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O período escolástico-aristotélico teve início na época carolíngia (século IX) e fim no Concílio de Trento (1545-1563), onde concursaram teólogos de grande estatura, entre os quais Boaventura, Alberto Magno, Guilherme de Occam e Tomás de Aquino, considerado o maior teólogo católico de todos os tempos, o realizador da síntese perfeita entre a filosofia aristotélica e a base platônica de que se servia o catolicismo. Já o período tomista caracterizou-se pela hegemonia do pensamento de Tomás de Aquino, que vigorou em todo o período pós-Trento, sofrendo, no entanto, formidáveis ataques não só por parte da teologia protestante130, como também dos adeptos das filosofias modernas (idealistas, materialistas e as de cunho confessadamente ateu, como a de Marx e Nietszche), dando ensejo, no séc. XIX, a um movimento teológico no seio da Instituição denominado “modernista”, o que implicou em sua condenação oficial durante o Concílio Vaticano I (1870).

Com a anatematização do “modernismo”, teve início a última fase, que, na verdade, ficou conhecida mais como uma atualização do período anterior, denominada neo-tomista, ou de “restauração tomista”131, que mostra todo o seu vigor ainda hoje, por conta do Concílio, revestido da autoridade que lhe competia, ter assumido que a filosofia aquiniana é ainda a mais adequada para expressar as verdades cristãs-católicas.

A diversidade teológica (e ideológica) da Igreja contemporânea pode ser apreendida por outras evidências que não a chancela da história oficial apresentada pelos compêndios. Um documento intitulado “Tendências Teológicas e sua incidência sobre a Igreja e a Sociedade”, do INP (Instituto Nacional de Pastoral, órgão estrutural da CNBB), apresentado como subsídio à XIX Assembléia Geral dos Bispos, em 1981, alinha a existência de 6 tendências teológicas de uma única teologia, traçando para cada uma delas algumas características básicas:

130 A propósito, consultar: Ibidem.

1ª - Teologia como explicitação do Depositum Fidei: No depositum fidei estão contidas as verdades necessárias para a nossa salvação. Este depósito foi confiado ao Magistério que o guarda fielmente, o defende ciosamente e o interpreta autenticamente. A teologia possui uma função de explicitação das verdades deste depósito sagrado, procurando o nexo entre os vários mistérios com a razão humana. [...] Esta teologia não dispõe de instrumentos teóricos, teológicos nem analíticos, para ajuizar um sistema social ou para se pronunciar sobre questões seculares.

2ª - Teologia como iniciação à experiência cristã: [...] O esquema básico é o mesmo que a tendência anterior mas dentro de parâmetros mais atualizados; a utilização das Escrituras respeita e aproveita os resultados da exegese, o argumento da Tradição é precedido pelo estudo da patrologia e da história dos dogmas, o sensus fidelium ganha ma ior peso. Esta teologia possui abertura ecumênica; se a primeira tendência é apenas centrada na Igreja Católica (hierarquia) esta se dimensiona para todo o fenômeno cristão.

3ª - Teologia como reflexão sobre o Mysterium Salútis: Se nas duas tendências anteriores a Igreja, seja como hierarquia, seja como povo-de-Deus, ocupava o centro da teologia, agora é o ministério da salvação, o pólo enucleador de toda a sistematização. Mysterium Salutis é um conceito-chave na Tradição antiga e na teologia do Vaticano II. [...] Esta tendência significou uma rajada de ar fresco e oxigenado no velho edifício dogmático da Igreja: o sentido pastoral é grande, pois mostra a fé aberta a outras manifestações de Deus no mundo, aprende a valorizar os sinais dos tempos, possíveis portadores da vontade concreta do Espírito [...]. 4ª - Teologia como antropologia transcendental: [...] Essa tendência faz a viragem tipicamente moderna, do objeto para o sujeito. O homem, interlocutor de Deus, constitui a idéia-geradora de todos os demais temas teológicos. Mas não é qualquer acepção do homem que aqui é tomada. Não é o homem empírico, nem a imagem do homem que se derive das ciências antropológicas, mas o homem assim como é apresentado pelas Escrituras: ouvinte da

Palavra, em permanente diálogo com o último que se faz presente na consciência, em transcendência viva jamais categorizável.

5ª - Teologia dos sinais dos tempos (do político, da secularização, da esperança): [...] o desafio que se apresenta hoje (para esta teologia), consiste nisso: como pensar teologicamente, realidades que de si não se apresentam como teológicas mas como profanas e seculares, assim como no campo da política, os sistemas sociais vigentes, os mecanismos econômicos, os processos libertários dos povos ou classes dominadas, a empresa científico- técnica? Para falar teologicamente delas, precisa-se previamente apropriar-se de um conhecimento adequado, caso contrário incorremos em ignoratio elenchi. Para isso o teólogo precisa se adestrar na leitura de textos analíticos das várias ciências positivas e histórico- sociais. Emerge um novo dialogante para a teologia, as ciências do homem e da sociedade. Sobre a leitura científica e crítica se faz a interpretação teológica e ética.

6ª - Teologia do cativeiro e da libertação: [...] Os passos metodológicos desta tendência foram já detalhados e ensaiados com êxito: parte-se de uma indignação ética face à pobreza que Deus não quer para seus filhos, ao mesmo tempo em que se faz uma experiência religiosa face aos pobres [...]. Em segundo lugar, importa conhecer por que caminhos e mecanismos se produz de um lado gritante miséria, e por outro escandalosa riqueza. Aqui cabem as análises históricas, sociais, políticas e econômicas. Em terceiro lugar, cumpre ler esta realidade da miséria, já descodificada com o instrumental sócio-analítico, com os olhos da fé e da teologia, discernindo as sendas da graça e os picadeiros do pecado. Por fim, faz-se mister, apontar as pistas de ação pastoral mediante as quais a Igreja e os cristãos ajudam no processo de libertação integral.132

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Indicando na linha do tempo a inserção das tendências descritas, assim como alguns de seus expoentes intelectuais, o Documento localiza as duas primeiras no período pré-conciliar, sendo que a “teologia da explicitação” estaria sistematizada na maioria dos manuais clássicos, “de corte neo-escolástico”, com a inegável influência dos tomistas espanhóis e dominicanos franceses, enquanto a segunda teria um forte acento teutônico, com Schmauss (Katolische Dogmatik), cuja obra teve ainda ampla repercussão nos anos 70. As outras tendências seriam todas frutos pós-conciliares, sendo a terceira a mais umbilicalmente ligada ao Vaticano II, e cuja

Embora em sua introdução o Documento se refira às “teologias situadas”, “não- neutras”, e mostre, ao caracterizar cada uma das tendências, as suas “contribuições” e os seus “limites”, todo o raciocínio desenvolvido e a própria ordenação das tendências – partindo-se da que seria mais distanciada da problemática social para a mais engajada – leva a situar a Teologia da Libertação como a “mais adequada” para a Igreja brasileira, a única capaz de responder aos desafios pastorais colocados pela realidade do III Mundo. O que se deseja ressaltar com tal asserção é que o problema da diversidade teológica é um falso dado quando colocado sob a ótica incorreta de um leque de opções ideológicas sobre o qual um determinado grupo arbitra e escolhe o mais conveniente.

Na verdade, o próprio estatuto de uma nova teologia – entendida como uma sistematização particular de sentidos que não precisam necessariamente ser originais – já responde a uma problemática sócio-eclesial concreta. Antes de tornar-se a “filosofia” de um grupo, a ideologia é história vivida; antes de tornar-se “representação”, ela própria, mediada e mediadora de conflitos sociais, é práxis de um grupo social. Portanto, a diversidade teológica não é o “supermercado” das teologias, mas o registro histórico do conflito ideológico entre os grupos que disputam o poder de definir qual ideologia (ou teologia, no caso) é ou não ortodoxa, adequada e, por fim, oficial.

Libânio, ao referir-se à centralidade do enfrentamento que se dava entre neo- conservadores e teólogos da libertação, revela a chave do entendimento da questão da diversidade, uma vez que menciona diretamente a luta hegemônica que vai decidir qual das teologias será a teologia dos compêndios universitários, das cátedras dos institutos, dos expressão maior se acha nos 24 volumes do “manual” de teologia Mysterium Salutis, publicado no Brasil pela editora Vozes, em 1971. A quarta tendência é hipotecada à “escola” de K. Rahner, cuja influência teve início com a publicação da obra coletiva Theologie Und Kirche (10 vols./Friburgo, 1955) e que continua produzindo importantes textos nos anos 60 e 70. A quinta corrente teria se expandido mais recentemente (anos 70) e seus expoentes seriam J. B. Metz, com sua Teologia política e Teologia do Mundo, Lisboa, 1970, Ducquoc, com os estudos sobre a secularização, na França e Moltmann, com a sistematização da chamada teologia da esperança. A sexta e última corrente, teria desabrochado no mesmo período anterior, contando privilegiadamente com os seguintes teólogos: Leonardo e Clodovis Boff e Gustavo Gutiérrez. As três obras citadas desses autores são respectivamente: Teologia do Cativeiro e da Libertação (1980); Teoria e Prática, a Teologia do Político e suas Mediações, (1977); e Teologia da Libertação (1976); todas editadas no Brasil pela editora Vozes.

documentos institucionais, enfim, qual das teologias deverá entrar para a galeria da história oficial.133 É, portanto, por intermédio da categoria do conflito que se tentará perceber o movimento de constituição e expansão da Teologia da Libertação nos anos 70.

133 LIBÂNIO, J. B. Op. cit., 1982 (b).

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