Para Shi (1994), sintagmas WH do chinês não se movem em LF e são tratados como variáveis ligadas por um operador Question (Q) que marca o escopo dos sintagmas WH em seu domínio. A evidência para a ausência de movimento de WH in
situ do chinês em LF é dada por alguns dialetos desta língua que não apresentam a
assimetria argumento/adjunto de Huang (1982:525-6). Segundo este autor, há uma distinção entre as propriedades de escopo de elementos WH argumentos e elementos WH adjuntos no chinês, como mostra o contraste entre (30) e (31):
(30) Ni xiangzhidao [shei mai le shenmo]? /você quer saber quem comprou o quê/ (31) Ni xiangzhidao [shei weishenmo mai shu]?
/você quer saber quem por que comprou livros/
Segundo Huang (1982), a interrogativa em (30) permite duas leituras, em que ‘quem’ ou ‘o que’ podem ter escopo amplo, como mostra (32), enquanto a pergunta em (31) só permite a interpretação na qual ‘quem’ tem escopo amplo, com em (33):
(32) a. O que é a coisa x tal que você quer saber quem comprou x. b. Quem é a pessoa x tal que você quer saber o que x comprou.
(33) Quem é a pessoa x tal que você quer saber por que x comprou livros.
Segundo Huang (1982), o traço deixado pelo alçamento em LF dos sintagmas WH deve ser propriamente regido a fim de satisfazer o ECP. Como um NP objeto é regido lexicalmente pelo verbo e um NP sujeito é regido por I14, os traços deixados pelo alçamento de ‘quem’ e ‘o que’ satisfazem o ECP. Por isso, estes sintagmas WH podem tomar escopo matriz e serem movidos para fora da ilha WH. No caso de um adjunto como ‘por que’, este não é regido pelo verbo ou por I. Assim, quando este sintagma é alçado, seu vestígio tem que ser regido pelo antecedente. Na configuração em (33), o vestígio só pode ser regido por seu antecedente dentro do Comp encaixado, mas não no Comp matriz; por isso, adjuntos como ‘por que’ só podem tomar escopo encaixado.
Esta assimetria, segundo Shi (1994), não existe em alguns dialetos do chinês, nos quais um elemento WH adjunto se comporta da mesma maneira que elementos WH argumentos, ambos podendo ter escopo matriz.15
O autor assume a análise de Baker (1970)16, desenvolvida por Aoun & Li (1990)17, segundo a qual cada interrogativa, direta ou indireta, é gerada com um morfema QUESTION (Q) dentro do seu nó INFL.18 Este morfema funciona como um operador e vincula elementos WH. O escopo de um elemento WH é determinado pelo morfema Q que o vincula.
Assim, para uma interpretação de interrogativa direta, o elemento WH deve estar vinculado ao Q matriz, pois terá escopo matriz; para uma leitura de interrogativa
14 Huang (1982) assume que I no chinês é lexical. Já Shi (1994) assume em sua análise que I é não
lexical.
15 Xu (1990) contesta em parte a assimetria de Huang, mostrando que o sintagma WH weishenme (por
que) do chinês, dependendo da forma como é pronunciado, apresenta um comportamento diferente de outros elementos WH adjuntos: ele não pode ser usado em pergunta-eco, não pode ser interpretado como um advérbio indefinido (os demais sintagmas WH desta língua podem) e não pode tomar escopo matriz em certas estruturas de ilha. Xu mostra que se o sintagma WH weishenme for pronunciado WEIshenme, então ele é correlato de por que no PB. Mas se ele é pronunciado weiSHENME, ele significa por que
razão. Assim, uma interrogativa WH múltipla do chinês como em (i) abaixo só é gramatical se
pronunciamos weiSHENME e não WEIshenme. (i) Shui weishenme bu canjia wuhui?
/quem não compareceu à festa *por que/ por que razão/
Observe, contudo, que weiSHENME parece poder ser analisado como um sintagma WH D-linked, que sempre tem um efeito de amelhoramento sobre a sentença quando é ele que está in situ em sintaxe visível, como bem mostrou Pesetsky (1987) , se comparado a um sintagma WH não-D-linked como WEIshenme.
16 Citado por Shi (1994). 17 Citado por Shi (1994).
18 Shi (1994: 312, nota 7) não discute a possibilidade de o morfema Q ser gerado em C, pois isso, segundo
o autor, não tem conseqüências teóricas significativas para a análise apresentada por ele. Gerar o morfema que em C traz certas vantagens técnicas para sua análise de interrogativas WH, mas desvantagens para sua análise de perguntas A-não-A.
indireta, ele deve estar ligado ao Q encaixado para ter escopo encaixado. Esta assunção requer uma explicação alternativa para a satisfação das restrições selecionais dos verbos.
Um verbo como wen (perguntar) requer que seu CP complemento seja [+WH], enquanto um verbo como xiangxin (acreditar) requer um CP complemento [-WH]. Em Chomsky (1976), as restrições selecionais dos verbos de línguas como o inglês são satisfeitas na sintaxe com o movimento de algum elemento que possua o valor do traço correto; por outro lado, em línguas como o chinês, essas mesmas restrições são satisfeitas em LF, também por movimento.
Uma vez que na análise de Shi o WH in situ não se move de forma encoberta, é adotado, então, que a restrição selecional relevante de um verbo é satisfeita quando sua sentença complemento tem o valor correto do traço [Q]. A restrição selecional é entendida agora como a relação entre o verbo matriz e o núcleo de sua sentença complemento.
Como o morfema Q é gerado dentro de INFL, é necessário assumir que Q pode ser alçado para o nó CP em algum estágio para prover CP com o traço [+Q] e satisfazer as restrições selecionais do verbo. Elementos WH em chinês têm que ser licenciados pelo morfema Q para funcionarem como sintagmas interrogativos e não produzirem, por exemplo, leituras de quantificadores universais ou itens de polaridade negativa.19 Shi assume que eles funcionam como palavras WH somente quando são licenciados por um morfema Q.
A relação entre um morfema Q e um elemento WH é de ligação e o primeiro pode licenciar qualquer número de elementos WH em seu domínio por c-comando. Barreiras e Condição de Subjacência não afetam essa relação. Todos os WH, em qualquer posição, se comportam da mesma maneira. ECP não se aplica, pois não há movimento de palavras WH e a assimetria argumento/adjunto não é esperada.
Em sentenças com o verbo wen (perguntar) em (34) abaixo, o morfema Q deve ser gerado dentro da sentença complemento para prover o traço [+Q] selecionado pelo verbo. Quando o operador Q sobe do núcleo de IP para o núcleo do CP encaixado, ele c- comanda todos os constituintes dominados por esse CP. Como a Condição de Subjacência e o ECP são irrelevantes, não há problema se o elemento WH é um adjunto ou se está encaixado em uma ilha:
(34) Ta wen [[[ ni zenmo chu] de chehuo] zui yanghong].
/ele perguntou me o acidente você teve de que maneira é o mais sério/
No caso de um elemento WH gerado em uma sentença sem um verbo que requeira um complemento [+Q], o WH se vinculará obrigatoriamente ao operador Q matriz, produzindo uma leitura de interrogativa WH direta matriz, mesmo que esteja dentro de uma ilha, como com weishenmo (por que) em um complexo NP em (35) abaixo:
(35) Ni renwei [[ta weishenmo cizhi] de shuofa] bijiao kekau ne ? /você acha ele por que assinou DE requerimento mais seguro QU/
Interrogativas do chinês são usualmente marcadas por um morfema especial que aparece em posição final de sentença, tal como o marcador ma de interrogativas Y/N e o marcador ne de interrogativas WH. No japonês e no coreano existe um marcador obrigatório para interrogativas não-eco.
Se é assumido que movimento WH e o uso de marcadores interrogativos são caminhos equivalentes nas línguas para marcar visivelmente uma interrogativa, então a análise apresentada por Shi pode ser adaptada para o inglês. De modo geral, elementos WH de línguas como o inglês são movidos em sintaxe visível para marcar uma interrogativa direta ou indireta. Eles podem ser movidos para Spec CP e c-comandar a sentença sobre a qual eles têm escopo. Estendendo a análise de Shi para o inglês, os sintagmas WH desta língua passam a ser considerados variáveis ligadas por um operador Q. Assim, o escopo de sintagmas WH movidos ou in situ é determinado pelo operador Q que os vincula.
Um dos problemas em assumir a análise de Shi (1994) para o PB é o mesmo mostrado em relação à abordagem de Aoun & Li (1993), isto é, WH in situ de línguas como o chinês e o PB parecem não ter as mesmas propriedades, uma vez que os sintagmas WH do PB não parecem poder ser considerados itens de polaridade.
Além disso, note que as sentenças em (34) e (35) acima são agramaticais em PB, como mostra (36) abaixo:
(36) a. *O acidente que você teve como/de que maneira foi o mais sério? b. *O requerimento que ele assinou por que é mais seguro?
Ademais, se a sentença em (36a) torna-se melhor se for construída com um argumento, como mostra (37) abaixo, o que evidencia a distinção argumento/adjunto:
(37) ?O acidente que você machucou que pessoa foi o mais sério?
As sentenças (34)-(35) do chinês de um lado e as sentenças (36)-(37) do PB de outro parecem mostrar, pois, que os sintagmas WH in situ destas línguas não apresentam o mesmo comportamento. Ainda seria preciso mostrar, entretanto, que WH
in situ em PB comporta-se de fato de maneira diferente de WH in situ em chinês.
Além disso, o PB apresenta a assimetria mostrada por Huang (1982) entre argumentos e adjuntos, como mostra (38) e (39). Veja que o adjunto em (39b) não pode ser alçado para fora da ilha WH, ou seja, não pode ter escopo encaixado:
(38) a. Quem você quer saber o que comprou? b. O que você quer saber quem comprou?
(39) a. Quem você quer saber por que comprou livros? b. * Por que você quer saber quem comprou livros?
Um outro problema é assumir que movimento WH e o uso de marcadores de pergunta são caminhos equivalentes para marcar uma interrogativa abertamente, uma vez que existem línguas como o PB em que tanto há movimento WH quanto WH in
situ, sem que esteja presente, neste último caso, nenhum marcador interrogativo.