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CHAPITRE 2 - VOIR LE PARTENAIRE DISTANT : UN AVANTAGE OU UNE

2.3 Faut-il se regarder dans les yeux pour se comprendre ?

2.3.1 Le regard réciproque

Em todo o mundo têm-se registado alterações significativas na produção animal determinadas por factores quer do lado da oferta quer da procura. Os factores-chave desta mudança parecem ser o crescimento e o rendimento económico, as mudanças demográficas e as do uso da terra, as adaptações na dieta e as alterações tecnológicas (Delgado, Narrod & Tiongco, 2003; Steinfeld et al., 2006; Delgado, Narrod & Tiongco, 2008 citados por Narrod, Tiongco & Scott, 2011).

O aumento individual no consumo de produtos de origem animal está ligado à subida de rendimentos, embora a urbanização e as mudanças na estrutura demográfica também tenham contribuído para este aumento. Ao mesmo tempo, novas tecnologias têm vindo a ser desenvolvidas e têm modificado a forma como os produtos animais são produzidos e processados, disponibilizando aos consumidores maior variedade de produtos de alta qualidade (Fuglie, Narrod & Neumeyer, 2000 citado por Narrod, Tiongco & Scott, 2011).

Globalmente, o crescimento médio do consumo anual de carne e peixe está entre os mais elevados comparando com outros produtos de alto valor como a fruta e os hortícolas. Nas últimas quatro décadas, o aumento da procura por produtos de origem animal tem-se mantido mais alta do que a dos cereais (Anexo VII, Quadro 1).

Desde o final da década de 70 que o volume de carne produzido nos países em desenvolvimento ultrapassou o volume produzido pelos países desenvolvidos (Gráfico 7). Muito deste crescimento regista-se no Este e Sul Asiático, na América Latina e nas Caraíbas. A tendência referida para a carne observa-se também no leite (Gráfico 8). No entanto, isto não implica que os países em desenvolvimento estejam a responder a um aumento da procura interna por produtos de origem animal. De facto, desde 1970 que os países em desenvolvimento têm sido importadores de produtos de origem animal - excepto de carne de bovino e de ovos a partir de 2007 (Anexo VII, Gráfico 1).

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Gráfico 7 – Produção de carne nos países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento de 1970 a 2008 (Narrod, Tiongco & Scott, 2011).

Gráfico 8 – Produção de leite nos países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento de 1970 a 2008 (Narrod, Tiongco & Scott, 2011).

Sucede que a população mundial aumentou de 3 biliões em 1959 para 6 biliões em 1999, tendo duplicado em pouco mais de 40 anos. As projecções do Census Bureau Americano (2010) indicam que a população continuará a crescer no século XXI, embora mais lentamente. Calcula-se que a população mundial crescerá de 6,8 biliões em 2010 para 9 biliões em 2044, um aumento de 24% em 34 anos (Gráfico 9).

Produção de Leite: países desenvolvidos versus países em desenvolvimento

Países desenvolvidos Países em desenvolvimento M ilh õe s de to ne la da s Países desenvolvidos Países em desenvolvimento

Produção de Carne: países desenvolvidos versus países em desenvolvimento

M ilh õe s de to ne la da s

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Gráfico 9 – Crescimento da população mundial de 1950-2050 (em número) e população global por países mais e menos desenvolvidos (retirados de http://www.census.gov/ipc/www/idb/worldpopgraph.php e de http://www.rr- africa.oie.int/docspdf/en/2011/PVS/VALLAT.pdf).

Este aumento da população conduzirá a uma maior necessidade de alimento, principalmente nos países em desenvolvimento, aumentando a proporção de pessoas que vive em estados de extrema pobreza e fome. Prevê-se que nas próximas duas décadas a procura global de leite e carne aumente aproximadamente 55%. A maior quota deste aumento ocorrerá nos países em desenvolvimento, onde estão previstos aumentos na procura de 95% na carne e de 80% no leite. Estas mudanças extraordinárias nos mercados de carne e leite foram designadas por “Revolução Pecuária” (Delgado, 1999).

A “Revolução Pecuária” tem um potencial de transformação da economia agrária comparável às alterações da “Revolução Verde”. A grande diferença entre ambas é que a “Revolução Verde” foi largamente impulsionada pela oferta enquanto a “Revolução Pecuária” é impelida pela procura e pela oferta (Narrod & Fuglie, 2000 citado por Narrod, Tiongco & Scott, 2011).

Este crescimento incomparável na procura de proteína de origem animal é um enorme desafio que se coloca à produção animal e aos Serviços Veterinários, principalmente nos países em desenvolvimento pois as alterações mencionadas têm globalizado cada vez mais o mercado e alterado os padrões do comércio internacional por: (i) forte crescimento económico na China, na Índia e no Brasil que já dominam a produção global de produtos de origem animal; (ii) menores barreiras ao comércio e acordos comerciais regionais; (iii) maior acesso ao mercado de exportação para produtos de

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origem animal pelos países em desenvolvimento; (iv) rupturas no mercado associadas a epidemias como a Febre Aftosa na Argentina e no Brasil ou a Influenza Aviária (H5N1) na Ásia e na Europa.

Este cenário é agravado pelo aumento do comércio de produtos provenientes de animais selvagens. Embora o comércio de certas espécies selvagens e dos seus produtos seja legal, existem restrições no comércio de espécies ameaçadas por sobre- exploração e de extinção. Apesar disto, a procura por estes produtos continua a aumentar, o que alimenta redes ilegais em muitas partes do mundo. Existem estimativas que referem que 40.000 primatas, 4 milhões de aves, 640.000 répteis e 350 milhões de peixes tropicais são comercializados anualmente, envolvendo verbas calculadas entre 3.4 e 15 biliões € (Karesh et al., 2005). As espécies mais lucrativas são o tigre (Panthera tigris), o marfim dos elefantes (Família Elephantidae), os cornos dos rinocerontes (Família Rhinocerotidae), o caviar (ovas das espécies de peixes da Família Acipenseridae), aves exóticas e répteis. Para caçadores pobres e comerciantes com poucas alternativas de gerar riqueza, o comércio ilegal tornou-se um modo de sobrevivência (Narrod, Tiongco & Scott, 2011).

O comércio de animais selvagens e seus produtos representam ameaças graves por perda da biodiversidade e potencial de introdução de espécies invasivas mas também porque pode ser uma fonte de transmissão de agentes etiológicos de Doenças Infecciosas Emergentes, algumas zoonóticas como a Influenza Aviária (anatídeos selvagens), o Síndrome Respiratório Agudo Grave (civetes), a Doença do Pericárdio (carraças africanas) e a Varíola dos Macacos (roedores africanos) (Wyler & Sheikh, 2008; Smith et al., 2009 citados por Narrod, Tiongco & Scott, 2011).

A procura de produtos de animais selvagens é desencadeada por motivos diferentes: na China e noutras partes da Ásia, existe uma procura por órgãos e tecidos específicos para a prática de Medicina tradicional; em África existe uma procura para consumo humano; na Europa e na América do Norte existe uma procura para troféus de caça, acessórios de moda e artigos de recordação (Wyler & Sheikh, 2008 citado por Narrod, Tiongco & Scott, 2011). Os países desenvolvidos são os maiores destinatários de produtos de animais selvagens e a oferta legal e ilegal destes produtos frequentemente provêm dos países em desenvolvimento ricos em biodiversidade (Narrod, Tiongco & Scott, 2011).

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3. O contributo dos Serviços Veterinários na Segurança Alimentar global