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Nas últimas décadas, o número de pesquisas relacionando a homossexualidade, a religiosidade e as políticas públicas tem crescido, tanto para denunciar uma deficiência dos serviços públicos em lidar com as diversidades quanto no sentido de dar informações e apoio a criação de políticas públicas que consigam promover a saúde sexual considerando também a religiosidade como importante fator que influência os modos de vida da população.

Ocorre que grupos religiosos têm tentado impor suas moralidades frente ao estado laico. Dessa maneira procurar relativizar, a partir de situações empíricas, e demonstrar que o próprio conflito entre moralidades encontra-se no interior das religiões é uma forma de colocar em outras bases esse conflito entre religião e estado laico. Políticas públicas devem promover tanto o respeito às diversidades sexuais como às diversidades religiosas.

Santos (2010) discorre como membros da comunidade LGBT podem sofrer socialmente por causa de um sistema que em seus serviços privilegia e legitima somente a heterossexualidade a despeito das demais. Ele enumera os sentimentos ocorridos por esta comunidade, sendo estes o medo, a discriminação, as fobias, o ódio, a ojeriza, o pânico, a raiva, o receio, a rejeição, e a repugnância por terem sofrido abandono, agressividade, ameaças, chantagem, espancamentos e por terem passado por desemprego, evasão escolar e falta de moradia.

“Em matéria do entendimento das dinâmicas sociais vivenciadas por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, assim como de outras minorias, o aparelho estatal brasileiro apresenta um vácuo imenso de referências explícitas de possibilidades para a reversão das estruturais sociais de exclusão. Em outras palavras, o modelo de administração pública que estrutura os serviços ofertados aos cidadãos, implicitamente, vai discriminando: ou porque simplesmente omite a existência de sujeitos com diversas orientações sexuais ou identidades de gênero, ou porque opõe hierarquicamente homossexuais a heterossexuais.” (SANTOS, 2010, p. 151 e 152).

Um dos fatores que influenciam a manutenção desta exclusão social pode ser a forma como a religião é empregada na vida das pessoas que trabalham com este segmento.

“A religiosidade de usuários e trabalhadores do sistema público de saúde interfere nos cenários das práticas cotidianas deste sistema e nas políticas voltadas à saúde sexual e

reprodutiva. Tanto a dinâmica psicossocial da religiosidade como sua expressão política podem determinar o curso das decisões no planejamento de programas de saúde, sustentando seu papel como instância reguladora da sexualidade e da reprodução” (SILVA, PAIVA e PARKER, 2013, p. 104).

Por outro lado, a religiosidade é uma importante fonte de sociabilidade e lazer para jovens e adolescentes sendo ela campo para diversos aprendizados e experiências de vida significativas (SANTOS e MANDARINO, 2005).

Desta forma, há de se convir que a religiosidade pode agir de várias maneiras, tanto para o acolhimento quanto para a discriminação. Religiões cristãs tendem a ser mais rígidas que as de origem afrodescendente no que tange aos direitos sexuais (SILVA et al., 2008), gerando conflitos frente as tentativas laicas de políticas públicas inclusivas e educativas sobre o tema da diversidade sexual.

Estas tensões entre o discurso religioso e o discurso moderno de acolhimento e promoção da diversidade sexual e da diversidade de gênero fazem com que as pessoas religiosas tenham que se articular frente a suas tradições e à necessidade de conviver socialmente com as diferenças dos modos de vida da atualidade.

Segundo Silva et al. (2008) é esta articulação (que demonstra a autonomia do sujeito no campo da religiosidade) que possibilita a abertura de um espaço para a discussão entre as políticas públicas e as religiosidades no âmbito do direito à saúde sexual.

“Se valorizarmos o diálogo que o sujeito religioso articula entre os discursos sobre sexualidade que freqüentam seu cotidiano, buscando lidar com a tensão e o conflito entre tradição e modernidade no plano individual, no plano programático estaremos aprendendo o caminho para o diálogo com as comunidades das diferentes matrizes e suas concepções próprias de heteronomia moral religiosa. [...] Todos são, portanto, capazes de construir suas trajetórias de vida no campo da sexualidade interpretando e recriando distintos discursos reguladores de maneira autônoma e atualizada para o seu contexto sociocultural e político. Assim todos os brasileiros, independentemente de sua religião, devem ser considerados no planejamento de políticas públicas que promovem a saúde e os direitos sexuais” (SILVA et al., 2008, p. 661 e 692).

Silva, Paiva e Parker (2013) ao lidarem com a juventude religiosa e homossexualidade afirmam que qualquer política pública não pode reduzir jovens religiosos ao dogma, nem insistir em uma visão universal de juventude que perca de vista o sujeito plural, que varia seus arranjos relacionais de acordo com cada contexto. Para Rohden (2005) a garantia dos direitos sexuais demanda de um debate com os religiosos que considere a religião como lugar de pertencimento institucional ou como crença enquanto um sistema de valores compartilhados.

Esta possibilidade de articulação é exemplificada pelo auxílio da religiosidade frente as discriminações das próprias diversidades sexuais. Santos e Santos Fernandes (2009) demonstram que uma das estratégias encontradas para o enfrentamento da discriminação e o preconceito sexual entre pessoas de orientação sexual homoafetiva é justamente a busca da religiosidade, na procura de solucionar problemas e encontrar respostas nas crenças e práticas religiosas. Os autores referem que a religião

“é um fator singular na investigação dos mecanismos cognitivos de enfrentamento do preconceito sexual, exercendo um papel de refúgio diante da discriminação e provendo recursos para lidar com o estresse, não encontrados em seu repertório individual” (SANTOS e SANTOS FERNANDES , 2009, p. 115).

Pietrukowics (2001) também adiciona que a fé traz a esperança de dias melhores no futuro, ajudando a pessoa a enfrentar as experiências difíceis do dia a dia.

Um trabalho que consiga aprofundar o estudo no campo das masculinidades e da religião se torna, portanto, relevante às políticas públicas principalmente para fornecer informações ainda mais específicas sobre como homens com sexualidades dissidentes que são discriminados pela própria religião se sentem, se relacionam e concebem sua masculinidade.

É possível que surja o questionamento sobre a relevância de um trabalho que não analise necessariamente fatores determinantes para algumas disciplinas conhecidas da saúde pública como as estatísticas, as prevalências e os índices em que as políticas públicas de saúde e as práticas em saúde pública se fundamentam.

Da mesma forma, pode-se perguntar por que fazer uma investigação com um grupo tão específico, numa comunidade com princípios de vida e valores tão peculiares que em alguns aspectos se afastam muito dos modos de vida da maioria da população brasileira. Induções generalistas não seriam possíveis a partir deste estudo, já que a sociedade, a cultura e os ciclos de vida deste recorte populacional não representam a totalidade dos homens que vivem em ambientes conservadores e religiosos e que sofrem por suas condutas não heteronormativas.

Pois é a partir deste recorte específico que pode ser possível perceber como ainda existe uma parcela da população que é negligenciada pela sociedade,

que é pouco influenciada pelas políticas públicas de saúde e que tem seu sofrimento social diminuído ou ignorado.

É por esta invisibilidade social tão gritante, a ponto da comunidade ter que se manter num nível de anonimato e segredo em um grupo cibernético fechado por medo da discriminação e do repúdio social, que se justifica uma investigação etnográfica para descrever e demonstrar a dinâmica das relações de opressão e discriminação que ninguém questiona e que não é considerada como significativa numa comunidade conservadora.

Vê-se a legitimidade do registro detalhado e da descrição dos elos culturais religiosos de um grupo de pessoas para que novos enfoques sejam voltados às diferentes comunidades LGBT, utilizando as contribuições desta comunidade em questão, a fim de gerarem discussões que enfoquem possíveis novas formas de se reagir e viver frente a conflitos suscitados pela divergência de valores entre as instituições e as pessoas que as compõem, enriquecendo assim o debate entre sexualidade, sociedade e religiosidades.

Mostrar o que este grupo de homens concebe quanto a sua própria masculinidade é importante para somar este discurso aos demais; para que a diversidade das masculinidades consiga abranger, cada vez mais, origens distintas das diferentes formas de ser homem.

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