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Relations avec le secteur formel de l’économie : segmentation versus intégration

Chapitre 6 : Typologie des actifs informels et déterminants de l’informalité

3. Synthèse des principaux résultats obtenus

3.3. Relations avec le secteur formel de l’économie : segmentation versus intégration

Hoje em dia, ninguém se atreverá a colocar minimamente em dúvida a importância da “ciência”, enquanto instrumento gerador de “conhecimento”. Contudo, há inúmeras formas de olhar a ciência e, por vezes, não se tem na devida conta que, afinal, ela é apenas um veículo para interpretar o mundo e para implementar os propósitos humanos.

Por outro lado, como lembra Astley (1985), nenhuma teoria pode simplesmente descrever a realidade em termos neutros; toda a perspectiva teórica está inevitavelmente

marcada por uma visão particular do mundo; e, portanto, qualquer investigação envolve uma grande variedade de pontos de vista, sentidos e interpretações.

Para Morin (2001), a ciência funda-se ao mesmo tempo no consenso e no conflito, apoiando-se em quatro pilares interdependentes: racionalidade, empirismo, imaginação e verificação. Segundo este autor, o empírico destrói as construções racionais, que se reconstituem a partir das novas descobertas empíricas; e existe uma espécie de complementaridade conflitual entre verificação e imaginação. Por outro lado, como afirma Luz (2002: 195), “[a] ciência não constitui um empreendimento meramente dependente de procedimentos metodológicos e operativos, ou de decisões teóricas e de técnicas de observação e experimentação, mas reveste também uma dependência muito significativa de múltiplos factores de ordem social.”

Segundo observam alguns autores (v.g., Wicks e Freeman, 1998), a epistemologia tem vindo a tornar-se uma questão central no estudo das organizações, porque o quadro conceptual positivista é abertamente hostil às abordagens não-quantitativas; e a verdade é que, para muitos, ainda prevalece a perspectiva tradicional, segundo a qual a “ciência” só pode afirmar-se pela objectividade dos números.

É um facto que o desenvolvimento da ciência moderna fica a dever-se, em grande parte, à ideia de que os objectos, existindo independentemente do sujeito, podiam ser observados e explicados enquanto tais (sem juízos de valor, sem deformações subjectivas), graças ao método experimental e aos procedimentos de verificação (Morin, 2001). Ocorre, porém, que as organizações não constituem sistemas fechados; pelo contrário, uma organização é um ser complexo que “vive” num ambiente complexo. E o que é complexo, segundo Morin (op. cit.) releva da incerteza, da incapacidade de estar

seguro de tudo, e da impossibilidade de conceber uma ordem absoluta e evitar as contradições.

Ora, se há traços que, desde o início, vêm marcando a problemática que é aqui assumida como objecto de investigação, eles são precisamente os da incerteza e da complexidade dos ambientes organizacionais. Como se viu nos capítulos anteriores, é hoje praticamente consensual que o fenómeno da globalização tem vindo a incrementar a instabilidade e a imprevisibilidade sócio-económicas; e, portanto, é cada vez menos sustentável o ideal positivista segundo o qual “as mesmas causas conduzem sempre aos mesmos efeitos”. Aliás, como lembra Spender (1993), a criatividade e o empreendedorismo vão muito para além do que é imaginável num quadro conceptual positivista, e “(...) advancing strategy theorizing means doing more than simply following the abstract prescriptions of narrowly positivistic methodologists” (op. cit., p. 17).

Mas, então, se o positivismo não se adequa à natureza (ontologia) dos fenómenos aqui objecto de investigação, que alternativas se lhe podem opor, em termos de postura epistemológica?

Uma das perspectivas mais frequentemente assumidas no campo das ciências sociais, em contraponto ao positivismo, é o interpretativismo (Hughes, 1991). De acordo com a óptica fenomenológica (de que o interpretativismo é, talvez, a variante mais conhecida), os fenómenos são apenas objectos de percepção, que não existem sem o observador (o qual é considerado parte integrante daquilo que é observado). Por isso, o mundo só pode ser compreendido por via da interpretação dos fenómenos, uma vez que o conhecimento da realidade é, em si mesmo, uma construção social inteiramente subjectiva. Aliás, para os interpretativistas, há uma distinção clara entre fenómenos naturais e fenómenos sociais. No primeiro caso, o investigador descreve e explica a

natureza à custa de teorias e conceitos sucessivamente elaborados e seleccionados; no segundo, o cientista social procura compreender porque é que as pessoas fazem o que fazem, através da descoberta dos mecanismos, significados e intenções que orientam os seus actos (Blaikie, 1993).

O universo organizacional, em lugar de integrado e cognoscível na sua plenitude (como é pressuposto das abordagens positivistas), é um sistema global de interdependências, onde predominam a incerteza e a ambiguidade. E nestas condições, segundo Spender (1993), a perspectiva fenomenológica é, sem dúvida, mais promissora. Ela concentra os seus esforços na tentativa de dar sentido a um mundo fragmentado e parcialmente incognoscível; e convida a descobrir como é que indivíduos diferentes e potencialmente egoístas podem aprender a interagir de forma produtiva, ultrapassando desconfianças e trabalhando em conjunto para benefício mútuo.

Uma outra alternativa que vem sendo contraposta ao positivismo é o realismo crítico (Bhaskar, 1978, 1989; Sayer, 2000; Danermark et al., 2002). Para os defensores desta perspectiva, a existência de uma estrutura social é condição necessária para qualquer actividade humana; e os fenómenos sociais são encarados como o resultado da interacção de uma multiplicidade de estruturas que não podem ser directamente percebidas, mas podem ser identificadas através dos seus efeitos. Note-se que os realistas pretendem situar-se algures entre os dois extremos – positivista e interpretativista – defendendo que o “mundo” existe (de facto), mas é provável que nunca se consiga captar a sua essência. Em particular, no campo das ciências sociais, a “verdade científica” não será certamente alcançável, mas isso não significa que não possam identificar-se os mecanismos que regulam os comportamentos sociais.

Por outro lado, do ponto de vista metodológico, o realismo não impõe nem afasta qualquer tipo de método de investigação. Em lugar disso, segundo Layder (1993), o que

importa aos realistas é a preservação de uma atitude científica perante a análise social, o reconhecimento da importância dos actores, e a consideração dos diferentes pontos de vista.

Entretanto, para sair do debate circular entre positivistas e anti-positivistas, Wicks e Freeman (1998) defendem uma alternativa epistemológica – o pragmatismo – que, segundo eles, tem a virtude de favorecer o desenvolvimento de pesquisas que são, simultaneamente, mais ricas do ponto de vista moral, e mais úteis para as organizações e para as comunidades em que as mesmas se inserem. Note-se que os pragmatistas partilham com os anti-positivistas (em geral) a perspectiva de que há múltiplas interpretações para os acontecimentos, e diferentes conceitos e esquemas classificativos para descrever os fenómenos. Porém, o pragmatismo não vai ao extremo de valorizar a simples proliferação de pontos de vista e descrições. As diferentes interpretações são hierarquizadas em função da sua capacidade para servir determinados propósitos e ajudar a alcançar objectivos relevantes. Segundo Wicks e Freeman (op. cit., p. 136), “[p]ragmatism reminds us that academic speculation and theorizing must ultimately – not necessarily in the short or even medium term – prove to be of use in how people live their lives.”

No plano puramente filosófico, e tendo em conta a forma como o investigador se posiciona face ao mundo em que vive, importa assumir aqui a generalidade dos pontos de vista do realismo crítico (Bhaskar, 1989); até pela sua moderação face aos extremos positivista e interpretativista. Com efeito, perfilha-se a ideia central de que há efectivamente uma realidade que não se esgota com o observador; mas, por outro lado, acredita-se que nunca será possível conhecer integralmente essa mesma realidade.90

90 Aliás, convém referir que, na óptica pessoal do investigador, a própria noção de “infinito” é

Entretanto, no âmbito e para os efeitos da presente investigação, têm que dar-se aqui por adoptados os traços fundamentais da óptica pragmatista (Wicks e Freeman, 1998), tendo em conta a sua particular adequação à problemática em estudo, designadamente, quanto às questões respeitantes aos relacionamentos entre as organizações e os seus stakeholders.

Feita esta breve incursão pelo campo da epistemologia, e identificados os pressupostos metodológicos fundamentais em que o investigador procura apoiar-se, irá ser feita de seguida a apresentação da estratégia que suporta as diferentes etapas deste trabalho.