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II· 86C928 GUI Accelerator

6.5 ATTRIBUTE CONTROLLER REGISTERS

A consciência de que as mulheres não têm todas a mesma história, ou seja, de que as mulheres não constituem uma categoria homogénea, exigiu que a história das mulheres se re-situasse face à diversidade, complexidade e, mesmo, incongruência inerentes a essa pluralidade222. O título do colóquio de Saint-Maximin, Une histoire des

femmes est-elle possible?223, assinala essa viragem, que questiona o sentido de se

considerar as mulheres um objecto histórico específico e a história das mulheres uma subdisciplina da história. Foram as próprias categorias da história tradicional que foram postas em causa e a principal dificuldade da história das mulheres deslocou-se, então, da questão técnica da falta de fontes para questões de ordem teórica e metodológica. Conscientes das limitações da história no feminino, as historiadoras, como afirma Linda Gordon, "moved to less glorious and also more ambivalent analyses of the past"224 procurando realizar, não só uma história diferente, mas sobretudo crítica e conducente a uma reescrita da História. As fontes escritas foram reabilitadas e revisitadas a partir de novas interrogações.

As periodizações são um bom exemplo do questionamento da exclusão das mulheres da inteligibilidade histórica. Como sublinha Yvonne Knibiehler, "chercher les

périodes, c'est repérer les points de rupture, marquer les étapes, découvrir une évolution, ou la construire"225 e essa operação é realizada a partir de uma selecção,

organizada previamente, de acontecimentos, a cronologia. Ambas são sustentadas por acontecimentos que se afiguram, ao olhar do/a historiador/a, em função de critérios de escolha definidos pela comunidade científica, como marca de mudança. Esses critérios são etnocêntricos, sociocêntricos de classe, androcêntricos e, em maior ou menor grau, reflectem uma concepção universalista do processo histórico, unificando a humanidade

221 Cf. THÉBAUD, Françoise, Ecrire… op. cit.; DAUPHIN, Cécile et al., "Culture et pouvoir des femmes:

essai d'historiographie", Annales. Economies, Sociétés, Civilisations, nº 2, 1986, pp. 271-293; DUMONT, Micheline, Découvrir la mémoire… op. cit.; NASH, Mary, "Nuevas dimensiones en la historia…", in op. cit..

222 Cf. BOCK, Gisela, "História, História das Mulheres…", in op. cit..

223 Colóquio realizado em 1983 em Saint-Maximin e cujas actas foram publicadas no ano seguinte; cf.

PERROT, Michelle (dir.), Une Histoire des Femmes… op. cit..

224 GORDON, Linda, "What’s new…", in op. cit, p. 74.

225 KNIBIEHLER, Yvonne, "Chronologie et Histoire des Femmes", in PERROT, Michelle (dir.), Une Histoire

numa história comum226. A consciência da dimensão do tempo é, como defende Pierre Vilar, "o contrário de um dado ingénuo"227. As mulheres, associadas à permanência ou a esferas da vida social consideradas secundárias para o devir histórico, ficaram, à partida, excluídas dos factos considerados relevantes. Tendo em conta que os acontecimentos envolvem sempre homens e mulheres, isto é, "ne respectent pas la

distinction des sexes"228, questiona-se o porquê e o como dos processos de

invisibilização das mulheres na história.

Determinar rupturas significativas para as mulheres ou para os homens é uma tarefa árdua que se confronta com a dificuldade em apreender e tornar inteligível as múltiplas e incomensuráveis temporalidades inscritas na realidade social em toda a sua historicidade229. A título ilustrativo, refiram-se dois exemplos significativos: na Europa, o Renascimento não representou para as mulheres um período de progresso e avanço cultural, mas, pelo contrário, restringiu de forma notória o seu palco de actuação e de poder230; no século XIX, em Portugal, as invasões francesas e a revolução liberal de 1820 não introduziram mudanças significativas nos papéis sociais de homens e de mulheres, verificando-se, pelo contrário, uma permanência da organização sociossexual do Antigo Regime, que só a Regeneração começará a alterar231.

A proposta de Nathalie Zemon Davis de tomar como referentes para a periodização as alterações nas práticas de infanticídio ou nas prescrições religiosas relativas ao casamento e celibato do clero, não discutindo aqui a sua pertinência específica, tem o mérito de ritmar o fluxo do tempo com base em fenómenos sociais e não políticos232. No que se refere à História Mundial, Mary Strobel e Marjorie Bingham

226 Cf. CHESNEAUX, Jean, Du passé… op. cit.; PREISWERK, Roy, PERROT, Dominique, Ethnocentrisme et

Histoire… op. cit., GORDON, Anne D., BUHLE, Mari Jo, DYE, Nancy Schrom, "The Problem of Women’s History", in KARROLL, Berenice A. (ed.), Liberating Women’s History. Theoretical and Critical Essays, Chicago, University of Illinois Press, 1976, pp. 75-92.

227 VILAR, Pierre, História Marxista, História em Construção. Ensaio de diálogo com Louis Althusser, Lisboa,

Estampa, 1976, p. 56-57.

228

KNIBIEHLER, Yvonne, "Chronologie et Histoire…", in op. cit., p. 51.

229 Cf. BRAUDEL, Fernand, História e Ciências Sociais, Lisboa, Ed. Presença, 1972. O autor contrapõe o

"tempo social multiforme" (p. 62), ou seja "os tempos múltiplos e contraditórios da vida" (p. 10) ao tempo do historiador, um tempo "medida" (p. 61) que assenta em modelos construídos e, por isso, também eles "de duração variável" (p. 52).

230 Cf. KELLY-GADOL, Joan, "The Social Relation of the Sexes: Methodological Implications of Women’s

History", in HARDING, Sandra (ed.), Feminism and Methodology. Social Science Issues, Milton Keynes, Open University Press, 1987, pp. 15-28.

231 Cf. VAQUINHAS, Irene Maria, "L'historiographie sur les femmes au Portugal…", in op. cit.; LEAL, Maria

Ivone, "Os Papéis Tradicionais Femininos: Continuidade e Rupturas de meados do século XIX a meados do século XX", in AAVV, A Mulher na Sociedade Portuguesa. Visão Histórica e Perspectivas Actuais. Actas do Colóquio, vol. 2, Coimbra, IHES, FL-Universidade de Coimbra, 1986, pp. 353-368.

232 Cf. DAVIS, Natalie Zemon, "«Women's History" in Transition: The European Case", in SCOTT, Joan

apresentam uma proposta de tópicos para incluir, em cada um dos grandes períodos estabelecidos, as questões das mulheres e do género233. O seu interesse reside, sobretudo, no facto de alertar para a necessidade de perspectivar a integração da história das mulheres e do género numa história mundial que já não pode ser entendida como uma história ocidental, isto é, centrada na Europa e nos EUA. Josemi Lorenzo, considerando que a periodização é uma das representações mais efectivas que os seres humanos têm para pensar a história, surpreende-se com "la carencia de reflexiones

sobre la noción de tiempo en una disciplina, la historia, que ha hecho de él su materia prima fundamental"234.

É necessário questionar as convenções que conformam as divisões temporais, não só ao nível de periodizações, mas também no que respeita ao sentido que adquirem as cesuras que ritmam os dias, as semanas, os meses e os anos face, por exemplo, às experiências das mulheres. Nesta óptica, Giana Pomata propõe uma reflexão prévia sobre a construção dos critérios que subjazem às categorias de história particular e de

história geral, dado que é na perspectiva desta última que se elegem os acontecimentos

considerados significativos para organizarem o tempo cronológico. A autora considera, pois, precoce "to hazard «time lines» of crucial dates in women's history"235 e interroga-se, mesmo, sobre a sua pertinência numa história que privilegie a complexidade, em detrimento de uma linearidade cronológica pretensamente universal.

A introdução da categoria género na disciplina histórica constituiu um contributo teórico fundamental para o avanço qualitativo da história das mulheres, proporcionando novas abordagens teóricas da mudança social236. A conceptualização desta categoria de análise tem sido influenciada por distintas formulações teóricas, destacando-se o papel da ideologia das esferas separadas e hierarquizadas, produção e actividades públicas

versus reprodução e actividades privadas, na diferenciação sexual (marxismo); o

enfoque na importância da linguagem e das representações simbólicas na identidade sexual e na construção das relações sociais (Lacan); e o peso do discurso na estruturação das relações sociais de poder entre mulheres e homens (Foucault)237.

233 Cf. STROBEL, Margaret, BINGHAM, Marjorie, "The Theory and Practice…", in op. cit..

234 LORENZO ARRIBAS, Josemi, "El telar de la experiencia. historia de las mujeres y epistemología

feminista", in VAL VALDIVIESO, Mª Isabel del et al. (coord.), La Historia de las Mujeres… op. cit., p. 80.

235 POMATA, Gianna, "History, Particular and Universal: on Reading some Recent Women's History

Textbooks", Feminist Studies, vol. 19, nº 1, 1993, p. 39.

236 Cf. SCOTT, Joan Wallach, "Gender: A Useful Category…", in op. cit., pp. 28-50; BOCK, Gisela, "História,

História das Mulheres…", in op. cit..

237

A análise marxista introduziu um postulado teórico importante, não só ao sublinhar a importância da ideologia na construção de um modo de diferenciação social ajustado às necessidades do desenvolvimento capitalista, mas ao definir esse modelo ideológico em termos de esferas separadas, nas quais se inscreveram dicotomicamente espaços (público/privado), funções (produção/reprodução) e sexos (homens/mulheres). Este modelo foi-se desenvolvendo ao longo da época moderna e a partir do século XIX consolidou-se como forma de racionalização da sociedade. A associação das mulheres num privado considerado não produtivo permitiu que as actividades por elas realizadas no espaço doméstico pudessem ser pouco ou não ser, em absoluto, remuneradas, o que teria garantido um acréscimo de mais-valia decisivo para o aumento da acumulação de capital. Não se tratou, porém, apenas de uma divisão sexual do trabalho ou do acantonamento funcional das mulheres à esfera do privado. O poder da ideologia das esferas separadas residiu, sobretudo, na capacidade de impor a normalização das mulheres, enquanto categoria, como entes do privado, com base na equivalência estabelecida entre as esferas e os sexos, isto é, entre público e masculino e entre privado e feminino238. Apesar da importância dos contributos da teoria marxista para a história das mulheres, a historiografia marxista permaneceu alheia à problemática das mulheres subordinando-a à análise das classes sociais, pois considerava que as contradições e conflitos entre elas constituíam o motor do devir histórico239. Algumas abordagens marxistas mais recentes, porém, têm conferido centralidade às relações sociais de género e têm enfatizado o efeito da função de regulação social desempenhada pelas mulheres, elemento facilitador do controlo do capital sobre o trabalho, na maximização dos lucros na sociedade capitalista, em detrimento da lógica explicativa anterior que valorizava as vantagens directas da exploração da mão-de-obra barata feminina para o crescimento económico240.

Os trabalhos de Lacan mostraram que a linguagem, mais do que um mero instrumento de representação de ideias, produtoras ou reprodutoras de relações materiais, é um sistema (verbal e não verbal) de constituição de significado, isto é, de

238 Cf. Ibidem; PERROT, Michelle, "Public, privé et rapports de sexe", in Les Femmes ou les Silences… op.

cit., pp. 383-391; EISENSTEIN, Hester, "Patriarchy and the universal oppression of women: feminist debates", in ARNOT, Madeleine, WEINER, Gaby (ed.), Gender and the Politics… op. cit., pp. 35-49.

239 Cf. VILAR, Pierre, História Marxista… op. cit.; CHESNEAUX, Jean, Du passé… op. cit.. Mesmo quando

este autor denuncia que a coesão do grupo de historiadores se reforça através de uma endogamia profissional excludente, a nível social e sexual, formando uma "mini-société des historiens (…) fortement sexiste" (p. 78), a questão da estrutura hierárquica da máquina histórica, como estrutura de poder, é analisada sob a perspectiva das regras de funcionamento da divisão social do trabalho.

240 Cf. PHILLIPS, Anne, TAYLOR, Barbara, "Sex and Skill: Notes Towards a Feminist Economics", in

construção do próprio pensamento e das práticas sociais. A história das mulheres acolheu esta base teórica para analisar, não só a importância das representações simbólicas na construção social da identidade sexual e da diferença que marca as relações sociais entre mulheres e homens, mas também os processos de mudança dos significados e sua conexão com os modos de (re)estruturação do poder241.

O aprofundamento deste segundo nível de questões beneficiou do conceito Foucaultiano de discurso como estrutura sociohistórica complexa que não se inscreve só em palavras, mas também se corporiza em instituições e em relações sociais. Considerando que o discurso não existe em si próprio, como "un jeu de significations

préalables"242 ou, por outras palavras, como um sentido universal a descodificar, mas se

constitui como enunciado e como efeito, num conjunto de práticas que produzem redes de relações materiais, Michel Foucault pôs em causa o essencialismo e o universalismo, demonstrando que as representações do corpo e da diferença sexual foram modeladas pela cultura.

Outro enunciado importante para a história das mulheres é o de que as relações entre mulheres e homens são relações políticas e, portanto, de poder, na medida em que são modeladas pelo discurso e este, como qualquer mecanismo sociocultural de produção de sistemas de pensamento, está carregado de poder. Segundo Joan Scott, o grande contributo daquele autor foi mostrar como o poder se instaura a partir da capacidade de legitimar como verdadeiros os seus pressupostos, ou seja, de os validar como realidades em si, independentes da acção ou do conhecimento humanos, convertendo-os, desse modo, em verdades objectivas e, como tal, socialmente partilhadas, como é o caso da noção de que o sexo se funda na natureza243. O século XIX mostra bem a eficácia do poder persuasivo. A divisão sexual dos papéis e dos espaços sociais foi acentuada como nunca o fora até então, mercê de um complexo e sustentado sistema de validação inscrito, por exemplo, no discurso científico (biomédico, em particular, mas também histórico, antropológico e sociológico), no discurso da economia política, na organização institucionalizada da vida social (escolas, fábricas, hospitais, asilos, prisões, ministérios, sindicatos, etc.) e na multiplicação e consolidação de meios e iniciativas públicas de comunicação e de

241 Cf. SCOTT, Joan Wallach, "Deconstructing Equality-Versus-Difference: or, The Uses of Poststructuralist

Theory for Feminism", in Feminist Studies, vol. 14, nº 1, 1988, pp. 33-50.

242 FOUCAULT, Michel, L'ordre du discours, Paris, Gallimard, 1971, p. 55.

243 Cf. SCOTT, Joan Wallach, "Deconstructing Equality-Versus-Difference…", op. cit.; PERROT, Michelle,

difusão de conhecimento, que propagavam com vigor a "palavra dita"244 (periódicos, panfletos, livros, conferências, congressos, teatro, comemorações, exposições industriais, etc.).

Um terceiro aspecto a reter do pensamento Foucaultiano é que o poder não é um sistema unívoco nem coerentemente opressivo, mas, pelo contrário, assume formas e estratégias distintas, ramifica-se em micro-poderes, integra o conflito, produz consentimento e resistência, o que confere às relações de poder um carácter reversível245. A problemática dos poderes torna-se um tópico central das relações

humanas e, em particular, das relações entre homens e mulheres, dado que está presente "dans tous les mécanismes de production des systèmes de pensée et de

réprésentation"246. Não se pode, porém, compreender o funcionamento dos sistemas de

poder sem reconhecer e analisar os "mecanismos, os limites e, sobretudo, os usos do

consentimento"247, estratégia fundamental para a história das mulheres superar o quadro

interpretativo de vítima (ou rebelde) face à dominação masculina. A compreensão do como e do quanto as mulheres intervieram no sistema de poder/consentimento, em toda a sua dinâmica e complexidade, constitui "uma via prometedora, mas ainda pouco

explorada"248. Neste contexto, afigura-se profícua a proposta de Mary Nash de

transferir, para a análise das relações de poder com base no género, o conceito de subalternidade aplicado pelos especialistas dos estudos culturais e do pós-colonialismo às sociedades pós-coloniais. Ao perspectivar as mulheres como sujeitos subalternos, na complexidade das múltiplas dimensões dessa subalternidade, a autora pretende contribuir para melhor compreender como as mulheres interiorizam e reproduzem a sua

244 Utilizando a expressão de Maria Manuela Tavares RIBEIRO em "Movimento operário…", in op. cit.,

p. 390.

245 Cf. PERROT, Michelle, "Michel Foucault…", in op. cit.; ELSHTAIN, Jean Bethke, "The power and

powerlessness of women", in BOCK, Gisela, JAMES, Susan (ed.), Beyond Equality and Difference. Citizenship, feminist politics, female subjectivity, London, Routledge, 1992, pp. 110-125.

246 COURTOIS, Luc, PIROTTE, Jean, ROSART, Françoise, "Introduction. «Mes soeurs, si nous

recommmençons!»", in COURTOIS, Luc, PIROTTE, Jean, ROSART, Françoise (dir.), Femmes et Pouvoirs. Flux et reflux de l'émancipation féminine depuis un siècle, Louvain-la-Neuve/ Bruxelles, Collège Érasme/ Ed. Nauwelaerts, 1992, p. 14.

247 CHARTIER, Roger, "A História das Mulheres, séculos XVI-XVII. Diferenças entre os sexos e violência

simbólica", in DUBY, Georges, PERROT, Michelle (dir.), As Mulheres e a História, Lisboa, Publ. D. Quixote, 1995, p. 40.

248 VAQUINHAS, Irene Maria, "Impacte dos estudos sobre as mulheres…", in op. cit., p. 155; cf.

VAQUINHAS, Irene Maria, "A Mulher e o Poder. Os Poderes da Mulher. Visão Histórica", in AAVV, A Mulher e o Poder. Comunicações de um Seminário, Lisboa, CCF, 1987, pp. 155-179; cf. COTTIAS, Myriam, et al., "Entre doutes et engagements: un arrêt sur image à partir de l'histoire des femmes", Clio, nº 20, 2004 [em linha], disponível em http://clio.revues.org/document1383.html (consultado em 14/02/2007).

própria subordinação249.

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