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A problemática da memória é central na análise dos processos de invisibilização das mulheres na história e de construção das relações sociais de género. Face à dificuldade de abordagem da memória de uma sociedade no seu conjunto, o conceito de memória colectiva aplicado a grupos tem-se mostrado mais funcional. Os estudos desenvolvidos têm elegido uma grande diversidade de memórias colectivas – popular, erudita, operária, burguesa, comunista, judaica, árabe, negra, local, infantil, feminina e outras – mostrando como cada uma delas é plural (as memórias populares ou burguesas, por exemplo)429. Há que problematizar, porém, os critérios constituintes dessas várias memórias-objecto, designadamente no que respeita à pertinência de reunir conceptualmente num colectivo de memória partilhada a parte feminina ou a masculina da humanidade, ou a população negra, mesmo que consideradas em contextos nacionais específicos, para referir apenas dois exemplos.

Conceber as mulheres, em si próprias, como um grupo, implica abstraí-las dos seus grupos sociais de pertença, por isso, não é pacífico falar de memória colectiva das mulheres430. Poder-se-á, todavia, considerar a memória de colectivos específicos de mulheres, como as associações feministas, por exemplo, ou analisar o modo como as relações sociais entre mulheres e homens se integram, se reproduzem e se reelaboram, ao longo do tempo, nas memórias colectivas dos diversos grupos sociais431.

A história das mulheres, ao atribuir particular importância à problemática da memória, não pretende apenas tornar a memória das mulheres significativa, mas

427 Cf. VIDAL-NAQUET, Pierre, "Mémoire et histoire…", in op. cit.. 428 NORA, Pierre, "La aventura…", in op. cit., p. 32.

429 Cf. CUESTA BUSTILLO, Josefina, "Memoria e historia…", in op. cit.. 430 A categoria"as mulheres" foi problematizada no capítulo 1.2..

431

reclama, sobretudo, que "il faut construire l'histoire des femmes pour transformer la

mémoire collective"432, ou seja, que ela é um requisito indispensável para re-significar o

conhecimento da história de toda a humanidade. Não se trata apenas de conferir identidades às mulheres, ou a grupos de mulheres, através da sua inscrição no tempo, mas de "iluminar la condición humana a partir de los testigos de la memoria"433. Nessa medida, interessa questionar os mecanismos que perpetuam a prevalência de modos androcêntricos de fazer ciência, no suposto que "aucun oubli n'est éternel et aucune

mémoire n'a jamais eu un commencement absolu"434, pois ela é sempre processo de

reactualização e, por isso, nenhuma memória morre por completo ou é plenamente inaugural.

A história oral foi um dos domínios da investigação histórica que mais aprofundou o trabalho sobre a memória. A obra de Paul Thompson, The Voice of the

Past435, editada em 1978, ao sistematizar as especificidades e as potencialidade da

história oral, contribuiu para explicitar o modo como memória e história são ao mesmo tempo indissociáveis e distintas. Segundo o autor, o recurso à memória de informantes permite tornar os domínios da história social, da história política, da história económica, etc., menos abstractos e conferir uma nova dimensão a áreas de investigação novas como a história das mulheres, a história da classe trabalhadora, a história dos analfabetos, entre outras, "towards a history which is more personal, more social, and

more democratic"436. Esta perspectiva convergia com a grande ênfase conferida pela

história das mulheres, nos anos setenta, às fontes orais e à construção de uma memória dos movimentos feministas. Considerava-se válida e histórica a vida e a experiência de cada mulher, de acordo com um modelo de história oral, iniciado nos anos 1920, pelos historiadores negros que procuraram recolher os testemunhos da escravatura437.

O entusiasmo inicial, um pouco ingénuo, sobre o valor dos testemunhos orais para desocultar um real passado inacessível por outras vias, foi relativizado ao longo dos anos oitenta e noventa, como o próprio Paul Thompson evidenciou, marcando também uma viragem na história contemporânea das mulheres438. A credibilidade das

432 DUMONT, Micheline, Découvrir la mémoire… op. cit., p. 146.

433 HERNÁNDEZ SANDOICA, Elena, Tendencias historiográficas actuales… op. cit., p. 43. 434 NAMER, Gérard, "Posface", in HALBWACHS, Maurice, La mémoire collective… op. cit., p. 271. 435 Cf. THOMPSON, Paul, The Voice of the Past… op. cit..

436 Ibidem, pp. 224-225.

437 Cf. GLUCK, Sherna Berger, "What's So Special about Women?…", in op. cit..

438 Cf. THOMPSON, Paul, "Believe It or Not: Rethinking the Historical Interpretation of Memory", in

JEFFREY, Jaclyn, EDWALL, Glenace (Eds.), Memory and History. Essays on Recalling and Interpretating Experience, Boston, University Press of America, 1994, pp. 1-13 [em linha], disponível em

fontes orais foi reequacionada a partir do momento em que se entendeu que só podem ser evocadas as experiências memorizadas e, por conseguinte, conceptualizadas através de um processo no qual se inscrevem as formas colectivas de transmissão da memória, as sensibilidades de uma consciência subjectiva com pertenças identitárias próprias (por exemplo, as de género) e os lapsos traumáticos subconscientes, entre outras variáveis. A importância dos testemunhos deixou de estar centrada no seu apego aos factos para se basear no modo como se afastam deles, o que permite explorar o potencial hermenêutico das conexões entre diferentes lugares, esferas ou fases da vida. Qualquer testemunho é verdadeiro e falso, contém factos e mitos, reflecte, em simultâneo, o passado e o presente, o que leva Paul Thompson a sustentar a necessidade de "to make

use of what we can believe and also of what we must doubt, and to bring the two together in a new interpretation which fuses both memory and history"439. Este

enunciado sublinha o carácter dialéctico da relação entre história e memória e flexibiliza as fronteiras que distinguem estes dois níveis de representação do passado440.

A incidência dos estudos da história oral sobre grupos, em geral minoritários ou marginais, "afin d'analyser comment la mémoire historique d'un groupe se constitue et

se transmet, comme elle l'aide à renforcer son identité et à assurer sa permanence"441,

implica algumas reservas no que respeita à sua adequação generalizada à história das mulheres. A história oral pode contribuir para aprofundar e enriquecer o conhecimento sobre grupos de mulheres ou, numa perspectiva de história relacional, focalizar as relações entre homens e mulheres no estudo dos diversos colectivos de que se ocupa.

Esta dupla abordagem, porém, não pode ser confundida com a aplicação da história oral às mulheres como se estas constituíssem um grupo, cuja identidade seria necessário recuperar. É necessário ter em conta que as memórias são marcadas e estruturadas pelos papéis sociais, mas isso não significa que haja diferenças entre a memória das mulheres e a dos homens, ou seja, que se possa divisar uma memória de género essencializada, pois "la mémoire est non pas sexuée mais diversifiée selon les

itinéraires individuelles"442. O que se passa é que o efeito de género na memória tem

http://www3.baylor.edu/oral_history/thompson.pdf (consultado em 17/01/2007); VAN DE CASTEELE- -SCHWEIZER, Sylvie, VOLDMAN, Danièle, "Les sources orales…", in op. cit.; DUMONT, Micheline, Découvrir la mémoire… op. cit.; COTTIAS, Myriam, et al., "Entre doutes et engagements…", in op. cit..

439 THOMPSON, Paul, "Believe It or Not…", in op. cit., p. 12.

440 Cf. STUDER, Brigitte, THÉBAUD, Françoise, "Entre Histoire et mémoire…", in op. cit..

441 RAPHAЁL, Freddy, "Le travail de la mémoire et les limites de l'histoire orale", Annales. Économie,

Sociétés, Civilisations, nº 1, 1980, p. 127.

442 VAN DE CASTEELE-SCHWEIZER, Sylvie, VOLDMAN, Danièle, "Les sources orales…", in op. cit.,

um forte impacto na configuração dos espaços sociais e nas formas de expressão. José Manuel Sobral sublinha o modo como a memória é influenciada pelos percursos pessoais, pela idade, pelo ciclo de vida e como "o caminho individual de cada um foi

igualmente social, por corresponder às vias determinadas pelo género"443. As

expectativas culturais associadas ao que cada sociedade entende por feminino e masculino incorporam-se nas mulheres e nos homens ao longo do processo de construção identitária e manifestam-se em atitudes, em comportamentos e nos percursos de vida. As experiências de vida são, então, conceptualizadas, de acordo com quadros sócio-identitários diferenciados em função do sexo, proporcionando memórias distintas de um mesmo acontecimento.

A história oral tem contribuído, também, para evidenciar que a memória pública e a memória privada podem divergir nitidamente naquilo que esquecem. O recurso a memórias privadas e individuais pode, assim, desafiar noções que conformam a memória pública, como por exemplo, a tendência, na sociedade actual, para considerar

naturais os papéis de género. As experiências evocadas permitem contrariar o carácter

hegemónico e tradicional imputado a representações que associam, por exemplo, as mulheres à dependência, à fragilidade e ao recato444.

No trabalho sobre a memória é necessário ter presente que as divergências entre as várias memórias traduzem, tanto a diversidade das recordações, como a dos esquecimentos. A memória, como a história, é sempre uma construção selectiva do passado e, como tal, escolhe. Escolher implica eleição e exclusão, lembrança e esquecimento, voz e silêncio. Cada memória constitui a síntese possível da dialéctica entre conservação e apagamento445. Como afirma Fernando Catroga, "no campo da

anamnese e do olvido nada está definitivamente petrificado"446. Assim, não só a

memória não se opõe ao esquecimento, como o trabalho sobre cada um deles é indissociável, pois "we also always need to keep in mind that the reverse side to

remembering is forgetting, and so speaking is silence"447 e, por isso, os esquecimentos FENTRESS, James, WICKHAM, Chris, Memória… op. cit..

443 SOBRAL, José Manuel, "Memória social e identidade. Experiências individuais, experiências colectivas", in

CARDIM, Pedro (coord.), A História: entre memória e invenção, Mem Martins, Publ. Europa-América, 1998, p. 37.

444 Cf. LEYDESDORFF, Selma, PASSERINI, Luisa, THOMPSON, Paul (eds.), Gender and Memory, Oxford,

Oxford University Press, 1996.

445 Como clarifica Tzvetan Todorov, a memória não se opõe ao esquecimento, ela resulta da interacção entre

"l'effacement (l'oubli) et la conservation" (TODOROV, Tzvetan, Les abus de la mémoire, Paris, Arléa, 2004, p. 14, itálicos no original) e são estes os dois termos que se contrapõem.

446 CATROGA, Fernando, Memória, História… op. cit., p. 31. 447

são tão significativos quanto as lembranças448. O que é dito resulta sempre de uma escolha que exclui uma infinidade de não-ditos, os quais, ao permanecerem omissos, se tornam inexistentes449. O enunciado não se apresenta, porém, menos coerente, pois as lacunas e as omissões são compensadas, na justa medida, no processo de conceptualização, muitas vezes recorrendo ao uso excessivo daquilo que se rememora, o que conduz, pelo efeito de "sugestões repetidas"450, a uma falsa memória. Utilizando a metáfora de Marc Augé, no jardim da memória as recordações desabrocham com tanto maior esplendor quanto mais zeloso tiver sido o trabalho do jardineiro quando eliminou as ervas daninhas e o excesso de rebentos451. Pode, pois, dizer-se que falar é silenciar duplamente.

Tal como a série de "fases através das quais a memória de acontecimentos reais

se torna um conjunto de imagens não é habitualmente visível no produto acabado"452,

assim, a própria existência de silêncios é escamoteada, dificultando o seu questionamento. Com frequência, para poder identificar os silêncios a interrogar, o/a historiador/a terá de romper com a "sedução (e pretensão) consensualizadora da memória colectiva e histórica"453

e colocar perguntas como "quem é que quer que se recorde o quê?"454. Os diferentes "jogos de perspectivas"455, usando a expressão de

José-Augusto França, deformam os eventos, por um efeito de luz e de sombra, e atribuem-lhes centralidade ou perificidade. A relevância desta questão para a investigação histórica fora já reconhecida, em inícios dos anos 1980, por Jacques Le Goff, para quem o estudo dos silêncios da história constituía "um dos contributos mais

interessantes a trazer à epistemologia da história"456. Este enunciado assume particular

pertinência para a história das mulheres, pois os fenómenos de esquecimento, de exclusão ou de silêncio, "les «envers» de l'histoire"457 como os denomina Frédérique Langue, subestimam as mulheres enquanto sujeitos e agentes históricos, ao mesmo

DOSSE, François, Paul Ricoeur et Michel de Certeau. L’Histoire: entre le dire et le faire, Paris, Ed. de l'Herne, 2006.

448 Cf. RAPHAЁL, Freddy, "Le travail de la mémoire…", in op. cit..

449 Cf. HESPANHA, António Manuel, "Senso Comum, Memória e Imaginação na construção da narrativa

historiográfica", in CARDIM, Pedro (coord.), A História: entre memória… op. cit., pp. 21-34.

450 SOBRAL, José Manuel, "Memória social e identidade…", in op. cit., p. 40. 451 Cf. AUGÉ, Marc, Les Formes de l'oubli… op. cit..

452 FENTRESS, James, WICKHAM, Chris, Memória… op. cit., p. 78.

453 CATROGA, Fernando, Memória, História… op. cit., pp. 56 (itálicos no original). 454 Ibidem.

455 FRANÇA, José-Augusto, História, que História?, Lisboa, Colibri, 1996, p. 16.

456 LE GOFF, Jacques, Reflexões sobre a História, Lisboa, Ed. 70, s/d [ed. original 1982], p. 98.

457 LANGUE, Frédérique, "L'histoire des sensibilités. Non-dit, mal dire ou envers de l'histoire? Regards croisés

France-Amérique latine", Nuevo Mundo Mundos Nuevos, nº 6, 2006 [em linha], disponível em http://nuevomundo.revues.org/document2031.html (consultado em 23/01/2007).

tempo que a evocação "s'intéresse (…) davantage à «la femme», entité collective et

abstraite à laquelle on attribue des caractères de convention"458.

Michelle Perrot organizou os silêncios da história relativamente às mulheres em três níveis que se reforçam entre si e que se enraízam na dominação masculina sobre o acontecimento, a narração e a simbólica que os rege. Um primeiro nível prende-se com a reduzida presença das mulheres no espaço público, precisamente aquele que tem sido um objecto privilegiado da investigação histórica e mais determinante na constituição de traços memoriais. Deste aspecto decorre o segundo nível enunciado pela autora, a saber, o do carácter sexualmente dissimétrico das fontes, que se têm revelado mais silenciosas em tudo o que respeita às mulheres. Por fim, é o silêncio firmado pela narração histórica459.

Afigura-se pertinente recordar, neste contexto, que foi na segunda metade do século XIX, de acordo com o cientismo vigente e com o reforço das identidades nacionais, que a história política se tornou predominante, em detrimento de uma narração mais ampla, mas que se afigurava, para o pensamento positivista, mais imaginativa do que rigorosa460. Para este processo contribuiu a hierarquização em categorias, de maior ou menor valor, da escrita histórica ou literária. Estas sedimentaram-se num discurso académico que se foi tornando cada vez mais hegemónico à medida que se foi perdendo a historicidade da sua construção. Gianna Pomata sustenta, com base na análise da historiografia europeia desde a antiguidade clássica até ao século XIX, que "the stereotype of the exclusion of women from

historical memory does not seem based in fact"461, pois a realidade mostra situações

muito diversificadas em função dos momentos e dos contextos socioculturais em que ocorrem. O discurso prevalecente, de que não há produção de valor de autoria feminina ou de que as mulheres não constam da memória historiográfica, foi, todavia, interiorizado, mesmo pelas investigadoras que têm uma perspectiva de género, dificultando-lhes a tarefa de interpretar, de maneira adequada, as realidades distintas com que se confrontam, ao estudarem períodos mais distantes do presente462.

458 PERROT, Michelle, "Pratiques de la Mémoire…", in op. cit., p. 20. 459 Cf. PERROT, Michelle, "Faire l'histoire des femmes…", in op. cit..

460 Cf. HERNÁNDEZ SANDOICA, Elena, Tendencias historiográficas actuales… op. cit.; DOSSE, François,

"L'École des Annales: Histoire d'une Conquête", in RUANO-BORBALAN, Jean-Claude (coord.), L'histoire aujourd'hui… op. cit., pp. 279-283.

461 POMATA, Gianna, "History, Particular… ", op. cit., p. 25.

462 Cf. POMATA, Gianna, "History, Particular…", op. cit.; EDFELDT, Chatarina, Uma história na História.

Representações da autoria feminina na História da Literatura Portuguesa do século XX, Montijo, Câmara Municipal do Montijo, 2006.

Uma outra dimensão do fenómeno de divergência entre as diferentes memórias articula-se com o facto da memória de carácter social, tal como a individual, ser uma memória conceptualizada, que busca e retém significados e não dados dos sentidos. Uma imagem, para que possa ser significativa para todo um grupo e facilmente transmitida, tem de ser convencionada e simplificada, ou seja, a sua complexidade é reduzida e o seu grau de conceptualização torna-se superior ao da memória individual. Uma das características dos conceitos é que funcionam por descontextualização, quer isto dizer que interactuam uns com os outros sem necessidade de relação com o concreto, com as relações no mundo, a partir do qual se formaram463. Quanto maior for a conceptualização, maior é o peso do significado, em particular o simbólico, das recordações e mais estas se impõem e permanecem, pois "a memória social não é

estável como informação, mas é-o ao nível dos significados partilhados e das imagens recordadas"464. As imagens, todavia, parecem reais e a existência do processo de

conceptualização permanece oculta. Esta problemática é fundamental para a história das mulheres, porque "os elementos essenciais que configuram o que se entende por

feminilidade e por masculinidade têm um cariz simbólico, situando-se, portanto, ao nível do sentido que adquirem em si próprios, sem qualquer relação com os contextos que conduziram à sua configuração enquanto representação de algo"465, o que justifica

a sua permanência inquestionada no pensamento colectivo.

Memória e história não são sobreponíveis, como atrás se referiu, nem tão pouco dicotómicas466. Neste sentido, Fernando Catroga estabelece uma analogia entre a escrita da história e os ritos de recordação, sustentando que "assim como a visita à necrópole é

acto memorial de re-presentificação (…) também a escrita (e a leitura) da história se constrói a partir de traços e de re-presentações que visam situar, na ordem do tempo, algo que se sabe ter existido, mas que já não existe"467. Ambos concorrem, assim, para

uma "re-presentificação do ontologicamente ausente"468, daquilo que já não é, mas cuja não existência é negada. O espaço do nada é, pois, reduzido com signos que simulam existência e provocam "efeitos performativos"469, o que, por um lado, permite "às

463 Cf. FENTRESS, James, WICKHAM, Chris, Memória… op. cit.. 464 Ibidem, p. 79.

465 NUNES, Maria Teresa Alvarez, Género e cidadania nas imagens de história… op. cit., p. 49. 466 Ver capítulo 1.3.1..

467 CATROGA, Fernando, Memória, História… op. cit., pp. 41-42 (itálicos no original). 468 Ibidem, p. 43.

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sociedades situarem-se simbolicamente no tempo"470 e, por outro lado, configura no

espaço dos possíveis "um sentido para a vida… dos vivos"471, porque foi assegurado um futuro ao passado que já não existe.

A importância das práticas performativas na transmissão e na conservação das imagens e do conhecimento recordado do passado foi demonstrada por Paul Connerton a partir da análise particular das cerimónias comemorativas e das práticas sociais472. O interesse desta abordagem reside no facto de pôr em evidência como estes rituais, pela sua performatividade, funcionam como uma memória-hábito que, não sendo de cariz cognitivo, tem capacidade para reproduzir determinada acção que funciona como norma de conduta partilhada colectivamente. Este aspecto da transmissão da memória é importante para a análise dos processos de reconstrução das relações sociais de género na época contemporânea. A prática de incorporação, por exemplo, é basilar na transmissão de atitudes específicas de um tempo, um lugar, um sexo, uma idade, uma classe, etc., as quais, formando categorias de comportamentos codificadas, se sedimentam no corpo de cada indivíduo moldando-o por esse mesmo acto de transferência. Estas condutas, não só traduzem uma posição social e uma posição face ao poder, como "fornecem as metáforas pelas quais pensamos e vivemos"473.

O pressuposto de que o passado não é algo petrificado, mas, pelo contrário, existe como efeito em traços permanentemente construídos, reutilizados e transmitidos, introduziu uma mudança no olhar historiográfico, a qual foi materializada no projecto inaugural Les lieux de mémoire desenvolvido por Pierre Nora e atrás referido474. Os manuais de história, lugares funcionais de memória, de acordo com a tipologia de Pierre

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