The Active Learning Procedure
A.2.3 The RBF Total Output Uncertainty Measure
O ponto de partida do presente estudo constituiu-se em investigar como a cultura da escola e a cultura escolar se produzem no cotidiano da Classe Multisseriada. Para constituir tal problemática, muitas foram as inquietações sobre o recorte empírico do objeto de pesquisa. Algumas registradas no Diário de Campo. Mas prosseguimos. O texto de qualificação foi elaborado levando em consideração o levantamento da produção acadêmica acumulada que discute Classe Multisseriada, a contribuição dos teóricos que beneficiaram na compreensão da análise dos dados e os pressuspostos metodológicos.
Foi no primeiro semestre de 2018, com as orientações da pós-qualificação e no processo de orientação, que percorremos o caminho a uma Classe Multisseriada. Investigar a Escola Unidocente da comunidade de Califórnia no município de Domingos Martins-ES nos possibilitou “[...] retratar o cotidiano escolar em toda a sua riqueza [...]” (LÜDKE e ANDRÉ, 1986, p. 23). Os teóricos nos auxiliaram na elaboração da metodologia e a buscar elementos para uma melhor compreensão das práticas desta Classe e suas relações com outras instituições do Município. Como evidenciado no decorrer da presente dissertação, desejou-se com esta pesquisa expandir a importância social, cultural e política dos sujeitos que compõem a Classe Multisseriada. Por isso, o município de Domingos Martins-ES foi escolhido. Por apresentar experiências significativas com o Ensino Multisseriado e por acreditarmos que a relevância deste estudo deu-se pelos processos culturais produzidos nessas Classes.
Os pressupostos desta pesquisa nos permitiram dialogar com vários sujeitos em diferentes contextos: estudo in loco e roda de conversa no GF na EMUEF Califórnia, entrevistas, aplicação de questionários, análise documental e debates na formação do Programa Escola da Terra Capixaba. Assim, como objetivo principal, as análises nos possibilitaram a compreensão de diversas nuances do cotidiano da Classe Multisseriada a partir da identificação das práticas do cotidiano escolar, bem como, importantes reflexões sobre as implicações das culturas frente aos processos educacionais. De acordo com as informações coletadas e a investigação em vários âmbitos, algumas interpretações foram apresentadas nessas considerações.
A realização desta pesquisa possibilitou levantar algumas questões e perceber os desafios e possibilidades presentes na Classe Multisseriada. Permitiu-nos analisar a complexidade dos processos que constituem a cultura escolar (FORQUIN, 1993) desta organização do ensino, importantes para a construção de práticas capazes de dialogar com relações socioculturais. Destacaremos alguns aspectos.
Considerações relevantes partiram da problemática inicial do estudo desenvolvido, por meio das abordagens teóricas e da identificação das práticas do cotidiano escolar. O referencial teórico nos auxiliou a compreender e a analisar os dados que se apresentaram no decorrer dos estudos na EMUEF Califórnia. Em Forquin entendemos que entre a educação e a cultura existe uma estreita relação, sendo a cultura uma dimensão incorporada ao planejamento escolar, isto é, como parte pedagógica integrante para se pensar os conhecimentos escolares. Brandão nos possibilitou verificar que a cultura é um elemento ativo e fundamental na vida do ser humano em qualquer tempo e espaço. Esse pensamento nos remete à definição de que “as culturas são múltiplas e cada cultura só pode ser densamente compreendida de dentro para fora” (BRANDÃO; 2009, p. 720).
A imersão no cotidiano de uma Classe Multisseriada e a análise dos dados do questionário, referendados no capítulo 4 nos levaram a constatar, pelos pressupostos teóricos de Forquin e Candau, que essa Classe se constitui como um espaço dinâmico que além dos processos educativos com os alunos, se afirmou como lugar que abrange as dimensões sociais, culturais e políticas.
Consideramos a Classe Multisseriada como espaço privilegiado de expressão da cultura da escola, permeada pelas experiências sociais comunitárias, isto é, pela cultura social que interfere nos processos normatizados e rotinizados que emergem no cotidiano. Como lugar para o cruzamento de culturas, de práticas interdisciplinares e, ambiente favorável para se romper com a padronização e homogeneização do ensino.
Nossas análises nos levaram a perceber que, a cultura escolar se apresentou na maneira como a Classe Multisseriada está organizada no município de Domingos Martins-ES. Ela se deu na Unidocência e na Pluridocência e se manifestou regida por normas e ações coordenadas pelo currículo prescritivo, pelos planos e programas conjunturais de interesse macro. A cultura escolar desta Classe no Município, para muitos profissionais se denomina como “escolinhas pequenas”, que
ao nosso entendimento, tal pequenez se fundamenta pela escassez de recursos (quadra, parques, biblioteca, livros de literatura, brinquedos), não possibilitando dimensionar sua amplitude social e cultural. Também se constituiu pela responsabilização docente quase solitária frente aos desafios do cotidiano.
No que se refere à cultura da escola, se presenciou na EMUEF Califórnia como modo peculiar de lidar com as normas e programas educativos advindos dos órgãos federal, estadual e municipal. Como um mundo social que tem ritmos, ritos, símbolos, linguagens e características próprias (FORQUIN, 1993, p. 167), que ressignificaram os conhecimentos prescritivos por meio da prática pedagógica com os temas de estudos em colaboração com a comunidade escolar.
Nesse movimento nos questionávamos como a professora articulava estes dois movimentos – cultura escolar e cultura da escola - de maneira que pudesse garantir o conhecimento escolar e não desconsiderar os saberes sociais de referência? Ela se preocupava com os conhecimentos considerados gerais, prescritos pela Base Nacional Comum Curricular, contidos no Documento Curricular da Educação Básica de Domingos Martins, mas de maneira significativa buscou relacioná-los aos saberes sociais dos alunos e da comunidade como um todo. A atitude de realizar assembleia com os pais para definir os temas de estudos se constituiu como cultura dessa escola, e nesse movimento, o planejamento escolar levou em consideração os elementos da interdisciplinaridade no processo ensino-aprendizagem.
A heterogeneidade, a interdisciplinaridade e as práticas colaborativas se mostraram como característica marcante presente na Classe Multisseriada. Nosso olhar se voltou para perceber que elas estiveram cotidianamente no fazer pedagógico da professora Giselle Marques Mulinari na EMUEF Califórnia e, por meio do questionário conforme capítulo 4, os demais professores também destacaram como processos relevantes no cotidiano escolar.
O trabalho com temas de estudos demarcou a prática do processo ensino- aprendizagem e se consolidou por meio das situações-problema levantadas pela professora com a comunidade escolar. Tais problemas se transformaram em temáticas que foram experenciadas nos conhecimentos escolares visando sua interlocução com os conhecimentos científicos. Hage (2010) contribuiu para pensarmos que é necessário trabalhar na perspectiva de inserção da
heterogeneidade sócio-cultural, produtiva e ambiental local com temas da realidade escolar.
Constatamos que a educação e a cultura estiveram ligadas e relacionadas organicamente (FORQUIN, 1993), uma vez que, o desenvolvimento da aprendizagem no cotidiano da EMUEF Califórnia abriu possibilidades de inserção e integração das diversas expressões e manifestações culturais.
As análises decorrentes do processo da pesquisa nos conscientizaram da interpenetração destas duas dimensões – a cultura escolar está presente na cultura da escola e vice-versa. Todavia, o encontro delas foi uma relação por vezes baseada em confrontos, em tensões, em conflitos, em rupturas e em resistências. Esse processo se deu devido ao distanciamento das prescrições determinadas que em alguns momentos, não dialogaram com as relações culturais e cotidianas da Classe Multisseriada. Isso nos evidenciou que a cultura escolar e a cultura da escola ora se aproximavam, ora se distanciavam, mas que o encontro entre elas se dá processualmente no lócus escolar e não escolar.
Nossa imersão na EMUEF Califórnia possibilitou-nos verificar que o espaço escolar se apresentou como um dos espaços de mobilização comunitária, de encontro dos sujeitos e importante local para discussão das situações sociais. Espaço esse que proporcionou momentos de aprendizado mútuo, entre alunos, pais/responsáveis, profissionais e comunidade. Sobre a relação escola-comunidade, percebemos que, no que tange ao relacionamento entre os sujeitos: professora, servente, motorista, pais, alunos, comunidade, conselho escola e demais profissionais, se pautou no comprometimento, na amorosidade, na cumplicidade e, no fortalecimento das relações culturais e sociais comunitárias. Presenciou-se em ações concretas, como na resistência ao fechamento da unidade escolar e nos momentos possibilitados para inserção desses sujeitos no contexto escolar.
Giroux (1997) levou-nos a ver que o papel desenvolvido pela professora Giselle foi o de intelectual transformadora, contribuindo para o fomento da capacidade crítica e de transformação das situações sociais. Os estudos de Vygotsky (2007) nos ajudaram a compreender que as relações sociais estabelecidas pela professora, seja na mediação do conhecimento com os alunos, seja no encontro com os demais sujeitos via escola, se constituiu em importante espaço para os saberes da cultura na qual estavam imersos.
Ao analisarmos no capítulo 5, o contexto histórico das Classes Multisseriadas em contexto macro e em Domingos Martins-ES, bem como, as questões que permeiam as políticas públicas para essa cultura escolar, trazemos outras questões que endossaram nossas análises:
- Apesar das políticas públicas para a Educação do Campo, ainda observou-se que os processos de nucleação e fechamento de Classes Multisseriadas têm ocorrido e contribuído para racionalizar as unidades de ensino, sobretudo na década de 90, que as apresentou como “um problema” para a qualidade do trabalho pedagógico. - Ainda prevalecem representações preconceituosas sobre a Classe Multisseriada e seus sujeitos, mesmo diante de discussões sobre a Educação do Campo neste Município.
- Apesar do paradigma seriado urbanocêntrico se projetar historicamente nessas Classes, Domingos Martins-ES já possui desde 1999 uma proposta pedagógica bem consolidada, fundada pelo trabalho por temas de estudos, possibilitando dessa maneira, a articulação do saber científico e o saber cotidiano. Observamos que existe uma pedagogia própria para lidar com o processo ensino-aprendizagem na Classe Multisseriada. Mediante esse aspecto enfatizamos que ela precisa se fortalecer enquanto política pública para não aparecer superficialmente nos documentos oficiais e na legislação do cenário municipal.
- Com a produção do Documento Curricular da Rede Municipal de Ensino a partir de 2014, o trabalho pedagógico que já vinha sendo realizado se fortaleceu, haja vista que, as Classes Multisseriadas têm experiências significativas que agregam às práticas docentes de outros professores que atuam nas demais organizações de ensino. Então, articular esse Documento no que tange a organização dos conhecimentos, fazendo juz às narrativas dos professores, e atendendo ao planejamento daqueles que atuam nessas classes, se apresentou necessário.
- Os processos formativos específicos – Escola da Terra Capixaba – bem como aqueles realizados pela SECEDU em parceria com a UFES contribuem para discussões sobre as singularidades da Classe Multisseriada e o papel destas na escolaridade dos alunos.
- A cultura escolar da Classe Multisseriada tem marcas pedagógicas próprias construídas historicamente pelas vivências e experiências docentes, e segundo os professores, necessitam serem expandidas a todos no Município.
Diante deste contexto, compreendemos que a ação educativa não deve levar em consideração uma cultura única, mas o encontro das várias culturas. Candau (2018) e Forquin (1993) nos proporcionaram entender que cada cultura deve ser vista e entendida a sua própria especificidade. É isso que dá sentido e identidade a escola. Aspecto esse defendido por Freire, primando pelo desenvolvimento de uma cultura integradora a partir das relações do homem com a realidade.
Compreendemos que a Classe Multisseriada possui marcas culturais que se entrecruzam e especificidades que lhe são próprias e o olhar de inferioridade lançado sobre ela, não valoriza o trabalho pedagógico desenvolvido nessa organização de ensino, desta forma, a sua dimensão cultural é estruturante para emancipar o conhecimento dos sujeitos que participam da educação escolar.
No que se refere à análise documental, contida no capítulo 5, e por meio da revisão da produção acadêmica acumulada, no capítulo 2, a Classe Multisseriada em alguns estados, como no Espírito Santo e especificamente em Domingos Martins se apresentou como uma das principais características das escolas do campo, porém, apesar da significativa presença dessa cultura escolar no meio campesino, está ausente dos debates na educação, dos currículos, de licenciaturas que formam professores que atuam nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e das estatísticas do Censo Escolar Oficial.
Podemos dizer que a formação continuada no município de Domingos Martins-ES, se constituiu como momento primordial para reflexões, troca de experiências e suporte pedagógico aos professores da Classe Multisseriada. Ao buscarmos as influências que identificaram o importante processo formativo na constituição do ser professor nessas Classes, trazemos a formação da Educação do Campo ofertada na municipalidade, as discussões realizadas por meio do Macrocentro Vozes do Campo e o Curso de Extensão da Escola da Terra Capixaba ofertada em parceria com os municípios/UFES/SECADI/MEC.
Tornou-se evidente que o trabalho pedagógico da EMUEF Califórnia esteve além do ensino das matérias tradicionais. Residiu em uma proposta de trabalho que
considerou o desenvolvimento de experiências dos sujeitos, a partir dos conhecimentos teóricos e vividos e pela valorização da cultura local. Esse fazer pedagógico, quando necessário buscou tensionar, argumentar, apresentar sugestões, tendo em vista seus desafios, mas, principalmente, visando firmar sua cultura escolar.
O mergulho que realizamos no cotidiano da escola pesquisada nos levou a relativizar e problematizar a hipótese que orientou a pesquisa. Nosso propósito foi o de confirmar ou não a hipótese para esta pesquisa, que buscou verificar a interrelação entre a educação e as culturas na promoção de um processo educacional que tenha sentido e significado, com a possibilidade de ampliação dos conhecimentos escolares. Entendemos que a Classe Multisseriada não compreende um espaço onde os alunos de diferentes faixas etárias estão agrupados para aprender os conteúdos prescritos de cada série, de maneira fragmentada. Ele se apresentou como espaço coletivo heterogêneo, que reuniu diferentes saberes, expectativas, experiências culturais, sociais e históricas na apropriação dos seus direitos de aprendizagem.
O referencial teórico apresentado no decorrer desta dissertação e mais especificamente no capítulo 2 nos auxiliou a compreender que a Classe Multisseriada, ainda tem enfrentado desafios para se manter em suas comunidades, haja vista que, as políticas públicas compensatórias que se apresentaram historicamente, ainda se presenciam em contextos bem recentes. Isso nos leva a acreditar que é necessário que ela seja mais debatida nas agendas de planejamento do Ministério da Educação - MEC, Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, bem como nas Universidades e Centros de Pesquisa, a fim de propiciar movimentos de fortalecimento dessa cultura escolar em face de contemplar seu fortalecimento para a Educação do Campo, uma vez que, a política de fechamento dessas Classes continua na maioria dos municípios.
Trazemos nessas considerações algumas preocupações da atual conjuntura política: Que projeto educacional será pensado e almejado para as populações do campo, em especial aos alunos da Classe Multisseriada? A Classe Multisseriada possui uma peculiaridade pedagógica, entretanto, face às políticas públicas que estão se apresentando aos sujeitos do campo, como se fundamentará a visão e as políticas públicas para esta realidade escolar? Dada a relevância da cultura pedagógica da
Classe Multisseriada para a educação municipal, como conceber o fechamento de unidades escolares sem fundamentação que justifiquem sua nucleação?
As respostas para tais indagações são imprevisíveis, face aos pressupostos neoliberais da atual conjuntura política e poderão ser problematizados em futuros estudos. Todavia, não podemos deixar de mencionar a nossa preocupação, uma vez que a escola é o espaço onde todos os projetos, as leis e as políticas públicas se materializam. Nessa conjuntura e a partir do art. 5º da LDB, os elementos que estruturam a escola primam por uma perspectiva intercultural que conceba na sua constituição pedagógica, o respeito às diferenças assegurando o direito a igualdade, que considerem, valorizem e acolham a diversidade dos sujeitos do campo em todos os seus aspectos: culturais, sociais, econômicos, políticos, de gênero, de etnia e de geração.
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