A abordagem metodológica de natureza qualitativa foi a que, considerando a hipótese e os objetivos propostos, mais se adequou a esta pesquisa. Desenvolvida em três momentos importantes, quer sejam, exploração, obtenção de dados, interpretação e análise dos dados.
Como meio de obtenção dos dados foram utilizadas as técnicas de entrevistas semiestruturadas, observação e análise documental com registro em diário de campo, sendo que a utilização desses recursos se deve principalmente a seus atributos qualitativos, área social e da educação.
Como instrumento de análise interpretativa de dados qualitativos, a análise de conteúdo foi a metodologia mais adequada à proposta da pesquisa, considerando as técnicas de produção de dados utilizadas. A análise de conteúdo tem por finalidade, a partir de um conjunto de técnicas parciais e complementares, explicar e sistematizar o conteúdo da mensagem e o significado desse conteúdo, por meio de deduções lógicas e justificadas, tendo como referência a pessoa que emite, ou seja, sua origem, e o contexto da mensagem ou os efeitos dessa mensagem. A análise de conteúdo não visa o estudo da linguagem, os textos próprios, mas as condições de produção/variáveis inferidas (BARDIN, 2009). Desta forma, a inferência é o que pretende a análise de conteúdo.
“A análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de exploração de documentos, que procura identificar os principais conceitos ou os principais temas abordados em determinado texto” (OLIVEIRA et al., 2003, p.5). As etapas da análise de conteúdo compreendem: organização do material de trabalho com transcrição dos áudios das entrevistas, o diário de campo e referências utilizadas; definição das unidades de registro – palavras, conjunto de palavras de uma locução ou temas; definição e delimitação do tema; definição de categorias; enumeração e a análise frequencial; e análise e interpretação.
O objetivo da análise de conteúdo é assinalar e classificar de maneira exaustiva e objetiva todas as unidades de sentido existentes no texto, permitindo que se sobressaiam as regularidades, e fornecendo indicadores em direção aos objetivos da pesquisa, importantes para interpretar os resultados obtidos, relacionando-os ao próprio contexto de produção do documento e aos objetivos do indivíduo ou organização/instituição que o elaborou (OLIVEIRA et al., 2003).
Esse procedimento pragmático requer um conjunto de operações durante a pesquisa, o que confere legitimidade, é importante fundamentar todas as ações justificando sempre a organização do trabalho. A transparência da documentação e a fidedignidade da análise é o que confere a esta a qualidade da análise nos resultados da pesquisa.
A coleta de dados foi realizada a partir do mês fevereiro de 2016 com o início do ano letivo nas instituições educativas do município de Ouro Preto. Antes ocorreu a aprovação do projeto de pesquisa em dezembro de 2015, através de parecer consubstanciado gerado pelo
Comitê de Ética na Pesquisa da Universidade Federal de Ouro Preto (CEP/UFOP), momento em que foram apresentados: o TCLE, Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; as cartas de anuência da Secretaria Municipal de Educação do município de Ouro Preto e das instituições de Educação Infantil selecionadas para o desenvolvimento da pesquisa; o roteiro de observação das instituições com análise do Projeto Político Pedagógico (PPP), os roteiros de entrevista semiestruturada com as famílias e com as professoras das instituições.
A observação atenta das instituições e de seus documentos foi orientada por um roteiro previamente elaborado e em junho de 2016, após três meses do início da coleta de dados, foram realizadas as duas primeiras entrevistas semiestruturadas – uma professora e uma família de criança atendida por uma das duas creches selecionadas – para a amostra destinada a apresentação no exame de qualificação, realizado em agosto de 2016. A princípio o projeto de pesquisa definia quatro instituições públicas de Educação Infantil, duas pré-escolas e duas creches, campo onde seriam desenvolvidas as atividades de observação, análise de documentos e entrevistas semiestruturadas, mas mediante as orientações decorrentes do exame de qualificação, optamos por reduzir o campo empírico e concentrar a investigação nas duas creches, considerando principalmente a contribuição que esta pesquisa poderia fornecer para esta etapa da Educação Infantil.
Tanto a observação, antes iniciada nas quatro instituições definidas a princípio no projeto de pesquisa, quanto as entrevistas, após o exame de qualificação, concentraram-se nas duas creches escolhidas durante os meses seguintes. As seis entrevistas semiestruturadas restantes foram realizadas de acordo com o roteiro de entrevista elaborado no projeto de pesquisa e em conjunto com a constante observação das instituições, totalizando oito entrevistas, quatro com as famílias, sempre tendo a figura da mãe como a informante, e quatro com as professoras das duas creches selecionadas, ou seja, duas mães e duas professoras de cada creche pesquisada. Destacamos que a seleção dos sujeitos foi realizada mediante a indicação das coordenadoras das creches, que foram orientadas a indicar duas famílias que fossem identificadas como participativas e não participativas e duas professoras, uma com mais tempo de trabalho na creche e outra com tempo inferior.
As entrevistas foram realizadas e gravadas em áudio, observando a disponibilidade e autorização das famílias e das professoras, em locais diferentes. Das quatro entrevistas realizadas com as famílias, duas aconteceram no local de trabalho das mães, uma na residência da família e uma na creche onde a criança é atendida. Já as quatro entrevistas realizadas com as professoras aconteceram na própria instituição em que atuavam, sendo duas em cada creche.
Após a realização e transcrição das entrevistas, um passo importante foi categorizar os dados para introduzir um ordenamento analítico, momento em que realizamos a classificação ou recenseamento, identificando as frequências e as ausências de itens, seguindo os critérios relacionados ao que procurávamos ou esperávamos encontrar, preparando para fazer a análise, em que foram identificadas as significações dos textos, dos quais foram retirados os conteúdos manifestos ou latentes.
As categorias, segundo os dados qualitativos das famílias e dos professores, foram organizadas primeiramente nos seguintes eixos: a) as famílias e suas dinâmicas socializadoras; b) percepções e concepções das mães e professoras sobre a infância e a criança e c) percepções e concepções das mães e professoras sobre a escolarização e a escola de educação infantil. Dentro de cada eixo foram definidas as seguintes categorias expressas no quadro 1 a seguir:
Quadro 1
Distribuição de eixos e categorias relacionadas
EIXOS CATEGORIAS DE ANÁLISE
As famílias e suas dinâmicas socializadoras
a) Cuidados com a criança b) Práticas educativas das famílias c) Relações de autoridade na família
d) Valores transmitidos no processo de socialização e) Atividades cotidianas das crianças
Percepções das mães e professoras sobre a infância e a criança
a) O que é ser criança b) O que fazem as crianças
c) Temporalidades e espacialidades na infância d) Relação entre brincar e estudar
e) A díade cuidar e educar
Percepções e concepções das mães e professoras sobre a escolarização e a escola de educação
infantil
a) A escolha da escola de Educação Infantil/creche b) Finalidades da escola de Educação Infantil/creche c) Percepções sobre a creche
d) Percepções sobre a docência na Educação Infantil/creche
e) A “boa” professora de educação infantil/creche f) Relação das famílias com a escola/creche Fonte: Quadro elaborado pela autora
Este caminho metodológico percorrido foi assim desenhado para que se buscasse a compreensão da ação educativa no espaço da creche, tendo como foco as percepções e as concepções que as famílias e as professoras possuem sobre a infância e seus processos de escolarização no âmbito da creche.