Aspirando ao modelo de civilização e ao progresso, as instituições de educação reconfiguram-se no início do século XX. Elas defendiam as campanhas nacionais de nacionalização cuja escola torna-se instrumento estratégico na formação de hábitos e valores na infância. Segundo Veiga (2007, p.221), “a educação da consciência moral consistia, principalmente, nas crianças, em narrações que provoquem reações espontâneas, verdadeiros juízos de valores que, pela repetição, acentuam-se e acabam por ligarem-se em estrutura definida”.
O jardim de infância cumpriria o papel de moralização da cultura infantil, utilizando a educação para o controle da vida social. Educar e higienizar tornam-se as premissas básicas do discurso médico-higienista, articulador da nova ordem. Assim, a ordem e a higiene são as primeiras condições, o ponto de partida.
A base do pensamento da sociedade moderna fundamenta-se na formação do novo cidadão, este serviria a uma nova ordem social. A escola, nesse contexto, usada como instrumento ideológico, teria a finalidade de formar a nova infância, a partir de um processo subjetivo de imposição de ideias, essas que constituirão a forma de pensar, agir e sentir o mundo. No entendimento de Faria (2004, p.144), o teórico Chervel defenderia que “a instituição escolar era capaz de produzir um saber específico cujos efeitos estendiam-se sobre a sociedade e a cultura, e que emergiam as determinantes do próprio funcionamento institucional”. A escola, nesse sentido, desenvolveria uma cultura específica, singular e original.
A influência da Escola Nova no Jardim Modelo revelava a concepção do dever de educar a criança, ela deveria ser preparada não só como futuro cidadão capaz de preencher seus deveres para com a Pátria, mas também com sua humanização (VEIGA, 2007). Pestalozzi foi um grande contribuidor para a formação religiosa das crianças, determinando-a como um dos princípios básicos para a educação, uma vez que o fim da educação seria a formação moral da criança.
143 Na Figura 35 notamos a participação de um padre, na Semana da Criança, exercendo uma representação simbólica do “ritual” de batismo. Vemos, na cena, a imagem de uma menina entregando sua boneca para que o padre a benzesse, abençoando-a, desenvolvendo procedimentos religiosos que formariam uma educação moral. No plano de fundo da imagem, notamos a presença de adultos que acreditamos serem as professoras, contemplando a ação religiosa.
Com Kossoy (2012, p.41) entendemos que a fotografia seria uma “imagem, registro visual fixo de um fragmento do mundo exterior, conjunto dos elementos icônicos que compõem o conteúdo: informações de diferentes naturezas nele gravadas”. Nesse sentido, suas informações contidas na imagem fazem-nos perceber a responsabilidade dada às crianças para exercerem funções sociais impostas pelos adultos, mediante a ordens e exigências contidas num sistema educacional que dá ao professor ou ao adulto papel de autoridade e admiração, no qual as crianças seguiriam seus passos.
Figura 35: Batismos de Bonecas – Semana da Criança (1954)
144 A formação moral do sujeito estaria nas relações interpessoais permitindo desenvolver a capacidade de comunicação e respeito mútuo, mediante sua consciência moral. Ela, assim como a intelectual, deve exercitar- se não de fora pra dentro, por autoridade imposta, mas de dentro para fora, pela experiência e prática gradual do sentido crítico e da liberdade. Sendo assim, as relações de interações sociais que as crianças estabelecem entre si e com o universo adulto, permitem que elas assimilem e construam seu modo de ver o mundo. Pestalozzi acreditava que o ato de educar “deveria ocorrer em um ambiente o mais natural possível, num clima de disciplina estrita, mas amorosa, e pôr em ação o que a criança já possui dentro de si, contribuindo para o desenvolvimento do caráter infantil” (OLIVEIRA, 2005, p.66).
Pensando num currículo que norteasse a prática pedagógica no Jardim de Infância Modelo, observamos a forte presença das teorias fundamentais da psicologia da aprendizagem infantil. Havia um destaque especial para a educação moral, a disciplina e a instrução de valores, além da higiene e a educação física com os jogos livres e a dança, como podemos afirmar a partir das imagens fornecidas pelo Instituto Superior de Educação Presidente Kennedy.
A imagem seguinte (FIGURA 36) aborda um momento educacional, moral e cívico que tinha o intuito de moldar a criança republicana. Os alunos participavam dessa festividade, comemorando, junto à sociedade (autoridades políticas, jurídica, religiosos, famílias, etc), essa data cívica tão valiosa para a formação do sentimento de pertencimento da Nação. Havia uma grande mobilização das escolas da cidade, para marchar, cantar e cultuar os heróis nacionais. A Semana da Pátria era uma exaltação pública do bom comportamento das novas crianças republicanas, elas tornavam-se exemplos de cidadãos e recebiam condecorações em solenidade festiva. De acordo com Moreira (2005, p. 105),
Tal medida incluía-se no Regimento Interno das Escolas Públicas do Rio Grande do Norte, (art.20) como um dos instrumentos de estímulo e meio disciplinar em substituição à palmatória. A escola transmissora da ciência e dos conhecimentos úteis é também responsável pela formação de bons hábitos, bons costumes, bom comportamento.
145 A fotografia, datada no ano de 1952, representa o desfile do Jardim de Infância, situado no bairro da Ribeira. Desse local, as crianças passeariam pelas principais ruas da capital. Entre as características dessas festividades, destacamos que as comemorações ocorriam no período diurno, com espaços demarcados, cabendo aos militares ocuparem o lugar de destaque na avenida.
Figura 36: Desfile Cívico, 1952.
146 Outro aspecto importante que podemos observar na imagem são os movimentos e a utilização do espaço pelos alunos, sendo fundamental na realização de um cortejo com graça e precisão, como o explorado nesse exercício corporal. Nessa ótica, pensamos na afirmação de Vigarello (1997, p. 17), ao dizer que o corpo “é o primeiro espaço onde se impõem os limites sociais e psicológicos que foram dados a sua conduta, ele é o emblema onde a cultura vem inscrever signos como também seus brasões”. Assim, essa festividade cria um sentido de corporificação, onde os gestos, as vestes e movimentos se constituem elementos valiosos para a formação de valores.
Para Dubois (2009), a fotografia não representaria, apenas, o produto da técnica e a ação do fotógrafo, mas “(...) é também, em primeiro lugar, um verdadeiro ato icônico, uma imagem, (...) algo que não se pode conceber fora de suas circunstâncias (...) uma imagem-ato” (DUBOIS, 2009, p.15). Dessa forma, a “Parada Cívica, ou Desfile Cívico”, é considerado um rito histórico, pois, afinal esta apresenta uma temporalidade registrada de forma empírica e documental, sendo um marco na história brasileira.
Apoiando-se no entendimento de tempo escolar de Antonio Vinão Frago (1998), existiria um tempo institucional, pessoal, cultural e individual. Dentre os tempos diversos na Instituição há o tempo das festas escolares. Ele é organizado e construído enquanto produto cultural, mas é vivido não somente pelos professores e alunos, mas também pelas famílias e pela comunidade. Esse tempo segue a rotina dos calendários escolares que tem um início e um final das atividades, intercaladas com as datas festivas e as férias.
As festas escolares, assim como os momentos de manifestação cívica, são eventos sociais especiais da vida escolar, diferentemente da rotina e que adquirem um significado simbólico de explicitar certas situações ou mesmo como rituais. Sendo assim, o tempo e as práticas escolares são representações culturais desenvolvidas no âmbito escolar e fora dele, com o fim de se tornarem essenciais na produção e reprodução da formação social.
Dentre vários eventos festivos como Dia do Soldado, Festa de São João, Dia das Crianças, entre outros, podemos citar a Festa de Formatura (FIGURA 37). No final do ano letivo, os alunos concluintes do Jardim de Infância Modelo da Capital reuniam-se numa solenidade compreendida como um ritual de
147 passagem. As crianças estariam afirmando diante da sociedade seus conhecimentos e preparo para o ingresso no Ensino Primário.
Para a realização dessas festas, existia um tempo de organização e ensaios, no qual as crianças eram disciplinadas ao mantimento da ordem. As roupas elegantes demonstram a relevância dada a tal evento que contava com a presença da comunidade. Assim, as festas seriam momentos solenes carregados de caráter simbólico e representações sociais.
Figura 37: Festa de Formatura, 1948.
148 Desse modo, a escola, entendida como o espaço de tempo e culturas escolares, é marcada por significações simbólicas, num processo constante de criação e recriação de culturas. Segundo Roger Chartier (1991),
as culturas se apreendem dos bens simbólicos, produzindo assim usos e significações diferenciadas. Ele também aborda que no espaço assim traçado se inscreve todo trabalho situado no cruzamento de uma história das práticas, social e historicamente diferenciadas e de uma história das representações inscritas nos textos ou produzidas pelos indivíduos (CHARTIER, 1991, pg. 179)
Assim, quando a escola agrupa as práticas sociais como as festas e desfiles cívicos estão produzindo sensações e emoções na vida dos alunos, que permanecerão pela sua vida. Essas práticas específicas possuem significados diferenciados para os diversos atores sociais e pode ser uma fonte de construção da memória coletiva.