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Programmable Hardware Cursor

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Section 11: Enhanced Mode Programming

11.3 PROGRAMMING EXAMPLES

11.3.13 Programmable Hardware Cursor

Fazer a história das mulheres tem sido, também, explicitar os posicionamentos teóricos assumidos por cada historiador/a e que fundamentam e orientam as respectivas investigações. Tem-se vindo a considerar, por um lado, que "a Ciência (…) não se

separa do meio social em que se elabora"510, ou seja, que é em função do lugar social,

no qual se inscreve a praxis histórica, que se definem a problemática e os procedimentos e se constroem as interpretações e, por outro lado, que o sujeito que investiga é, não só um ente histórico, ele próprio portador de memória, mas também um/a cientista que confere intencionalidade à sua actividade de pesquisa, quer disso tenha consciência ou não.

Uma outra questão a ter em conta é que o/a historiador/a, como advoga François Bédarida, "est le passeur qui procède à l'inscription du passé dans le présent,

établissant ainsi un pont vers l'avenir et légitimant une relecture indéfinie des sources – à la recherche du sens"511. Não é possível pensar qualquer dimensão do tempo

abstraindo-a das outras, como se de entidades autónomas se tratasse. A dialéctica entre passado, presente e futuro é, pois, intrínseca à história e esta não pode deixar de, em simultâneo, se confrontar com e traduzir a intenção inerente a cada sociedade de se projectar, ou seja, de "imprimir uma imagem sobre o futuro"512. Face à tendência inerente à memória de legitimar um presente no futuro com base num passado, a

506 DOSSE, François, "Michel de Certeau…", in op. cit., p. 150. 507 Cf. RAPHAЁL, Freddy, "Le travail de la mémoire…", in op. cit..

508 CUESTA BUSTILLO, Josefina, "Memoria e historia…", in op. cit., p. 221. 509 FARGE, Arlette, Lugares para a História, Lisboa, Teorema, 1999, p. 148. 510 FEBVRE, Lucien, Combates… op. cit., p. 62.

511 BÉDARIDA, François, Histoire, critique… op. cit., p. 326. 512

história deve, pela sua conduta científica distanciada e fundamentada, efectuar um trabalho crítico de interpretação dos mitos e dos usos e abusos da memória, sejam os da amnésia, sejam os do excesso de evocação e de celebração memorial.

O mito é uma construção através da qual um sistema simbólico assente em valores actua, desempenhando, desse modo, uma função social. Inscrito no tempo, o mito assume um carácter dinâmico, revivifica-se em transmutações sucessivas, e, mobilizando as memórias e sendo por elas veiculado, orienta-se tanto para o presente, como para o passado e para o futuro. A história situa-se, pois, "à la frontière entre la

construction des mythes et la démythification (ou la démystification)"513, mas a sua

função permanece marcada por um compromisso indelével, o de "découvrir

modestement des vérités, si partielles et précaires qu'elles soient "514. É com base neste

projecto de verdade que a história das mulheres tem questionado o facto de, ainda hoje, se continuar a verificar que "la terre découverte [pela História] est la terre des hommes:

terre qui ne laisse voir que la moitié du ciel et falsifie la mémoire au point de nous égarer"515. As resistências da disciplina histórica aos desafios colocados pela história

das mulheres e do género afiguram-se incongruentes perante, por um lado, o postulado de que "o passado é uma construção e uma reinterpretação constante e tem um futuro

que é parte integrante e significativa da história"516 e, por outro lado, a actual

inconsistência da noção de uma história universal e sintética, face à emergência de uma "pan-historização"517 que pretende superar o efeito dos vários centrismos, como o etnocentrismo, o sociocentrismo e o androcentrismo518.

Os princípios da verdade e da realidade têm sido os paradigmas que sustentam o estatuto científico da história em dissonância com as posições relativistas mais radicais, assentes no primado absoluto do subjectivismo, segundo as quais, qualquer discurso histórico é pura ficção ou a história é uma arte e não uma ciência519. José Mattoso é um dos historiadores portugueses que mais se aproxima da concepção de história como arte, ou de história como ficção, ao defender que "a história é (…) uma representação de

513 BÉDARIDA, François, Histoire, critique… op. cit., p. 235. 514 Ibidem, p. 248.

515 FARGE, Arlette, "L’histoire ébruitée…", in op. cit., 17 (sublinhado nosso). A autora conferiu à triangulação

história, memória e poder uma posição primacial na problemática da renovação histórica na perspectiva de género.

516 LE GOFF, Jacques, "História…", in op. cit., p. 163. 517 Ibidem, p. 242.

518 Cf. PREISWERK, Roy, PERROT, Dominique, Ethnocentrisme et Histoire… op. cit..

519 Cf. NOIRIEL, Gérard, "L'historien et l'objectivité", in RUANO-BORBALAN, Jean-Claude (coord.), L'histoire

representações. É um saber, e não propriamente uma ciência"520. Este autor, todavia,

admite que a história não é uma disciplina literária porque "propõe um discurso não

arbitrário (…) [e] reivindica a possibilidade de encontrar uma relação necessária entre o discurso e o seu objecto"521, mas defende ao mesmo tempo que "a escrita em História é um discurso pessoal (…) que resulta da minha interpretação"522. Este postulado

afasta-se declaradamente daquele que grande parte dos historiadores do movimento do Annales dos anos 1960-70, entre os quais se inclui Vitorino Magalhães Godinho, defendia. Num dos seus ensaios, este historiador distinguia arte e ciência, argumentando que a primeira "vive no mundo da criação do singular em imagens ou em simbolismo de

participação afectiva"523, enquanto que a segunda "desenrola-se no domínio da simbologia operatória e das relações necessárias universalizantes"524. É o relevo

conferido pelo primeiro autor ao subjectivismo individual na actividade historiográfica que o divorcia da posição mais cientista do segundo.

Assumindo como definitiva a mudança de paradigma imposta pelo relativismo absoluto pós-modernista, que retira à história científica a sua razão de ser, negando a existência de objectos historiáveis extrínsecos ao discurso histórico e a possibilidade de poderem ser produzidos conhecimentos cumuláveis e orientados pela busca da verdade, Fátima Bonifácio contrapõe uma história narrativa525. Sublinhando o valor que Ricoeur atribui à narrativa, como estrutura básica da existência humana, aquela autora alega que, enquanto houver seres humanos a viver em sociedade, haverá história narrativa, sendo esta a via legítima possível da sobrevivência da disciplina, tanto mais que assegura uma comunicabilidade que a história de cariz mais estrutural fizera perder. Reassumindo-se como "um género literário"526 com um "estatuto crítico"527, a narrativa histórica, rompendo com o modelo de causalidade, contrapõe uma "versão plausível"528 que faça sentido na época em que é produzida e que exiba congruência com os documentos. Conquanto a verdade que ela comporta seja desprovida de pretensões científicas, mantém-se como verdade moral, ou seja, revela um juízo informado pela consciência que o/a historiador/a tem sobre o mundo. O retorno da narrativa, associada amiúde à

520 MATTOSO, José, A Escrita da História… op. cit., p. 38. 521 Ibidem, p. 23.

522 Ibidem, p. 29 (itálicos no original).

523 GODINHO, Vitorino Magalhães, Ensaios IV… op. cit., p. 215. 524 Ibidem.

525 Cf. BONIFÁCIO, Maria de Fátima, "A narrativa na «época pós-histórica»", Análise Social, vol. XXXIV, nº

150, 1999, pp. 11-28.

526 Ibidem, p. 20.

527 Ibidem, p. 21 (itálicos no original). 528

ficção, é uma tendência que, embora despoletada pelo pós-modernismo, não se circunscreve aos seus defensores. Ela constituiu também uma reacção à prevalência de uma história económica e serial, que não dera lugar aos aspectos mais individuais e identitários e à qual se atribuiu uma quota de responsabilidade na perda do valor socialmente atribuído à história e ao seu ensino529.

Neste contexto, na definição de operação historiográfica proposta por Michel de Certeau e corroborada em grande parte por Paul Ricoeur, revela-se proficiente a distinção entre a pesquisa histórica, que se debate com a presença de um ausente fragmentado e descontínuo, e a escrita histórica, que se apresenta como uma narração unificadora, mediante a qual se enuncia um conteúdo verdadeiro530. A narração preenche lacunas e atribui coerência e sentido ao passado por ela configurado. Apesar de se assemelhar à ficção, a narrativa histórica distingue-se daquela pelo seu pacto com a verdade e com a realidade531. A história define-se, na sua essência, por uma prática científica, ela "n'est donc ni un songe ni un mensonge, mais bien au contraire un récit vrai et non une fiction"532. É nesta linha de argumentação que se situa Luís Reis Torgal quando apelida a história de "literatura científica"533, pretendendo, deste modo, sublinhar, por um lado, a similitude da escrita histórica com o texto literário e, por outro lado, a relação intrínseca da representação histórica com a prática científica que a sustenta e com a realidade do objecto a que se refere.

O contrato com a realidade e com a verdade constitui, também, um fundamento da responsabilidade como dimensão ética do trabalho historiográfico. Nesta conformidade, François Bédarida, referindo-se à perspectiva pós-modernista, denuncia

529 Cf. EVANS, Richard J., "Prólogo: Que é a História? – Hoje", in CANNADINE, David (coord.), Que é a

História… op. cit., pp. 17-37.

530 Paul Ricoeur adoptou a expressão operação historiográfica de Michel de Certeau, bem como, em termos

globais, a sua estrutura em três dimensões ("l'expression d'opération historique ou mieux historiographique (…) je la dois à Michel de Certeau (…). J'adopte en outre dans ses grandes lignes la structure triadique de l'essaie de Michel de Certeau", RICOEUR, Paul, La mémoire,… op. cit., p. 168). A convergência dos dois autores em torno da operação historiográfica assume particular evidência nas dimensões da pesquisa e da escrita históricas. A primeira implica, para ambos, procedimentos técnicos rigorosos que convertem a história numa instituição de saber. A escrita histórica é, para os dois autores, conteúdo verdadeiro (porque controlado pelas práticas científicas de que é resultante) semantizado pela narrativa. Situa-se, assim, num lugar de tensão entre ciência e ficção, sem rejeitar qualquer delas. O maior peso atribuído por Michel de Certeau ao lugar social da produção historiográfica e por Paul Ricoeur à hermenêutica são os aspectos mais distintivos entre os dois autores.

531 Cf. RICOEUR, Paul, La mémoire,… op. cit.; CHARTIER, Roger (entretien avec), "Les représentations du

passé…", in op. cit.; CERTEAU, Michel de, L'écriture de… op. cit.; VIGNE, Éric, "Accords et désacords avec les historiens", Esprit, nº 3-4, 2006 [em linha], disponível em http://eurozine.com/pdf/2006-03-24-vigne-fr.pdf (consultado em 22/01/2007); BÉDARIDA, François, Histoire, critique… op. cit..

532 BÉDARIDA, François, Histoire, critique… op. cit., p. 38 (itálicos no original). 533

que "tout étant rhétorique, il n'y a plus objectivité ni responsabilité"534. O discurso histórico, produzido e divulgado, contribui sempre para formar a consciência histórica e a memória social coevas, pelo que, como defendia Marc Bloch, "o historiador [é]

chamado a prestar suas contas"535 e esse debate extravasa as fronteiras da sua própria

corporação científica, alargando-se a toda a sociedade.

O contributo de Paul Ricoeur, convergindo com Michel de Certeau, é o de vincular a verdade a uma dupla tensão, por um lado, a que se estabelece, ao nível da prática historiadora, entre a objectividade do plano científico e o carácter sempre recorrente da hermenêutica, e, por outro lado, a que se reconhece, ao nível da narração histórica, entre identidade narrativa e ambição de verdade536. A verdade em história surge como um compromisso, face à humanidade e à realidade, tanto mais que o passado, aquilo que foi, constitui, para os dois autores, um referente indivorciável da produção de conhecimento histórico537. Esta posição é partilhada pelos historiadores para quem a história, mesmo a das representações, aceita a realidade do seu objecto538. Em consonância com Adam Schaff, a verdade histórica, conotada como conhecimento, é também concebida como devir539. Este processo, que tende para uma verdade total ou absoluta, permanece, todavia, sempre infinito e incompleto, "inconcluso"540, na expressão de Vitorino Magalhães Godinho, pois o próprio objecto de conhecimento encerra um potencial ilimitado de correlações e de alterações no tempo. Estão aqui em causa, por exemplo, os efeitos de acontecimentos decorridos, cuja emergência possibilita a atribuição de novos significados e, portanto, uma revitalização da imagem do passado. Estabelecem-se, assim, verdades parciais que são superadas por outras desenvolvidas a partir delas, "acumulando as verdades parciais que a humanidade

estabelece nas diversas fases do seu desenvolvimento histórico (…)"541.

Segundo Gérard Noiriel, tal como a verdade, também a objectividade é um dos dois conceitos mais polemizados no quadro dos novos supostos cognitivos, constituindo, para a história, "un des points sur lesquels la discipline est en train de

jouer son devenir"542. É numa concepção de intersubjectividade compreensível e

534 BÉDARIDA, François, Histoire, critique… op. cit., p. 313. 535 BLOCH, Marc, Introdução à História… op. cit., p. 11. 536 Cf. RICOEUR, Paul, La mémoire,… op. cit..

537 Cf. . RICOEUR, Paul, La mémoire,… op. cit.; CERTEAU, Michel de, L'écriture de… op. cit.. 538 Cf. TORGAL, Luís Reis, "História… da «ciência»…", in op. cit..

539 Cf. SCHAFF, Adam, História e Verdade, Lisboa, Ed. Estampa, 1974. 540 GODINHO, Vitorino Magalhães, Ensaios IV… op. cit., p. 237. 541 SCHAFF, Adam, História… op. cit., p. 91.

542

verificável, ou, de "bonne subjectivité"543, como a define Paul Ricoeur, que pode assentar a objectividade em história544. Segundo esta posição, intermédia entre o objectivismo e o subjectivismo extremos, pode-se falar de um "paradigma que subsume

a objectividade como rigor"545 e que, portanto, atribui ênfase aos procedimentos

metódicos que fazem parte do trabalho do/a historiador/a, entre os quais se destacam "production d'objets, opérations, règles de contrôle"546. A valorização da operação historiográfica sublinha a objectividade da relação cognitiva, cujo rigor permite ao sujeito que investiga enunciar uma resposta verdadeira, isto é, dotada de argumentos plausíveis, verificáveis e prováveis e, por isso, válida para uma comunidade547. É neste sentido que Adam Schaff postula que "a objectividade do conhecimento equivale à

intersubjectividade do método científico"548.

Cabe reafirmar que, tal como a operação historiográfica se situa num lugar de produção, também a verdade é sempre uma verdade situada. Com efeito, entender que "a realidade é constitutivamente histórica porque a temporalidade é a sua estrutura

estruturante equivale a recusar a possibilidade de encarar a hipótese de qualquer verdade que não esteja também orientada pelo princípio da historicidade"549. O

carácter objectivo da verdade não é, pois, definido em função de uma verdade total, absoluta e imutável, mas da construção de verdades parciais, fragmentárias e variáveis550. Partindo deste pressuposto, Wallerstein considera que o conhecimento histórico poderá ser enriquecido se assentar numa verdade dialógica, ou seja, uma "versão de verdade multi-vocal e de perspectiva múltipla"551 que vise a coerência e considere, inclusivamente, a inevitabilidade do seu efeito consequencial, em particular no que se refere à sua instrumentalização pelo poder552. Reconhecer que cada configuração do passado contida no discurso histórico é tão só uma de entre um

543 RICOEUR, Paul, La mémoire,… op. cit., p. 440. Para este autor a boa subjectividade decorre do papel

activo do sujeito no processo de conhecimento, ou seja, é inerente ao carácter humano do sujeito que investiga, enquanto que a má subjectividade resulta de interesses pessoais, preconceitos, modos de vida quotidiana e outros factores de ordem extra-científica.

544 Cf. LE GOFF, Jacques, "História…", in op. cit.; SCHAFF, Adam, História… op. cit.. 545 HENRIQUES, Fernanda, Filosofia e Literatura… op. cit., p. 254.

546 CHARTIER, Roger (entretien avec), "Les représentations… ", in op. cit., p. 18; cf. HERNÁNDEZ

SANDOICA, Elena, Tendencias historiográficas actuales… op. cit..

547 Cf. SCHAFF, Adam, História… op. cit.; RICOEUR, Paul, La mémoire,… op. cit.; CERTEAU, Michel de,

L'écriture de… op. cit..

548 SCHAFF, Adam, História… op. cit., p. 275.

549 HENRIQUES, Fernanda, Filosofia e Literatura… op. cit., p. 246. 550 Cf. SCHAFF, Adam, História… op. cit..

551 WALLERSTEIN, Immanuel, "Escrever História", Ler História, nº 45, 2003, p. 15.

552 Cf. FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe, "Epílogo: Que é a história hoje", in CANNADINE, David (coord.),

Que é a História… op. cit. pp. 191-206. Este autor defende também que a mudança de perspectiva permite reforçar o grau de objectividade da investigação histórica.

conjunto de possíveis, significa admitir que o passado, tal como o futuro, permanece em aberto. Deste modo, "a afirmação de uma verdade como unidade realizada só pode

emanar de uma instância de poder e nunca de uma instância de saber e da reflexão"553.

A reflexão sobre a verdade em história é, pois, inseparável da análise das relações entre a história e o poder.

A história tem funcionado como um mecanismo de reprodução e fundamentação de discursos hegemónicos e excludentes "haciendo del Poder algo continuo y sucesivo

a la par que condenaba a una eficaz damnatio memoriae a aquellas expresiones que significaron resistencia al mismo"554. A ocultação é uma das vias mais eficazes de

controlo do passado pelo poder555. A consciência de que a posição marginal das mulheres no conhecimento histórico se prende com "la question de la transmission du

pouvoir et de sa mémoire"556 obriga a perspectivar o próprio discurso histórico como

um local de enunciação das assimetrias sociais de género fundadas em relações de poder.

No suposto que a "produção da história é sempre uma forma do poder, uma

forma de poder"557, é fundamental que as "reconstructions de la condition historique des humains, ce référent ultime de l'enquête historique"558, procedam de um trabalho

crítico sobre a memória. Este permitirá rectificar sistematizações precedentes, nomeadamente, sempre que "une partie des citoyens d'une nation ne se reconnaît pas

dans le grand récit national, lorsque des mémoires sans lieu s'affirment, persuadées que c'est aussi faute de lieu dans le récit historique que les discriminations et la citoyenneté de seconde zone dont elles sont les victimes paraissent sinon légitimes, du moins inessentielles (…)"559. Só nesta perspectiva é possível contrariar a fatalidade de um

passado encerrado "entre a falta e o excesso de memória"560, pois, como lembra Alicia Puleo, a história tem sido uma história de vencedores561. À história das mulheres, entendida como história relacional, não interessa circunscrever-se ao resgate da

553 HENRIQUES, Fernanda, Filosofia e Literatura… op. cit., p. 253.

554 LORENZO ARRIBAS, Josemi, "El telar de la experiencia… ", in op. cit., p. 85 (itálicos no original). 555 Cf. CHESNEAUX, Jean, Du passé… op. cit..

556 STUDER, Brigitte, THÉBAUD, Françoise, "Entre Histoire et mémoire…", in op. cit., p. 28. 557 LE GOFF, Jacques, Reflexões sobre… op. cit., p. 88.

558 RICOEUR, Paul, "L'écriture de l'histoire et la représentation du passé", Annales. Histoire, Sciences Sociales,

Ano 55, nº 4, 2000, p. 741.

559 VIGNE, Éric, "Accords et désacords…", in op. cit..

560 ROSA, José Maria Silva, "Destruição da fatalidade: para um uso crítico da memória", in Henriques,

Fernanda (coord.) A Filosofia de Paul Ricoeur. Temas e percursos, Coimbra, Ariadne Editora, 2006, p. 220.

561 Cf. PULEO, Alicia H., "Filosofia e gênero: da memória do passado ao projecto de futuro", in GODINHO,

Tatau, SILVEIRA, Maria Lúcia, Políticas públicas e igualdade de gênero, São Paulo, Coordenaria Especial da Mulher/ Prefeitura do Município de S. Paulo, 2004, pp. 13-34.

memória esquecida ou contribuir para fragmentar o objecto562. Ela propõe-se alargar o potencial explicativo, questionando a "«memória manipulada», ideologização, selecção

cuidada do material segundo uma estratégia de esquecimentos cirúrgicos que impõe uma única versão, distorção, auto-justificação triunfal dos vencedores e dos poderes dominantes, monumentalização, celebração, retóricas dos sofistas de serviço, etc."563, e

mobilizar toda a operação historiográfica num projecto de verdade e de relação coerente com a realidade referencial.

O conceito de género, tal como o desenvolveram Joan Scott e Gisela Bock, afigura-se um instrumento fecundo de análise, cuja aplicação permite, não só desconstruir o saber histórico edificado, mas também questionar os critérios de selecção, classificação e organização dos factos, os modos de operacionalização da temporalidade, as categorias de análise, as ferramentas conceptuais, enfim, todos os procedimentos, condições e pressupostos inerentes à produção do conhecimento. A dimensão de género não deixa de fora o próprio sujeito cognoscente, sujeito que se inscreve no objecto que estuda com a sua pertença de sexo, de raça, de classe, de idade e o seu presente real, representado e simbólico. Nesta consciência identitária, que Marc Augé condensa na fórmula "dis-moi ce que tu oublies, je te dirai qui tu es"564, a dimensão de género "desarrolla hasta el máximo su carácter transversal, su función

transgresora (…)"565, apresentando-se como alternativa ao que existe.

A construção de conhecimento sobre as mulheres e sua condição ao longo do

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