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APPENDIX A THE RMSDEF INTERACTIVE

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Segundo Stuart Hall, o feminismo adentrou a cena de Birmingham de maneira bastante intensa. Hall (2003, p. 208) afirma que o acesso das feministas determinou uma ruptura, bem como uma espécie de autorreflexão dos estudos culturais sobre si mesmo e de sua organização.

A intervenção do feminismo foi específica e decisiva para os estudos culturais (bem como para muitos outros projetos teóricos). Introduziu uma ruptura. Reorganizou o campo de maneiras bastante concretas. Primeiro, a proposição da questão do pessoal como político - e suas consequências para a mudança do objeto de estudo nos estudos culturais - foi completamente revolucionário em termos teóricos e práticos. Segundo, a expansão radical da noção de poder, que até então tinha sido fortemente desenvolvida dentro do arcabouço da noção do público, do domínio público, com o resultado de que o termo poder - tão central para a problemática anterior da hegemonia - não pode ser utilizado da mesma maneira. Terceiro, a centralidade das questões de gênero e sexualidade para a compreensão do próprio poder. Quarto, a abertura de muitas questões que julgávamos ter abolido em torno da área perigosa do subjetivo e do sujeito, colocando essas questões no centro dos estudos culturais como prática teórica. Quinto, a reabertura da "fronteira fechada" entre a teoria social e a teoria do inconsciente - a psicanálise (HALL, 2003, p. 208).

Os termos usados por Stuart Hall nos dão uma noção do quanto o ingresso das feministas na Escola de Birmingham não foi exatamente um processo “leve”.

Sabe-se que aconteceu, mas não se sabe quando e onde se deu o primeiro arrombamento do feminismo. Uso a metáfora deliberadamente; chegou como um ladrão à noite, invadiu; interrompeu, fez um barulho inconveniente, aproveitou o momento, cagou na mesa dos estudos culturais (HALL, 2003, p. 209).

Estes relatos parecem ilustrar que, da mesma forma que os Estudos Culturais trouxeram uma nova brisa para o meio acadêmico - pois falar sobre as culturas populares e identidades híbridas até aquele momento não era exatamente o foco da Sociologia “tradicional” – o sopro feminista em Birmingham trouxe também uma ventania que chacoalhou conceitos, as posturas e mesmo o destino dos Estudos Culturais. Nas palavras de Stuart Hall:

Em um dado momento, Michael Green e eu decidimos experimentar e convidar algumas feministas, que não estavam trabalhando conosco, para vir para o Centro, visando a projetar a questão do feminismo no interior dele. Assim sendo, a tradicional história de que o feminismo surgiu de dentro dos estudos culturais não é bem verdadeira. Estávamos muito ansiosos para estabelecer aquele vínculo, em parte porque nós dois, à época, vivíamos com feministas. Trabalhávamos com estudos culturais, mas mantínhamos uma conversação com o feminismo. As pessoas pertencentes aos estudos culturais estavam se tornando sensíveis à política feminista. Sendo clássicos ‘novos homens’, a verdade é que, quando o feminismo realmente emergiu de forma autônoma, fomos pegos de surpresa pela própria coisa que havíamos tentado, de forma patriarcal, iniciar. Aquelas coisas eram simplesmente muito imprevisíveis. O feminismo, então, realmente irrompeu no Centro, em seus próprios termos, de sua própria e explosiva maneira. Mas não era a primeira vez que os estudos culturais pensavam sobre política feminista ou se tornavam cientes dela (HALL, 2003, p. 428).

Importante lembrar que esta versão não é totalmente aceita pelas feministas e, segundo Escosteguy, foi contestada por Charlotte Brundson. Mesmo com uma forte resistência, as feministas decidiram criar um grupo exclusivamente formado por mulheres.

A preocupação original deste coletivo era ver como a categoria “gênero” estrutura e é ela própria estruturada nas formações sociais. “Argumentávamos que a sociedade deveria ser compreendida, em sua constituição, através da articulação sexo/gênero e antagonismos de classe, embora algumas feministas priorizassem a divisão sexual em suas análises” (Brunsdon, A thief in the night: stories of feminism in the 1970s at CCCS, 1996, ref. minha). Num primeiro momento, o desafio foi examinar as imagens das mulheres nos meios massivos (1974) e, a seguir, o debate travou-se em torno da temática do trabalho doméstico (ESCOSTEGUY, 2010, p. 40).

A mudança de perspectiva permitiu o surgimento de novas questões e reflexões: Através de um olhar mais metodológico, sobre essas mútuas influências e contribuições, é possível identificar aspectos mais pontuais sobre redirecionamentos causados a partir do desenvolvimento da perspectiva feminista. O olhar feminista desafiou os estudos dos meios que até então vinham sendo feitos onde apenas se valorizava programas noticiosos e de caráter político e público, incluindo, então, análises sobre telenovelas e outros gêneros considerados mais 'femininos'. A família foi identificada como um importante espaço de apropriação de produtos culturais, abrindo caminho para investigações inovadoras sobre as conexões entre vida privada e pública (ESCOSTEGUY, 1998, p.7).

Obviamente, é importante realizarmos um estudo de gênero sob a visão da mulher enquanto elemento estruturante do meio e, neste sentido, este momento na história dos estudos de gênero foi de grande contribuição para os avanços nas pesquisas que, até aquele ponto, eram bem poucas.

(...) a problematização da existência de duas esferas nos Estudos Culturais: a comum e ordinária e a feminina/feminista. Mas há um tom de questionamento sobre a propriedade de existir 'em separado' uma versão feminista dos Estudos

Culturais. Apesar das divergências na reconstituição dessa experiência, o volume Women Take Issue (1978) é considerado o primeiro resultado prático de maior envergadura na divulgação dos trabalhos do Women's Studies Group do CCCS. Na realidade, este seria originalmente o 110 Working Papers in Cultural Studies, sendo que nas suas edições anteriores, somente pouquíssimos artigos preocupavam-se com questões em torno da mulher (ESCOSTESGUY, 2010, p. 39).

Os estudos feministas, originalmente coligados aos temas “das mulheres”, evoluem para as análises direcionadas à compreensão dos gêneros, incluindo – obviamente - o gênero feminino, mas não a ele limitando-se. Segundo Joan Scott:

O termo “gênero”, além de um substituto para o termo “mulheres”, é também utilizado para sugerir que qualquer informação sobre as mulheres é necessariamente informação sobre os homens, que um implica no estudo do outro. Esta informação enfatiza o fato de que o mundo das mulheres faz parte do mundo dos homens, que ele é criado nesse e por esse mundo masculino. Esse uso rejeita a validade interpretativa da ideia de esferas separadas e sustenta que estudar as mulheres de forma isolada perpetua o mito de que uma esfera, a experiência de um sexo, tenha muito pouco ou nada a ver com o outro sexo (SCOTT, 1995, p. 75). Percebemos que, embora os estudos sobre o gênero feminino sejam de suma importância, é essencial que aconteçam de forma a integrar a mulher a todo o universo que a cerca e que contribuam com a construção social de novas identidades.

Estas novas identidades já se manifestam na mídia e o objeto de nossa dissertação é um bom exemplo destes novos modelos “inusitados” aos olhos mais conservadores. Paradoxalmente, a identidade de Malévola tem algo ao mesmo tempo primitivo e de vanguarda, pois é claramente um ser feminino livre e independente, seja em sua aparência, seja em sua personalidade. Malévola é uma mulher que vai além do Bem e do Mal. A moralidade ou a imoralidade não a atinge, pois sua identidade é amoral.

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