A despeito dos inúmeros avanços teórico-conceituais debatidos no decorrer deste capítulo, propõe-se a partir daqui uma leitura com base no alargamento das dimensões que configuram a noticiabilidade para além de seus processos técnicos e operacionais. Visa-se, por conseguinte, a valorização de uma problemática mais ampla, de ordem sociocultural, que possa vincular-se ao entendimento do jornalismo como uma peça-chave nos processos de construção simbólica da experiência cotidiana – ou seja, trata-se, nos termos de Michael Schudson (2003, p.182-183, tradução nossa), de uma abordagem que possa salientar as ―heranças‖ recebidas pelos produtores das notícias em detrimento de suas produções propriamente práticas, uma vez que a ênfase deve estar ―menos na produção social do que nos determinantes simbólicos que as notícias possuem na relação entre os fatos e os símbolos‖.
Em síntese, embora Michael Schudson valorize a condição da notícia como ―resultado de uma gama de fatores intervenientes‖ (a exemplo da ―ação pessoal‖ e da ―ação social‖), sua contribuição maior localiza-se na defesa do pressuposto de que ―a notícia é antes de tudo um produto da cultura‖ (BERTOLLI FILHO & TALAMONI, 2011, p.106) – perspectiva assumida desde o final dos anos 1970 em sua clássica análise sobre a história dos jornais norte-americanos (SCHUDSON, 1978). O sociólogo adota, assim, uma posição teórica culturalista ancorada na visão geertziana – ou seja, uma abordagem da cultura como ―uma produção simbólica tecida pelos próprios homens‖ – e compreende a produção noticiosa como uma das faces dessa dinâmica, atribuindo aos critérios de noticiabilidade a decorrente
característica de ―dimensões culturais que impregnam a prática jornalística‖ (BERTOLLI FILHO & TALAMONI, 2011, p.107).
Nas palavras do teórico norte-americano, uma abordagem cultural para as notícias ajuda a explicitar os estereótipos e imagens generalizadas que ―transcendem as estruturas de propriedade ou mesmo os padrões das relações de trabalho‖ dos meios de comunicação (SCHUDSON, 2003, p.183, tradução nossa). Tomado por base o entendimento da notícia como uma produção cultural mais abrangente que transpassa uma mera ―soma de fatos‖, sua compreensão passa a envolver, consequentemente, tanto a seleção dos acontecimentos jornalísticos como a construção de sua narrativa, fenômenos que não podem ser observados separadamente. Explicita o autor:
As notícias como uma forma de cultura incorporam pressupostos sobre o que é importante, o que faz sentido, quais são suas localidades e temporalidades vividas e quais são as considerações que devem ser aceitas com seriedade. Assim, uma notícia deve supostamente responder às questões ―quem‖, ―o que‖, ―quando‖, ―onde‖ e ―por que‖ de um determinado assunto. Para entender as notícias como cultura, no entanto, faz-se necessário questionar quais categorias de pessoas são consideradas ―quem‖, quais tipos de coisas passam por fatos ou configuram ―o que‖, quais geografias ou sentidos de tempo são inscritos como ―onde‖ ou ―quando‖, e o que pode ser compreendido como uma explicação de ―por que‖. (SCHUDSON, 2003, p.190, tradução nossa).
O sociólogo lança luz, dessa maneira, ao fato de as notícias, como produtos da cultura, se enquadrarem tanto em noções ideológicas convencionadas socialmente quanto, mais precisamente, em noções circunscritas na esfera do senso comum de um dado sistema hegemônico (SCHUDSON, 2003, p.185) – ponto de vista teórico que também encontra respaldo na leitura que Stuart Hall (1981b) faz do fenômeno da noticiabilidade.
Para Hall (1981b, p.235), os valores-notícia – ou seja, os componentes simbólicos que determinam o que deve ser enquadrado como itens noticiosos – configuram um dos mais opacos arcabouços de sentido da sociedade moderna; um tipo de ―estrutura profunda‖ que não se faz transparente nem mesmo aos seus próprios operadores: os jornalistas. Assim se instituem, pois, de acordo com o teórico britânico, os valores-notícia são correntemente discutidos apenas como uma lista de simples atributos operacionais que supostamente auxiliam na identificação de elementos formais presentes nos acontecimentos jornalísticos; entretanto, nada dizem explicitamente a respeito da operacionalização da ideologia no âmbito das notícias (Hall, 1981b, p.235). O processo de significação dos acontecimentos, por conseguinte, é interpretado por Hall (1981b, p.235) como decorrência de dois aspectos
fundamentais e interligados: a operacionalização propriamente dita dos valores-notícia e o limiar ideológico imbricado nessa dinâmica (HALL, 1981b, p.231). Primeiro desses aspectos, os valores-notícia podem ser identificados ―na elaboração de uma história em termos da ideologia profissional das notícias, isto é, com base no entendimento de senso comum sobre o que constitui um item noticioso no discurso jornalístico‖. O nível ideológico, por seu turno, localiza-se ―na elaboração de uma história em termos de interpretações e temas socialmente conotados‖ (HALL, 1981b, p.231, tradução nossa). Na prática, essas faces do processo de significação das notícias acabam por envolver, juntas, outras duas modalidades bem específicas de critérios de noticiabilidade:
Os valores-notícia formais, que pertencem ao mundo do discurso dos jornais, aos jornalistas como um grupo profissional, e aos aparatos institucionais da construção da notícia; e os valores-notícia ideológicos, que pertencem ao reino do discurso político-moral estabelecido na sociedade. Assim, temas ideológicos são moldados de diferentes formas de acordo com a construção particular que cada organização jornalística seleciona (HALL, 1981b, p.231, tradução nossa).
Nesse panorama teórico, prossegue Hall (1981b, p. 231), encontram-se por trás de um ―ângulo de abordagem de uma notícia‖ não somente os já conhecidos valores-notícia formais, ―mas também os diferentes temas ideológicos que estão presentes na sociedade‖. Embora sejam apresentados em um formato ―operacional e neutro‖, portanto, os valores-notícia configuram elementos simbólicos distantes de possuírem neutralidade posto que produzem nos leitores ―reconhecimentos familiares‖ que culminam em um discurso permeado substancialmente por ideologia (HALL, 1981b, p.231). Essa ―transformação‖, que segundo o teórico britânico envolve outra articulação ainda mais profunda, é responsável por viabilizar a relação entre ―o discurso interno dos jornais e o universo ideológico mais amplo da sociedade‖ (HALL, 1981b, p. 234) – porta de entrada na análise de Stuart Hall para o conceito gramsciano de hegemonia31.
Por sua vez, tal articulação entre critérios de noticiabilidade e ideologia – trabalhada por Hall (1981b) e Schudson (2003) por meio da ideia de hegemonia – encontra paralelo também na relação crítica estabelecida entre os conceitos de ―notícia‖ e ―clichês‖ por Ciro Marcondes Filho (2000). Para o autor brasileiro, ―os critérios normalmente utilizados para determinar se um fato é ou não notícia estão longe de ser óbvios‖; assim, são por meio dos
31
Na perspectiva Stuart Hall, por exemplo, as notícias assumem diferentes formas em diferentes jornais, pois ―no campo da hegemonia a autonomia se faz essencial‖. Enfatiza o teórico britânico: ―para Gramsci, a ideologia pode ser arranjada e rearranjada em milhares de diferentes variações‖. Para detalhes, ver: Hall (1981b, p. 234).
―clichês‖ que os jornalistas ―se tornam atores privilegiados na manutenção de ideias e verdadeiros agentes conservadores da cultura‖ (MARCONDES FILHO, 2000, p.107-109). Detalha o autor:
Acima de tudo, o clichê constrói antecipadamente a notícia: jornalistas não partem para o mundo para conhecê-lo; ao contrário, eles têm seus modelos na cabeça e saem pelo mundo para reconhecê-los (e reforçá-los). Assim constroem os relatos com as pessoas símbolos, ―aqueles que de fato representam o assunto‖, os bons contadores de histórias, ficando satisfeitos por encontrar de fato, no real, aquilo que eles já tinham em suas cabeças. (...) Essa é a função conservadora mais efetiva de jornalistas: eles reconstroem diariamente o mundo impondo-lhe sua verdade cristalizada sobre as pessoas, sobre os fatos, sobre as ocorrências novas, exercendo a atividade tranquilizadora e gratificante (para a maioria das pessoas) de ―manter o mundo exatamente como ele é‖, a saber, o mais próximo possível da fantasia que as pessoas têm do próprio mundo, de seus clichês. (MARCONDES FILHO, 2000, p.109-110). Decorre desse debate a pertinência de se reconhecer que os critérios de noticiabilidade, para além de sua operacionalidade, estão presentes também – e, sobretudo – na visão que os jornalistas estabelecem dos fatos: ―a partir de fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos do jornalismo, compreendendo conceitos de verdade, objetividade, interesse público, imparcialidade que orientam inclusive as ações e intenções das instâncias ou eixos anteriores‖, como define Gislene Silva (2005, p.96) em sua ampla interpretação para o conceito. Na perspectiva aqui adotada, contudo, a presença nas notícias de aspectos que remetem a determinadas categorias de ―desvio‖ ou ―significância social‖, por exemplo, passa também a ser entendida, ainda além, como a reiteração de padrões culturais mais abrangentes, hegemônicos e nem sempre identificáveis em categorias claramente demarcadas. Reconhece- se, nesse contexto, a existência de uma grade dinâmica e multifaceta de diferentes variáveis econômicas, políticas e socioculturais que resultam na elaboração simbólica de uma concepção de vida cotidiana – esta, de fato, orientadora dos diferentes padrões noticiosos socialmente estabelecidos.
Recorre-se, assim, uma vez mais às reflexões de Michael Schudson (2003). Ao admitir que as notícias se enquadram num modelo hegemônico de senso comum, o autor identifica que tais parâmetros relacionam-se com a própria estética dos elementos noticiosos – peculiaridade que leva o sociólogo norte-americano a caracterizar as notícias como ―narrativas‖. Dessa maneira, para além de seu conteúdo, o modo como a narrativa jornalística se institui socialmente como formato leva-a a ser responsável por diferentes atribuições simbólicas disseminadas socialmente – a exemplo daquelas que concedem aos jornalistas e
suas fontes o estatuto de experts nos acontecimentos sobre os quais estão debruçados (SCHUDSON, 2003, p.185). Neste ponto, portanto, concorda-se com Schudson (2003) no pressuposto de que os processos de seleção dos acontecimentos e de construção da narrativa noticiosa não se desvinculam, eles mesmos, do plano estético-expressivo que configura o jornalismo enquanto produção cultural.
Adota-se, finalmente, o entendimento de que a narrativa jornalística constitui uma espécie de narrativa híbrida que se refere, conforme sugere Faro (2011), a dois espaços simultâneos de percepção: o primeiro deles vinculado à questão da ―informação propriamente dita, dotado de uma forte carga de objetividade cujo apelo e resposta remetem a essa estrutura lógica da cognição‖; e o segundo atrelado à ―identidade imaterial no plano simbólico‖, componente que diz respeito à complexidade da vida cotidiana (FARO, 2011, p.107). Em outros termos, trata-se do reconhecimento de um jogo dialético de construção social da realidade, ou seja, da compreensão do jornalismo como uma atividade cultural que somente encontra legitimidade ao transcodificar e disseminar elementos culturais vigentes no mundo social. Assume-se, então, que por trás de toda categorização pragmática e operacional dos eventos noticiáveis, há diferentes padrões culturais que não podem ser deixados de lado quando em questão a dinâmica de seleção noticiosa.
Expõem-se, nesse contexto, os subsídios iniciais para a elaboração de um modelo interpretativo para a noticiabilidade com base, especialmente, em sua inserção nos parâmetros que compõem e orientam a experiência cotidiana. Em suma, os eventos dotados de critérios noticiosos (ou de ―valores como notícia‖) passam a ser observados em consonância com a concepção teórica de paradoxos cotidianos; isto é, em relação aos elementos simbólicos responsáveis por quebrar as expectativas da regularidade cotidiana que caracteriza o modo de vida moderno. Tal modelo interpretativo somente se faz viável, todavia, quando a noticiabilidade é entendida em interface com uma série de conceitos e articulações teórico- conceituais que pautarão o debate nos próximos capítulos. Dessa forma, as ideias de senso comum, doxa e hegemonia (Capítulo II); vida cotidiana, experiência moderna e racionalidade instrumental (Capítulo III); paradoxo, habitus jornalístico e contrato comunicativo (Capítulo
IV); e atenuação dos paradoxos cotidianos (Capítulos V e VI) são colocadas como chaves-