A realização de uma prática esportiva pode ser compreendi- da como uma manifestação corporal norteada por diversos influenciadores positivos e negativos, externos e internos ao nosso corpo. Especificamente na adolescência, encontramos uma fase de maior busca pela construção de identidade entre os sentidos e significados dados ao mundo, inclusive na prática esportiva. Encontramos também nessa fase, segundo Françoise Dolto (2004), uma preocupação maior com os julgamentos, pois cada julgamento tende a produzir efeito, inclusive os que são expressos por pessoas que não tem nenhuma credibilidade.
A partir de uma de nossas pesquisas intitulada “A adoles- cente e sua vida esportiva: o futsal em foco” (2013), encontra- mos interesse em aprofundar nossos estudos sobre temáticas relacionadas à dor e ao sacrifício humano dentro do esporte.
A pesquisa citada objetivava investigar os sentidos e significados que motivavam adolescentes do sexo feminino a participarem de equipes desportivas, em específico, o futsal. Trabalhamos com o acompanhamento de três treinos de uma equipe de futsal das meninas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), com faixa
etária de 15 a 19 anos, durante os meses de agosto a outubro de 2013, com realizações de entrevistas semiestruturadas coletivas após cada treino.
Por meio de uma análise de conteúdo seguindo os estu- dos de Bardin (2009), identificamos em nossas entrevistas que o foco principal das atletas não estava pautado no signi- ficado construído pela busca do profissionalismo dentro da modalidade. As entrevistadas demonstraram ter sempre em seus jogos, desejos de vitória. Mas em vez, de um caminho de profissionalização, o significado dado à prática aparece reformulado de maneira a centralizar uma visão da prática pela prática, do jogar porque principalmente se quer jogar.
Quanto aos sentidos que surgiram pelas meninas do futsal, estes foram agrupados em quatro categorias, a saber: no sentido do prazer de fazer o que se gosta, com quem se gosta e em estar junto buscando uma evolução; no sentido de saúde, em se sentir bem e alcançar um corpo belo; no sentido político de lutar por direitos igualitários e no sentido de ultrapassar seus limites revelando a dor e o sacrifício como influenciadores. Além disso, as entrevistadas apresentaram em suas respostas como sentidos construídos em seus imaginários, o sentimento do amor pelo futsal como motivador de permanência no espor- te, apesar das adversidades sociais que enfrentam.
A partir dessas considerações, o presente trabalho sele- cionou o sentido das atletas de “ultrapassar limites revelando a dor e o sacrifício como influenciadores” para realização de análises mais aprofundadas com o objetivo de investigar as dife- rentes formas de influência desses dois fatores na participação e continuidade das atletas dentro da prática.
Segundo Vandenberghe (2005), a dor faz parte do homem, é um elemento corporal integrante de um sistema primitivo de
fuga, que serve para o indivíduo escapar de eventos nocivos. Ela tem a função de preparar o organismo para cuidar e preve- nir lesões, assim como evitar possíveis infecções. A Associação Internacional de Estudos da Dor (IASP, 2014), apresenta como definição mais aceita sobre o significado de dor, a definição que considera a dor como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada a um dano real ou potencial de tecidos. Esta é sempre subjetiva, ou seja, cada indivíduo percebe e reco- nhece o que é e como é a dor a partir das vivências alcançadas individualmente e pode construir diversos sentidos sobre ela.
Sentida também como uma experiência encarada comu- mente como sensação desconfortável e até insuportável em casos específicos, a dor faz parte da história humana. Segundo a obra História do corpo, de Alain Corbin, Georges Vigarello e Jean Jacques Courtine (2008), a dor em diferentes períodos da nossa história aparece como tendenciosa a assustar, causar repulsa e até ser vista como vilã e destrutiva em diversos âmbitos sociais.
Contrariamente nesse sentido, no campo religioso, assim como no esportivo, a dor apresenta espaço para surgir como um fator necessário para se alcançar o objetivo central de muitas religiões, a santidade. Homens comuns se tornam heróis e santos a partir de vitórias alcançadas sobre a dor. E assim, o sacrifício surge no caminhar dos tempos não mais como um ato de amor à pátria, nem acompanhado de torturas humilhantes como na guerra, mas como um ato necessário para o engrande- cimento, tanto no campo religioso, como também no esportivo. A mulher, muitas vezes, coberta pela imagem de um sexo mais frágil que o homem, ao longo da história viveu e vive à margem, ainda carregada por muitos impedimentos quanto a realização de práticas sociais. Reclusas em suas casas, as mulhe- res recebiam unicamente as funções de esperar seus caçadores,
seus guerreiros e seus atletas voltarem para casa, cuidar da casa e criar novos homens (CORBIN; COURTINE; VIGARELLO, 2008).
Ao ingressarmos no campo esportivo, pensamentos sexis- tas de que a mulher não é capaz de suportar alguns esportes por precisarem conviver regularmente com a presença da dor em suas vivências causam maiores exclusões desse público no âmbito esportivo. Entre os argumentos antigos utilizados para a exclusão das mulheres, encontramos a “delicadeza” dos nervos e a constituição física menos favorecida, o que levava o esporte praticado por mulheres parecer indecente e impróprio para sua resistência (RÚBIO; SIMOES, 1999, p. 53).
A pesquisa sobre o “Posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte: atividade física e saúde na mulher”, publicada na Revista Brasileira de Medicina do Esporte em 2000, desmentem os argumentos que antes defendiam a incapacidade biológica da mulher em realizar práticas esporti- vas e supostos pontos negativos. Mas a dor e o sacrifício conti- nuam sendo relacionados apenas aos homens heróis, únicos julgados como capazes de encará-la e vencer, sendo apresenta- dos como um dos principais possíveis fatores para o receio e a falta de interesse de muitas mulheres na ausência de represen- tatividade em diversos esportes.