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Procurámos nesta secção analisar a noção de responsabilidade social nas várias perspetivas ideológico-doutrinárias, quer no campo da política, quer da religião, dimensões incontornáveis na análise social na atualidade e na conceção de estratégias de intervenção face aos desafios sociais colocados.

Da leitura integrada das perspetivas políticas apresentadas acima, parece-nos ser de concluir que a responsabilidade social surge situada quer no âmbito da esfera individual, quer na esfera coletiva. Se em termos individuais será fundamental trabalhar as questões da liberdade, autonomia e mesmo da igualdade, numa leitura equilibrada entre direitos e deveres, sem uma consciência social e uma noção de interdependência, não será possível

Página 73 de 427 tornar efetivo o princípio da solidariedade, como elemento estruturante de sustentabilidade e coesão social.

A tabela seguinte tenta sistematizar a análise realizada anteriormente, relativamente aos pressupostos das perspetivas políticas (e não necessariamente em relação aos seus resultados), nomeadamente em três vertentes: os valores privilegiados por cada uma das perspetivas ideológico-doutrinárias e os agentes e conceções de responsabilidade social que delas emergem.

Tabela 1.3 Análise dos valores, agentes e conceções de responsabilidade social nas perspetivas ideológico- doutrinárias (Elaboração própria)

Perspetivas ideológico- doutrinárias

Valor dominante Agentes da responsabilidade social

Conceção de responsabilidade social

(RS)

Liberais Liberdade Indivíduo RS reativa e filantrópica de base individual Socialistas-marxistas Igualdade Estado RS coletiva

Neoconservadoras Liberdade Família, mercado

RS filantrópica, normativa e paternalista Terceira via Solidariedade Indivíduo, Estado e

sociedade civil RS partilhada

Big society Liberdade Indivíduo, Comunidade

RS partilhada, normativa e paternalista

Esta sistematização torna evidente a existência de diferentes conceções de responsabilidade social, mas que se podem agrupar essencialmente em três grupos distintos: uma visão filantrópica (perspetivas liberais e neoconservadoras), uma visão normativa (perspetivas neoconservadoras e big society), uma visão coletiva (perspetivas socialistas-marxistas) e uma visão partilhada (perspetivas de terceira via).

De realçar que o paternalismo parece poder emergir em conceções diversas, mas que têm em comum o facto de desenvolverem uma atitude de desconfiança básica relativamente aos indivíduos, frequentemente associada a uma aposta numa ação fiscalizadora junto dos mesmos.

Página 74 de 427 No que diz respeito às doutrinas religiosas, parecem ter-se reunido elementos que vão no sentido da afirmação de Carmo (2011) de que todas valorizam a solidariedade como elemento indispensável à coesão social (p.149).

Neste sentido na Declaração para uma Ética Global do Conselho para o Parlamento das Religiões do Mundo55, reconhece-se a existência de um conjunto comum de valores centrais

defendido por todas as religiões, que poderá apoiar a construção de uma ética global. É também reconhecida a interdependência entre indivíduos e, consequentemente, a necessária cultura de solidariedade, de não-violência e de não discriminação, de forma a promover a justiça social e económica (CPWR, 1993).

Neste processo é enfatizada a responsabilidade individual, uma vez que o envolvimento de cada indivíduo é extremamente necessário, mas também a responsabilidade global em relação à humanidade e ao planeta Terra (CPWR, 1993).

Procurando sistematizar os elementos constantes da análise realizada anteriormente, emergem algumas dimensões relevantes na construção de um conceito mais aprofundado de responsabilidade social, claramente interligadas entre si, como se pode verificar na figura seguinte.

55 Hans Kung, conhecido teólogo, trabalhou com o Conselho para o Parlamento das Religiões do Mundo, no sentido de produzir esta Declaração, que acabaria por ser lançada em 1993 (CPWR, 1993) e que se pretende constituir como um documento interreligioso acerca da situação mundial e dos principais problemas sociais.

Página 75 de 427 Figura 1.2 Dimensões emergentes de responsabilidade social com base na análise das doutrinas religiosas

(Elaboração própria)

A dimensão principal que emerge de forma substancial da análise realizada é a da solidariedade e da qual decorrem as restantes. As doutrinas proféticas preveem a responsabilidade individual como base de construção da solidariedade, aspeto também presente no dever hinduísta e na compaixão budista em relação a todos os seres, também com uma forte componente ambiental. A componente ambiental volta a estar presente na necessidade preconizada pelo taoísmo de integração com a Natureza. Por fim, o confucionismo acentua a questão da solidariedade nas relações sociais e, com particular destaque nas relações intergeracionais.

Também a participação cívica surge como dimensão comum na leitura das doutrinas religiosas relativamente à responsabilidade e que se traduz, por exemplo, no princípio de subsidiariedade da doutrina social da igreja, ou seja, a existência de diferentes níveis de responsabilidade complementares entre si (corresponsabilidade).

Por outro lado, a participação cívica é o caminho para a libertação hinduísta e, para o budismo, ancorada em estruturas coletivas, é o meio para atingir a responsabilidade mútua.

- Solidariedade - Participação cívica/ corresponsabilização - Poder e interdependência - Sabedoria e verdade Doutrinas de base profética (judaísmo, islamismo e cristianismo) Doutrinas sapienciais (confucionismo e taoísmo) Doutrinas de origem mística (hinduísmo e budismo)

Página 76 de 427 A participação cívica está, por sua vez, ligada ao poder e interdependência, designadamente do poder de exercer direitos e deveres na sociedade, aspeto amplamente tratado na doutrina social da igreja. Destaca-se no budismo a noção de poder dos indivíduos como agentes transformadores da sociedade e do poder da não cooperação dos mesmos com a opressão, aspeto que viria a marcar o movimento da não-violência ativa. A interdependência é um elemento central também no budismo e hinduísmo (karma), bem como no taoísmo (yin e yang).

A doutrina social da igreja relaciona os diferenciais de poder com a natural interdependência entre indivíduos, aspeto também evidente no budismo, que considera que a um maior poder corresponde maior responsabilidade, assumindo o confucionismo a procura de igualdade de poder como manifestação de sabedoria.

Por fim, a dimensão da sabedoria e verdade surge como elemento central no budismo (como parte do processo de iluminação) e no confucionismo, dando conta, por exemplo no caso da doutrina social da igreja e do hinduísmo, da existência de benefícios do comportamento responsável e solidário, quer em relação ao bem comum, quer em termos individuais, aspeto que vai além do conceito de filantropia.

Gostaríamos ainda de realçar a presença, nas várias doutrinas, de diferentes esferas de atuação de responsabilidade social, desde o indivíduo, passando pela família e por estruturas de governação coletiva, até a uma responsabilidade social de dimensão cósmica.

A análise integrada das dimensões referidas, bem como das esferas de atuação tem o objetivo de construir uma matriz de análise ideológico-doutrinária que será fundamental para situar os desafios do Serviço Social no âmbito da responsabilidade social no capítulo 3.

No entanto, ainda antes desta reflexão, será importante complementar esta análise com os fundamentos teóricos e práticos da responsabilidade social, tema sobre o qual versará o capítulo seguinte.

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Síntese

Neste capítulo procurámos lançar as bases para a delimitação de um conceito de responsabilidade social que possa apoiar a sua análise no contexto do Serviço Social.

Começámos por explorar as raízes etimológicas do conceito e analisar os seus fundamentos éticos. Neste sentido, apresentámos as abordagens clássicas (teleológicas e deontológicas), as teorias da justiça, a ética das virtudes e o relativismo ético, tendo daqui resultado uma conceção de responsabilidade social como um compromisso ético de atuar em benefício de outrem, decorrente do reconhecimento da interdependência dos seres humanos entre si e com a biosfera e da necessidade de contribuir para o bem comum, tendo em conta as circunstâncias específicas de atuação (Carmo e Esgaio, 2016, p.174).

De seguida, enquadrámos as questões da responsabilidade social nas perspetivas ideológico- doutrinárias na política e na religião, tendo a sua análise, do ponto de vista político, revelado orientações individuais ou coletivas, filantrópicas ou partilhadas. Nas doutrinas religiosas, pese embora as suas diversidades, foram notórias algumas convergências, nomeadamente nos elementos envolvidos numa atitude e numa prática de responsabilidade social, como a solidariedade, a participação cívica e a corresponsabilização, e a relação entre poder, interdependência, sabedoria e verdade.

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