No hinduísmo a ideia de karma é central, sendo uma lei moral de causa e efeito, ou seja, de reciprocidade, entre os comportamentos dos indivíduos e as consequências destes nas suas vidas.
No entanto, karma não se confunde com fatalismo, já que a decisão por determinado comportamento é realizada em liberdade. Desta forma, acentua-se a responsabilidade do indivíduo na sua situação, no presente e no futuro (Smith, 2014), bem como a sua interdependência relativamente ao outro.
Paralelamente a esta responsabilidade individual, destaca-se o dever como um dos objetivos de vida, a par do prazer e do sucesso. O dever traduz-se no comportamento responsável na prossecução da missão de cada um e na participação cívica, sendo através daquele, que o ser humano pode atingir a libertação (moksha) (Smith, 2014).
Esta participação é expressa através da contribuição que cada indivíduo traz para a sociedade, nomeadamente o apoio que poderá prestar através de donativos, aos grupos mais vulneráveis da comunidade (Sharma, Agarwal e Ketola, 2009).
Página 68 de 427 A bondade seria, no entender do imperador Ashoka, um ato de inteligência (Carmo, 2011), ou seja, tal como já referimos em relação à doutrina social da igreja, a solidariedade surge associada, não apenas a um processo subjetivo, mas como o reflexo de uma avaliação racional dos benefícios pessoais retirados da preocupação com o outro.
O hinduísmo foi influenciado por várias doutrinas religiosas, nomeadamente o budismo que tem Buda como figura central. A aceção de responsabilidade no budismo está associada aos indivíduos e à sua transformação (individualmente e em grupo), e não a manifestações sobrenaturais ou entidades divinas (Brazier, 2008), o que expressa uma crença na autonomia dos indivíduos e na sua capacidade de promover a mudança social.
A responsabilidade, no pensamento social budista, tem expressão essencialmente através da noção de interdependência (ou originação dependente52), pelo que a transformação da
consciência individual terá necessariamente consequências na consciência coletiva (Hanh, 2004) ou, utilizando outra designação, numa consciência universal (Puri, s/d).
A interdependência é vista por Sua Santidade o Dalai Lama como baseada na reciprocidade de direitos e deveres, de forma a preservar a dignidade da humanidade, ou seja, o indivíduo não pode descurar a sua responsabilidade social (num sentido mais lato), nem a sociedade pode prejudicar a humanidade do indivíduo. Desta forma, a noção de responsabilidade universal está ancorada no facto de que as ações individuais deverão beneficiar todos os seres (Puri, s/d). Neste sentido, a componente ambiental da responsabilidade é enfatizada, nomeadamente no respeito para com a natureza e todos os seres vivos.
A centralidade da interdependência leva ao surgimento da noção de não-eu, ou seja, a promoção de uma ação altruísta. Neste sentido, o karma seria o confronto com a responsabilidade de cada um relativamente às suas próprias ações, enfatizando, pois, as
Página 69 de 427 consequências das mesmas. O altruísmo acaba por ajudar o próprio indivíduo, dada a interdependência do bem-estar deste em relação ao bem-estar do outro (Brazier, 2008).
Embora existam algumas divergências nos principais ramos do movimento budista (mahayana53 e hinayana54), ambos reconhecem dois importantes atributos da iluminação: a
sabedoria e a compaixão. Se para a perspetiva hinayana, a sabedoria é o atributo mais importante, dele decorrendo a compaixão, a vertente mahayana, privilegia a compaixão, por considerar que esta não decorre automaticamente da sabedoria (Smith, 2014).
Esta última aceção, marcadamente presente no budismo ativo, que tem como uma das figuras centrais o monge vietnamita Tich Nhat Hanh, é bem visível na seguinte passagem:
O poder da compaixão é portanto o valor mais alto no Budismo. Compaixão significa
preocupação com as aflições sofridas por outros. A compaixão precisa de sabedoria
para poder ser útil. A compaixão é contudo superior a esta última. A sabedoria é a
serva da compaixão. A compaixão diz-nos o que é preciso ser feito e a sabedoria diz-
nos como fazê-lo. No Budismo não se trata de desaparecer para um mundo mágico
de sabedoria. Trata-se, sem dúvida, de fazer alguma coisa concreta (Brazier, 2008,
p.38).
Para Buda a virtude e a sabedoria seriam os fundamentos legítimos para a autoridade, sendo a compaixão o único poder justo na sociedade (Brazier, 2008).
53 A perspetiva mahayana é habitualmente traduzida como “Grande Veículo” ou “Grande Jangada”, sendo uma
abordagem mais popular, pelo que propõe a abertura do movimento a leigos (Brazier, 2008).
54 A perspetiva hinayana ou theravada, traduzida frequentemente como “Pequeno Veículo” ou “Pequena
Jangada”, baseia-se na meditação e desenvolvimento individual, associando-se à vida monástica e sendo por vezes acusada de cair no individualismo (Brazier, 2008).
Página 70 de 427 A compaixão não deve ser confundida com pena ou piedade, já que esta última se baseia num desnivelamento de poder entre indivíduos, aproximando-se antes do conceito de empatia utilizado no Serviço Social (Pyles, s/d).
Desta forma, e também em termos políticos o budismo facilitou o desenvolvimento da sangha (palavra simultaneamente utilizada para expressar a ideia de república e de parlamento), ou seja, estruturas que deviam levar em conta o que melhor servia os interesses de toda a tribo e de conduzir uma liderança iluminada, baseando-se num sistema de valores no qual as pessoas sintam alguma solidariedade conjunta e responsabilidade mútua (Brazier, 2008, p. 56).
Estes grupos de pessoas não têm de ser homogéneos: O segredo para se criar um mundo melhor é criar a cooperação dentro da diversidade. Harmonia implica contraste, não uniformidade (Brazier, 2008, p. 245).
Inspirada nos ensinamentos de Buda, o budismo assenta numa revolução pacífica da consciência humana, que permita questionar o poder e evitar a cooperação com a opressão, configurando-se, pois, como uma filosofia positiva no que respeita à crença no ser humano como agente transformador da sociedade (Brazier, 2008).
No Sutta-Nipata, documento chave do budismo, Buddha relaciona poder e dever.
Aí, Buddha defende que temos uma responsabilidade para com os animais,
precisamente por causa da assimetria que subsiste entre nós e eles, e não por causa
de uma qualquer simetria que provoque em nós a necessidade de cooperação (…).
(…) a razão da mãe para ajudar o filho não é guiada pela recompensa que resulte da
cooperação, mas apenas do reconhecimento por parte dela de que,
Página 71 de 427 diferença na vida dele, coisas essas que o filho não pode fazer por si mesmo. Não é
que a mãe precise de pensar num qualquer benefício mútuo (…) (Sen, 2010, p. 287).
Sen (2010) realça assim o poder como elemento de análise da cooperação como necessariamente geradora de benefícios mútuos.