistone e Marcellina Boeri. Na ocasião ele estava com 31 anos e Maria com 17. Quando Maria Mercede s completou 21 anos, casaram e vieram morar em São Paulo. Pistone alegava que um parente, Francesco Pistone, havia prometido trabalho em seu comércio. Viajaram à bordo do Conte Biancamano, desembarcando no porto de Santos. Seguiram para uma pensão na rua da Conceição, 34, e hospedaram-se no 3º andar,

apartamento 05. Dados da perícia técnica posteriormente viriam apontar que Maria estava grávida.

Segundo a matéria do jornal A Tribuna (09 out.1928, p. 04), no dia 04 de Outubro de 1928, após uma discussão, Pistone estrangula a esposa. Sem saber o que fazer com o corpo, na sexta- feira, dia 05, vai até a fábrica de malas Moderna, na avenida São João, nº 111 e compra uma mala estilo baú por 45.000 réis :

Na manhã de sexta-feira, dirigiu -se à casa de malas sita à avenida S. João, 111, onde comprou pela importância de 45$000 uma mala, mandando que a transportassem para a sua residência. Esse transporte foi feito por um menor empregado da casa em questão, a quem Giuseppe deu uma gorjeta de 500 réis. (DESVENDOU -SE..., 1928, P. 04)

Pelos dados publicados pela imprensa da época, Pistone decidiu ocultar o corpo fazendo uma incisão na altura dos joelhos para que o cadáver pudesse caber na mala. Alugou um carro, que o levou à Estação da Luz com destino ao Porto de Santos. Chegando ao cais de passageiros, armazém 14, providenciou uma passagem para o navio Massilia

20

(SILVARES, 1978, p.06, a), da Compagnie Chargeurs Reunis, com destino, via Lisboa, à Bourdeaux, França. Esta embarcação tinha como característica três chaminés proeminentes que poderiam ser vistas à distância. Em entrevista concedida à autora em 21 de Setembro de 2005, José Carlos Silvares esclareceu que o navio começou suas atividades em 1920, na linha Bourdeaux – Vigo – Lisboa - Rio de Janeiro – Santos – Montevidéu – Buenos Aires. Levava mais ou menos 18 dias no mar. Depois ele fazia o caminho ao contrário. Este navio também atuou em guerras, nas tropas da Marinha Francesa na II Guerra Mundial. Até que foi apreendido em Marselha pelos alemães. Tinha quatro categorias de passageiros: 1ª, luxo, com capacidade de 464 pessoas; 2ª 129 pessoas; a 3ª capacidade de 98 pessoas, que já eram imigrantes; e a 4ª de 350 pessoas em um salão próximo à casa de máquinas. Este salão possuía camas de ferro e banheiro coletivo.

O embarque da carga em nome de Francisco Ferrero foi feito na manhã do dia 07 e durante todo este período Giuseppe Pistone permaneceu sob vigília a mala.

20 Segundo o autor o navio possuía 18 mil toneladas, 26 mil cavalos-vapor, e chegaria à velocidade de 19,5

Canelli, Itália, em 1928. Imagem cedida por José Carlos Silvares

Giuseppe Pistone e Maria Mercedes Fea, em núpcias, à bordo do Conte Bianca mano.

Em http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0081.htm.

Maria Mercedes Fea

Detalhe da Certidão de Casamento com as assinaturas de Giuseppe Pistone, Maria Fea, sua mãe Vittoria Lazzarino, e seus irmãos Esther e Jose Fea como testemunhas.

Navio Massilia II. Imagem cedida por Jose Carlos Silvares

Representação do S. Paulo Jornal em edição do Notícias Populares de 14 nov. 1977.

Quando a mala chegou ao porão do navio apresentava um cheio muito forte, desagradável (COM..., 1928, p. 2 -14). Um dos estivadores que estava ajudando no embarque das bagagens, chamou o inspetor da policia marítima, Alberto Dias de Castro:

Segundo poude apurar a nossa reportagem, a acção inicial na descoberta do crime, cabe ao activo inspector da policia marítima, sr. Alberto Dias de Castro. Este se achava no caes, quando o guarda Noel, do trem da Ingleza, que faz o serviço dos transatlânticos, lhe disse:

- Vem ahi, com os carregadores, uma mala despachada em São Paulo e que está cheirando mal.

De posse dessa informação, o inspector Alberto de Castro transportou-se para bordo e desceu ao porão das bagagens procurando descobrir a mala sinistra. Depois de varias pesquisas sentiu que de uma das numerosas malas ali existentes, se exhalava mau cheiro.

Tomou, então, providencias para que o volume suspeito fosse guindado ao tombadilho. Ahi procedeu a abertura da mala, descobrindo o cadáver que se encontrava dentro da mesma.

Immediatamente, o inspector Castro communicou o facto ao ajudante do guarda-mór, depois do que foram tomadas as medidas que o publico já conhece.

Vê-se, portanto, que a descoberta do crime, no porto de Santos, deve -se à argúcia e actividade do inspector Alberto Castro. (COM..., 1928, p. 2-14)

O inspetor Alberto Dias ordenou a retirada para o tombadilho onde a mala foi aberta e descobriu-se o cadáver de uma mulher em meio a roupas, em adiantado estado de putrefação. Giuseppe Pistone, assustado, imediatamente deixou o local e alugou um táxi na praça José Bonifácio com destino à São Paulo por 150 mil réis. O motorista, Gil da Glória, em depoimento à polícia posteriormente, confirmou que notou uma certa estranheza do passageiro, que pagou mais 200 mil réis para a gasolina e pediu a gentileza de parar para um lanche próximo a São Bernardo. Gil da Glória fez companhia à Pistone no Recreio e Café Expresso S. Bernardo onde comeram sanduíches com cerveja. Neste local, Pistone teve a notícia de que a polícia havia descoberto o cadáver no Porto de Santos e estava à procura do assassino. Pagou a conta de 17 mil réis e seguiu com o motorista para a capital, vindo a hospedar-se no Hotel D’Oeste, no largo São Bento.21

No Porto de Santos dezenas de curiosos observavam o corpo. A imprensa foi chamada e a notícia do cadáver ocultado em uma mala começou a se espalhar pela cidade. O

corpo foi levado para o Instituto Médico Legal de Santos, localizado no Necrotério Municipal do Saboó. O laudo de autópsia foi feito na presença do Delegado Regional Sr. Armando Ferreira da Rosa, do escrevente Pedro Paulo Neves, pelos médicos legistas Dr. J. Rebello Netto, Dr. Roberto Catunda, e Dr. Hugo Santos Silva. Serviram como testemunhas os senhores Carlos Hummel e Manoel Nunes. Segundo o Auto de Autópsia:

Sobre a mesa do Necrotério Municipal do Saboó examinamos o cadáver de UMA MULHER DESCONHECIDA, de cor branca, de vinte e dois annos presumíveis, de constituição regular, de um metro e sessenta e seis centímetros de estatura, cabellos castanhos claros, cortados recentemente ‘à la garçonne’, em adeantado estado de putrefacção, e que foi retirado de dentro d’uma mala encontrada no porão do vapor francêz ‘MASSILIA’, atracado ao armazém número quatorze do Caes do Porto, d’esta cidade. N’este acto, pelos peritos foi dito que requeriam o prazo de sete dias para apresentarem seu laudo com as respostas aos quesitos, o que, ouvido pela autoridade, foi deferido, lavrando-se este auto, que vae assignado pela autoridade, peritos e testemunhas presentes, commigo, Pedro Paulo Nevez, escrevente, que o dactylographei, conferi, assigno e dou fé.22

No dia 08 de outubro os jornais da cidade e da capital, São Paulo, noticiaram a respeito do corpo que havia sido achado no cais de Santos. Porém, haviam suspeitas de que o assassino fosse Miguel Trade, protagonista de um crime praticado anteriormente com os mesmos requintes de crueldade:

Devem ser lembrados os leitores do celebérrimo crime da ‘mala sinistra’, em que foi protagonista, há vinte e tantos annos, em São Paulo, o famigerado Miguel Trade.

Tendo assassinado um compatrício, de que era secretario, collocou-o numa mala, que previamente preparára, forrada de zinco, depois de macabramente dobrar o cadáver pelo meio, despachando-a para Santos. Com frieza e calma, aqui, retirou o volume, que fez seguir para bordo, com destino à Europa.

Durante a viagem, tentando jogar ao mar o tétrico volume, foi descoberto e com elle o nefando crime.

Condennado, cumpriu pena até bem pouco tempo sendo indultado recentemente, pelo governo e incindindo na falta criminosa da venda de tóxicos, foi deportado para Beiruth, em 10 de janeiro do corrente anno. (NOVA..., 1928, p. 03)

22 Informações de acordo com laudo de autópsia datada de 08 out. 1928, registro nº 784 do Serviço Médico

Diante da suspeita do retorno de Miguel Trade ao Brasil, alguns veículos de imprensa davam sugestões para uma possível suspeita da identidade da vítima, criando uma atmosfera de literatura policial:

Entre os objectos e peças de vestuário encontrados no interior da mala, é de se salientar um lenço com a inicial ‘R’, bordada.

Em torno desse particular ocorria em Santos o boato de que não se devia abandonar a possibilidade de estar, de novo, Miguel Trade envolvido em uma façanha egual á que o celebrizara.

Teria entrado no paiz, clandestinamente, onde deixara sua noiva, Rosa de tal e querendo leval-a comsigo, consumara aquelle crime.

A inicial ‘R’ é bastante significativa e justificava, em parte o boato. (DESEMBARCADA..., 1928, p. 03.)

O dono do estabelecimento onde Giuseppe Pistone comprou a mala reconhece o produto vendido dias antes e procura a Delegacia de Segurança Pessoal, chefiada pelo delegado Francisco de Assis Carvalho Franco, que já havia recebido sido avisado a respeito do crime pelo delegado regional de Santos, Armando Ferreira da Rosa. Alguns veículos de imprensa, como o jornal O Estado de S. Paulo (1928 ), descreviam de maneira romanceada todo o cenário onde o delegado regional trabalhava e, consequentemente, foi informado do que havia acontecido no Armazém 14:

[...] O sombrio casarão amarello da Praça dos Andradas estava num dos seus dias de maior calma. O jardim frontal estava deserto e alagado, na porta, a sentinella, enxarcada, andava de um lado para outro contando os fios de água que, interminavelmente, corriam das goteiras. Lá dentro, a mesma nebulosa tranqüilidade. Em seu gabinete, o dr. Armando Ferreira da Rosa, delegado regional, tinha a sua attenção mergulhada numa rima de cadernos, enquanto nas salas contíguas os escrivães gatafunhavam no almaço, só se ouvindo o rascar das pennas sobre o papel áspero. Na sala de espera, o ultimo ébrio apanhado á porta do botequim mastigava desculpas. Nada mais. Entretanto...

Quando o velho relogio do gabinete pingou as quatro horas da tarde, o apparelho telephonico retiniu. O delegado estendeu o braço desattento e, collocando o phone ao pé do ouvido, continuou a sua leitura, certo de que áquella hora e com tal dia nada de importante poderia ter ocorrido na pacata e alegre cidade onde dias de chuva são os mais tristes do mundo. Mas, ás primeiras palavras, esqueceu-se dos cadernos, endireitou-se na cadeira e deu ao telephone o melhor da sua attenção. Communicavam-lhe uma coisa extraordinária, um facto policial que parecia copia de outro havido há pouco mais de vinte annos e do qual ainda hoje se fala. (A SINISTRA..., 1928, p. 07)

Em São Paulo, depois de ouvir o depoimento do comerciante, o delegado Carvalho Franco vai até o endereço informado onde havia sido feita a entrega da mala. Na pensão interroga a esposa do proprietário, Maria Sitrângulo de Oliveira, que contou a respeito das discussões freqüentes no apartamento nº 05 e disse que o casal havia deixado o cômodo na manhã do dia 05 de Outubro. Informou também ao delegado que um tio de Pistone tinha um estabelecimento comercial no nº 58 da rua da Conceição.23

Ainda de acordo com Silvares (1978, p. 6, a), conversando com Francesco Pistone descobriu que o casal costumava almoçar nos arredores da pensão e diz que um amigo vira Pistone. Tio e delegado seguem para confirmar a descrição quando avistam Giuseppe Pistone tentando fugir em um táxi na Avenida Ipiranga. O cr ime e a identidade de Maria Mercedes Fea são elucidados em um fantástico trabalho de investigação em um período de 24 horas. Maria Fea foi sepultada junto ao feto de uma menina no Cemitério do Saboó, na campa nº 624, quadra 6.

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