I.1- Introdução
Pode dizer-se, desde modo, que a recuperação anamnésica das figuras nacionais, através, neste caso, da literatura, contribui fortemente para a expressão da identidade.
(VILA MAIOR, D., 2011: 14)
Adotaremos a noção primeira de Marcel Detienne, segunda a qual identidade é “objetivada por uma carteira muito material, que identifica o indivíduo, seja ele da Itália, da Alemanha ou da França, uma "pessoa" sentida como mais ou menos inseparável de uma cultura, de uma história, ou mesmo de uma missão ou de um destino (DETIENNE, M., 2013:10). Notar- se-á, no trecho citado, que a noção identitária parece ligar-se preliminarmente a vários aspectos, que devem ser considerados ao tratar do tema.
O primeiro aspecto a ser considerado, portanto, é a referência à identidade como um documento, “carteira muito material”. Portanto, e sempre seguindo as ideias apresentadas por Marcel Detienne, a primeira significação é de jurisprudência e de direito civil. Refere-se ao objeto material denominado carteira de identidade, bilhete de identidade ou cartão de cidadão, a depender do país. Seja como for, identidade está vinculada inicialmente à identificação de uma pessoa em relação à outra e, por conseguinte, à possibilidade de um
país de identificar quem é cidadão nativo198 e quem é estrangeiro. Este é o primeiro valor
semântico do termo identidade: documento de identificação oficial.
198 De acordo com Marcel Detienne: “A identidade de um indivíduo se constrói com um certo número de traços-
sinais: a forma do nariz, das orelhas, a cor dos olhos, a ossatura, os estigmas físicos. É uma identidade submetida à identificação, e antes de tudo a dos indivíduos perigosos, acusados, condenados, reincidentes. O mais das vezes pensados como estrangeiros, indivíduos suspeitos indo e vindo em território nacional. A identidade por identificação é inicialmente destinada aos outros que não os cidadãos que, estes, participam por direito abstrato à ‘soberania nacional’” (DETIENNE, M., 2013:29).
170 O segundo aspecto a ser considerado ao definir o termo identidade é o matiz pessoal,
associado à noção individual de pertencimento a um grupo de pessoas, seus pares199. Ao
contrário da identidade oficial supracitada, o segundo sentido de identidade “evoca a consciência que uma pessoa tem de si mesma, o que é ser si mesmo, em suma, o sentimento de identidade pessoal de um indivíduo contemporâneo, pressionado no dia a dia a cultivar a identidade do mais ‘personalizado’ de si” (DETIENNE, M., 2013:11). Logo, a valoração deste aspecto é igualmente pessoal, porque variável.
Clarificando a subjetividade deste aspecto, pode compreender-se que um indivíduo tenha consciência de sua descendência africana, por exemplo, enquanto outro não se reconhece ou se identifica com a sua ancestralidade. Ainda que haja pressão social e apelo para o que
denominamos “politicamente correto” na sociedade atual200, cabe ao indivíduo intimamente
assumir sua autêntica identidade e, em seguida, decidir-se a expô-la às pessoas de seu convívio, aos seus contemporâneos.
Assim, no que diz respeito ao sujeito201, o processo identitário é duplo. Inicialmente há a
identificação sob o ponto de vista oficial – como, por exemplo, a identificação de pessoas,
de acordo com os traços físicos, as impressões digitais,202 a leitura da íris ou o DNA, utilizados
199 Remetemos a Stuart Hall que conceitua identidade entre os pares, em consciência de pertencimento ao grupo
ou comunidade. Quer isso dizer que “a identificação é construída a partir do reconhecimento de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com outros grupos ou pessoas, ou ainda a partir de um mesmo ideal (HALL, S. 2000:106).
200 A discussão acerca da identidade pessoal e a sua exposição social, mencionada por Marcel Detienne, assume
maior visibilidade na era contemporânea, graças ao emprego mais frequente dos recursos da mídia. Entretanto, convém lembrar que o debate é antigo, anterior à Idade Média, como registram as cartas, diários e anotações da época. Lembramos aqui, por exemplo, o livro de Paul Zumthor, intitulado Correspondência de Abelardo e
Heloísa, que narra a polêmica história da jovem católica com o filósofo, seu professor. Mais do que uma mera
história de amor, ali já estão presentes as questões identitárias: a condição feminina e seu silenciamento, os questionamentos sobre o exercício da (homo)sexualidade dos eclesiásticos etc.
201 Adiante destacaremos a identidade nacional. Iniciamos nosso tópico sobre os conceitos da identidade pessoal.
202 Cf. o comentário de Marcel Detienne acerca de Francis Galton e suas investigações sobre as impressões
171 na medicina legal e na investigação policial. É esta a identificação do cidadão, de acordo com as leis nacionais e com o olhar regulatório do Outro, do social, do governamental. Neste contexto, a identidade de Fernando Pessoa pode ser facilmente estabelecida, a partir de
relatos de sua figura e comportamento social, como o apresentado a seguir:203
Era um homem magro, com uma figura esguia e franzina, media 1,73 m de altura. Tinha o tronco meio corcovado [...] Vestia habitualmente fatos de tons escuros, cinzentos, pretos ou azuis, às vezes curtos. Usava também chapéu, vulgarmente amachucado, e um pouco tombado para o lado direito [...] O rosto era comprido e seco. Por detrás de uns pequenos óculos redondos, com lentes grossas, muitas vezes embaciadas, escondiam-se uns olhos castanhos míopes. O seu olhar quando se fixava em alguém era atento e observador, às vezes mesmo misterioso. A boca era muito pequena, de lábios finos, e quase sempre semicerrados. Usava um bigode à americana que lhe conferia um charme especial. Nos últimos dez anos de vida, talvez provocado pelo fumo dos oitenta cigarros diários, adquiriu um pigarrear característico, seguido de uma tosse seca [...] Embora não muito dado ao riso, Fernando Pessoa tinha uma certa ironia e algum humor, sobretudo se estava bem disposto, o que acontecia algumas vezes quando os amigos mais próximos o desafiavam para jantares. Curiosamente libertava-se então da sua timidez e gesticulava de um modo mecânico e repetitivo, deixando escapar um riso nervoso, às vezes irritante [...]. Apesar de conviver com os amigos, no fundo nunca deixou de ser um homem neurasténico, solitário e reservado, pouco dado a conversar com estranhos. No final da sua vida, a melancolia e uma exagerada angústia existencial predominavam. Daí a tendência para se isolar dos mais próximos e dos próprios familiares204.
(PESSOA, F. 2003: 203-206)
Eternizada em fotografias que foram divulgadas pelo mundo a fora pelos leitores dos textos pessoanos e mais recentemente pela internet, a identidade física e social [referente ao “mundo exterior” do processo de individuação e construção de identidade] de Fernando Pessoa é, como foi supracitado, materializada pelo olhar regulatório do Outro, do social, do
governamental e, atualmente, da mídia e estudos críticos205. A partir desta identidade física,
pensamos conhecer a pessoa ou imagem eternizada do escritor e, portanto, julgamos identificá-las entre todas as outras.
203 Leia-se a “[NOTA BIOGRÁFICA] DE 30 DE MARÇO DE 1935”, seguida d’ “O RETRATO POSSÍVEL
DE FERNANDO PESSOA”, disponibilizado no sítio da Casa Fernando Pessoa e PESSOA, F. 2003: 203-206.
204 Cf. Eduardo Lourenço sobre a descrição da “genialidade” do poeta (LOURENÇO, E., 2003:22-23).
205 Cf. George Rudolf Lind: “O número dos estudos críticos sobre a figura mais enigmática das letras portuguesa
172 Por outro lado, corrobora-se que o processo identitário é duplo porque, além da identificação física e oficial, há o autorretrato, resultante do processo de reflexão e
individuação206, que procuramos explicitar na primeira parte de nossa tese. No percurso de
investigação do “mundo interior” – psicológico – e da construção de identidade pessoal como parte de um grupo, o sujeito estabelece um diálogo entre o interior [como se vê] e o mundo exterior [como é visto], entre a sua identidade inconsciente velada e a identidade
revelada207 e projetada socialmente.
Escreve Fernando Pessoa no excerto abaixo a respeito do “sonho creado” pelo espectador, que poderia ser ele próprio:
Tenho uma especie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espectaculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas suppostas, palco falso, scenario antigo, sonho creado entre jogos de luzes brandas e musicas invisíveis.
(PESSOA, F., 2010b: I, 322)
Consideremos como verdadeiras e pessoais as palavras referidas do autor que – parece-nos – não está a fazer literatura, mas a expressar seu ponto de vista em um depoimento
autêntico208. Creio que tal atitude se justificará, pela coerência do raciocínio expresso por
Fernando Pessoa no trecho referido. Desse modo, realçamos a afirmação que de si mesmo realiza – como uma pessoa que, procurando concretizar os seus propósitos, tem “que ter o melhor espetáculo”. Ainda na esteira das reflexões acerca das palavras aludidas, pretendemos clarificar dois pontos: em primeiro lugar, que o autor possui uma autoimagem
206 Relembrando: O processo de individuação, através do qual o agente constrói sua identidade (ou busca uma
identidade una) é o intuito basilar da mitologia, uma vez que “É um princípio mitológico básico, diria eu, que aquilo que na mitologia se chama ‘outro mundo’ é na verdade (em termos psicológicos) ‘o mundo interior’” (CAMPBELL, J., 2008:45).
207 Utilizamos o itálico para associar a identidade velada com o mundo interior e a identidade revelada com o
mundo exterior.
208 Encontra-se o debate sobre a (in)sinceridade de Fernando Pessoa em tópicos anteriores da tese. Assim, aqui
173 imponente e a consciência de seu processo de construção identitária: “Assim me construo a ouro e sedas”, repetimos.
Registre-se, em segundo lugar, o mascaramento209 que os termos “palco” e “cenário”
gravam. Das muitas tentativas de autorretrato realizadas por Fernando Pessoa ao longo de
sua vida, mencionamos a “[NOTA BIOGRÁFICA] DE 30 DE MARÇO DE 1935”210 – que sucede
à publicação de Mensagem, escrita entre 1913 e 1934. Não iremos reproduzi-la aqui na íntegra. Do citado texto, extraímos a alusão à Mensagem, quando – ao se referir às obras já publicadas – o autor destaca sua epopeia moderna entre os “livros e folhetos” que “considera como válido”. Leia-se a seguinte citação:
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. O que, de livros ou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em inglês também), 1922, e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poema»”.
(PESSOA, F. 2003: 203- 206)
Há ainda um outro aspecto sobre o autorretrato pessoano que gostaríamos de destacar: o plurilinguismo. Lembra-nos Ana Nascimento Piedade que “Tendo sido ‘educado à inglesa e em inglês’, adquire uma formação cultural privilegiada que lhe permite posicionar-se com mais genuína desenvoltura cosmopolita, à margem desse orgânico francesismo que sempre
terá modelado a cultura lusitana” (PIEDADE, A.N., 2004, 119)211. A identidade pessoana vai
se firmar em dois universos linguísticos – embora o autor conhecesse ainda outras línguas212.
209Tentamos apresentar o jogo de cena teatral que abriga o mascaramento pessoano em momentos anteriores de nosso texto. Recordamos aqui que o uso de máscaras é dissimulação, negação da verdade e, por isso, constitui- se um recurso cênico e narrativo condenado por Platão e ignorado como forma artística n’A República.
210Leia-se a “Nota biográfica” de Fernando Pessoa na íntegra em PESSOA, F. 2003: 203-206 e na obra de SIMÕES, J.G.,2011:647.
211 Cf. Luísa Freire sobre o plurilinguismo de Fernando Pessoa (FREIRE, L.:2004).
212 Remetemos aos poemas em língua estrangeira e as suas traduções, reunidos em sua Obra Poética (PESSOA,
174
Nascido português, o poeta adotou a língua inglesa213 durante o período de residência na
África do Sul214. Mesmo depois de retornar a Lisboa, manteve contato linguístico com o
idioma, através de elaboração de traduções e da produção literária de seus heterônimos que escreviam em inglês. Vale realçar que, no fragmento supracitado, Fernando Pessoa menciona as obras de língua inglesa, antes de Mensagem, explicitando que foram escritos em inglês: “«35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III» (em
inglês também), 1922”215. Ressaltamos ainda os estudos realizados por Fernando Pessoa
sobre as literaturas inglesa e francesa que António Quadros exalta: “Ora todos sabem que, se alguma literatura conhecia a fundo além da portuguesa, era a inglesa...” (QUADROS, A., 1960: 94). Discordamos unicamente do termo “se” utilizado pelo autor, pois certamente o poeta conhecia as literaturas mencionadas, como atesta a sua produção literária.
Indubitavelmente, contribui para a identidade pessoana a influência exercida pelas línguas e literaturas estrangeiras, sobretudo a inglesa. Podemos relembrar aqui que suas últimas
palavras teriam sido neste idioma216. Repare-se a admiração do poeta pela cultura britânica
na citação a seguir: "Homero e Shakespeare, as duas culminâncias da literatura, provam dos
períodos a que pertencem que são – como todos admitem que são – os maiores e mais
criadores da vida da humanidade” (PESSOA, F., 2000, 53). O entusiasmo de Fernando Pessoa pela língua inglesa e por Shakespeare foram anteriormente mencionadas em nossa tese quando procuramos comentar a relação do poeta com seus autores preferidos: o autor das
213Leia-se “Educado no Estrangeiro” (SIMÕES, J.G.,2011:59-128).
214Cf. “O Homem” (QUADROS, A., 1960: 15-56), “Infância e Adolescência” (SIMÕES, J.G.,2011: 28-58).
215 Cf. os textos pessoanos em língua inglesa reunidos (Ibid.,587-626).
216De acordo com seus biógrafos, Fernando Pessoa, no dia 29 de Novembro de 1935, um dia antes do seu falecimento no Hospital São Luís dos Franceses em Lisboa, escreveu em inglês: "I know not what tomorrow
will bring", em português traduz-se livremente por: “Não sei o que o amanhã trará” (MOISÉS, C.F., 2005:9).
Cf. “Apresentação Humana de Fernando Pessoa” (GALHOZ, M. A.,1979:43-60), “Morte e ressureição” (SIMÕES, J.G.,2011: 602-611) e “Eu também esqueci a morte” (TABUCCHI, A., 1997:55-61).
175 epopeias gregas e o dramaturgo inglês. Note-se que Fernando Pessoa ressalta a representatividade dos dois poetas referidos para sua época e para a literatura universal.
Retomamos a questão da identidade pessoal a fim de registrar aqui as palavras do poeta mexicano Octavio Paz sobre o “desconhecido de si mesmo”:
O mundo de Pessoa não é nem este mundo nem o outro. A palavra ausência poderia defini-lo, se por ausência se entende um estado fluído, no qual a presença se desvanece e a ausência é anúncio de quê? - momento em que o presente já não está e apenas desponta aquilo que talvez, será. O deserto urbano cobre-se de signos: as pedras dizem algo, o vento diz, a janela iluminada e a árvore solitária na esquina dizem, tudo está dizendo algo, não é isto que digo e sim outra coisa, sempre outra coisa, a mesma coisa que nunca se diz. A ausência não é só privação e sim pressentimento de uma presença que jamais se mostra inteiramente. Poemas herméticos e canções coincidem: na ausência, na irrealidade que somos, algo está presente. Atónito entre pessoas e coisas, o poeta caminha por uma rua do bairro velho. Entra em um parque e as folhas se movem. Estão a ponto de dizer... Não, não disseram nada. Irrealidade do mundo, na última luz da tarde. Tudo está imóvel, em espera. O poeta já sabe que não tem identidade. Como essas casas, quase douradas, quase reais, como essas árvores suspensas na hora, ele também parte de si mesmo. E não aparece o outro, o duplo, o verdadeiro Pessoa. Nunca aparecerá: Não há outro. Aparece, insinua-se, o outro, o que não tem nome, o que não se diz e que nossas pobres palavras invocam. É a poesia? Não: a poesia é o que fica e nos consola, a consciência da ausência. E de novo, quase imperceptível, um rumor de algo: Pessoa ou a iminência do desconhecido.
(PAZ, O. 1972: 92-93)217
Ao contrapor a identidade física [presença visível do homem] à ausência de certezas sobre
quem seria este homem místico218 tornado mítico e qual seria a sua verdadeira identidade
[“uma presença que jamais se mostra inteiramente”], Octavio Paz conclui que “O poeta já sabe que não tem identidade”219.Em suma: podemos investigar a identidade pessoal do
poeta e classificá-la a partir de dois aspectos: o oficial [documentação do cidadão] e o pessoal [retrato ou relato feito pelo Outro, além do autorretrato].
217 O itálico é nosso, para destacar a referência à identidade do poeta.
218 Remetemos a Pessoa Revisitado, livro de Eduardo Lourenco: “Em suma, e como é hábito em Pessoa, a sua
ficção se autodenunciou e se propôs como o que é: um mito” (LOURENÇO, F.,2012b: 181).
176 Entretanto, outros aspectos da identidade do autor de Mensagem – resultantes como desdobramentos poéticos dos aspectos supracitados – merecem destaque e, durante o desenvolvimento de tese, procuraremos evidenciá-los, a partir do estudo e análise dos seus textos éditos. Afastar-nos-emos, todavia, da conceituação de identidade pessoal
temporariamente. Importa-nos nesta parte do texto refletir sobre a identidade nacional.220
Para iniciar a exposição do ponto de vista que vamos defender, permitir-nos-emos a referência a uma passagem amplamente citada de Marcel Detienne. Segundo o autor, o
“Uno e indivisível, como o esperamos, o indivíduo não221 surge dotado do privilégio de ser
idêntico a si a fim de se realizar na posse de uma ‘identidade nacional’ definitiva” (DETIENNE, M., 2013:22). Ora, a questão identitária (assim considerada) abre justamente a possibilidade de compreensão do trecho citado sob a égide de dois fatores que envolvem intrinsecamente o conceito de identidade nacional: o primeiro é a caracterização do indivíduo ou país como
“Uno e indivisível”222, o que não significa necessariamente que é idêntico a si ou que deseja
sê-lo.
O segundo fator é igualmente útil para a definição do que seria a autêntica identidade nacional: a impossibilidade da posse definitiva. Sob esta ótica, não há posse definitiva de
uma identidade nacional, porque as condições sócio-políticas podem ser alteradas223:
220 Julgamos necessário tecer comentários sobre a identidade pessoal – sobretudo do autor de Mensagem–, antes
mesmo de enfatizarmos a identidade nacional, porque o processo identitário é, inegavelmente, individual e, a seguir, social e nacional.
221 O itálico é nosso.
222Cf. o comentário de Marcel Detienne em outra página da obra citada: “Ser o mesmo, ser idêntico a si mesmo não é uma necessidade vital para cada ser humano” (DETIENNE, M., 2013:17). O itálico é nosso.
223 Remetemos ao período de Interregno durante a crise política que se instalou em Portugal entre os anos de
1383 a 1385 e ao Ultimatum britânico de 1890. Nos dois momentos, foram questionados a liderança do país e, consequentemente, foram intensificados os debates acerca do patriotismo e o nacionalismo dos cidadãos, com registro na produção literária da época.
177 fronteiras são remanejadas; governantes podem ser eleitos e terem suas lideranças reconhecidas e mantidas pelo povo; outros podem ter seu poder subtraído ou minimizado, enfim, nações se unem em torno de um mesmo nome e, em seguida, tal coesão passa a ser questionada – como, por exemplo, no caso da extinta União Soviética. Seja como for, com tais alterações, a concepção de identidade da pátria e noção de pertencimento a determinada comunidade ou país pode igualmente sofrer transformações. Recordamos aqui
o depoimento de sociólogo Zygmunt Bauman224, a respeito de sua dificuldade pessoal em se
identificar [com uma nação, um hino, uma cultura]. As relações pessoais “líquidas” geram uma identidade nacional fluida, da qual a posse não é definitiva.
Assim, e a um primeiro nível, torna-se necessário recordar que a arte e, sobretudo, a literatura colabora para a afirmação e manutenção da identidade nacional, a partir do assentamento dos costumes e tradições populares. Procuramos clarificar este ponto na primeira parte da nossa tese, quando avaliamos a importância do mito para o resgate dos valores e crenças nacionais. Acreditamos que – ao registrar e eternizar os mitos dos heróis e personagens históricos relevantes – a literatura colabora para o processo identitário da nação.
Relembramos aqui a epígrafe225 escolhida para este capítulo e, do mesmo autor, citamos o
fragmento a seguir:
Pode, por isso, dizer-se que o discurso identitário repousa sobre substratos culturais diversos com os quais uma comunidade reclama necessariamente um compromisso com o futuro. Significa isso, por exemplo, que a presença da personalidade histórica nesse discurso acaba não raro por nobilitar uma atitude mitificatória e mistificatória de figuras e feitos históricos; não se desejou Pessoa, afinal, um renovador e um reanimador de mitos?
(VILA MAIOR, D., 2008:455-456)
224Cf. conceito de liquidez de Zygmunt Bauman, que não se aplica apenas à contemporaneidade – embora o autor escreva neste período (BAUMAN, Z., 2001).
225Cf. “Pode dizer-se, desde modo, que a recuperação anamnésica das figuras nacionais, através, neste caso, da literatura, contribui fortemente para a expressão da identidade” (VILA MAIOR, D., 2011: 14)
178 Repare-se que, nas palavras acima citadas e na epígrafe escolhida, há o entendimento do conceito de identidade nacional a instituir um vínculo com a literatura, através do recolhimento dos mitos, do registro dos atos heroicos ou históricos das pessoas de interesse nacional, populares ou políticos. Há ainda outro tema a ser rememorado: o processo de
construção identitária de um povo226 trata da revisitação do passado227, da recuperação dos
valores nacionais, mas não unicamente isso. Trata-se ainda da projeção do futuro, a partir das tradições autenticamente nacionais.
Neste ponto, destacamos o contributo de Fernando Pessoa, que teria desejado ser “um renovador e um reanimador de mitos” – repetindo as palavras do referido investigador. O nome escolhido para a revista que reuniu a geração de artistas e autores modernistas
lusitanos denota o interesse daquela geração pelo mito228 – no caso, o mito de Orfeu229.
Retornaremos à Revista Orpheu230 a seguir, quando procurarmos apresentar nosso ponto de
vista sobre o conceito de identidade nas obras dos principais heterônimos pessoanos e no semi-heterônimo Bernardo Soares. No próximo tópico de nossa tese, enfocaremos o