A procedência da ideia de racionalidade instrumental atrela-se, no plano filosófico, ao longo processo histórico que configura o solapamento das formas precedentes de racionalidade características da Idade Média e da Renascença. Como frisa Marilena Chauí (2002, p.83), não se trata de um processo estanque, uma vez que ―cada nova forma de racionalidade é a vitória sobre os conflitos das formas anteriores, sem que haja ruptura histórica entre elas‖. Nesse sentido, a ideia de uma racionalidade típica da sociedade moderna tem sua emergência vinculada ao desenvolvimento técnico-científico que marca o século XIX, culminando, consequentemente, na disseminação da necessidade de um acesso racional à natureza e ao próprio homem.
Entretanto, o panorama histórico de profundas contradições, guerras e tragédias que caracteriza o século XX, bem como a emergência da ideia de escassez que decorre do uso desenfreado dos recursos naturais, coloca em xeque toda a dimensão racional oriunda das descobertas técnico-científicas. É neste cenário que os pensadores alemães Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Max Horkheimer, expoentes da chamada Escola de Frankfurt, cunham a expressão ―racionalidade instrumental‖ para criticar o afloramento de um padrão de ―instrumentalização da razão‖ ligado ao desenvolvimento capitalista. Para os frankfurtianos, conforme ressalta Chauí (2002, p.50), o caráter operacional dado à razão diferencia-se consideravelmente do modelo de racionalidade denominado por eles de ―crítico‖, ou seja, da forma de racionalidade responsável por ―analisar e interpretar os perigos do pensamento instrumental‖ e por demonstrar que possíveis mudanças somente se realizarão ―se tiverem como finalidade a emancipação do gênero humano e não as ideias de controle e domínio técnico-científico sobre a natureza, a sociedade e a cultura‖.
No prefácio de Dialética do esclarecimento, obra crítica redigida durante a Segunda Guerra Mundial, Adorno & Horkheimer (1985, p.13) abordam o assunto ao alertar para o fato de que o ―pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isso, também sua relação com a verdade‖. Além disso, destacam os teóricos alemães, o processo de instrumentalização da razão acaba por reforçar uma tendência formal pela qual os próprios indivíduos desaparecem frente ao ―aparelho‖ a que passam a servir:
A naturalização dos homens hoje em dia não é dissociável do progresso social. O aumento da produtividade econômica, que por um lado produz as condições para um mundo mais justo, confere por outro lado ao aparelho técnico e aos grupos sociais que o controlam uma superioridade imensa sobre o resto da população. O indivíduo vê-se completamente anulado em face dos poderes econômicos. Ao mesmo tempo, estes
elevam o poder da sociedade sobre a natureza a um nível jamais imaginado. Desaparecendo diante do aparelho a que serve, o indivíduo vê-se, ao mesmo tempo, melhor do que nunca provido por ele. Numa situação injusta, a impotência e a dirigibilidade da massa aumentam com a quantidade de bens a ela destinados. (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 14).
A posição crítica dos pensadores da Escola de Frankfurt volta-se, portanto, a um processo de transformação orquestrado pela racionalidade instrumental – problemática pela qual o desenvolvimento científico ―deixa de ser uma forma de acesso aos conhecimentos verdadeiros para tornar-se um instrumento de dominação, poder e exploração‖ (CHAUÍ, 2002, p.283). Assim, segundo adverte Chauí (2002, p.284), a concepção de uma racionalidade voltada ao caráter instrumental da vida cunhada pelos teóricos alemães se faz apropriada à compreensão de pelo menos três aspectos da sociedade moderna: a) o processo de transformação da ciência em ideologia e mito social; b) O não-descolamento dessas duas noções, uma vez que a ideologia da ciência não se reduz à transformação de uma teoria científica em ideologia, mas encontra-se em sua própria essência; e c) o reconhecimento de que as ideias de progresso técnico e neutralidade científica pertencem ao campo da ideologia cientificista. Consiste, em última análise, conforme reconhecem Adorno & Horkheimer (1985, p. 23), numa contraditória sistemática pela qual a própria produção social de mitos acaba por ser, em essência, produto da racionalização:
O mito converte-se em esclarecimento, e a natureza em mera objetividade. O preço que os homens pagam pelo aumento de seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem o poder. O esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se comporta com os homens. Este os conhece na medida em que pode manipulá-los. O homem de ciência conhece as coisas na medida em que pode fazê-las. (ADORNO & HORKHEIMER, 1985, p. 24).
É evidente que o posicionamento frankfurtiano a respeito da concepção de racionalidade inscreve-se num panorama mais abrangente em que a própria ideia de cultura, por exemplo, encontra-se atrelada a uma perspectiva marxista que enfatiza as determinações econômicas em detrimento das práticas cotidianas – crítica que será estabelecida mais tarde pelos Estudos Culturais. No entanto, em que pese certo reducionismo epistemológico, trata-se de posição pertinente que é também sintomática de um pensamento crítico mais amplo e fundamentado nas contradições do capitalismo e da modernidade ocidental.
Para o filósofo marxista István Mészáros (2009, p.38), em semelhante sentido crítico, a racionalidade instrumental afirma-se no curso do desenvolvimento histórico por meio de
uma espécie de subjunção dos chamados ―valores de uso‖ pelos ―valores de troca‖, processo pelo qual os próprios indivíduos são ―convenientemente reduzidos a mercadorias ou a um tipo específico de valor‖. Além disso, revela o pensador húngaro, tal ―reducionismo mistificador‖ acaba por penetrar no próprio conceito de desenvolvimento – científico e social – em uma sistemática que encontra fundamento no modelo socioeconômico vigente64. Nas palavras de Mészáros (2009):
A racionalidade formal que é idealizada (e fetichizada) no discurso teórico dominante como se fosse um avanço intelectual que ‗gera a si mesmo‘ condiz, de fato, estritamente com os processos práticos de abstração, redução, compartimentação, igualação formal e ‗desistoricização‘ que caracterizam o estabelecimento e a consolidação do metabolismo socioeconômico capitalista em seu todo. (MÉSZÁROS, 2009, p.32)
Ou seja, consiste na constatação por parte do teórico húngaro da necessidade de penetração da instrumentalização nas formas mais abrangentes do viver numa sociedade pautada pelos padrões do capitalismo65.
No pensamento sociológico, Pierre Bourdieu (1977) é preciso ao apresentar um exemplo interessante a esse respeito. No desenvolvimento de sua teoria do poder simbólico, o pensador francês acena para o fato de que a introdução histórica da sociabilidade operacional está atrelada à emergência do valor monetário como ―medida para todas as coisas‖ (BOURDIEU, 1977, p.176). Assim, mensuradas pelo bastão do lucro do capital econômico, algumas das mais sagradas atividades – a exemplo das inúmeras simbologias que caracterizavam as colheitas nas sociedades pré-capitalistas – passam a receber interpretações negativas pelo vácuo de efeitos materiais ou concretos que possuem no senso comum; em outras palavras, deixam de constituir ritos fundamentais para configurar práticas simbólicas
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Em última análise, Mészáros sugere que racionalidade instrumental opera uma espécie de ―metabolização ideológica‖ que consolida o capitalismo. Na introdução de Para além do Capital, esse processo é também trabalhado pelo autor como um elemento estruturante da própria acumulação capitalista. Na abertura da edição brasileira, Ricardo Antunes resume: ―O capital não trata valor de uso (o qual corresponde diretamente à necessidade) e valor de troca como estando separados, mas de um modo que subordina radicalmente o primeiro pelo último. O que significa que uma mercadoria pode variar de um extremo a outro, isto é, desde ter seu valor de uso realizado, num extremo da escala, até jamais ser usada, no outro extremo, sem por isso deixar de ter, para o capital, a sua utilidade expansionista e reprodutiva‖. Para detalhes, ver: Mészáros (2002).
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O assunto é comentado pelo teórico norte-americano Douglas Kellner em entrevista a Marco Schneider. Na ocasião, Kellner, um dos principais expoentes dos Estudos Culturais nos Estados Unidos, concorda com uma crítica feita por István Mészáros à colocação do alemão Jürgen Habermas sobre a eventual subordinação que a economia possui, numa sociedade marcada pelo capitalismo tardio, às determinações científicas traduzidas na ideia de razão instrumental. De modo contrário, sublinha Kellner, ocorre uma crescente subordinação da ciência e da informação (ou da ―razão‖) às determinações econômicas. Para detalhes, ver: Schneider & Kellner (2012).
desnecessárias – desinteressantes e supérfluas – ao olhar da nova sociabilidade (BOURDIEU, 1977, p.176-177)66. O exemplo de Bourdieu, embora desenvolvido num diferente panorama teórico, corrobora a afirmação de Mészáros (2009, p.37) de que a prática socioeconômica da ―metamorfose formal redutora‖ – a redução dos valores de uso aos valores de troca – resulta num processo de ―comensurabilidade universal‖ que simultaneamente ―faz com que as pessoas fiquem acostumadas a funcionar com uma eficácia operacional normalmente imperturbável‖.
Todavia, a colocação de Bourdieu (1977) também auxilia no realçamento da complexidade que está por trás da instrumentalização da razão e de seu emaranhado na vida social. Nesse sentido, se levada em consideração a aplicação de outra concepção-chave do estudo – o conceito gramsciano de hegemonia –, é possível inferir que a operacionalização da racionalidade instrumental não se dissemina num vazio cultural, mas, muito além disso, projeta-se socialmente ao encontrar respaldo no caminho pavimentado pelas práticas cotidianas (GRAMSCI, 2004; HALL, 1977; GITLIN, 2003; MARTIN-BARBERO, 2003). A racionalização da existência moderna possui, portanto, traços históricos e culturais de diferentes naturezas que se estendem às práticas mais ordinárias do homem comum. Trata-se de um processo histórico de ―enculturação‖ pautado pelo advento da racionalidade instrumental como narrativa para explicar os aspectos mais paradoxais do cotidiano – padrão cultural que se emancipa com ênfase na experiência moderna.
2. Dos impasses da modernidade à racionalização do viver: um „longo processo de