Todos os membros deste grupo têm alguma história de sofrimento social vivenciada dentro da IASD. Esse sofrimento agrupou estas pessoas para que pudessem compartilhar experiências de vida, fortalecer a autoconfiança e a autoestima pelo convívio. A partir desta comunidade, a percepção de dignidade, de necessidade de respeito e de reconhecimento pelos demais membros da igreja, como de outros núcleos sociais como a família e os amigos, é cultivada. A reunião destes homens gays não faz com que as violências acabem, mas sim com que o sofrimento não seja tão intenso a cada insulto recebido.
Enquanto observava a dinâmica do grupo, alguns membros publicavam experiências de sofrimento social principalmente por terem sua homossexualidade descoberta pela família ou igreja. Pelos diversos casos declarados, a homossexualidade é um fator que denigre a masculinidade e a dignidade de um homem perante a IASD, e que faz com que ocorra o distanciamento entre ele e a comunidade religiosa.
Algumas histórias têm a ver especificamente com a forma que os pastores lidaram com esta situação perante a igreja.
Numa publicação um participante pediu ajuda aos demais membros do grupo quanto a como ele deveria reagir a atitude do pastor de sua igreja por este ter levado o tema do pecado da homossexualidade ao púlpito num dos cultos da igreja, justamente numa época em que o participante estava se consultando com o pastor sobre seus conflitos sexuais. O participante sentiu que o pastor fez este sermão justamente para atacá-lo e para admoestá-lo publicamente, ainda que não falasse o nome dele.
Outro membro se sentiu extremamente rejeitado pelo próprio pastor quando, após seu casamento com outro homem, foi excluído da igreja e, ao voltar algumas vezes à mesma igreja de que foi excluído para assistir os cultos, foi
questionado pelo pastor e pelo primeiro ancião o porquê de ele voltar à igreja e ir aos cultos, sendo então aconselhado a ir a uma igreja de outro lugar, ainda que da mesma denominação, porque ela era mais inclusiva. O mesmo participante disse que levou em consideração a sugestão do pastor e hoje frequenta a outra igreja. No depoimento ele ressalta:
Levi: “O que me impressiona é que as pessoas da prefeitura, os policiais e
o delegado nos desejaram felicidades e estavam felizes por nós. Eu sei que até os juízes estavam felizes pela gente. Todas as outras pessoas [da igreja] ficaram decepcionadas comigo por estar me casando com um homem” – tradução minha
do inglês ao português.
Um membro do grupo também comentou sobre esta publicação com um depoimento:
Simeão: “Eu admiro a sua capacidade de adaptação e generosidade de
espírito. Eu tenho dificuldade em permanecer onde eu percebo que não sou bem- vindo. Durante anos eu lutava com esta questão. Finalmente, tive que sair porque eu acho que não pertencia mais a aquele lugar e acho que eu trazia dor para muitos dos meus amigos (ou ex-amigos, alunos e familiares)” – tradução minha do
inglês ao português.
Era frequente entre o grupo a queixa da ambiguidade percebida na igreja em ela discursar com relação ao amor ao próximo e agir de forma a afastar pessoas com sexualidades diferentes. Num depoimento, falando sobre como as palavras de aceitação da comunidade religiosa para as pessoas LGBT são diferentes das ações feitas a eles, um membro diz:
Dã: “Estas palavras podem parecer boas e até podem fazer sentido, mas
elas são tão ofensivas quanto aquelas que dizem que gays vão queimar no inferno” – tradução minha do inglês ao português.
Outro depoimento sobre tal ambiguidade surgiu posteriormente.
Naftali: “[...] O pregador disse que homossexualidade era o pecado
prevalente na América atualmente. Palavras muito fortes para um país que está lidando com violência incontrolada por arma de fogo, racismo, truculência policial, ganância corporativa, etc., etc., etc. Mas não, gays são o problema no país. Esses sermões foram particularmente difíceis de ouvir por acontecerem após um encontro em que as discussões que participei tiveram o tema de como a igreja
precisava ser mais acolhedora, receptiva e inclusiva. Obviamente nem todos entenderam essa mensagem” – tradução minha do inglês ao português.
Vários depoimentos demonstravam o quão desagradável era sentar nos bancos da igreja e ouvir que a homossexualidade era um pecado abominável e um sinal do fim dos tempos. Outros membros mais velhos do grupo ainda relatavam que em tempos passados o mal-estar e a opressão eram ainda maiores, sendo que a depressão e o suicídio eram resultados frequentes destes insultos.
Um membro de 84 anos de idade, que hoje participa do grupo como um homem gay, refere que percebia que seu próprio filho sofria de depressão porque também era homossexual. Relatou que este filho fugiu de casa e viveu na rua por sentir-se culpado. Após seu filho ter se suicidado num período de depressão profunda, este membro decidiu largar a mulher e os outros filhos e assumir sua homossexualidade, hoje sendo casado com um homem. Com relação a depressão, este membro refere:
José: “Pesquisas mostram que homens homossexuais têm uma maior taxa de perturbação mental que leva ao suicídio. Por experiência própria e observação pessoal, eu sei o preço” – tradução minha do inglês ao português.
Questões de conflitos familiares, como visto anteriormente, também foram citadas, principalmente com relação ao distanciamento causado por insultos e discussões contra o membro homossexual. Um dos depoimentos mostra este distanciamento.
Benjamim: “Está se tornando muito deprimente e afetando a minha
relação com o meu parceiro, a situação com minha família imediata. Não tenho ouvido deles nem tenho o desejo de falar com eles devido a minha decisão de assumir totalmente minha homossexualidade. Minha família nunca apoiou financeiramente a mim nem ao meu parceiro enquanto passamos por momentos turbulentos, pensando que eles poderiam estar estimulando a minha ‘vida gay’, pensando que eu sou preguiçoso e que não quero trabalhar. Quebra meu coração saber que nem mesmo o amor de Deus que eles recebem dentro da IASD faz com que eles queiram ajudar ou apoiar o seu próprio filho” – tradução minha do inglês
Frente a todas estas confrontações sociais, relacionar-se entre pessoas que são gays ou compreendem e aceitam a homossexualidade parece ser um oásis no meio do deserto. Um membro do grupo disse se sentir liberto quando está em meio a festas gays, com outros homens que são como ele porque finalmente pode ser compreendido, não julgado e respeitado em meio a tantas tribulações na sociedade.