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50 2.7 RESSOURCE ENERGIE

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Sobre a base da sólida estrutura do império incaico – socialmente disciplinado no trabalho organizado – erigiu-se o sistema de dominação e exploração colonial (QUIJANO, 2000, VEGA, sf). Porém, no nível da ideologia do império cristão espanhol, se distinguiram duas repúblicas que deviam conviver num mútuo sustento: a república dos espanhóis e a república dos índios. A primeira república composta por peninsulares e os crioulos, filhos reconhecidos dos conquistadores bem sucedidos com mulheres nativas (ABELARDO, 1968), mantinha o domínio a partir da conduta desse povo, considerados reprodutores das autoridades do império na península ibérica. A segunda, composta pela chamada aristocracia indígena, em sua maioria descendente das castas governantes Incas que foram incorporados ao sistema colonial mantinha esses indígenas como funcionários em cargos de caciques encarregados da governança local, atuando como intermediários entre os nativos e a governança espanhola (ALAPERRINE-BOUYET, 2007).

Essa mediação da governança local indígena deu-se em questões de comunicação dado que como é assinalado por Fernandez- Mallat

os povos indígenas resistiram, de modo quase natural, as primeiras medidas assimilacionistas da coroa espanhola e mantiveram vivo o uso de suas línguas identitárias, particularmente dentro de suas comunidades, fazendo-as coexistir, por questões unicamente pragmáticas, com o uso do espanhol. Isto foi e é assim, ao menos para aqueles cuja consciência própria depende da

vitalidade de sua cultura89 (FERNANDEZ- MALLAT, 2010, p. 131)

Segundo a citação acima, as primeiras tentativas de uma castelhanização para o projeto evangelizador dos povos nos territórios conquistados foi infrutuoso dado que os povos conquistados não reconheciam suas particularidades culturais na língua. Foi assim, que “em beneficio da aculturação religiosa foi sacrificada a tentativa inicial de aculturação idiomática” (Ibidem), sendo que as línguas maioritárias da república dos índios, quéchua e aymara foram utilizadas como instrumento da dominação e de evangelização. Os conquistadores, frades católicos e também os fazendeiros na colônia se serviram dessas línguas com fins evangelizadores e também para direcionar a subordinação indígena (HERZFELD, 2008; SICHRA, 2008). Neste período, em consequência dessas políticas linguísticas, foram estabelecidas identidades em torno de uma língua e de um território comum para fins evangelizadores e fiscais e muitos grupos étnicos com suas línguas começaram a desaparecer (HERZFELD, 2008, FERNANDEZ-MALLAT, 2010)

A cristianização foi imperativa para legitimar juridicamente a guerra e a colonização. Segundo acordado na Inter Caetera, o domínio das terras descobertas era negociado de acordo com a evangelização dos chamados bárbaros nelas encontrados (ALAPERRINE-BOUYET, 2007/2013). Para tal projeto evangelizador colonial, as ordens católicas emitiram ordenanças sobre estudos descritivos das línguas originarias (FERNANDEZ-MALLAT, 2010); assim, as primeiras gramáticas começaram a ser construídas:

 Em 1560 se publica a primeira gramatica do quéchua “Arte de la lengua general de los índios de los reinos del Peru”, e o “Vocabulário de la lengua general do Perú”

 Entre 1584 se publica a “Doctrina Christiana, y catecismo para instrucción de los índios” texto trilíngue em aymara, quechua e espanhol e adjunto os documentos linguísticos “Anotaciones

89 Tradução minha. No original “Los pueblos indígenas resistieron, de modo casi natural, las medidas explícitamente asimilacionistas de la corona española y mantuvieron vivo o uso de sus lenguas identitárias, particularmente dentro de sus comunidades, haciéndolas coexistir, por cuestiones únicamente pragmáticas, con el uso del español. Esto fue y es así al menos para aquellos cuya consciencia propia depende de la vitalidad de su cultura” (FERNANDEZ- MALLAT, 2010, p.131)

generales de la lengua aymara”, e o “vocabulário breve de los vocablos que hay em esta doctrina por su Abecedario”90

Dado o insuficiente número de religiosos para evangelizar, a educação dos caciques se apresentava como a melhor opção. Para fins da coroa, educar os futuros caciques era conveniente para dois fins. Primeiro, para fins evangelizadores no uso da sua própria língua (quéchua ou aymara) e segundo, para fins de transformá-los em fiéis subservientes do poder colonial. Assim, através dessa educação, se pretendia dar mais leis que cultura. Sobre o ensino da gramática latina nestas escolas para caciques, existiu muito receio por parte dos nobres espanhóis, uma vez que outorgar este conhecimento aos caciques era uma questão política e significava o acesso deles ao conhecimento, ao pensamento racional, à universidade, podendo possibilitar a eles exercerem cargos de governo, antes exclusivos somente para os filhos dos nobres espanhóis (ALAPERRINE-BOUYET, 2007/2013).

Como já aventado acima, o acesso ao conhecimento era uma questão de poder na colônia. Os grupos governantes espanhóis intuíam que o conhecimento repercutiria nos governantes indígenas, e para evitar isso, eles conseguiram por meio da ação política, que a gramática latina como língua do conhecimento não fosse ensinada – ao menos, não oficialmente. Assim, o conhecimento ensinado nas escolas dos caciques se restringia as línguas castelhana, quéchua e aymara para as funções de evangelização e do bom governo da colônia, garantindo assim sua supremacia sobre a república dos índios. No entanto, o conhecimento local foi sendo denegrido. As elites religiosas incaicas foram sendo desconsideradas, silenciadas e perseguidas e as tradições, ritos e mitos foram sendo considerados idolatrias. As governanças indígenas foram perdendo a identificação com o povo, e passaram a procurar o reconhecimento como elite, procurando a equiparação de direitos com os nobres espanhóis através da educação.

Partindo da premissa estabelecida por Makoni e Pennycook, (2005) em que “as língua, concepções de linguicidade e as metalinguagens usados para descrevê-los são invenções [...] de movimentos sociais, culturais e políticos.”(p.1-2)91compreendo aqui que os primeiros estudos formais das línguas originárias quéchua e aymara

90 Universidad Católica Boliviana, Rev. Cinecia e Cultura n°27; diciembre, 2011.

91 Tradução minha. No original: “languages, conceptions of languageness and metalanguages used to describe them are inventions […] of social, cultural and political movements”(MAKONI; PENNYCOOK, 2005, p.1-2).

foram motivadas pelo desenvolvimento ideológico do “projeto “Cristão/colonial” (Ibid., p.1). Assim, as gramáticas das línguas nativas como construção social marcaram novas configurações identitárias, territoriais e formas de interpretar as relações sociais com fins de governo e controle colonial sobre a base de uma ideologia racial e eurocentrada. Segundo os autores, junto com a invenção colonial/eurocêntrica das línguas emergiu também uma ideologia linguística que entende as línguas como categorias separadas e contáveis; isto significou a essencialização de língua, cultura e identidade.

Após apresentar nessa seção como o processo de conquista e colonização no Peru construíram discursos ideológicos sobre os povos originários e suas línguas para fins de controle e justificar situações de exploração e dominação, a seguir apresento as novas orientações linguísticas em relação aos novos movimentos políticos que aconteceram no reino de Espanha.

3.2.3 A proibição das línguas gerais quéchua e aymara:

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