A aplicação por Pierre Bourdieu (1977) da concepção aristotélica de doxa ao campo sociológico e seu diálogo com a perspectiva teórica de Antonio Gramsci possibilitam, como demonstrado acima, o traçado de um paralelo entre a ideia de senso comum e o conceito de hegemonia – preâmbulo fundamental para o entendimento da narrativa noticiosa segundo as hipóteses deste trabalho. Todavia, embora sejam valorizadas neste capítulo as elaborações
pioneiras de Gramsci (2004) – reflexões construídas num modo fragmentário e suficientemente emblemático –, recorre-se também a outros autores responsáveis por discussões teóricas de fôlego a respeito da operacionalização dos processos hegemônicos no mundo social. Lança-se mão, assim, de abordagens que procuram desenvolver a concepção em parâmetros que permitam a articulação entre o ponto de vista gramsciano e os demais conceitos que compõem o núcleo da tese.
Um desses autores é Stuart Hall, teórico responsável por traçar importantes reflexões a respeito da relação entre hegemonia, senso comum e jornalismo. Ao desenvolver um clássico ensaio sobre a relação entre cultura, ideologia e meios de comunicação, Hall (1977, p.322), numa ênfase eminentemente marxista, reconhece que, para fazer valer o sentido de sua existência, uma determinada formação cultural deve atrelar-se necessariamente a um discurso ideológico mais amplo e já objetivado. Nesse cenário, frisa o pensador britânico, o discurso da vida cotidiana – a maneira de falar e interpretar o mundo no dia-a-dia – tem sua emergência assegurada no modo como as relações reais de produção são transfiguradas à aparência de relações imaginárias. O senso comum – modo particular de apreensão da realidade no cotidiano – vincula-se, assim, à distinção entre as chamadas ―relações reais‖ e o ―modo como elas aparecem‖, ponto central da tradicional noção marxista de ideologia (HALL, 1977, p.324). Define o teórico britânico:
O que se passa por ‗senso comum‘ em nossa sociedade – o resíduo de sabedorias consensuais, absolutamente básicas e comumente aceitas – ajuda-nos a classificar o mundo em simples, porém compreensíveis, termos. Precisamente, o senso comum não requer razão, argumento, lógica ou pensamento: ele se faz espontaneamente disponível, minuciosamente reconhecível e amplamente compartilhado. (HALL, 1977, p.325, tradução nossa).
Embora se fundamente em algumas premissas clássicas do marxismo – posição que revive a caracterização apontada por Nowell-Smith (1974) do senso comum como categoria reacionária de apreensão da realidade –, Stuart Hall desempenha, no conjunto de sua obra, um crítico e significativo papel na renovação do pensamento marxista moderno. Assim, como um dos expoentes da escola europeia dos Estudos Culturais – ao lado de outros pensadores das gerações que o antecedem, casos de Raymond Williams e Richard Hoggart –, o teórico britânico sublinha a necessidade de reconhecer a complexidade que está por trás da relação entre senso comum e ideologia. Ao retomar os ensinamentos do filósofo francês Louis Althusser, Hall (1977, p. 326, tradução nossa) lembra que, para além de uma relação de
determinação, os aparatos ideológicos do capitalismo são permeados nos meandros da cotidianidade: ―ideologias geralmente consistem em sistemas de representação, imagens e conceitos, sobretudo como estruturas que são impostas à vasta maioria dos homens‖ – referência muitas vezes desconsiderada pela vertente do marxismo que reduz a complexidade do fenômeno aos aspectos econômicos.
Além disso, acrescenta o autor britânico, mais do que atribuir sentido a algo, a prática cotidiana de significação do mundo operacionaliza-se a partir da maneira como os atores sociais se situam nas reais condições de existência da organização capitalista (HALL, 1977, p. 329) – panorama que novamente coloca em relevo a apropriação de Bourdieu (1977) da noção de doxa e permite o diálogo com a concepção gramsciana de hegemonia. Hall (1977, p. 331) é bastante preciso ao reconhecer que qualquer período particular da história possui um dominante ―sistema central de práticas, sentidos e valores‖ que são ―organizados e vividos‖. Não se trata, portanto, de uma estrutura estática, mas, acima de tudo, de um processo de incorporação segundo o qual sentidos e valores estabelecidos na periferia da esfera hegemônica não contradizem os elementos centrais da cultura dominante – esta, enredada no sentido doxal da vida cotidiana.
Em direção semelhante, o sociólogo norte-americano Todd Gitlin (2003, p.253, tradução nossa) ressalta que a ideia de hegemonia tem seus efeitos produzidos na dominação estabelecida por uma determinada classe dominante ―através da elaboração e penetração de ideologia (ideias e pressupostos) no senso comum e na prática cotidiana‖. Ainda mais crucial, sugere Gitlin (2003), é o fato de o sentido hegemônico do mundo reproduzir-se no âmbito senso comum e fazê-lo dele sua própria aparência, como se ali tivesse sido gerado. A ideia de cultura dominante trabalhada por Gitlin (2003) e Hall (1977) atrela-se, dessa forma, a uma significativa ampliação da noção de dominação, cerne da formulação teórica gramsciana:
‗Hegemonia‘ existe quando uma classe dominante (ou, preferencialmente, uma aliança de frações da classe dominante, um ‗bloco histórico‘) é capaz não somente de coerir uma classe subordinada conforme seus interesses, mas também exercer uma ‗total autoridade social‘ sobre essas classes e sobre as formações sociais como um todo. ‗Hegemonia‘ está em operação quando as frações da classe dominante não somente dominam, mas guiam – conduzem: quando elas não apenas possuem a força para coerir, mas ativamente se organizam para comandar e ganhar o consenso das classes subordinadas mesmo em suas contínuas oscilações. ‗Hegemonia‘, então, depende da combinação de força e consenso. Porém, argumenta Gramsci, no estado capitalista-liberal, o consenso está normalmente na liderança, operando por trás ‗da armadura da coerção‘. (HALL, 1977, p. 332, tradução nossa).
Finalmente, outro autor que retoma a ideia gramsciana de hegemonia numa perspectiva culturalista é Martin-Barbero (2003). Para o teórico latino-americano, Gramsci possibilita ao marxismo o desbloqueio da questão cultural e da dimensão de classe na cultura popular. Em última análise, o autor colombiano chama atenção para o fato de a concepção de hegemonia implicar uma dupla ruptura de caráter epistemológico: 1) com o positivismo tecnologicista, que reduz a comunicação a um problema de meios; e 2) com o etnocentrismo culturalista, que assimila a cultura de massa ao problema da degradação da cultura (MARTIN-BARBERO, 2003, p.137). Nessa perspectiva, segundo Martin-Barbero (2003, p.116), o conceito de hegemonia permite ―pensar o processo de dominação social já não como imposição a partir de um exterior e sem sujeitos, mas como um processo no qual uma classe hegemoniza, na medida em que representa interesses que também reconhece como seus as classes subalternas‖. O pensador colombiano (2003) debruça-se, aqui, à questão do popular na cultura e reconhece – em posição semelhante à de Stuart Hall – que a ―concepção fatalista mecânica da dominação‖ ofusca-se, a partir da perspectiva gramsciana, em detrimento de uma trama mais ampla:
Nem toda assimilação do hegemônico pelo subalterno é signo de submissão, assim como a mera recusa não é de resistência, e nem tudo que vem ―de cima‖ são valores da classe dominante, pois há coisas que vindo de lá respondem a outras lógicas que não são as da dominação. (MARTIN-BARBERO, 2003, p.119).
Assume-se, neste cenário, a exemplo do pressuposto teórico formulado por Franco Moretti (2003), que uma determinada formação cultural ou um padrão narrativo particular – e isso serve também ao jornalismo, foco desta reflexão – somente dissemina-se socialmente quando encontra suporte em um padrão cultural mais amplo e hegemônico. Ainda mais importante, nesse sentido, passa a ser o reconhecimento de que os interesses particulares das classes dominantes ganham respaldo apenas quando recebem uma significação mais abrangente de interesse geral – processo que se passa na cotidianidade, núcleo da concepção de hegemonia. Portanto, colocada em relevo a relação entre senso comum e hegemonia – preâmbulo necessário para o entendimento da questão de fundo desta discussão –, prepara-se terreno para um debate mais específico a respeito da relação entre a doxa e a prática noticiosa, aspecto fundamental para a reflexão sobre o envolvimento da atividade jornalística no processo de construção simbólica da regularidade cotidiana.
5. Entre a esfera hegemônica e o senso comum: o sentido doxal da narrativa