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TERMINAL CONTROL CODES

8.4 RECEIVED CODES

8.4.2 Control Sequences Recognized in ANSI (X3.64) Mode This section describes those control sequences recognized by the

II.1- Introdução

Nunca me sinto tão portuguesmente eu como quando me sinto diferente de mim – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Fernando Pessoa, e quantos mais haja havido ou por haver.

(PESSOA, F., 2012: 266)

O nosso objetivo neste ponto de nossa tese não é efetivamente discutir a gênese dos heterônimos pessoanos e nem as teorias que buscam explicações para tal gênese. Pretendemos, na verdade, evidenciar os conceitos de identidade nos heterônimos, a partir da interação entre eles. Remetemos, portanto, à leitura da “Carta a Adolfo Casais

257 Adotamos os termos de Eric Hobsbawm: “Os revolucionários sociais têm sido intensamente conscientes da

força do nacionalismo, assim como estão compromissados ideologicamente com a autonomia nacional” (HOBSBAWM, E., 1990: 205)

192

Monteiro”258, datada de 13 de janeiro de 1935, na qual o poeta dos heterônimos clarifica

pontos que julgou serem importantes para a compreensão de seus textos259.

Acreditamos igualmente serem válidas as palavras de José Saramago260 e, por isso,

pretendemos utilizá-las no estudo a respeito do processo heteronímico que caracteriza a produção literária pessoana: “As máscaras olham-se sabendo-se máscara” (SARAMAGO, J.,

In: PESSOA, F., 2012:28)261. Nesta linha de pensamento, procuraremos evidenciar apenas os

contributos do ortônimo, dos heterônimos e semi-heterônimo para o entendimento do

conceito de identidade nacional262 na produção literária pessoana, sem necessariamente

buscar descobrir, revelar ou desvendar o que está sob a máscara de cada heterônimo.

Neste caso, limitar-nos-emos a analisar fragmentos do texto heteronímico, nisso que ele é:

um texto. Quer dizer, um tecido263, constituído por linhas urdidas em um trabalho lento,

258 Referente à “Carta”, cf. PESSOA, F., 2003: 516 e PESSOA, F., 2012: 273-282.

259 Remetemos ainda a estudos específicos sobre a gênese dos heterônimos, como, por exemplo, as reflexões de

Gilberto de M. Kujawski (1979:51-63), o estudo de António Apolinário Lourenço sobre a heteronímia (LOURENÇO, A. A., 2009:47-67) e os comentários de António Quadros em “Os heterónimos, vistos pelo seu Demiurgo” (QUADROS, A., 1060: 140-178).

260 Cf. citação seguinte: “Homem de máscaras que olham máscaras, é como se só as máscaras os pudessem ler e

por ventura compreender. Mas o que, sendo assim, produziria infalivelmente uma constelação de sentidos, de significados, de leituras infinitamente abertas e nunca conclusivas, veio, pelo contrário, a esbarrar com a tentação de definir um Fernando Pessoa unificado, do qual, por mera ramificação sucessiva, tivessem nascidos heterónimos em qualquer momento reversíveis ao seu ponto de partida. Trabalho vão, em meu entender. Cada um de nós é quem é, mas aquele que em nós faz é outro. Fernando Pessoa soube-o melhor que ninguém, e os heterônimos, mais do que “drama em gente”, são, cada um deles, a expressão individualizante de um conteúdo plural que se tornou singular no seu fazer-se, um ser que é diferente porque diferente foi o fazer dele (SARAMAGO, J., 2004:2).

261 Disponível também no sítio http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/FernandoPessoa

/paginasjornais/JL_N177_26Nov1985_p012.pdf

262 Escreve Fernando Pessoa sobre o período em que publicou Mensagem: “Coincidiu, sem que eu planeasse ou

o premeditasse [...], com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do

subconsciente nacional (PESSOA, F., 2012: 274). O itálico é nosso.

263 Convém lembrar que o termo texto vem do latim textu e significa tecido. É originário do verbo texere, tecer.

193 artesanal e intelectual, que resultará em um objeto único: o produto textual. Desde as páginas iniciais de nossa tese, esclarecemos que utilizaríamos texto pessoano, a fim de designar a produção literária de Fernando Pessoa, ao invés de “obra”, porque assim entendíamos, como ensina Dionísio Vila Maior, que era, de fato, um texto. Palavras tecidas, alinhadas conjuntamente, transformadas em um texto – o “complexo harmônico”,

mencionado por Moacir Gadotti no excerto mencionado (GADOTTI, M. 1987:35).

Nossa leitura do texto pessoano buscará enfatizar o diálogo inter-heteronímico, pois, como afirma José Saramago no trecho acima referido, há, de fato, interação entre o ortônimo e os

heterônimos: “As máscaras olham-se” (Id.). Contemplam-se264 e, no instante deste ato,

refletem, tecem comentários, criticam, hierarquizam-se ao eleger um mestre, Alberto Caeiro. No entanto, e sempre concordando com José Saramago, interagem “sabendo-se máscara”. Quer isso significar que, se afirmarmos que os heterônimos são resultantes do próprio texto pessoano ortônimo e nada mais, estamos descaracterizando o que de singular

há na poética pessoana: sua multiplicidade265. Se, por outro lado, acreditarmos que são

autores totalmente distintos do ortônimo, como se fossem escrituras totalmente diversas,

estamos a arriscar a unidade estilística pessoana266.

que, no sentido metafórico, indica uma elaboração, uma disposição de elementos para chegar a um tecido, um complexo harmônico” (GADOTTI, M. 1987:35).

264 Leia-se o que comenta Eduardo Lourenço sobre a sociedade portuguesa no século XX: “[...]conversão cultural de fundo, susceptível de nos dotar de um olhar crítico sobre o que somos e fazemos, sem por isso destruir

a confiança nas nossas naturais capacidades de criação autonomizada, dialogante como tem sido sempre, mas não sob a forma de uma adaptação mimética, oportunista, das criações alheias e da sua vigência de luxo entre nós, enquanto os problemas de base do País não recebem um começo de solução” (LOURENÇO, E., 2012: 52).

265 Na opinião de Dionísio Vila Maior, “a marca mais importante” do texto pessoano (VILA MAIOR, D., 2012b).

266 Leia-se o estudo de Jacinto do Prado Coelho sobre a Diversidade e unidade em Fernando Pessoa (COELHO,

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Assim, acreditamos que tais personalidades ficcionais ou subpersonalidades267 são máscaras

– mas que se unem ao ortônimo, como um prisma poliédrico [irregular e multifacetado,

porém harmônico] ou como instrumentos musicais em uma orquestra polifônica268: distintas

produções sonoras que colaboram para um único som final coeso. Como quer que seja, são partes do todo. Assim sendo, as odes de Ricardo Reis assemelham-se em alguns aspectos às poesias do ortônimo e dos heterônimos, contudo, apenas em alguns aspectos. Divergem em outras tantas facetas e características. Portanto, há indelével conexão entre as personalidades poéticas pessoanas, mas não são obras idênticas – no sentido em que podem ser identificadas como pertencentes a um único e invariável autor. Sem perder esta concepção de vista, a seguir apresentaremos nossas ideias sobre a identidade nacional na poética do heterônimo Ricardo Reis.

II.2- Ricardo Reis: a negação do presente como inovação modernista

Para continuar a exposição do ponto de vista que estamos a defender, recordamos um fragmento do livro Mitologia da Saudade, de Eduardo Lourenço:

A memória é a autonegação do presente, o seu esquecimento vivido, voluntário ou involuntário, que idealmente nos proporcionou um passado (ou o passado) como tal, idêntico na sua manifestação, na sua relação com a consciência, ao presente suspenso, apesar do sentimento de irrealidade de que se acompanha.

(LOURENÇO, E., 1999:32)

267 É este o termo utilizado por Fernando Pessoa na Carta a Adolfo Casais Monteiro (PESSOA, F., 2012: 273).

268Cf. Mikhail Bakhtin: “A essência da polifonia consiste justamente no fato de que as vozes, aqui, permanecem independentes e, como tais, combinam-se numa unidade de ordem superior à da homofonia. E se falarmos de vontade individual, então é precisamente na polifonia que ocorre a combinação de várias vontades individuais, realiza-se a saída de princípio para além dos limites de uma vontade. Poder-se-ia dizer assim: a vontade artística da polifonia é vontade de combinação de muitas vontades, a vontade do acontecimento” (BAKHTIN, M., 1990:16).

195 Na perspectivação de leitura e análise dos textos pessoanos como partes de um todo – partes que são evidentemente constituídas pelas expressões literárias heteronímicas –, cremos que é Ricardo Reis a manifestação poética mais conexa ao ortônimo, sobretudo em Mensagem. A menção aos mitos greco-latinos certamente aproxima os versos dos poetas, mas, para além disso, é o posicionamento patriótico-nacionalista que mais os assemelha.

Uma leitura apressada e irrefletida das odes269 de Ricardo Reis pode levar ao entendimento

do estilo do heterônimo como meramente conservador. Contudo, tanto quanto o ortônimo

idealizador de vanguardas270, o futurista polêmico Álvaro de Campos 271 ou o Mestre Caeiro

272, o heterônimo Ricardo Reis é – a nosso ver – extremamente inovador, revolucionário, um

autêntico modernista. Como afirma Eduardo Lourenço no trecho acima referido “A memória é a autonegação do presente”. Através da rememoração dos clássicos greco-latinos, Ricardo Reis afirma-se como heterônimo modernista – não porque surge durante a vigência deste estilo – mas, sobretudo, porque suas odes assumem este posicionamento de contestação tipicamente modernista. Ao negar [e autonegar] o presente, protesta Ricardo Reis contra a sociedade na qual se insere, assim cremos. Escreve Ricardo Reis uma ode datada de 12 de junho de 1914, que, apesar de longa, citamos a seguir na íntegra:

Mestre, são plácidas Todas as horas Que nós perdemos, Se no perdê-las, Qual numa jarra, Nós pomos flores. Não há tristezas Nem alegrias

269 Cf. PESSOA, F., 1965: 251-296.

270 Como se sabe e já o afirmamos na Nota 15 de nossa tese, Fernando Pessoa idealizou movimentos vanguardistas: Interseccionismo, Sensacionismo, Paúlismo (LIND. G. R., 1981: 163-232).

271 Trataremos a seguir da questão da identidade nacional na produção literária do heterônimo Álvaro de Campos.

196 Na nossa vida. Assim saibamos, Sábios incautos, Não a viver, Mas decorrê-la, Tranquilos, plácidos, Tendo as crianças Por nossas mestras, E os olhos cheios De Natureza… À beira-rio, À beira-estrada, Conforme calha, Sempre no mesmo Leve descanso De estar vivendo. O tempo passa, Não nos diz nada. Envelhecemos. Saibamos, quasi Maliciosos, Sentir-nos ir. Não vale a pena Fazer um gesto. Não se resiste Ao deus atroz Que os próprios filhos Devora sempre. Colhamos flores. Molhemos leves As nossas mãos Nos rios calmos, Para aprendermos Calma também. Girassóis sempre Fitando o sol, Da vida iremos Tranquilos, tendo Nem o remorso De ter vivido. (PESSOA, F., 1965: 253-244)

197

Partimos do princípio de que o semi-helenismo273 em Ricardo Reis não é uma atitude

conservadora. Ao contrário, é propriamente uma contestação tipicamente modernista, que percebemos igualmente nos versos do poema Ulysses, em Mensagem. A menção à mitologia greco-latina e o emprego de referências a deuses e heróis clássicos corrobora o contraste entre as conquistas da nação imperial helênica e a decadência cultural e política, vivenciada em Portugal no período pós-Ultimatum.

Não comentaremos todos os versos dos sextetos supracitados, pois cremos que alguns deles bastarão para expor e exemplificar nosso ponto de vista. No verso inicial, há uma referência ao “Mestre” que, como se sabe, entre os heterônimos (e até para o ortônimo) era Alberto Caeiro. No entanto, apenas com a alusão ao “Mestre”, seria precoce afirmar que se trata do outro heterônimo. Esta denominação no período clássico, sobretudo na civilização clássica a que se filia esteticamente Ricardo Reis, é uma referência a um guia, como se vê nos diálogos d”A República, de Platão, abordados na primeira parte de nossa tese.

Fosse Alberto Caeiro ou não o interlocutor, a tal mestre se dirige a ode, como vocativo. Paralela à ideia inicial de que o sujeito lírico se posiciona como se orientado fosse por seu mestre, há uma afirmação sobre o tempo perdido estoicamente. Os versos da ode tratarão da passagem das horas e da efemeridade da vida. No primeiro sexteto, pode perceber-se a

construção de uma filosofia que é já modernista, mais do que exclusivamente horaciana274:

o tempo é fluido e líquido275. A atualidade [cosmovisão modernista] das odes de Ricardo Reis

é perceptível – parece-nos – em sua reflexão sobre a fluidez do tempo e a presença do novo.

273 Como afirma Fernando Pessoa, Ricardo Reis “É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por

educação própria” (PESSOA, F., 2012: 28).

274 Leia a reação de Mário de Sá-Carneiro ao “nascimento” de Ricardo Reis: “Admiráveis, meu querido poeta,

as Odes de Ricardo Reis. Conseguiu realizar uma ‘novidade’ clássica, horaciana. Pois tal é a impressão que elas me deixaram. Não sei porquê, contêm elementos novos – no entanto tão clássicas, pagãs” (SÁ-CARNEIRO, M., 2001: 115).

198 Sem que seja excessivo, propomos a leitura do primeiro sexteto como a constatação de que o tempo se esvai, mas o novo pode ser construído pela ação – e, ao nosso ver – ação coletiva evidenciada pelo plural: “nós pomos flores”, nas palavras do poeta referido.

Depreendemos do segundo sexteto uma atitude igualmente ativa, revolucionária e veemente quando escreve Ricardo Reis que “Assim saibamos/Sábios incautos/Não a viver”. Vejamos atentamente a aparente antítese que se instaura entre a aliança semântica de “Sábios” e a sua contraposição no sentido do termo “incautos”. A primeira palavra ocupa na ode de Ricardo Reis o espaço imaginário normalmente atribuído a ele por causa do seu classicismo e eruditismo. No entanto, chamamos a atenção para o plural dos termos: “Sábios incautos”. É novamente a presença do coletivo que podemos perceber na leitura dos versos iniciais da ode em foco. O termo origina-se do latim incautus, significando também desprevenido – aquele que é incapaz de prever, de ver antes de todos, de manter-se avisado antecipadamente e precavido sobre o que há de vir. “Sábios incautos”, portanto, é uma predição antitética, denúncia que antecipa a natureza humana contraditória. Por sua vez, predição [do latim praedictio] conecta semanticamente a prevenido e precavido como no termo previsão e, portanto, como em profecia. Sem avançar mais nestas alianças semânticas por receio de estabelecer conjecturas ousadas em demasia ou subjetivas, retornaremos à ode de Ricardo Reis.

O terceiro sexteto, assim como o verso inicial da ode em foco, traz a marca textual – nas palavras “plácidas”, “tranquilos” – que costuma ser associada à poética latinista e horaciana

de Ricardo Reis. Percebe-se que a “placidez” resultante da busca de equilíbrio276 helenista é

intensificada quando se contrapõe o “Mestre” do verso inicial com os dois versos nucleares do terceiro sexteto: “Tendo as crianças/ Por nossas mestras”. Aí está – a nosso ver – uma

276 Reiteramos a referência a este tema, a partir dos estudos de Gilbert Durand sobre a aventura humana de

autodescobrimento, através dos mitos e trajetos antropológicos na “Introdução” de seu livro As Estruturas

199 reminiscência das palavras “Sábios incautos”. Quer isso dizer que apenas pessoas com sabedoria suficiente para se deixarem guiar por crianças alcançam o “Leve descanso/De estar vivendo”, mencionado no quarto sexteto.

Novamente reconhecemos a postura revolucionária de Ricardo Reis na negação do antigo para a instauração do novo, nos versos do sexteto seguinte. Não se trata aqui do “carpe diem” horaciano meramente, mas da atitude de busca por renovação: “Não nos diz nada”. É inegável o sentimento de indiferença existente nestas palavras, culminância da postura contestatória do heterônimo, o que pode aproximá-los dos versos de Álvaro de Campos, por exemplo, em Lisbon Revisited: “Não: Não quero nada” (PESSOA, F., 1985:356). Aqui não se trata – a nosso ver – de uma postura estoica, mas da indiferença oriunda da constatação de que nada pode minimizar a incompletude do sujeito poético, descentrado e insatisfeito com a realidade sócio-cultural e política de seu país.

O sexteto seguinte é marcado pela mesma indiferença e posicionamento abúlico que é possível – em nossa opinião – detectar no anterior. Escreve o poeta que “Não vale a pena/ fazer um gesto”. A inexcitabilidade e apatia, em concomitância com as referidas indiferença e abulia destes versos contrastam com a ação efetiva e plural dos versos que sucedem à

referência ao deus Cronos277: “Colhamos flores/ Molhemos leves/As nossas mãos”. O tempo

verbal imperativo afirmativo do sujeito poético [no plural] assinala o conflito entre o indivíduo participativo em seu mundo interior e os pretensos “rios calmos” do mundo

exterior278. A construção da identidade pessoal como una reflete-se no desejo expresso nos

últimos dois versos do terceto em análise: “Para aprendermos/ Calma também”. Repare-se

277 Remetemos às obras de Junito Brandão, datadas de 1987 e 1996.

278Veja-se o comentário de Dionísio Vila Maior, sobre a crise do sujeito: “Essa desordem interior, numa primeira instância, poder-se-á traduzir na perda da unidade interior desse sujeito e, em última instância, na perda da sua identidade” (VILA MAIOR, D., 2003: 47).

200 que na pujança dos versos de Ricardo Reis há espaço ainda para um sexteto conclusivo e associativo.

Se no terceiro sexteto há a referência aos “olhos cheios/Da natureza”, no último sexteto o olhar é gravitacional, mutável e transformador, com uma mensagem que aproxima a ode de Ricardo Reis da epopeia moderna pessoana, Mensagem, como procuramos demonstrar anteriormente: são partes de um todo, linhas que tecem o produto textual pessoano. A proposta estético-literária pessoana está presente tanto nos versos breves das odes de Ricardo Reis quanto no poema único em que se agrupam todos os poemas da Mensagem pessoana: a vida vivida poeticamente é vida representada miticamente através do registro do passado, o que eterniza as vivências do indivíduo e da sua sociedade. O mito na ode aqui comentada não é o “Mestre”, não é o deus “Cronos” simplesmente insinuado. O mito é – a nosso ver – o registro literário da própria vida inusitada dos “Sábios incautos”, todos eles

profetas [mais ou menos “precavidos” ou “previdentes”] como os “avisados”279 Bandarra,

António Vieira e o Terceiro que, como se afirmou anteriormente, poderia ser o próprio Fernando Pessoa.

A leitura da ode que propomos como tentativa de entendimento da poética de Ricardo Reis pode aproximar-se dos comentários anteriores sobre Mensagem, ao sinalizar na poesia referida a mesma visão mítica da construção da identidade pessoal e nacional. Não avocamos que os poetas da ode ou os outros heterônimos são, de fato, uma mesma pessoa

física e poética – porque não o são280. Não se trata aqui de uma leitura biográfica sobre os

fatos que levaram o autor a se tornar poeticamente múltiplo, pois não é esta nossa proposta

279 Referimos à parte de Mensagem intitulada “Aviso” e ao campo semântico que dá ao termo “avisados” o

sentido daqueles que receberam o aviso, portanto, a mensagem.

280 São “subpersonalidades”. Conforme referido anteriormente, é este o termo utilizado por Fernando Pessoa na

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