A investigação qualitativa tem suas raízes históricas no final do século XIX e nasce da inquietação de cientistas sociais sobre o modelo de investigação das ciências físicas e naturais, com perspectivas positivistas - servir para o estudo das ciências humanas e sociais.
De acordo com André (1995), o historiador Dilthey foi o primeiro a propor o emprego de uma metodologia diferente para atender a complexidade e dinamismo dos fenômenos humanos e sociais. Para ele, a abordagem metodológica para a investigação dos problemas sociais deveria preocupar-se com a interpretação dos significados do texto e as suas inter-relações. Outra contribuição importante foi a de Weber, ao destacar a compreensão dos significados que os sujeitos atribuem às suas ações. Estes e outros estudiosos defendem a perspectiva do conhecimento chamado idealista-subjetivista ou fenomenológico, o qual valoriza a maneira própria
de entendimento da realidade pelo indivíduo, opondo-se à visão empirista da ciência.
Fundamentalmente, a fenomenologia considera necessário entender como as pessoas dão sentido aos acontecimentos, às experiências e às interações sociais da sua vida cotidiana. As idéias de Schutz trouxeram contribuições interessantes para esse paradigma: ele observou a vida cotidiana das pessoas, suas atividades corriqueiras. Para Coulon (1995a, p. 12), ”este mundo social é um mundo intersubjetivo, mundo de rotinas, em que a maioria dos atos da vida cotidiana são em geral realizados maquinalmente”.
É, então, essa concepção que dá origem à abordagem qualitativa de pesquisa, juntamente com as idéias surgidas no âmbito da antropologia americana, entre elas o interacionismo simbólico e a etnometodologia.
Bastante próxima a essa formulação subjetivista está a corrente teórica do interacionismo simbólico, com origem na Escola de Chicago, assim rotulada porque foi um grupo de sociólogos investigadores, docentes do departamento de Sociologia da Universidade de Chicago, nas décadas de 20 e 30, que forneceu significativas contribuições para o desenvolvimento da investigação qualitativa.
Outro teórico do interacionismo simbólico é o professor George Mead, também da Universidade de Chicago, e precursor da linha de pensamento que preconiza a relevância das interações sociais originando a visão que a pessoa cria de si mesma (COULON, 1995b).
A etnometodologia constitui outra corrente teórica que fundamenta a investigação qualitativa. Surgiu nos anos 60, na Califórnia, com Harold Garfinkel. Para Coulon (1995a) a publicação da obra de Harold Garfinkel Stuties in Ethnomethodology, em 1967, que postula perceber os fatos sociais como realizações práticas, efetuou uma ruptura com o pensamento da sociologia radical e apresentou-se como uma nova postura intelectual.
De acordo com André (1995, p. 19), essa corrente tem como preocupação principal: “O estudo de como os indivíduos compreendem e estruturam o seu dia-a- dia, isto é, procura descobrir ‘os métodos’ que as pessoas usam no seu dia-a-dia para entender e construir a realidade que as cerca”.
Para Coulon (1995a), a postura particular dos pesquisadores da corrente etnometodológica adota três princípios: 1) o caráter contextual de qualquer fato social; 2) o abandono das hipóteses prévias, permitindo ao pesquisador perceber o
problema através dos dados; 3) a descrição do que fazem os membros de uma comunidade para organizar a vida social em comum.
Ainda segundo esse autor, é a descrição o principal procedimento na pesquisa etnometodológica. Ele supõe duas posições para o pesquisador: a posição exterior, de ouvir, e a outra, de participante das rotinas, partilhando com os demais membros da pesquisa uma linguagem comum.
A etnometodologia permite ao pesquisador e aos informantes a oportunidade de falarem da realidade como ela é, e não como se quer que ela seja. Dessa forma, as pessoas falam de suas concepções e representações presentes no cotidiano de seres concretos e reais.
Na educação, a etnometodologia tem uma aplicação recente e valiosa, como afirma Coulon (1995a , p. 146):
A importância teórica, intelectual e prática, e a contribuição extremamente positiva dos estudos etnometodológicos em educação são consideráveis no sentido em que mostram como se realizam concretamente as discriminações na situação escola.
A etnometodologia da educação surge nos anos 60, objetivando avaliar os efeitos da educação. Posteriormente, preocupa-se em analisar as condições concretas do cotidiano escolar: número de alunos, métodos de ensino, tamanho das salas de aula, etc. Passa também a usar, na pesquisa de campo, dispositivos da etnografia, como a observação direta da sala de aula. Para Coulon (1995b), Mehan apresenta trabalhos precursores, que envolvem os três momentos da vida escolar: sala de aula, aplicação de testes e entrevistas de orientação. Como a nossa pesquisa se volta para situações de sala de aula, destacamos os estudos desse autor (Mehan, citado por Coulon, 1995b) sobre a interação entre professores e alunos, produzindo a organização na turma.
Coulon (1995b) destaca, entre as pesquisas de Mehan, as que se referem à sala de aula; ou seja, a sala de aula como organização social. Para esse autor (Mehan, citado por Coulon 1995b), a interação entre professores e alunos é responsável por essa organização. As situações de troca, denominadas “marcadores
escolares”, estruturam e marcam as fronteiras das seqüências interacionais, reproduzindo a organização da vida cotidiana.
Ainda segundo Coulon (1995b), outro tipo de interação nas salas de aula é a utilização pelo professor de interações em sala de aula - mudanças de estratégias -, favorecem ou dificultam as aprendizagens dos alunos. Assim, o sucesso ou fracasso das aprendizagens depende da existência de relações de confiança entre professores e alunos.
Esses aspectos estudados por Mehan (citado por Coulon, 1995b) e característicos da pesquisa etnometodológica que envolvem a organização de sala de aula permitem-nos refletir sobre os processos interativos estabelecidos na sala de aula e a sua relevância para o sucesso da aprendizagem dos alunos.
A descrição feita pelas pessoas para apreender toda a riqueza do processo de uma atividade social científica conta com o envolvimento da linguagem. No caso da escola, parece-nos interessante esse aspecto descritivo da pesquisa etnometodológica, o qual justifica a nossa escolha teórico-metodológica. Voltamo- nos para essa concepção que centra seu interesse em como as pessoas desenvolvem sua vida cotidiana. Descrever as relações cotidianas entre um professor e um grupo de alunos constitui, sem dúvida, uma riqueza habitual e empírica (COULON, 1995b).
A utilização pedagógica da investigação qualitativa amplia perspectivas para a formação de professores, pois confia-se na eficácia dessa utilização para se compreender como os professores vêem os seus trabalhos e a si próprios (BOGDAN e BIKLEN, 1994). Tal abordagem contribui para tornar os educadores mais reflexivos percebendo as experiências educativas através de um outro olhar.
Partindo dessa afirmação e tomando como referência esses autores, entre outros, podemos compreender que, entre os dois tipos de investigação qualitativa - a fundamental e a aplicada - tendemos a ajustar-nos ao segundo tipo, o que é justo, porque pretendemos aperfeiçoar nosso desempenho nas funções da docência compreendendo e empreendendo ações que proporcionem aos alunos melhores resultados.
Ainda sobre a abordagem qualitativa, é importante dizer que o seu uso em educação é recente, iniciado por volta dos anos 70, apesar de ter uma larga e rica tradição em outras áreas (BOGDAN e BIKLEN, 1994). Suas origens estão em várias disciplinas, entre elas a sociologia, que, por volta do século XIX, nos Estados
Unidos, se volta para a investigação social – com denúncias de corrupção na gestão da cidade e de condições degradantes da vida urbana. Os levantamentos eram realizados através do método da observação participante, ou seja, “observava-se cuidadosamente o que as pessoas faziam no trabalho, no tempo de lazer, na igreja, na escola” (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p. 20).
Dessa forma, a base do processo investigativo estava na descrição detalhada da vida das famílias pobres de trabalhadores na Europa.
Os levantamentos sociais têm uma importância particular para a compreensão da história da investigação qualitativa em educação, dada a sua relação imediata com os problemas sociais e a sua posição particular a meio caminho entre a narrativa e o estudo científico (BOGDAN e BIKLEN, 1994, p.23).
Para Bogdan e Biklen (1994), a investigação qualitativa tem cinco características, que podem estar presentes integralmente ou não nos estudos. E uma importante referência de investigação qualitativa é a utilização da observação participante e da entrevista. São estas as cinco características:
1) a fonte direta dos dados é o ambiente natural, onde o pesquisador recolhe informações pelo contato direto e no ambiente de ocorrência;
2) utiliza a descrição com palavras e/ou imagens para narrar determinada situação ou visão de mundo;
3) o interesse dos investigadores qualitativos centra-se no processo, e não nos resultados;
4) os investigadores qualitativos não se preocupam em recolher dados para confirmar hipóteses, mas constroem o quadro de acordo com o que recolhem;
5) a investigação qualitativa considera importante o significado que as pessoas dão aos acontecimentos dinâmica interna deles.
Dentro dessa perspectiva teórica, entendemos que os sentimentos, opiniões e narrativas dos informantes são fundamentais para as descrições e análises dos fenômenos observados, pois mostram como esses fenômenos ganham significado aos olhos dos próprios sujeitos da pesquisa.