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Segundo Aoun & Li (1993), WH in situ em línguas como o inglês e o chinês não precisam ser alçados para Spec CP em LF, pois são coindexados e interpretados por um operador de pergunta (operador QU) que é alçado em SS para um Spec CP apropriado. Desta forma, o escopo de um WH in situ é determinado por referência ao operador QU com o qual ele está coindexado.

Uma evidência de que WH in situ não se move em LF, conforme Aoun & Li, é dada através da interação destes com advérbios como only (somente). O seguinte princípio (Tancredi, 1990)8 codifica as restrições de uso deste advérbio:

(17) Princípio da Associação Lexical (PLA – Principle of Lexical Association) Um operador como only (somente) deve ser associado com um constituinte lexical em seu domínio de c-comando.

Segundo os autores, o advérbio only em (18a) abaixo pode, por exemplo, estar associado com um verbo (ou um sintagma verbal) ou com um objeto pós-verbal, produzindo duas leituras diferentes, como em (18b) e (18c), respectivamente:

(18) a. He only likes Mary. ‘Ele só gosta da Mary’

b. Ele só gosta da Mary ( ele não a ama). c. Ele só gosta da Mary ( ele não gosta da Sue).

Aoun & Li advertem que, para o propósito da análise deles, é relevante mostrar que o objeto pós-verbal associado a only não pode passar por movimento visível; ou seja, ele não pode ser topicalizado (19a) e nem movido (no caso de ser um sintagma WH) para Spec CP (19b):

(19) a. * Maryi, he only likes xi. /(da) Mary, ele só gosta/ b. *Whoi does he only like xi?

/(de) quem ele só gosta/

Observe agora a interação de only com um elemento WH in situ (what) supostamentesujeito a movimento em LF na interrogativa em (20) abaixo. Repare que sentenças envolvendo WH in situ associadas com only são aceitáveis:

(20) a. Who only likes what? [inglês] ‘Quem só gosta do quê?’

b. Ta zhi xihuan shei? [chinês] /ele só gosta quem/

‘Ele só gosta de quem?’

A gramaticalidade das interrogativas em (20) é problemática se o WH in situ se move para Spec CP em vista do que vimos em (19), pois tal movimento cruza only e, portanto, viola PLA. Tendo em mente PLA, parece haver duas maneiras de explicar a aceitabilidade das sentenças em (20) acima. A primeira é assumir que o princípio (17) se aplica em SS, mas não em LF. Aoun & Li advertem, entretanto, que não é possível manter esta assunção em vista do seguinte contraste:

(21) a. Someone loves every boy in the room. [ambígua] ‘Alguém ama todos os meninos no quarto’

b. Someone only loves every boy in the room. [não ambígua] ‘Alguém só ama todos os meninos no quarto’

(ao invés de todo mundo no quarto, meninos e meninas)

May (1985)e Aoun & Li (1993) geram o escopo amplo de (21a) adjungindo o objeto QP a IP, como mostra (22) abaixo:

(22) [IP every boy in the roomi [IP someone loves xi ]]

A não ambigüidade de (21b) pode ser explicada se PLA se aplica em LF, pois neste caso o objeto QP não cruza o advérbio only nem permanece associado ao sujeito QP em seu domínio de c-comando.

Assumindo que PLA se aplica em SS e em LF, não há problemas, segundo Aoun & Li, para explicar a aceitabilidade de interrogativas como (20) acima. Se o WH in situ não é movido em LF, PLA não é violado. Além disso, a interação entre PLA e WH in

situ constitui evidência de que WH in situ não precisa ser alçado em LF para Spec CP.

Línguas como o chinês e o japonês apresentam um marcador interrogativo aberto. Um marcador interrogativo é, segundo Aoun & Li, uma categoria X0 que ocorre no núcleo de Comp em SS (posição final de sentença em línguas núcleo-final). Os autores sugerem que ele é gerado pelo mecanismo de concordância Spec-núcleo. Segundo Aoun & Li (1993:211), a presença de um operador em Spec CP em algumas línguas (irlandês, entre outras) aciona a ocorrência de um marcador de concordância em Comp.

A partir dessa idéia, os autores postulam a existência de um operador QU não aberto, que se move para uma posição Spec CP apropriada e aciona concordância Spec- Núcleo. Assim, existirá um operador QU abstrato nos casos onde um marcador QU aberto não estiver presente.9

Dentro desta análise, os elementos WH do chinês (que permanecem sempre in

situ) não podem figurar como operadores interrogativos, pois os dois operadores – o

WH e o QU – poderiam ligar a mesma variável. Para resolver a questão do estatuto do WH in situ em chinês, os autores afirmam (baseados em Li, 1992)10 que estes não são operadores, mas sim um tipo de item de polaridade.

Conforme Aoun & Li (1993), uma das evidências dadas por Li (1992)11 de que WH in situ em chinês é um item de polaridade e não um operador é o fato de que, diferente de línguas como o inglês, elementos WH nesta língua podem ser construídos ou com palavras interrogativas ou com elementos indefinidos não interrogativos (‘todo, algum’):

9 Segundo Aoun & Li (1993:212, nota 10), a hipótese da existência de um operador de pergunta está de

acordo com várias propostas da literatura sobre o assunto, tais como Katz & Fodor (1964), Baker (1970) e Pesetsky (1987), entre outros.

10 Citado por Aoun & Li (1993). 11 Citado por Aoun & Li (2993).

(23) a. Ta yimwei wo xihuan shenme? /ele acha eu gosto do que/ 'Do que ele acha que eu gosto?' b. Ta yimwei wo xihuan shenme. /ele acha eu gosto de algo/ 'Ele acha que eu gosto de algo'

Este fato indica para estes autores que elementos WH do chinês não são intrinsecamente operadores. Além disso, elementos WH indefinidos desta língua se comportam de maneira semelhante a itens de polaridade negativa podendo ocorrer, por exemplo, em interrogativas Y/N, como mostra o exemplo abaixo:

(24) Shei/Shenme ren xihuan ta ma? /quem /que pessoa gosta dele QU/ ‘Alguém gosta dele?

A determinação do escopo de um WH in situ é feita, então, por referência ao operador QU com o qual ele está coindexado. Desta forma, na interrogativa do chinês em (25) abaixo, o WH in situ está coindexado com o QU matriz e é interpretado como tendo escopo matriz:

(25) [CP Qui [IP Zhang shuo [CP Li maile shenmei ]]]? /Zhang disse Li comprou o que/

‘Zhang disse que Li comprou o quê?’

Aoun & Li assumem que a geração de um operador QU envolve movimento, já que a distribuição deste é sensível a ilhas (cf. Aoun & Li, 1993:219-24). Pode-se assumir a existência de uma projeção de pergunta na sentença cuja posição de Spec é preenchida pelo operador QU, como se observa na (26) abaixo:12

12 A existência desta projeção de pergunta está baseada nas idéias de Chomsky (1986, 1991), Pollock

(26) CP

2

Spec C’

2

C IP

5

...XP...

2

Spec X’

2

X VP

5

...WH...

Se XP em (26) acima for [+QU, +WH]13, será gerada um interrogativa [+WH] e o operador QU pode ocorrer em uma posição Spec desta projeção e, então, se mover em SS para Spec C. Na abordagem de Aoun & Li não há necessidade, pois, de movimento do WH in situ em nenhum dos níveis: SS ou LF.

Em suma, na abordagem de Aoun & Li (1993) o sintagma WH in situ não passa por movimento nem em SS nem em LF. O que se move é um operador QU abstrato em SS a fim de determinar o escopo do elemento WH in situ. Havendo um operador abstrato na sentença, os autores sugerem que os elementos WH do chinês não figuram como operadores, mas sim como itens de polaridade.

Uma contra-evidência ao tratamento dado por Aoun & Li (1993) para os sintagmas WH do chinês é encontrada em Cole & Hermon (1994:260). Os autores mostram que em línguas Quechua os elementos WH também podem ser usados como formas não interrogativas, como mostram os exemplos (27a) do Ancash Quechua e (27b) do Ibabura Quechua:

(27) a. Ima-pis aqrakashqa. [Ancash quechua] /o que ainda está perdido/

‘Alguma coisa está perdida’

b. Pi-pash shamurka. [Ibabura quechua]

13 Se o XP for [+QU, -WH] em (26), será gerada uma interrogativa Y/N. [-QU, -WH] produz sentenças

/quem ainda vem/ ‘Alguém vem'

Segundo Cole & Hermon (1994), Ancash quechua é uma língua que apresenta WH in situ, mas Ibabura quechua não possui interrogativas com WH in situ. Portanto, o uso de sintagmas WH como formas não interrogativas pode ser uma condição necessária mas não suficiente para que tratemos sintagmas WH como variáveis coindexadas com operadores QU.

Além disso, o fato de uma determinada língua ter dois elementos com a mesma forma não significa necessariamente que eles sejam o mesmo elemento. No PB, por exemplo, as palavras ditas sintagmas WH podem aparecer em outras estruturas (que não são interrogativas WH). Observe:

(28) a. Maria se sentiu aliviada quando acabou a tese. b. Maria se sentiu aliviada porque acabou a tese.

Nos termos da gramática tradicional, quando na sentença em (28a) acima é uma conjunção introduzindo uma oração subordinada adverbial temporal, enquanto a conjunção porque em (28b) introduz uma oração subordinada adverbial causal. Repare ainda que no caso de porque, a conjunção não apresenta sequer a mesma grafia do por

que sintagma WH. Apesar de sintagmas WH serem homófonos a conjunções em PB,

como no caso de quando e porque, eles não são o mesmo elemento, já que não possuem as mesmas propriedades. Se transformarmos as sentenças acima em sentenças interrogativas, por exemplo, o que teremos é uma pergunta Y/N e não uma WH, como mostra (29) abaixo:

(29) a. Maria se sentiu aliviada quando acabou a tese? b. Maria se sentiu aliviada porque acabou a tese?

Note que as interrogativas em (29) pode receber respostas com o verbo finito se

sentir ou ainda com a cópula É, não sendo possível dar uma resposta a quando ou porque, já que não figuram como sintagmas WH.

Estes fatos do PB poderiam indicar uma maneira de tratar também os elementos WH do chinês: quando eles aparecem em outras construções que não são interrogativas

WH, eles poderiam não estar figurando como sintagmas WH, apresentando outra função sintática. Todavia, não temos evidências da língua suficientes para comprovar esse tipo de suposição.

A partir do que foi exposto até aqui e supondo que a abordagem de Aoun & Li (1993) para os sintagmas WH do chinês esteja correta, não parece possível estendê-la para o PB, já que os sintagmas WH desta língua parecem não apresentar as mesmas propriedades dos elementos WH do chinês. Como conseqüência, não parece possível considerar os sintagma WH do PB como itens de polaridade, embora saibamos que evidência morfológica não é de todo confiável. Se os sintagmas WH do PB não podem ser tratados como variáveis ao estilo Aoun & Li (1993), uma das possibilidades é pensar que eles são de fato operadores concorrendo com o operador WH nulo da sentença.