• Aucun résultat trouvé

Display Set-Up Menu

Dans le document Visual 220 (Page 70-81)

USING TERMINAL SET-UP MODE

3.4 USING SET-UP MENUS

3.4.2 Display Set-Up Menu

Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem Mais que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?

(PESSOA, F., 2008: 109)

Não é nosso objetivo neste ponto de nossa tese debater sobre a importância do mito sebastianista, uma vez que sobre ele tratemos no capítulo a respeito da identidade nacional.

98 Entretanto, parece-nos relevante estabelecer um paralelo entre Ulisses e D. Sebastião. Para além de serem reis e líderes míticos de seus povos, são viajantes guerreiros e figuras históricas, inclusas na Mensagem entre os mais nobres representantes do ideal cultural

lusitano, como mitideologia nacional113 (embora Ulisses fosse grego, constitui-se

significativo perfil mítico para Fernando Pessoa).

Realce-se o fato de ambos serem reis que frequentaram – e frequentam – o imaginário coletivo de seus povos e, igualmente, de outros povos: Ulisses em Portugal, D. Sebastião nas visões do sebastianista Antônio Conselheiro, líder da revolta popular em Canudos, que criou um reino mítico para D. Sebastião em terras brasileiras. São mitos messiânicos – ulisseano e sebastianista – transformados em profecias pela necessidade popular de acreditar em um salvador mítico que reinstauraria uma era de glórias. Assim sendo,“Esta multiplicidade de formas, o mesmo é dizer, de linguagem, permite que a profecia tenha vários graus de significação, em que o que a um nível é ‘verdade’ a outro é ‘erro’” (SEABRA, J.A., 1988:83). É verdade para o povo que aguarda a volta do seu rei – tanto Ulisses era aguardado pelo povo de Ítaca, quando D. Sebastião pelos lusitanos. É erro, para os cépticos. Assim sendo, os graus de significação são distintos como são distintas as relações que os indivíduos mantêm com as profecias e narrativas míticas.

Neste contexto, justifica-se refletir sobre as palavras de José Clécio Basílio Quesado a respeito da produção literária pessoana e a inserção nela destes elementos míticos e oníricos:

Sonho, mito ou loucura são, pois, elaborações discursivas do inconsciente que o poeta toma como formas de promover a ausência da realidade, procurando trabalhar não sobre o dado concreto mas sobre a formulação imaginária que se produz como descontinuidade do real. Daí a retomada do passado

113 Cf. a concepção de Marcel Detienne sobre a mitideologia nacional: “uma configuração complexa de representações, de imagens e de ideias” (DETIENNE, M., 2013:92). Cf. ainda “Para uma revisitação improvável”, de Eduardo Lourenço (LOURENÇO, E., 2012:11-15).

99

da infância como fuga do presente, ou a busca do nada como negação da própria existência, ou, enfim,

Qualquer coisa que não a vida.

(QUESADO, J.C.B., 1976:80)

Na página inicial deste tópico sobre o Ulisses de Fernando Pessoa, afirmamos estar diante da imagem mítica do marinheiro em diversos textos pessoanos, como um arquétipo de evasão da realidade, variante do mito ou clima, conforme mencionado por Jacinto do Prado Coelho e aqui reiteramos: Pessoa inventou uma razão de ser, um destino, fugindo à angústia dum quotidiano absurdo. Fernando Pessoa, a nosso ver, se iguala ao mítico desbravador – andarilho como Ulisses e D. Sebastião, vagando por terras incógnitas à procura de si mesmo e do caminho de volta para seu povo.

Fernando Pessoa “navega, como bom português, por acaso de Lisboa, cidade de Ulisses, ou como autor da ‘Ode marítima’, do drama (estático!) O Marinheiro, do poema ‘Para além doutro oceano’ e da Mensagem” (SARAIVA, A. apud MARGARIDO, A., 1988: 8). Desta forma, dilatam-se as fronteiras – reais e imaginárias:

Pessoa encontra na presença histórica de Portugal a sua própria espera na margem e a sua saudade por novos horizontes. Ulisses, portador de um grande pensamento – conta a lenda a seu respeito que foi ele que deu nome a Lisboa – não aportou nunca a estas costas; nunca lhes tocaram os seus navios. Como a liberdade, a grandeza e a fama, a lenda de Ulisses permaneceu um mito que ‘sem existir nos bastou’. Pois foram mitos que embalaram o povo português, para o estimularem a dilatar as fronteiras do conhecido e do familiar.

(GÜNTERT, G., 1982: 205)

Em sendo assim, de que modo poderá ser convalidada e reforçada a percepção do autor citado no excerto acima sobre a presença – real ou mítica – de Ulisses na costa portuguesa? Nas palavras constantes no referido verso do poema de Fernando Pessoa, encontramos: “sem existir nos bastou”. Quer isso dizer que, ainda que não fosse real, é mítico e tornado literário pelos poetas lusitanos.

A partir dos pressupostos supramencionados, podemos nos aproximar da compreensão do motivo que levou Fernando Pessoa a inserir Ulisses ao lado de D. Sebastião em Mensagem – um deles é um mítico rei grego, que teria visitado a costa portuguesa; o outro é um rei-

100 menino desaparecido e nunca esquecido. “O mito é a protoforma da história” (KUJAWSKI, G.M., 1979:35), pode-se assim entender.

Além de D. Sebastião114, o mito de Ulisses no poema de Fernando Pessoa remete-nos à outra

possibilidade de leitura e de aproximação temática, uma vez que Ulisses foi imortalizado pelo poeta grego Homero. Note-se bem que, ao ler a obra Mensagem do ortônimo, o leitor de Fernando Pessoa percebe imediatamente a sua filiação ao classicismo e admiração pelas

epopeias de Homero115. É isso que nos permite desde logo sublinhar que, como declara

Fernando Pessoa no trecho a seguir:

na superioridade de Homero a quantos poetas anteriores se divisem lê-se claramente o aumento do poder criador que a humanidade no seu período grego trai sobre os anteriores períodos; e assim como Homero é o primeiro máximo poeta de pleno e integral equilíbrio, a Grécia Antiga é o primeiro povo plena, lúcida e integralmente criador que na história nos aparece.

(PESSOA, F., 2000, 54)

Quanto à superioridade de Homero, mencionada no fragmento acima, acreditam os poetas admiradores do poeta grego que toda grande obra de literatura, ou é um tributo à Ilíada ou à Odisseia. O Ulysses pessoano é, desse modo, a Odisseia revisitada em reduzidíssimos versos pessoanos. Compreende-se, assim, o lugar ocupado por Homero no panorama literário não português elaborado por Fernando Pessoa, com autores de máximo valor: “Homero e Shakespeare, as duas culminâncias da literatura, provam dos períodos a que

pertencem que são – como todos admitem que são – os maiores e mais criadores da vida da

humanidade” (PESSOA, F., 2000, 53). Em diversos textos, Fernando Pessoa evidencia sua devoção por Homero, registrando o contributo do grego e a dificuldade de que seja superado: "O progresso da poesia, isto é, o das formas poéticas – pois da mesma poesia, que é a verdade vida, não pode haver progresso, nem Homero foi ainda superado –, obedece

114 Leia-se o que Marcel Detienne escreve sobre o herói Fundador: “As cidadezinhas, recém-implantadas, vão

dar a si mesmas, na geração seguinte, um culto de tipo político: o de seu Fundador, heroizado após sua morte” (DETIENNE, M., 2013:47).

101 àquela dura lei a que todo progresso obedece (PESSOA, F., 2000: 471). O escritor grego é mitificado e alçado à condição de gênio da cultura ocidental e da arte helênica.

Veja-se como no seguinte trecho a referência a Homero resulta de um profundo entusiasmo de Fernando Pessoa pelos referidos poetas grego e inglês: "Porque é fora de dúvida para quem tenha mais do que um vácuo de compreensão que as alturas máximas da poesia estão na Ilíada e em Shakespeare" (PESSOA, F., 2000:71). E ainda lembramos que Fernando Pessoa “atreve a sonhar-se igual a Homero” (LOURENÇO, E., 2003: 60). Mais do que um Super- Camões, acreditamos que Fernando Pessoa ambicionava ser um Super-Homero (LOURENÇO, A.A., 1995:45). Quer isso dizer, super(ar) Homero, Camões e todos os poetas que lhe são anteriores, para firmar uma moderna literatura portuguesa.

O que nos importa, em especial, considerar nas palavras transcritas de Eduardo Lourenço é a influência da literatura homérica no texto pessoano. Claro está que não apenas nos versos do heterônimo Ricardo Reis se encontra a evidente devoção pessoana ao classicismo como fórmula poética. É, sobretudo, no ortônimo que existe a proposta estética de criação de uma mitologia à portuguesa, sobretudo com seus reis e heróis nacionais: D. Duarte, Bartolomeu Dias, D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. João I, D. Henrique, D. Pedro, D. João, Nunalvares Pereira e tantos outros. São personagens históricas portuguesas, que povoam o universo

onírico e literário116 de Fernando Pessoa, “Pois na Mensagem é a redução a um pensamento

que descarna, espectraliza as personagens da História nacional” (COELHO, J. P., 1983: 108). A Mensagem ao povo português é a revitalização do ser português, a partir do crescimento do nacionalismo, assevera Fernando Pessoa.

116Sobre mito e literatura, observa Jean-Pierre Vernant que os mitos “são relatos – aceitos, entendidos como tais desde nossos mais antigos documentos. Comportam assim, em sua origem, uma dimensão de 'fictício', demonstrada pela evolução semântica do termo mythos, que acabou por designar, em oposição ao que é do domínio da ficção pura: a fábula. Esse aspecto de narração (e de narração livre o bastante para que, sobre um mesmo deus ou um mesmo episódio de sua gesta, versões múltiplas possam coexistir e ser contraditórias sem escândalo) relaciona o mito grego ao que chamamos de religião, assim como ao que é hoje para nós a literatura” (VERNANT, J.-P., 2002:230).

102 Acreditamos que “Sendo Pessoa extremamente permeável a uma conceção messiânica do nacionalismo, muito naturalmente o seu sebastianismo racionalista se deixou contaminar pelo esoterismo” (LOURENÇO, A. A., 2009:77). Daí resultaria a “sua adesão à ideia de Portugal como cabeça do Quinto Império, sendo Mensagem o resultado evidente deste processo de sincretismo” (Id.). Desse modo, acredita-se que a “clara e nítida aventura poética de Fernando Pessoa” (LOURENÇO, E., 2003: 23) está impregnada da busca pelo renascimento patriótico, pois era F Pessoa “patriota vigoroso” (LACOMBE, A., 1972:16). Ao retomar o poema Ulysses, na terceira e última estrofe encontramos os seguintes versos:

Assim a lenda se escorre A entrar na realidade, E a fecunda-la decorre. Em baixo, a vida, metade De nada, morre.

(PESSOA, F., 2008: 83)

Escolhemos o comentário de Eduardo Lourenço sobre esta estrofe para figurar como epígrafe, logo no início de nossa tese, por sua pertinência e sensibilidade quanto ao entendimento do texto pessoano. Escreve o investigador referido:

Mito, vida que não passa na vida que passa – e toda passa –, lenda a escorrer da realidade. Foi para Ulisses, incarnação da primeira viagem iniciática da nossa alma futuramente grega, como ele a sonhava, que o autor de Mensagem compôs os versos famosos.

(LOURENÇO, E., 1986:9-10)

Com efeito, Eduardo Lourenço assinala o vínculo entre o mito que não passa e a realidade que passa. Eterno é o mito enquanto for realidade para nós. Ainda na linha destas reflexões, podemos questionar, como o fizera Massaud Moisés: “O que seria, portanto, uma epopeia adequada aos tempos modernos sem perder a razão básica de sua existência como tal?” (MOISÉS, M., 1988: 183). Mensagem, a moderna epopeia portuguesa, não é essencialmente modernista como as odes do heterônimo Álvaro de Campos, mas igualmente moderniza a literatura portuguesa no início do século XX.

103 Em seu poema épico, Fernando Pessoa escreve sobre Ulisses, que, como afirmara Eduardo Lourenço no trecho supramencionado, é a “incarnação da primeira viagem iniciática da nossa alma futuramente grega, como ele a sonhava”. O nacionalismo pessoano é helenista, sem dúvidas. No entanto, teremos oportunidade de apresentar nossa opinião sobre o ideal nacionalista pessoano na segunda parte de nossa tese. Continuaremos nossos comentários sobre Ulysses, identificando o assunto principal em Mensagem e, a seguir, a estrutura do livro no qual se insere o poema que constitui o corpus de pesquisa de nossa tese: Ulysses.

Claro está que “O assunto da Mensagem não são os portugueses ou eventos concretos, mas a essência de Portugal e a sua missão por cumprir” (COELHO, J. P., 1983: 108). Desse modo, “O grande feito português, na visão sebastianista e messiânica que preside Mensagem, está na iminência de vir” (GARCEZ, M.H.N., 1989:100). Por estas palavras e ideias supracitadas, podemos afirmar que o assunto de Mensagem é o passado mítico lusitano, com a presença rememorada de Ulisses em terras portuguesas e com o sebastianismo e o Quinto Império já proposto por Padre António Vieira.

Entretanto, este passado alicerça um futuro de glórias – não as glórias obtidas durante o período camoniano, mas novas vitórias, que poderiam provocar a renascença portuguesa e a admiração de toda a Europa em relação à moderna produção científica, intelectual e artística lusitanas. Prefigura os protagonistas de Mensagem, as formas, a ação e o destino de um povo. "Não é figura, mas condiciona toda figurabilidade; não é verbo, mas condiciona toda linguagem; não é força, mas condiciona todas as dinâmicas – O nada que é tudo (KUJAWSKI, G.M., 1979:35). É, com efeito, uma Mensagem. Citamos a seguir as palavras de António Apolinário Lourenço sobre Mensagem:

Assim se denomina o único livro de poesia em português publicado por Pessoa. Não era esse, como se sabe, o título previsto, mas é, sem dúvida, o mais adequado. Praticamente desde a sua primeira aparição pública, n' A Águia que o poeta se apresenta como portador de uma "Mensagem" para a tribo de que ambicionara ser o verdadeiro bardo. 'Emissário de um rei desconhecido", de um Deus ou de um Mestre incógnito, ele via-se, ou queria que o vissem, como um médium ou uma tela desenhada por mão oculta. (LOURENÇO, A.A., 2009: 242)

104 Como quer que seja, a espiritualidade pessoana inegavelmente possibilita a travessia pela mitologia grega. Ao debater a bifurcação da alma humana em partes [uma material e outra espiritual], Fernando Pessoa afirma que é possível dizer sobre “qualquer conjunto ou homem hoje civilizado, que deve a primeira à nação que é ou em que nasceu, a segunda à Grécia antiga. Exceptas as formas cegas da Natureza, disse Sumner Maine, tudo, quanto neste mundo se move, é grego em sua origem” (PESSOA, F., 2000: 218). Portanto, claro está sua admiração pela civilização helênica.

Como é de conhecimento do público leitor de Fernando Pessoa, as características dominantes em seus textos são “o nacionalismo mítico presente principalmente em ‘Mensagem’, as sondagens sobre o ser, a busca incessante pelo (auto)conhecimento” (ALMEIDA, R., 2011:167), além da “tentativa de compreensão sobre o fazer poético, poiesis, que em Pessoa – criador de mitos – assume a condição de mitopoiesis” (Id.). Criador que se torna ele-mesmo mito, do mito europeu se apropria para recontar a história de Portugal, atribuindo – como outros escritores o fizeram – ao herói grego Ulisses a fundação da capital lusitana, pois “Não fomos, nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação” (LOURENÇO, E., 2012:25). O senso de grandiosidade leva-nos a acreditar que Fernando Pessoa “chegou a projectar escrever uma obra dedicada aos heróis homéricos e a vários outros heróis e deuses (reais e mitológicos) da história mundial” (LOURENÇO, A.A., 2008:13). Lamentavelmente não finalizou a obra de exaltação ao universo mítico helênico. Sobre a história de Portugal, entretanto, concluiu e felizmente publicou Mensagem.

De acordo com António Apolinário Lourenço, Fernando Pessoa escreve Mensagem, a epopeia moderna do povo português, e elege Deus como o emissor da mensagem, porque “para o que bastará assumir como chave interpretativa a epígrafe latina que antecede o texto: Benedictus Dominus Deus Noster Qui Dedit Nobis Signum, ou seja, “Bendito Deus Nosso Senhor Que Nos Deu O Sinal” (LOURENÇO, A.A., 2008: 20). Ao citar A Grande Alma

105 Portuguesa, o mesmo autor ressalta a origem mítica de Mensagem, pois, após a morte de D. Sebastião, “a alma portuguesa que procurará em vão, tornou-se subterrânea. A partir daí tornou-se verdadeira, pois a sua origem era também subterrânea, e veio-nos de mistérios antigos e de sonhos antigos, de histórias contadas” (LOURENÇO, A.A., 2008: 22). Por estas palavras, compreende-se a razão que levou Fernando Pessoa a incluir o mito de Ulisses como personagem mítico-histórico de sua Mensagem.

O herói grego é parte deste arcabouço cultural subterrâneo, que “veio-nos de mistérios antigos e de sonhos antigos, de histórias contadas” (Ibid). O mesmo autor – na

“Apresentação” de um outro livro intitulado Fernando Pessoa –já parcialmente citado aqui

e sobre o tema em foco – assim escreve:

Sendo Pessoa extremamente permeável a uma conceção messiânica do nacionalismo, muito naturalmente o seu sebastianismo racionalista se deixou contaminar pelo esoterismo, de que resulta a sua adesão à ideia de Portugal como cabeça do Quinto Império, sendo Mensagem o resultado evidente deste processo de sincretismo. Mensagem é um livro que se apresenta formalmente com uma grande unidade estrutural e que Pessoa quis que fosse visto como constituído por um único e longo poema.

(LOURENÇO, A. A., 2009:77)

Sabe-se que os poemas que integram Mensagem foram escritos entre 1913 e 1934, portanto, por mais de duas décadas – o que denota o nível de estruturação de pensamento de Fernando Pessoa na organização de sua epopeia moderna. Ainda que tenha publicado os poemas que constituem Mar português – a segunda parte de Mensagem – no número 4 da Revista Contemporânea em 1922, parece-nos que na ocasião já intencionava Fernando Pessoa publicar todos os poemas em conjunto, no formato que se conhece de Mensagem. Ou seja, quanto à sua estrutura Mensagem é tripartida, porém una. A estrutura permite ao leitor o entendimento de cada uma das partes individualmente, pois o conjunto de poemas (cada parte) possui temática complementar que, quando juntas, formam um único livro- poema.

Na primeira parte, Fernando Pessoa apresenta aos seus leitores os heróis nacionais e as figuras históricas que constituem a memória coletiva lusitana. A parte inicial intitula-se

106 BRASÃO e representa os elementos da bandeira portuguesa. A citação em latim “Belum sine bello” apresenta a maneira mítica como surgiu Portugal “A guerra sem a guerra”; isto é, pacificamente. Possui apenas dois curtos poemas em “Os Campos”. São eles Primeiro: O dos Castelos e Segundo: O das Quinas. Em seguida, ainda na primeira parte de Mensagem, encontra-se um grupo de sete poemas, que constituem “Os Castelos”. Deles o primeiro é Ulisses, em análise nesta tese. Segue-se Viriato, O Conde D. Henrique, D. Tareja, D. Afonso Henriques, D. Dinis, D. João o Primeiro e D. Filipa de Lencastre.

Note-se bem que, deste elenco de personalidades históricas nacionais, Ulisses é o único grego; embora europeu, evidentemente, não é português e nacional. O terceiro grupo de poemas intitulado “As Quinas” é constituído de cinco poemas, incluindo D. Sebastião, anteriormente citado. Fazem parte de “As Quinas”, na ordem estipulada por Fernando Pessoa, os poemas D. Duarte, rei de Portugal, D. Fernando, Infante de Portugal, D. Pedro, Regente de Portugal, D. João, Infante de Portugal e o referido D. Sebastião, Rei de Portugal.

Em seguida, temos “A Coroa”, constituída por um único poema Nun’Álvares Pereira. Finalizando esta primeira parte de Mensagem há “O Timbre”, em que Fernando Pessoa agrupou três poemas com uma palavra em comum, já no título: “grifo”, o ser lendário e primitivo (DURAND, G., 2002: 314). Os poemas são denominados: A Cabeça do Grifo: O Infante D. Henrique; Uma Asa do Grifo: D. João o Segundo e, por último, A Outra Asa do Grifo: Afonso de Albuquerque. Esta primeira parte de Mensagem narra a origem mítica da nação portuguesa e, embora não haja excessivo rigor histórico e científico, cumpre-se o objetivo do imaginário poético pessoano, que poderia ser a confirmação de que o povo que teve uma formação mítico-simbólica terá um futuro glorioso. A primeira parte trata, portanto, do

resgate da história heroica lusitana e da expectativa de um futuro ainda mais glorioso.117

117 Cf. Eduardo Lourenço: “Descontentes com o presente, mortos como existência nacional imediata, nós

107 A segunda parte é denominada MAR PORTUGUÊS, publicada antes mesmo do livro Mensagem, como foi mencionado. Esta parte é constituída por um grupo de doze poemas totalmente diversos, mas com uma temática que os norteia: todos se originam do sonho das grandes conquistas marítimas, de que o conhecidíssimo poema Mar português é o mais elevado representante.

Se a primeira parte de Mensagem narra o surgimento da nação e as tradições populares, a segunda parte está cronologicamente próxima ao século XVI e a’Os lusíadas camoniano. À sua maneira e afastando-se ligeiramente da euforia de Camões, Fernando Pessoa reconta a era de ouro lusitana, o período das descobertas de novas terras e outras culturas. A citação em latim registra esta época: “Possessio Maris”, isto é, A posse do mar. Constitui esta parte o grupo de poemas intitulados O Infante, Horizonte, Padrão, O Mostrengo, Epitáfio de Bartolomeu Dias, Os Colombos, Ocidente, Fernão de Magalhães, Ascensão de Vasco da Gama, Mar Português, A Última Nau e Prece.

A terceira parte denominada O ENCOBERTO está dividida em “Os Símbolos”, “Os Avisos” e “Os Tempos”. A citação em latim escolhida por Fernando Pessoa para anunciar esta última parte de Mensagem já possui o elemento transcendental que conduzirá todos os poemas à atmosfera esotérica, mencionada pelos leitores e investigadores pessoanos: “Pax in excelsis”, ou seja, Paz no céu. O mito essencialmente nacional é redimensionado nesta terceira parte. D. Sebastião (referido em As Quinas da primeira parte) como figura histórica no surgimento da nação lusitana, é novamente tema d’Os Símbolos. Ao lado de D. Sebastião, este grupo de poemas é, de todos que constituem Mensagem, aquele que possui o tom mais

Dans le document Visual 220 (Page 70-81)