D. AGIR FACE AUX NOUVEAUX RISQUES
2. Le risque de chantage et de terrorisme
Esse foi um dos momentos mágicos da quadrilha, que apesar de poucos recursos cenográficos chamou a atenção do público. Não foi propriamente o passar da estrela sobre a casa de Pedro, que casou essa emoção, mas o modo como ela passou a ser representada, posteriormente. Após reluzir em tons de prata, a estrela, supostamente, transformou-se numa criança representada por um menino. Nesse momento, eu senti o impacto em que a cena causou no público, as pessoas apontavam para o menino admirando sua desenvoltura, assim como seus traços angelicais, passados por seus aspectos físicos e no seu tom da voz.
Depois deste momento, Pedro começou a interagir com os demais dançantes da quadrilha, que também eram supostos bonecos, perguntando se os mesmos tinham conhecimento sobre o local onde aconteceria a apresentação do teatro mamulengos, tudo isso, para localizar a desconhecida mamulenga.
Destacamos que o encontro de Pedro com os demais personagens do teatro, fez com que a vertente cômica começasse a ser explorada na trama, essa que é uma característica simbólica da quadrilha junina. Nesse sentido, lembramo-nos de dois momentos do teatro que era explorada, isto é, as vertentes da comédia que merecem destaque. Primeiro, quando se falava no nome dos outros personagens, a exemplo, Jovêncio, Ariovaldo, etc. E, a parte que tirava mais risos do público nas apresentações, era quando Pedro se direcionava para uma dançante, que representava uma boneca feia que, estando de costas, se virou para frente provocando um grande susto no futuro noivo.
A atitude tomada por Pedro fez com que a boneca saísse chorando. Mesmo assim, Pedro não desistiu da sua procura pela mamulenga, e continuava a trocar diálogos com os dançantes que participavam do teatro, quando, em sua exaustiva procura, o noivo acha o dono do teatro de mamulengos, só que, quando Pedro começa a falar sobre a mamulenga que ele queria se casar, o dono interrompe a sua mensagem, pois, naquele instante os mamulengos iriam iniciar a sua apresentação. Assim, os dançantes começavam a dançar as músicas coreografadas.
Ao ouvir as narrativas trazidas pelas vozes dos personagens durante o teatro, percebi que parte das palavras pertence à língua falada pelas pessoas que moram no interior do Nordeste, como: oxe, pia, vixe, armaria, as contrações da palavra está para tá, você para ocê e o uso de outras com tons sarcástico, como exemplo, tá lesando. Apesar dos desvios ortográficos apresentados, nas estruturas das palavras utilizadas nas falas dos personagens, foi possível perceber pela reação do público que existiu um processo de interação comunicativa entre o telespectador e o anunciante.
Nesse sentido, é evidente que a voz funciona como um instrumento de interlocução, para que aconteça esse processo comunicativo. Assim, de modo geral, a voz é um elemento que repassa o que sentimos e o que pensamos, além de ser considerada um instrumento que transmite e edifica o conhecimento. No caso das pessoas que assistiram a alguma apresentação da quadrilha e que não eram da nossa região, a partir das narrativas faladas pelos integrantes da quadrilha, passou a conhecer um pouco mais sobre nossa história, cultura, costumes e tradição, por exemplo.
Partindo dessa premissa, Zumthor (2011) esclarece que a voz não se constitui como um sinônimo de oralidade42, pois não significa que seja apenas uma sonorização daquilo que está escrito. Para o autor, a voz é algo complexo, visto que é carregada de história e sentimentos. Voltando para as narrativas da quadrilha, acreditamos que se os participantes apenas lessem o roteiro do texto e não colocassem suas emoções, suas experiências, seus medos ou nenhum sentimento, esse processo comunicativo não teria se constituído tão compreensivo da forma como foi vivenciado durante as apresentações.
Face ao exposto, pensamos que o processo comunicativo se dá porque a voz procede do corpo. Assim, Zumthor (2011) faz uma relação do corpo com a voz e, afirma que esses são elementos indissociáveis. Para o autor: “O tempo da poesia oral é, por assim dizer, corporalizado. É um tempo vivido no corpo” (ZUMTHOR, 2011, p. 89).
42 “[...] à palavra oralidade prefiro vocalidade. Vocalidade é a historicidade de uma voz: seu uso” (ZUMTHOR,
O entendimento desse aspecto, ressaltado pelo autor, faz algumas aproximações com a fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty, ao afirmar que as nossas experiências corporais, inclusive com a leitura, ao qual ele chama de experiências poéticas, formalizam uma linguagem sensível corpórea. Portanto, o aprofundamento dessas experiências corpóreas/poéticas nos oferecem contribuições para se pensar em um corpo estesiológico, diferenciado do corpo enquanto modelo quantitativo.
Pelo que entendemos, a busca pela linguagem poética, adquirida pelo corpo, no caso dos dançantes da quadrilha, irá subsidiá-los com características de seres dotados de mais atitudes de pensamentos e reflexões. Certamente, as experiências poéticas que causam a “vocalidade”, permitirão que os dançantes não atribuam sentido as coisas pelo achismo, mas que veja nos fenômenos do mundo uma funcionalidade simbólica significativa. Já os espectadores, além de observarem na performance dos dançantes, em suas falas, sentimentos e gestos corporais, o sentido simbólico das coisas que também foram verbalizadas durante a quadrilha, principalmente no teatro, poderão provocar uma incorporação de conteúdos educativos.
É por esse caminho de experiências estesiológicas, entre espectador e dançante, que continuaremos nossa discussão. E, é no instante que abrem se as cortinas, onde todos os dançantes que representavam os mamulengos estavam a postos para dançar, assim como podemos visualizar na foto 17. Os movimentos iniciais realizados pelos dançantes na primeira coreografia era de tirar o chapéu da cabeça em direção ao público. Esse movimento realizado na coreografia exprimia uma forma de respeito e reverência a todos ali presentes. Em complemento a isto, compreende-se que este momento se configurava como um convite para o público assistir ao espetáculo, pois além do que foi realizado na coreografia, a letra da música dizia: “vem meu amor, mamulengar na caravana da junina, difícil não se emocionar...”43.
Não tinha uma vez se quer, ao se abrir a cortina e começar a cantar essa música, para eu não me emocionar, assim como dizia a música. Nas apresentações, eu sentia que todos me olhavam, admiravam minha roupa, minha garra, meu jeito de dançar e cantar. Mas, mesmo emocionado, seguia firme para que eu não me descuidasse com nenhum detalhe na dança, como: tirar chapéu, colocar, girar, festejar, pois como estava posicionado a frente qualquer erro era visível.
43 A primeira música que a quadrilha CIA Junina Luar dançou, foi uma versão da música corações mamulengos,
Foto 17. Momento da abertura das cortinas