Além da diferenciação que Mauro Wolf (2003) propõe para os valores-notícia, duas outras considerações teórico-conceituais feitas pelo autor ajudam a aprimorar a caracterização da noticiabilidade até aqui trabalhada. Ao prosseguir com sua discussão sobre a problemática da seleção noticiosa, o autor alerta para a natureza substancialmente dinâmica dos valores- notícia – ou, em suas próprias palavras, ―embora revelem uma forte homogeneidade no interior de uma cultura profissional‖, os valores-notícia não permanecem sempre os mesmos com o passar do tempo (WOLF, 2003, p.197). No mais, como decorrência da premissa anterior, o teórico italiano indica que a especialização temática dos periódicos constitui um ―índice significativo‖ do modo como os valores-notícia se traduzem em ―práticas organizativas‖ que espelham determinadas realidades históricas; isto é, as colocações de Mauro Wolf permitem neste ponto a agregação de uma nova reflexão ao debate: ao mesmo passo em que possuem ―qualidades duradouras‖ (STEPHENS, 1993) disseminadas em parâmetros atrelados a categorias que historicamente remetem ao ―inaudito‖, os valores- notícia são também marcados por uma face dinâmica formatada em conjunturas socioculturais e modelos ético-profissionais que variam conforme os períodos vigentes. Trata-se, por conseguinte, de dois pressupostos aparentemente excludentes que, por outro lado, podem ser combinados a partir de um ponto de vista ampliado para o fenômeno.
Tome-se, por exemplo, um caso insólito citado pelo sociólogo norte-americano Michael Schudson (2003, p.178): ―Tudo está calmo, menos para um gato que escala uma árvore. O gato fica preso nos galhos. Bombeiros são chamados. As crianças da vizinhança se reúnem para assistir. Os bombeiros resgatam o gato‖23
. Conforme ironiza o autor, tal acontecimento compreende todos os ingredientes básicos que configuram uma notícia – desde que, evidentemente, a história seja contada num veículo feito pelos próprios estudantes da escola do bairro em que o gato reside. O que explicaria, porém, essa característica dúbia do item noticioso? Segundo Schudson (2003, p.178-179), embora o fato quebre inegavelmente a rotina daquelas pessoas ali envolvidas, ele se faz, por outro lado, demasiadamente familiar e previsível mesmo para um veículo local cuja circulação contemple toda aquela cidade. Diferentemente seria, exemplifica o autor, se o proprietário do gato fosse um parlamentar cujo voto tivesse sido favorável ao corte do orçamento do corpo de bombeiros; ou seja, conforme sintetiza Schudson (2003, p.178, tradução nossa): ―uma notícia deve não somente ser ‗deliciosa‘ para existir, mas também infringir ou oferecer algum tipo de comentário para a vida pública; e o que conta para a vida pública, é claro, não é óbvio, muda-se de tempo em tempo e de lugar a lugar‖.
Em direção paralela, Pamela Shoemaker (1996, p.36) recorre às reflexões do teórico culturalista Stuart Hall (1981a, p.147) para ressaltar que embora classificáveis em categorias como as mencionadas no decorrer deste capítulo, os critérios de seleção noticiosa não deixam de representar uma ―concepção escorregadia‖ aos estudos do jornalismo. Ao sugerir, então, a organização de um diferente quadro interpretativo para o assunto, Shoemaker propõe o entendimento da noticiabilidade em duas dimensões teórico-conceituais mais abrangentes: o desvio e a significância social. Dessa forma, inúmeros critérios de noticiabilidade tidos como valores-notícia ―substantivos‖ em classificações como as de Mauro Wolf (2003) e Nelson Traquina (2008) – a exemplo da ―controvérsia‖, da ―novidade‖ e do ―insólito‖ – são reposicionados pela pesquisadora norte-americana como dimensões ―desviantes‖ da notícia. O ―desvio‖, neste contexto, é subdivido em pelo menos outras três instâncias teóricas mais específicas:
23 Originalmente, em inglês: ―All is calm but for a cat climbing a tree. The cat gets stuck in the tree. Firefighters
O desvio estatístico; que se refere a eventos que são excêntricos ou não-usuais, ou ainda que chamam atenção por configurarem realizações ou acidentes acima ou abaixo da média;
O desvio normativo; relativo à violação e à elaboração de leis e regras manifestas ou latentes;
E o desvio de mudança social; que inclui elementos supostamente rompedores da estabilidade de um dado sistema social, embora diga respeito a aspectos que vão de contextos restritos (um bairro, por exemplo) a conjunturas mais abrangentes (nações e outras instâncias internacionais). (SHOEMAKER, 1996, p.36; SHOEMAKER et al., 2010, p.59).
De acordo com a perspectiva de Shoemaker, o interesse humano por conteúdos noticiosos é entendido, entre outras variáveis, como uma característica natural das pessoas de instintivamente focar a atenção em eventos capazes de romper uma determinada ordem consolidada. Para a autora, numa perspectiva que ela mesma denomina de ―bio-cultural‖, os seres humanos, ao conviverem historicamente com instintos desviantes, fazem-se hipoteticamente mais adaptados a neutralizar ou diminuir possíveis ameaças ao status quo – traço adaptativo que pode também vincular-se a uma espécie de ―aspecto cultural universal‖ e figurar ao lado de emoções inatas como o medo, o ódio e a satisfação (SHOEMAKER, 1996, p.38-39).
Não se configura coincidência, portanto, o fato de as categorias ―desviantes‖ apresentadas por Shoemaker (1996) encontrarem diversas similitudes nas categorias clássicas de valores-notícia esboçadas desde o século XVII por Tobias Peucer. Entretanto, a exemplo do caso do gato que escala a árvore apresentado por Schudson (2003), a pesquisadora norte- americana reconhece que há ao menos outro relevante aspecto a ser considerado: para além de seus traços desviantes, ―a noticiabilidade de um evento também recebe influências de outras características, tais como as peculiaridades que as pessoas precisam conhecer a fim de entenderem-se efetivamente como atores em seus sistemas sociais‖ (SHOEMAKER et al, 2010, p.59, tradução nossa). Assim, ao passo em que a vigilância aos aspectos desviantes dos eventos é encarada como um traço natural das pessoas, a ―significância social‖ surge vinculada a uma concepção de socialização cultural. De modo mais específico, compreende- se o conceito a partir de outras quatro subdimensões: a significância política, a significância
econômica, a significância cultural e a significância pública (SHOEMAKER, 1996, p.36-44; SHOEMAKER et al, 2010, p.59-60).
Descritas as particularidades dos conceitos, Shoemaker admite, enfim, que a disseminação social das notícias vincula-se à pertinência dos dois modelos interpretativos abordados; isto é, mesmo se considerada válida a hipótese do interesse natural dos seres humanos por acontecimentos desviantes, a difusão social de tais eventos somente encontra respaldo quando sustentada em elementos de ―significância social‖ ligados à comunidade de sentido na qual estão inseridos (SHOEMAKER, 1996, p.44). Em última análise, portanto, toda prática noticiosa deve-se ligar a processos de socialização cultural – dinâmica que culmina em uma nova dimensão teórica posteriormente inserida na discussão por Shoemaker e seus colegas: a complexidade; ou seja, a medida pela qual um evento combina em si os diferentes aspectos de desvio e de significância social para efetivamente tornar-se notícia (SHOEMAKER & COHEN, 2006).
Abre-se terreno, assim, para a retomada da metáfora de Nelson Traquina (2008, p.91) segundo a qual os processos de seleção noticiosa podem ser observados como jogadas numa constante partida de xadrez. Seguindo a analogia, ao passo em que no jogo de tabuleiro existem regras pré-estabelecidas que garantem a jogabilidade e a preservação do esporte ao longo do tempo, por outro lado estabelecem-se táticas individualizadas e propostas de jogo variáveis que resultam em uma dinâmica complexa. Dessa forma, uma única mudança de peça pode resultar em alterações em todo cenário da partida, promovendo modificações de planos e estratégias. Tais peculiaridades fazem do xadrez um jogo que não se permite ser encarado em uma perspectiva mecanicista. O mesmo raciocínio pode ser projetado para o jornalismo e para os critérios de noticiabilidade. Ao passo que podem existir ―qualidades duradouras‖, como as propostas por Mitchell Stephens (1993), que caracterizam historicamente o fazer jornalístico (numa perspectiva horizontalizada), encontra-se, em posição paralela, um conjunto complexo de variáveis econômicas, políticas e, sobretudo, socioculturais que são decalcadas (numa perspectiva verticalizada) nos processos de seleção dos acontecimentos e de construção da narrativa noticiosa. O jornalismo e a questão da noticiabilidade inserem-se, assim, em um quadro teórico mais complexo e passam a ser compreendidos como produtos de influência de diferentes variáveis e níveis de análise – foco que a discussão toma a partir de agora.