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O conceito de género, utilizado para convocar todas as diferenças, socialmente estabelecidas, entre mulheres e homens, surge no início dos anos 1970, sendo de referir a historiadora Nathalie Zemon Davis, que, na segunda metade dos anos 1970, utilizara aquele conceito para sublinhar o peso dos papéis sexuais e do seu simbolismo na história social, de modo a "to find out what meaning they had and how they functioned

to maintain the social order or to promote its change"250. No entanto, foi a historiadora

americana Joan Scott quem, pela primeira vez, numa conferência proferida em 1985 e publicada em 1986, reflectiu teoricamente sobre a sua importância para a investigação histórica251. Dois anos mais tarde, no quadro europeu, a historiadora alemã Gisela Bock elaborou também uma análise teórica sobre a matéria252. Os dois ensaios introduziram um ponto de viragem na história das mulheres e constituem, ainda hoje, textos de referência.

No essencial, Joan Scott sustentou, em primeiro lugar, que "gender is a

constitutive element of social relationships based on perceived differences between the sexes"253, o que pressupõe o carácter dinâmico das relações sociais entre mulheres e

homens e a precaridade das concepções de masculino e feminino. Como clarifica Gisela Bock, as diferenças baseadas no género não são universais, pois são historicamente

249 Cf. NASH, Mary, As Mulheres e o Mundo. História, desafios e movimentos, Vila Nova de Gaia, Ed.

Ausência, 2005.

250 Cf. DAVIS, Natalie Zemon, "«Women's History" in Transition… ", in op. cit., p. 88 (publicado

originalmente in Feminist Studies, vol. 3, nº 3/4, 1976). Françoise Thébaud destaca os trabalhos de Robert Stoller (1968) e de Ann Oakley (1972) sobre a utilização do conceito de género, respectivamente na psicologia e na sociologia, para denominar a construção social das diferenças sexuais; cf. THÉBAUD, Françoise, "Sexe et genre", in MARUANI, Margaret (dir), Femmes, genre et sociétés. L'état des savoirs, Paris, La Découverte, 2005, pp. 59-66.

251 Cf. SCOTT, Joan Wallach, "Gender: A Useful Category of Historical Analysis", The American Historical

Review, vol. 91, nº 5, 1986 (conferência proferida em Dezembro de 1985 na American Historical Association); o artigo foi inserido na colectânea de artigos da autora Gender and the Politics… op. cit., pp. 28-50; foi com a tradução deste artigo para francês – "Genre: une catégorie utile d'analyse historique", Les Cahiers du Grief, nº 37-38, printemps 1988, Le genre de l'histoire, pp. 125-153 – que o termo genre foi introduzido na historiografia francesa. Este artigo foi traduzido e publicado em vários países europeus, incluindo os do sul da Europa, como a Itália e a Espanha, mas não em Portugal. Existe, porém, uma versão em português do Brasil (SCOTT, Joan Wallach (1990), "Género: uma categoria útil de análise histórica", Educação e Realidade, vol. 15, nº 2, 1990, Universidade Federal Rio Grande do Sul, Porto Alegre, pp. 5-22).

252 O artigo foi traduzido para português em 1989: BOCK, Gisela, "História, História das Mulheres…", in op.

cit..

253

configuradas de modo distinto254. O postulado de Joan Scott sublinha, ainda, o carácter social das diferenças sexuais. O segundo enunciado de Joan Scott é que "gender is a

primary way of signifying relationships of power"255, ou seja, que o género é uma esfera

primordial de enunciação do poder. As diferenças de género afiguram-se sempre assimétricas porque corporizam uma estrutura social hierarquizada repassada por relações de poder. A introdução da dimensão do poder no conceito de género foi fundamental para desvincular a história das mulheres da história social, domínio considerado, à partida, privilegiado para o estudo das relações sociais entre os sexos, mas que deixava de fora áreas como as da política e do poder. A necessidade de introduzir uma dimensão política na história das relações sociais entre os sexos foi também enunciada em França, em 1986, num artigo assinado por um colectivo multidisciplinar de investigadoras que preconizavam a necessidade de repensar em termos políticos a esfera social, ou seja, de a reinterpretar à luz das relações de poder256. A análise da interacção dos poderes e dos contra-poderes que constituem a trama do tecido social tornou-se fundamental para compreender como é que historicamente "le

pouvoir se dit dans le langage du genre"257.

Para Joan Scott, o conceito de género não se restringe à análise de práticas sociais, mas refere-se, primordialmente, à construção discursiva das categorias sociais, o que implica transferir o objecto de investigação do nível das experiências para o dos discursos que as organizam. Para a autora, a aplicação do conceito de género em história subverte as concepções essencialistas, ao mostrar o carácter instável das categorias feminino e masculino, mas deve, também, questionar a intemporalidade da oposição binária entre elas, conferindo-lhes historicidade, bem como relativizar o peso excessivo conferido ao individual no processo de construção permanente do sujeito. Nesse sentido, defende que o conceito de género envolve a conexão entre os símbolos culturais, que evocam representações múltiplas e nem sempre coerentes, os conceitos normativos, que definem e confinam os sentidos dos símbolos, a dimensão das

254 Cf. BOCK, Gisela, "História, História das Mulheres…", in op. cit.. 255 SCOTT, Joan Wallach, "Gender: A Useful Category…", in op. cit., p. 42.

256 Cécile DAUPHIN, Arlette FARGE, Geneviève FRAISSE, Christiane KLAPISCH-ZUBER, Rose-Marie

LAGRAVE, Michelle PERROT, Pierrette PÉZSERT, Yannick RIPA, Pauline SCHMITT-PANTEL, Danièle VOLDMAN; cf. DAUPHIN, Cécile et al., "Culture et pouvoir des femmes…", in op. cit..

257 THÉBAUD, Françoise, "Sexe et genre…", in op. cit., p. 64; Cf. DELPHY, Christine, "Penser le genre: quels

problèmes?", in HURTIG, Marie-Claude, KAIL, Michèle, ROUCH, Hélène (ed.), Sexe et genre, Paris, CNRS, 1991, pp. 89-101.

questões políticas e das instituições e organizações sociais e, ainda, a identidade subjectiva258.

O uso generalizado da categoria analítica de género foi mais tardio em Portugal, ou noutros países europeus, como a Espanha e a França, datando, sobretudo, de meados dos anos 1990259. Este desfasamento face ao contexto americano não se deve apenas a uma resistência de ordem semântica colocada pelas línguas latinas. Entre outros motivos, tem sido apontado o facto do conceito de género ter sido gerado no seio de um novo centro de produção de pensamento teórico, localizado nos EUA, e não no centro tradicional, a Europa, sobretudo franco-germânica260. Não obstante, a categoria de género e a importância da linguagem e das representações têm vindo a ser integradas progressivamente na história das mulheres, mesmo nos contextos historiográficos onde a história social predomina. A sobrevalorização das práticas discursivas face às práticas sociais, porém, tem permanecido uma questão polémica no seio da comunidade historiadora, criando, mesmo, uma clivagem entre uma história social e uma história discursiva. Nos EUA registou-se uma autêntica viragem, registada como linguistic turn, devido à importância alcançada pelos estudos sobre a linguagem, mas esta nova direcção tem prosseguido com reservas em países europeus, como a França ou a Espanha, onde a investigação em história social está muito enraizada261. A presença desta tensão nos volumes da História das Mulheres no Ocidente262, por exemplo, suscitou um debate crítico, no qual se evidenciaram o excessivo peso dos discursos e a falta de articulação destes com as práticas sociais263, a redução da história das mulheres a uma ficção em resultado de uma análise centrada nas representações e nas imagens264, mas, também, as virtualidades da relação complexa entre a construção discursiva do social e a construção social dos discursos265.

258 Cf. SCOTT, Joan Wallach, "Gender: A Useful Category…", in op. cit..

259 Cf. JOAQUIM, Teresa, "Ex æquo: Contributo decisivo…", in op. cit.; THÉBAUD, Françoise, "Sexe et

genre…", in op. cit.; IZQUIERDO, María Jesus, El malestar en la desigualdad, Madrid, Cátedra, 1998.

260 Cf. BOXER, Marilyn J., "«Women's Studies»…", in op. cit.; VAL VALDIVIESO, Mª Isabel del, "A modo

de introducción. La Historia en los albores del siglo XXI", in VAL VALDIVIESO, Mª Isabel del et al. (coord.), La Historia de las Mujeres… op. cit., pp. 11-27.

261 Cf. Ibidem; PERROT, Michelle, "Faire l'histoire des femmes…", in op. cit.. 262 Cf. DUBY, Georges, PERROT, Michelle (dir.), História das Mulheres… op. cit..

263 Cf. POMATA, Gianna, "História das Mulheres, História do Género. Observações sobre a Idade Média e a

Época Moderna na História das Mulheres no Ocidente", in DUBY, Georges, PERROT, Michelle (dir.), As Mulheres e a História… op. cit, pp. 25-35.

264 Cf. RANCIÈRE, Jacques, "Sobre a História das Mulheres no século XIX", in DUBY, Georges, PERROT,

Michelle (dir.), As Mulheres e a História… op. cit., pp. 45-55.

265 Cf. CHARTIER, Roger, "A História das Mulheres…", in op. cit.; o autor destaca o artigo de SCOTT, Joan

Wallach, "A mulher trabalhadora", in DUBY, Georges, PERROT, Michelle (dir.), História das Mulheres… op. cit., vol. 4, FRAISSE, Geneviève, PERROT, Michelle (dir.), O Século XIX, pp. 443-475.

Em França, a história das mulheres assimilou os contributos conceptuais e metodológicos do conceito de género numa perspectiva de história relacional e sexuada e, mantendo-se "réticente envers la nouvelle histoire culturelle, elle intègre une

attention au langage dans une approche d'histoire sociale"266. Nesta consonância, a

análise dos discursos realiza-se em estreita articulação com as práticas sociais como se infere da proposta de Michelle Perrot: "Quatre domaines pourraient être historiquement

analysés (…): l'analyse des temps, des arguments et des représentations de l'inégalité (…); l'analyse des pratiques organisatrices de l'inégalité (…); les attitudes – individuelles et collectives – des femmes (et des hommes aussi) devant les inégalités (…); les déplacements frontaliers de l'inégalité, les incessantes décompositions et recompositions des partages entre les deux sexes dans tous les secteurs (…)"267.

Em Espanha, em finais dos anos 1990, as historiadoras alargaram a análise e o debate em história das mulheres às questões teóricas. Em 2005, o Seminario Internacional Historia y Feminismo. Joan Scott y la Historiografía feminista en España, destinado a avaliar o impacto dos contributos teóricos, conceptuais e metodológicos de Joan Scott na produção historiográfica espanhola sobre as mulheres, reuniu mais de cem historiadoras e (alguns) historiadores provenientes de universidades das diversas regiões autónomas268. A reflexão teórica permanece, no entanto, aquém da investigação empírica, denotando o peso da história social, e a influência da historiadora americana não provocou em Espanha, segundo Mary Nash, uma viragem para a análise conceptual pós-moderna269. No mesmo sentido, Ana Aguado sublinha que os recentes debates historiográficos "parten de la no contraposición entre «lo social» y «lo representado» –

el discurso, el lenguaje –, sino de su interacción mutua en la creación de identidades y de experiencias históricas"270. No caso de Portugal, à semelhança de alguns contextos

266 THÉBAUD, Françoise, "Écrire l'histoire des femmes en France…", in op. cit., p. 105; PERROT, Michelle,

"Histoire sociale, histoire des femmes", in MARUANI, Margaret (dir), Femmes, genre… op. cit., pp. 21-26.

267 PERROT, Michelle, "Identité, Egalité, Différence. Le regard de l'Histoire", in Les Femmes ou les silences

de l'Histoire, Paris, Flammarion, 1998, pp. 401-404.

268 Seminário promovido pela AEIHM (Associação Espanhola de Investigação Histórica sobre as Mulheres) e

realizado em Madrid a 6 e 7 de Maio de 2005; cf. BORDERÍAS, Cristina (ed.), Joan Scott y las políticas de la historia, Barcelona, Icaria Ed., 2006.

269 Cf. NASH, Mary, "Women's History in Contemporary Spain…", in op. cit.; HERNÁNDEZ SANDOICA,

Elena, "Historia, historia de las mujeres…", in op. cit..

270 AGUADO, Ana, "La historia de las mujeres como historia social", in VAL VALDIVIESO, Mª Isabel del et

geográfico-culturais não ocidentais, como o latino-americano de língua espanhola, este debate ainda não se fez sentir na historiografia nacional271.

A aplicação do género como categoria analítica permite apreender o modo como a sociedade se estrutura em função de um determinado sistema de relações de poder e, portanto, estudar os seus efeitos sobre mulheres e homens e sobre as relações que estabelecem entre si272. Assim, o objectivo da investigação não é só perscrutar as experiências das mulheres, isto é, o quanto e o como as mulheres contribuíram para ou sofreram os efeitos dos acontecimentos históricos, ou traçar a história das relações sociais e simbólicas entre mulheres e homens, mas, sobretudo, compreender o modo como estas se redefiniram em cada momento histórico como relações sociais diferenciadas, hierarquizadas e de poder273. O parâmetro género funciona, assim, como uma "grelha de leitura científica nova"274 aplicável a todos os domínios do saber. A categoria género tornou-se tão fundamental para a análise histórica como as de classe, de raça e (mais recentemente valorizada) de idade275. Estas têm de ser operacionalizadas em articulação com o género, pois "embedded in and shaped by the social order, the

relation of the sexes must be integral to any study of it"276, ou, por outras palavras, o

género está presente em todas as relações sociais e humanas277. As ferramentas analíticas – género, raça, classe, idade – permitem apreender a constituição real e simbólica das relações sociais estabelecidas, em cada contexto, entre e no interior de cada categoria social – género, raça, classe e idade.

A heterogeneidade e historicidade intrínsecas a cada uma das categorias tornam complexa a abordagem relacional, pois se o género é factor de heterogeneidade nas

271 Cf. VAQUINHAS, Irene Maria, "Impacte dos estudos sobre as mulheres…", in op. cit.; BURIN, Mabel,

"Estudios de Género. Reseña histórica", in BURIN, Mabel, MELER, Irene, Género y Familia. Poder, amor y sexualidad en la construcción de la subjetividad, Buenos Aires, Paidós, 1998, pp. 19-29.

272 Cf. BLOM, Ida, "Global Women’s History: Organising Principals and Cross-Cultural Understandings", in

OFFEN, Karen, PIERSON, Ruth Roach, RENDALL, Jane (eds.), Writing Women’s History. International Perspectives, Bloomington, Indiana University press, 1991, pp. 135-149; SCOTT, Joan Wallach, "Gender: A Useful Category…", in op. cit.; THÉBAUD, Françoise, Ecrire… op. cit..

273 Seguindo também este postulado, Pierre Bourdieu condiciona, na perspectiva da História, o seu potencial

hermenêutico ao considerar a existência de "invariants transhistoriques de la relation entre les «genres»" (BOURDIEU, Pierre, La domination masculine, Paris, Seuil, 1998, p. 91), como sendo a dominação masculina no quadro da diferença social entre os sexos.

274 COLLIN, Françoise, "Diferença e diferendo. A questão das mulheres na Filosofia", in DUBY, Georges,

PERROT, Michelle (dir.), História das Mulheres… op. cit., vol. 5, p. 348.

275 Cf. PÉREZ CANTÓ, Pilar, ORTEGA LÓPEZ, Margarita (ed.), Las edades de las mujeres, Madrid, IUEM -

Universidad Autónoma de Madrid, 2002; Philippe ARIÈS (L’enfant et la vie familiale sous L’Ancient Régime, Paris, Ed. du Seuil, 1973) chamara a atenção para a falta de consciência actual sobre a importância atribuída às idades da vida no mundo antigo e medieval, persistindo até ao século XVIII.

276 KELLY-GADOL, Joan, "The Social Relation of the Sexes…", in op. cit., p. 20.

277 Cf. FLAX, Jane, "Postmodernism and Gender. Relations in Feminist Theory", Signs, nº 4, 1987,

classes, raças, etnias, idades, estas são também factores de heterogeneidade no interior de cada um dos sexos278. As mulheres, como categoria da pesquisa histórica, na qual se cruzam diferenças de época, de lugar, de classe, de raça, de idade, entre outras, são ao mesmo tempo distintas e indistintas dos homens e das suas actividades279. Nesta conformidade, é essencial que a história das mulheres, entendida como uma história relacional, ou uma história das relações sociais entre os sexos, seja também, uma história das relações "no interior dos sexos"280.

A problemática da interacção entre género, classe social e raça, entre outras categorias relacionais socioculturalmente construídas, tem suscitado amplos debates. A trilogia género, raça e classe tornou-se presente de modo sistemático nos EUA, nomeadamente na investigação histórica e no seu ensino281. No quadro europeu tem sido privilegiada a relação entre género e classe, a qual se alargou, em alguns países como a Espanha e a França, à problemática da nacionalidade282. A partir dos anos 1990, o contexto social, em parte decorrente dos efeitos dos movimentos migratórios, tem-se mostrado favorável ao aprofundamento das questões de género e cidadania e à conexão género/etnia, questionando-se as diferenças inter e intraculturais283.

No que respeita à história, são de referir as investigações pioneiras e continuadas de Gisela Bock sobre racismo e género no nacional-socialismo alemão, bem como os estudos sobre género, racismo e colonialismo284. Em França, a problemática do uso do

278 Cf. BOCK, Gisela, "História, História das Mulheres…", in op. cit..

279 Cf. CARROLL, Berenice, "Introduction", in CARROLL, Berenice (ed.), Liberating Women’s History… op.

cit., pp. IX-XIV.

280 BOCK, Gisela, "História, História das Mulheres…", in op. cit., p. 171 (itálicos no original). 281

JOHANEK, Michael, "Race, Gender and Ethnicity in the United States History Survey: Introduction", The History Teacher, vol. 37, nº 4, 2004 [em linha], disponível em http://www.historycooperative. org/journals/ht/37.4/johanek.html (consultado em 27/09/2006); FREDERICKSON, Mary, "Surveying Gender: Another Look at the Way We Teach United States History", The History Teacher, vol. 37, nº 4, 2004 [em linha], disponível em http://www.historycooperative.org/journals/ht/37.4 /frederickson.html (consultado em 27/09/2006).

282 Cf. THÉBAUD, Françoise, "Écrire l'histoire des femmes en France…", in op. cit.; COHEN, Yolande,

THÉBAUD, Françoise (dir.), Féminismes et identités nationales. Les processus d'intégration des femmes au politique, Lyon, Programme Rhône-Alpes Recherches en Sciences Humaines, 1998; NASH, Mary, "Women's History in Contemporary Spain…", in op. cit..

283 Cf. HERNÁNDEZ SANDOICA, Elena, "Historia, historia de las mujeres…", in op. cit.; BRAIDOTTI,

Rosi, "A diferença sexual e o controverso conceito da cidadania europeia", Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 50, 1998, pp. 73-82; Cahiers du Genre, nº 39, Féminisme(s): Penser la pluralité, 2005 [em linha], disponível em http://www.iresco.fr/revues/cahiers_du_genre/numero39.htm (consultado em 02/10/2006); este número inclui a temática género e raça, destacando-se o artigo de DORLIN, Elsa, "De l'usage épistémologique et politique des catégories de «sexe» et de «race» dans les études sur le genre", pp. 83-105, que postula a necessidade de conferir historicidade ao entrecruzamento das duas categorias.

284 Cf. BOCK, Gisela, "Racism and Sexism in Nazi Germany: Motherhood, Compulsory Sterilization, and the

State", Signs, vol. 8, nº 3, 1983, pp. 400-421; BOCK, Gisela, "A política sexual nacional-socialista e a história das mulheres", in DUBY, Georges, PERROT, Michelle (dir.), História das Mulheres… op. cit., vol. 5, pp. 185- 219; Clio, nº 12, Le genre de la nation, 2000 (inclui artigos sobre as questões de género nos contextos coloniais, entre os quais Arlette GAUTIER, "« Nou Le Pa Z'enfants batards»: la construction par la France du

véu tem também suscitado a atenção de sociólogas e historiadoras285. Em Espanha e em Portugal são muito recentes os estudos que integram as categorias raça e etnicidade286. As investigações em história das mulheres desenvolvidas noutros contextos nacionais, geográficos e culturais que não o ocidental têm contribuído para colocar novas problemáticas, que se prendem, por exemplo, com o impacto da edificação dos sistemas coloniais na reestruturação das relações sociais de género em África ou com os perigos enunciados pelas historiadoras chinesas de uma colonização teórica, entre os quais se conta a difícil adequação do conceito de género287.

A História das Mulheres, ao introduzir a dimensão de género, quer como realidade cultural, quer como categoria analítica, na construção do saber, tem contribuído para questionar os critérios de inteligibilidade histórica. Interrogações sobre, por exemplo, "how does gender give meaning to the organisation and perception

of historical knowledge?"288, desafiam a ciência histórica a construir novas

interpretações e, nesse sentido, a rever objectos, conceitos, categorias, fontes e métodos. As diferentes conceptualizações do género, produzidas pelas teorias feministas, têm suscitado um amplo debate, no qual ressalta a cisão entre os feminismos ditos da

diferença e da igualdade. A excessiva subordinação do género a construções

discursivas, sustentada por algumas das teorias feministas pós-estruturalistas, é criticada por retirar conteúdo social e político às relações entre os sexos289. A utilização do

genre outre-mer", Clio, Nº 12, 2000 [em linha], disponível em http://clio.revues.org/document188.html (consultado em 12/09/2006); esta investigadora francesa tem-se debruçado sobre a construção social das relações entre mulheres e homens em contextos coloniais e pós-coloniais e participou com o artigo "Femmes et Colonialisme" na obra editada por Marc FERRO, Le livre noir du colonialisme. XVIe-XXI3 siècle: de l'extermination à la repentance, Paris, Robert Laffon, 2003, pp. 569-607).

285 Cf. GASPARD, Françoise, KHOSROWKHAVAR, Farad, Le Foulard et la République, Paris, La

Découverte, 1995 (cit. in ZANCARINI-FOURNEL, Michelle, "France: Vers une histoire des femmes du temps présent", in BOCK, Gisela, COVA, Anne (dir.), Écrire l'Histoire des Femmes… op. cit., p. 136) e os trabalhos recentes de Michelle Zancarini-Fournel sobre as jovens designadas "issues de l'immigration", Ibidem.

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