CHAPTER 2 USING THE TRAX TERMINAL
2.2 A SAMPLE INTERACTIVE SESSION
Na literatura abordada, como Mezzacappa et al. (2001), Spann et al. (2012), Nolin e Ethier (2007), sobre as relações de cognição e o abuso sexual apresentada neste projeto, evidenciava-se que, tanto crianças como adolescentes, por vivenciarem situações de estresse, apresentariam dificuldades em áreas específicas do cérebro, especialmente o lobo frontal, responsável pelas funções executivas, como flexibilidade cognitiva, comportamento impulsivo e também questões relativas à memória operacional.
Na comparação das variáveis cognitivas entre o grupo controle e grupo de estudo, as análises não foram sensíveis a detectar diferenças estatisticamente significantes quanto aos subtestes do Escala de Inteligência Wechsler para Crianças - Terceira Edição (WISC-III). Resultados semelhantes foram evidenciados na análise do número de categorias completas e o número de erros perseverativos no teste Wisconsin. Estes dados a princípio se mostraram diferentes de outros estudos.
No estudo de Delaney-Back et al. (2002), estudo este longitudinal com uma amostra de 229 crianças pré-escolares de ambos os sexos, sendo um dos instrumentos aplicados o WISC-III, observou-se que há uma correlação positiva entre a exposição à violência e o rebaixamento do QI.
Em outro estudo de Mezzacappa et al. (2001), utilizando também do instrumento do WISC-III em uma amostra de 129 meninos entre seis e 17 anos, sendo que deste total 25
tiveram histórico de abuso sexual, observou-se que este grupo apresentou dificuldades na função executiva, especialmente no controle inibitório.
Observa-se nestas duas pesquisas o número elevado de participantes dos grupos de estudo e isto pode ser um dado que traduz os resultados significativos com relação aos aspectos cognitivos, especialmente nas questões de rebaixamento intelectual e as dificuldades nas funções executivas. Outro fator importante é a questão da faixa etária: os estudos que foram realizados com pré-escolares e com crianças no início da infância até a adolescência, sendo um deles de ambos os sexos. Pode-se supor que os resultados destes estudos foram diferentes, pois meninos e meninas respondem de maneiras distintas e ambos os estudos trazem momentos específicos e diferentes do desenvolvimento cognitivo.
No nosso estudo a faixa etária é a partir de 10 anos, com uma média próxima dos 12 anos. Isto sugere que as vítimas apresentavam uma maior possibilidade de identificar a violência e evitar uma maior exposição ao abuso, o que certamente agravaria as condições psicológicas. Estudos têm ressaltado que a as faixas etárias inferiores à que foi estudada aqui configuram o período de maior ocorrência (Serafim et al., 2011, Hohendorff et al., 2012).
Alguns autores como Leslie et al. (2005), Koenen, Moffitt, Caspi, Taylor e Purcell (2003), Pears e Fisher (2005) utilizaram amostras de estudo diversas, como gêmeos e crianças institucionalizadas, trazendo variáveis genéticas e sociais; que se correlacionaram com questões de abuso e os aspectos cognitivos, sendo avaliados por instrumentos diversos, entre eles o WISC-III. Nestes estudos observou-se que há relação entre vários fatores como: aspectos cognitivos, rebaixamento intelectual, e prejuízo nas áreas visuoespaciais.
Com relação aos instrumentos Figuras Complexas de Rey e Wisconsin, as pesquisas também apresentam resultados diversos.
Nos estudos de Beers e De Bellis (2002) tiveram as seguintes variáveis: TEPT, situações de maus-tratos, aspectos cognitivos e origens étnicas. A amostra foi composta com 30 crianças de ambos os sexos, sendo a maior parte meninos em ambos os grupos, com várias origens étnicas. Alguns dos instrumentos utilizados foram o Wisconsin e Figuras Complexas de Rey. Os resultados do estudo foram: dificuldades nos domínios da atenção, raciocínio abstrato e memória de longo prazo. Aqui algumas variáveis no estudo devem ser consideradas relevantes como os aspectos étnicos, a amostra de estudo com meninos e meninas e a questão psiquiátrica do transtorno de estresse pós-traumático. Neste estudo o diagnóstico psiquiátrico pode ter sido um fator que trouxe maior influência e relevância no resultado de desempenho dos aspectos cognitivos.
Os estudos apresentam variáveis bastante diversas, o que pode traduzir nos resultados diferentes quando estes estão correlacionados aos aspectos cognitivos e ao abuso sexual.
As variáveis como faixa etária em que ocorre o abuso, o tipo de abuso e negligência que muitas vezes estão associados, e também, as questões sociais envolvidas, a rede de apoio, o sexo do grupo de estudo e instrumentos aplicados, podem traduzir-se em resultados diversos no que diz respeito às sequelas cognitivas relacionadas a abusos na infância e adolescência. Não há um aspecto único envolvido no abuso sexual, consequentemente, não há também uma única área cognitiva afetada, nem tampouco áreas neurológicas protegidas neste processo.
Com relação ao instrumento Figura Complexa de Rey, o grupo dos meninos que sofreram abuso apresentou resultados que foram significativos nos aspectos da memória operacional, que foi um dado diferencial na questão cognitiva deste estudo.
Alguns estudos corroboram os resultados do teste das Figuras Complexas de Rey, mostrando que situações traumáticas vivenciadas na infância podem desencadear várias sequelas cognitivas, entre elas prejuízos em áreas cerebrais responsáveis pela memória.
Segundo Moura e Estrada (2010), a criança que vivencia uma situação traumática, pode vir a apresentar prejuízos acadêmicos e em áreas cerebrais relacionadas à memória, como Hipotálamo, apresentando atrofia dendrítica nesta área e diminuição da neurogenese, como também, consequências no corpo caloso.
Alguns autores trazem o aspecto da emoção como fator importante na questão da memória. Para Fuentes et al. (2008, p. 169) “A importância das emoções para a memória havia sido apontada por Hughlings-Jackson nas últimas décadas do século XIX, mas o grande mérito da sua descrição coube a Freud que em 1891, em uma obra intitulada Sobre a Afasia, afirmou que quase sempre há um vínculo emocional com a lembrança”.
Segundo Feix (2008), há uma correlação entre situações de estresse que a criança vivencia, com processo de recuperação de memória. Este estudo aborda a importância da memória da criança no processo judicial diante da situação de abuso sexual e faz algumas correlações com a memória e sintomas depressivos.
Alguns estudos, como Albuquerque e Silva (2009), mostram a importância de áreas neurológicas, como a amígdala, para a memória e sua correlação com questões emocionais. No entanto, não é só esta área que é importante neste processo, mas outras, como o hipotálamo.
A partir destes dados teóricos, observa-se que há ainda muito o que ser estudado nos aspectos cognitivos com crianças que sofrem abuso sexual. É fato que não há apenas uma região envolvida no processo, mas várias, com conexões diversas e complexas.
Puetz e McCrory (2015) relatam que o abuso físico e a negligência emocional trazem maiores risco de transtornos psiquiátricos na vida adulta, como também do uso de drogas. Este estudo trouxe alguns correlatos entre estas formas de maus-tratos na infância e alterações em funções do lobo frontal, como as funções executivas, controle cognitivo e alterações em áreas neurológicas como a amígdala.
No estudo de Pereda e Gallardo-Pujol (2011) constatou-se que a violência no início da infância, apesar da maior plasticidade neuronal desta fase, pode desencadear disfunções em áreas hipotalâmicas. Observou-se também, que mulheres que sofreram violência física e sexual em algum período de sua vida apresentaram conexões reduzida em áreas do sistema límbico e hiperativação da amígdala.
A partir de Puetz e McCrory (2015), Pereda e Gallardo-Pujol (2011) pode-se supor que há uma correlação entre situações de violência e as conexões em áreas da amígdala, que tem a função de autopreservação da espécie, identificando sentimentos como medo e ansiedade. Por outro lado, o desempenho da memória pode estar relacionado com as vivências traumáticas, como o abuso sexual. Com isto, podemos acreditar que há uma relação entre memória e amígdala, como observado em nossos resultados.
Na pesquisa realizada por Marques (2015), participaram do estudo um grupo de crianças na faixa etária de sete aos 12 anos que sofreram abuso sexual. Os instrumentos utilizados para a coleta de dados foram vários testes neuropsicológicos, dentre os quais, os Teste de Fluência Verbal - Semântica e Selective Reminding Test (SRT). Foram observados vários déficits nas funções executivas, como aspectos da visuoconstrução, memória, atenção e planejamento. A partir deste resultado pode-se supor que crianças que vivenciam o abuso sexual, apresentam maiores prejuízos nas funções cognitivas, especialmente a memória, sendo avaliada pelos instrumentos SRT e também, Figuras Complexas de Rey. A memória demonstrou, a partir desta correlação entre os estudos, ser uma área cognitiva que pode ser considerada bastante sensível às várias formas de instrumentos utilizados e também pelo fato da memória estar associada às questões emocionais, no caso, a violência vivenciada.
Já no estudo de Oliveira (2013), evidenciou-se que, quanto maior o impacto da violência sofrida na infância, maior o prejuízo nas funções cognitivas. Um dado que corroborou isso foram os prejuízos encontrados nos aspectos da memória visual, que se relaciona com mudanças estruturais do hipocampo, área neurológica importante para a memória de curto e longo prazo.
Segundo Oliveira, Scivoleto e Cunha (2010), em uma análise dos estudos dos últimos 20 anos sobre as consequências neuropsicológicas e de neuroimagem associadas a situações de estresse na infância e adolescência; os resultados indicaram alterações em aspectos da atenção, linguagem, função executiva e memória, bem como alterações em áreas estruturais como hipocampo, córtex pré-frontal, corpo caloso e córtex cingulado anterior. Estes dados apresentam-se bem divergentes dos resultados da pesquisa com o grupo de abuso, pois tanto situações de negligência quanto abuso apresentam consequências diversas, que variam de acordo com a idade do abuso, a frequência e a dinâmica das relações familiares.
A partir destes estudos, pode-se pensar na dificuldade e complexidade que é compreender as sequelas que ficam para quem vivencia tanto o abuso sexual quanto outras formas de violência e negligência. Os resultados quanto aos aspectos neuropsicológicos se apresentam diferentes, variando de acordo com a idade em que a criança sofreu a violência, a forma que foi vivenciada, o tempo em que foi submetida à situação e a sua rede de proteção.
Apesar de o estudo com os meninos abusados não ter avaliado a questão do transtorno de estresse pós-traumático diretamente, a elevação do fator neuroticismo neste grupo é um fator relevante pois, de certa forma, indica um maior desajustamento emocional e maior suscetibilidade ao estresse e às situações de pressão. Neste contexto, entende-se que a vivência emocional, no caso o abuso sexual, pode ter interferido diretamente nos aspectos cognitivos, especialmente na memória, como já foi abordado neste capítulo. Com isto podemos supor que há uma associação entre os aspectos cognitivos da memória e as vivências emocionais, tornando aquela mais sensível, pois seu desenvolvimento é influenciado pelos aspectos emocionais. Ressaltando, ainda, que os processos cognitivos relacionados às funções executivas, como memória operacional, controle inibitório, planejamento e flexibilidade cognitiva, por exemplo, estão sujeitos à regulação afetiva e podem ser modificados também em situações de violência (Serafim & Saffi, 2015).
Além do que, a situação de violência é única para cada pessoa que a vivencia em diferentes fases da vida. Cada pessoa encontrará uma forma de enfrentar a situação, de acordo com suas percepções internas. Algumas se apresentarão com mais dificuldades, pelo fato de ter questões da própria personalidade que as impedem de superar; outras; serão mais resilientes, pois têm uma rede maior de suporte. É interessante se pensar como o sistema neurológico, apesar de ter estruturas semelhantes, funciona de maneira tão diversa, sendo afetado pela personalidade, ambiente e questões genéticas.