A partir da descrição das interrogativas com WH deslocado feita neste capítulo, vimos que apresentam de forma geral a ordem SV. Apesar disso, ainda persistem na língua algumas estruturas com a ordem VS, que precisam ser explicadas. Vimos também que as interrogativas WH deslocadas podem apresentar em sua estrutura um complementizador que ou a forma clivada é que, cuja presença torna o movimento WH obrigatório.
Vamos então examinar os dois problemas acima à luz de cada um dos quadros teóricos de Princípios & Parâmetros. Dentro da abordagem de Rizzi (1996), Mioto (1994) mostrou que o PB, apesar de não apresentar, de modo geral, movimento I para C, satisfaz o Critério WH através de concordância dinâmica.12 Vejamos agora de que maneira esta abordagem pode explicar os casos de inversão VS do PB comentados na seção 3.3 acima. Os casos de inversão sujeito-auxiliar, mostrados por Menuzzi (1993),
trazem problemas para a abordagem de Rizzi, já que parece que o PB não se comporta como uma língua V2 Residual. Um exemplo disso é que em PB pode haver, mesmo que marginalmente, inversão sujeito-auxiliar sem que haja necessariamente movimento WH, como mostram os exemplos em (15) acima, repetidos aqui em (39) abaixo:
(39) a. O Paulo teria feito o que numa situação destas? b. O que o Paulo teria feito numa situação destas? c. ?O que teria o Paulo feito numa situação destas? d. ?Teria o Paulo feito o que numa situação destas?
A partir dos exemplos acima, parece que podemos tirar duas conclusões. A primeira é que inversão VS é marginal em PB e a segunda é que parece não haver nesta língua movimento I para C, pelo menos não necessariamente, como afirma Menuzzi (1993).
Quanto à inversão VS com os verbos ser e estar, vimos na seção 3.3 acima que a análise de Kato (1993) de falsa inversão para estes casos parece não explicar de forma satisfatória o que acontece com estas estruturas, uma vez que perguntas como (40a) abaixo parecem não ser o mesmo caso de interrogativas como (40b). Entre essas duas estruturas parece haver pelo menos uma diferença entonacional que, não é absurdo supormos, se correlaciona a uma diferença estrutural:
(40) a. Onde eles estão, os meninos? b. Onde estão os meninos?
Além disso, a análise de Kato (1993) não explica adequadamente estruturas como aquela em (41) abaixo, em que o sujeito é pronominal:
(41) Onde foram eles?
De qualquer forma, a interrogativa em (41) acima, como também aquelas em (40), não parecem ser o resultado de movimento I para C, já que admitem a inserção de
(42) a. Onde eles estão, os meninos? b. Onde estão os meninos? c. Onde foram eles?
Se no PB o verbo não ocupa C nem nos casos de inversão VS, parece que nesta língua o Critério WH é satisfeito sempre via concordância dinâmica. No entanto, é de se observar que seria preciso dizer onde está o sujeito nestas estruturas invertidas. Se ele está em Spec VP seria preciso saber como recebe caso nesta posição, problema que se coloca também para os casos de inversão VS em declarativas.
Para a análise das interrogativas WH do PB, vamos ver como funcionaria a análise de NHG (2001), comentada no capítulo 2 desta tese, segundo a qual uma interrogativa com WH deslocado apresenta um C0 marcado com o traço [WH] forte, o que força o movimento do sintagma WH para Spec CP interrogativo em sintaxe visível, já que traços fortes devem ser eliminados antes de Spell-Out. Estando o sintagma WH em Spec CP, seu traço [WH] entra em relação de checagem com o traço forte do núcleo C0.
Quanto ao movimento I para C, podemos dizer, a partir da abordagem minimalista, que não há inversão VS nas interrogativas WH do PB porque elas não apresentam traço V forte em C que obrigue o alçamento do verbo finito em sintaxe visível.13 Portanto, os traços V de C do PB podem esperar até LF para serem checados, sem violar, pois, Procrastinar. Contudo, esta análise também enfrenta problemas com os casos de inversão VS, os quais carecem de explicação, como a questão da posição que o sujieto destas estruturas ocupa e maneira como recebe caso.
Uma análise para os casos de inversão VS do PB seria a de traços V fortes, os quais forçam o movimento do verbo (ou do auxiliar) para C. Esta opção, entretanto, enfrenta vários problemas, dentre eles o fato de termos que explicar por que em alguns casos o PB apresenta traços V fortes, mas não na maioria das interrogativas com WH deslocado. Além disso, como notam Menuzzi (1993) e Kato (1993), parece que inversão em PB não é movimento I para C, o que descarta tal hipótese.
Dado que assumimos que estruturas [WH que] e estruturas [WH é que] não são equivalentes (cf. Mioto & Figueiredo Silva, 1995; Mioto, 1996), seria esperado que tais estruturas fossem obtidas por caminhos diferentes.
No sistema de Rizzi (1996), as estruturas do tipo [WH que] satisfazem o Critério WH se admitimos que que preenche C, dotando este núcleo com o traço +WH. Desta forma, verifica-se a configuração Spec-Núcleo, do Critério WH.14 No caso das estruturas [WH é que], apesar de Mioto (1994, 1996) não mencionar de que forma tais estruturas se submetem ao Critério WH, podemos supor que tais estruturas se submetem a este critério através de concordância dinâmica, se assumimos para elas a representação em (31) acima.
Note ainda que, assumindo as diferentes estruturas propostas por Mioto & Figueiredo Silva (1995) para estas construções, o sistema de Rizzi (1996) faz uma distinção nítida entre [WH que] e [WH é que], já que dá conta da diferença entre as sentenças de (37) acima, repetidas aqui em (43):15
(43) a. *O que afinal que o Pedro viu? b. O que afinal é que o Pedro viu? c. O que é afinal que o Pedro viu?
Como [WH que], em (G17a), é a configuração Spec-núcleo requerida pelo Critério WH, nenhum elemento pode interromper a adjacência entre o sintagma WH e o complementizador, já que o primeiro está no Spec CP e o outro no núcleo de CP. Por outro lado, como não há tal configuração na construção [WH é que], neste caso o Critério WH é satisfeito por concordância dinâmica e assim é possível que um elemento como afinal intervenha entre o WH e é que. Somado a isso, note que na pergunta em (44) abaixo, mesmo que marginalmente, é possível preencher o núcleo de CP com que:
(44) ?O que que afinal é que o Pedro viu?
A sentença em (44) acima satifaz o Critério WH no CP mais alto da estrutura:
que ocupa C e o sintagma WH o que ocupa Spec CP, formando a configuração Spec-
núcleo requerida por tal critério. Resta explicar, contudo, a inserção de é que na estrutura, o que talvez seja um recurso de ênfase. Este talvez seja o caso também de uma sentença como (45a) abaixo. Já (45c) e (45d) são excluídas pelo Critério WH, porque há
um que em C, sem que haja nenhum elemento em Spec CP. Em outras palavras, o núcleo de CP carrega um traço WH , mas não há elemento em Spec CP pára entrar em relação com ele e formar, assim, a configuração Spec-núcleo. (45b) é o mesmo caso de (44):
(45) a. ?O que é que é que você está fazendo? b. O que que é que você está fazendo? c. *O que que que você está fazendo? d. *O que é que que você está fazendo?
O problema de todas as sentenças em (45), contudo, é postular recursão de CP ou algo semelhante, já que que deve se restringir a uma recursão só e no segundo CP só é permitida é que.
Vejamos agora como a abordagem de força do traço lida com estes fatos. No caso das interrogativas WH deslocadas com o complementizador que, NHG assumem que o movimento WH é obrigatório porque o complementizador que apresenta traço forte, requerendo, portanto, que o sintagma WH se mova para Spec CP, a fim de que seu traço entre em relação de checagem com o traço forte de C. No caso das interrogativas com é que, o movimento WH é obrigatório porque o núcleo de CP apresenta traço forte. Note, contudo, que é preciso sugerir a existência de um pro expletivo na numeração, por conta do EPP (Extended Projection Principle – Princípio da Projeção Estendida).
A diferença, então, entre [WH que] e [WH é que] é que na primeira estrutura o movimento WH é acionado porque o núcleo de CP está ocupado com um elemento com traço WH forte. Na segunda estrutura o movimento WH é acionado porque C carrega traço WH forte.