CHAPITRE V SYNTHESES ET PERSPECTIVES
Annexe 10 : Chiffrage économique du recyclage
3.2. Recyclage « type maraîchage »
sobre a importância do trabalho para a sociedade de maneira geral. “O trabalho é aquilo que tu faz e é como a sociedade te vê”, porém quando questionada sobre “quem é”, não falou sobre o trabalho, porque “eu não me vejo como professora, mas é assim que a sociedade me vê”, referindo-se às suas características como mulher e sua personalidade.
O trabalho em sua vida tem uma função de equilíbrio. “Tudo na vida é dual, tem dois lados”, referindo-se ao fato de que as pessoas podem ter momentos seus, mas paralelo tem o dever com o trabalho, o compromisso. Dessa maneira o trabalho é importante para a sociedade e para sua própria vida. Apesar de muitos profissionais da área da educação reclamarem dos salários, Africana diz que sempre “viveu” muito bem com o salário de professora e que tudo o que tem tirou da profissão. Se ganhasse mais, admite, seria ótimo.97
Africana conta que o seu trabalho hoje é bem mais leve do que ao longo dos seus 32 anos de carreira. Ela relata que atuar em cursos profissionalizantes, por exemplo, não é uma atividade fácil, porque ela trabalhava com pesquisas e projetos de forma exaustiva. Já com o ensino infantil o trabalho é mais prazeroso para ela, porque trabalha diretamente com crianças. Na função de supervisora, trabalha diretamente com os professores da escola. Segundo ela esta é uma tarefa muito agradável. Assumindo que a sua realização profissional hoje está atrelada ao fato dela fazer o que realmente gosta, Africana é enfática:
... se a coisa não é prazerosa, eu não faço. Eu não faço nada porque tem que fazer. Eu faço porque vou me sentir bem fazendo aquilo. Eu já passei da idade de ter obrigação de fazer qualquer coisa por fazer. Isso aí já não me pertence mais. (Africana, 53 anos, Supervisora Educacional).
97 Africana conta que seu rendimento no Ensino Estadual não chega à metade do seu rendimento no Ensino municipal. No ensino particular, conta que não tinha os outros rendimentos, e que geralmente os professores são melhor remunerados, se comparado ao ensino público.
Contando como chegou ao trabalho atual, lembrou que há 14 anos tem as matrículas no magistério público, Estadual e Municipal. Quando chegou perto de aposentar-se, cumpriu suas licenças, mas faltou apenas um mês, que ela teria que obrigatoriamente cumprir. Foi então que chegou à escola que está, em dezembro de 2010 e até hoje não conseguiu se aposentar. Africana demonstra um receio do “depois” da aposentadoria, e diz que não se aposentou ainda porque não quis. Como gostou da escola fez um acordo com a sua amiga Lua (diretora), que permaneceria na escola enquanto ela estivesse no cargo. Segundo ela, a parceria deu certo, porque a cada mês elas estão “aumentando e aumentando” as ações e projetos na escola.
Em sua fala, destacada anteriormente, podemos perceber como a idade interfere na percepção da entrevistada sobre o bem estar profissional, a obrigação não lhe pesa mais, como talvez pudesse ter sido no início da sua carreira. Hoje, apesar de poder estar aposentada, Africana prefere trabalhar e o faz porque lhe faz bem. Fica evidente que nem sempre foi assim, em função dos comentários sobre o trabalho com educação profissionalizante, por exemplo. Então este “fazer o que gosta” mostra uma condição atual da professora.
Formada em 1979, Africana diz que teve o privilégio de só estudar, não precisou trabalhar e nunca teve outro emprego a não ser professora. Por outro lado, o trabalho voluntário ainda é uma realidade da qual se orgulha muito. Ela trabalha com um grupo de pessoas em lares e casas que abrigam crianças com câncer e seus familiares. Com relação a outro trabalho não remunerado, o trabalho doméstico, brinca: “Eu já fui boa nisso”, mas hoje não tem muita urgência em fazer, “se eu não tô afim, fica”. As vezes chama alguém para ajudar e conta, aos risos, que “hoje mesmo, eu saí do sério”, referindo que naquele dia realizou as atividades domésticas.
Africana acredita que, atualmente, o fato de ser mulher não influencia na sua profissão, mas conta que quando entrou no magistério isso contava muito: “Mas teve uma época que influenciava. Ainda mais no meu caso. Mulher, negra, professora. Eram três coisas que pesavam”. O preconceito era evidente, conta, porém hoje não sabe dizer exatamente se isso não existe mais ou se ela é que aprendeu a “tirar de letra”. Atualmente não tem colegas homens, mas
afirma que é mais fácil trabalhar com eles do que com mulheres. Já teve chefes e subalternos homens, e nunca teve problemas, acha “tranquilo”.
Africana nega que hoje existam diferenças entre trabalhos de homens e de mulheres fora a questão salarial. Isso se deve, segundo ela, a uma “coisa circular”, histórica. Africana afirma que mesmo nas empresas mais modernas, comparando chefes homens e mulheres com o mesmo desempenho, as mulheres ganham menos.
Como referência profissional diz que até hoje lembra de uma professora de Psicologia que teve no magistério. Diz admirar sua postura profissional e pessoal, “ela era muito boa, gostava muito dela”. Apesar da influência dessa sua professora, que lhe instigou a seguir a carreira docente, Africana conta que se não fosse professora seria advogada.
Africana não julga as mulheres que preferem não trabalhar para cuidar da casa, “se isso satisfaz, maravilha”. Por outro lado conta que nunca precisou administrar o trabalho e a família. Apesar de ter sido casada, nunca teve filhos e sempre morou com os pais98, “primeiro era só estudar e passear, depois trabalhar e passear”, dividindo a sua vida em duas fases, antes e depois de tornar-se professora. Isso faz parte das conquistas históricas femininas que ela pôde usufruir. Segundo ela a independência foi a mais importante, englobando questões de trabalho, casamento, filhos, etc.