Organisation du mémoire
1.3 Quelques exemples d’applications des réseaux de capteurs
Quando o outro, o/a parceiro/a era o/a perpetrador/a da violência, muitos adolescentes atribuíram a violência ao amor que o companheiro/a sentia por ele/a, não distinguindo violência de amor:
Eu larguei da minha namorada [...] Teve uma vez que ela pediu pra eu tirar foto pra mostrar pra ela que eu ia tomar banho, que tava no quarto. Me ligava tempo todo pra saber onde tava, o que tava fazendo. Muito melosa sabe, muito amorosa, amorosa demais, ai não dava não. [...] Se fosse sair tinha que levar ela onde quer que eu fosse, se eu ia na minha vó tinha que levar ela, se eu fosse na minha tia, tinha que levar ela. Ela era pegajosa demais, isso pra mim foi o fim [...]. (E2/H)
O comportamento “meloso” ou demasiado amoroso da namorada representava vigilância sobre o namorado, seja pelo celular ou presencial, que o sufocava e desencadeou como resposta o rompimento da relação. Neste contexto, muitas formas de violências acabam sendo veladas, como por exemplo, a violência psicológica que, ao se disfarçar de cuidado, justifica a violência:
Mas ele não tá querendo controlar, ele está querendo prevenir a namorada dele de acontecer alguma coisa, pra evitar briga ou qualquer outra coisa. (P1/M-G1)
Às vezes é por causa do ciúme, é estranho um namorado estar com a namorada e não ter ciúme, aí insiste na senha, mas porque gosta né, porque gosta muito. (P4/H-G4)
O controle excessivo que previne brigas ou o ciúme como demonstração de zelo são paradoxais na trama das relações de intimidade. Constatou-se a existência da crença e da idealização de um amor romantizado, de que o outro é a “metade da laranja” ou a cara- metade, e de que a felicidade completa reside ao estar junto do outro. Essa idealização foi expressa de inúmeras formas, algumas mais sutis e outras mais explícitas:
[...] Nós, mulheres ou os homens, todo mundo precisa se sentir amado, se sentir importante para alguém. Na terra a gente veio para a terra foi para fazer parte da vida de alguém, e quando a gente tem esse alguém, a gente quer se sentir importante, a gente quer saber que está fazendo ele feliz, porque de um modo ou de outro pode ter as brigas, verbal de tudo quanto é tipo, mas, a gente se importa com aquela pessoa, a gente gosta dela, quer fazer ela se sentir importante, como a gente qué se sentir. (E1/M)
Ele canta, e eu não gosto que ele vai. Eu já impedi ele de cantar. [...] Ele acha que fez uma prova de amor tatuando meu nome. Prova de amor é ter um filho dele, era um sonho dele, agora será realizado. Já fiz várias coisas como prova de amor, agora realizei o sonho dele de ser pai. (E13/M)
A explicação sobre o “destino” de todos/as revelou a crença em uma missão na vida: ser e fazer alguém feliz. Assim, brigas e discussões eventuais seriam superadas, pois não passariam de demonstrações do amor na busca de fazer com que o/a outro/a se sinta importante, reciprocamente. Assim, tatuar o nome, impedir que o outro saia para tocar numa banda, e “dar” um filho seriam provas de um amor que almeja a felicidade de ambos.
Os/as adolescentes relataram a existência do amor idealizado como justificativa para violência nas vivências relacionadas ao amor romântico:
Tipo quando você começa a namorar cria um vínculo, tipo você é um corpo só. O que você pode, pode, o que não pode, não pode. (P6/M-G2)
É por que ela gosta dele, e quando a mulher tem sentimento pelo homem ela aguenta qualquer coisa. Não é só a mulher, o homem também quando gosta. (P1/M-G1)
Verificou-se que a privação de algo, o controle, a mágoa, o sofrimento, tudo foi suportado, aceito, em nome desse amor e sem que houvesse a percepção desses elementos como demonstrações de violência. Poucos participantes demonstraram ter consciência e conhecimento das diferentes manifestações de violência física, verbal e sexual perpetuadas
pelos/as parceiros/as na relação de intimidade, e do não consentimento deles/as para sua perpetuação:
Ela me unha bastante... mas eu não faço nada, nunca fiz nada. Falo uns palavrões, xingo, mas não relo nela, mas olha as minhas costas, meus braços, tô tudo unhado, tô cansando disso. (P4-G3)
A namorada que tive de seis meses, tipo ela me chamou de criança e babaca e pra mim isso foi um xingamento eu não gostei. [...] Aí tipo junto com os parentes dela, eu não conversava porque estava com vergonha e ela me chamava de criança, de babaca, de gordo. (E2/H)
Uma vez esse mesmo namorado, queria dar o próximo passo no relacionamento, e ele me levou para um lugar perto da casa da minha avó e tentou fazer a relação sexual comigo à força, só que eu comecei a gritar, falei um monte de coisas e me “safei”, saí, consegui. Depois disso eu peguei nojo dele, larguei dele, não quis mais ele [...] (E1/M).
A ocorrência de violência física, cuja devolutiva foi uma violência verbal, a violência verbal acompanhada da violência psicológica diante de parentes, e a coação do/a parceiro/a para uma relação sexual foram experienciadas e desencaderam muitas respostas. Quando o/a companheiro/a foi o/a autor/a da violência, a violência psicológica foi perpetrada mais frequentemente através de coibição e chantagem emocional:
No começo do relacionamento ele controlava a minha roupa, onde ia, com quem falava, [...] aí eu bati o pé, ele parou... Mas não tenho amigos homens, ele não aceita. (P7/M-G1)
Eu [...] passei na prova do Industrial e [...] falava que se eu fosse pra outra escola ela ia largar de mim, e me arrependi muito. (E4/H)
Ele ficava sabendo algumas coisas e ficava jogando isso na minha cara ou querer me por pra baixo. Ele queria [...] ser meu dono, e ai usar umas coisas para poder me humilhar, para eu ver que ninguém vai querer eu, que só ele quer eu e mais ninguém. (E1/M)
No meu namoro, se eu não deixar ele ir pra onde ele quer, ai eu não posso ir nem pro trabalho, e aí como eu vou fazer? Acho chato pra caramba isso, ele joga bola todo dia e quando tem festa ele tem que ir, se não, sem trabalho, eu vou fazer o que da minha vida? (P11/M-G1)
Ele fazia chantagem emocional, „se você largar de mim eu vou morrer‟, „ai eu não sei viver sem você‟, „porque se você largar de mim eu vou te matar‟, só dizia isso. (P2/M-G4)
Os participantes experimentaram situações de violência psicológica nas relações de intimidade expressas de muitas formas, tais como cercear com quem conversa, com quem sai, quais roupas usar; impedir projetos de vida; ter a posse do outro e o depreciar; determinar quem pode fazer o quê e quando; e ameaçar de morte a si e a outra pessoa. Essa forma de
violência foi encontrada não só nos relacionamentos íntimos mais duradouros, caracterizados como namoro, mas também em relações de intimidade mais superficiais, sem muito tempo de duração e compromisso, como hoje são conhecidos os “crushs” e “ficantes”. Outra forma que se destacou foi a chantagem emocional:
Tem até violência quando é só crush também. Tipo, „ele é meu crush e não pode „ficar‟ com mais ninguém, só comigo, senão eu largo‟. Isso é uma violência porque quem fala isso as vezes nem gosta da pessoa. Muito crush faz, já fizeram isso comigo. (P5/M-G3)
Aconteceu comigo, tipo agressão psicológica. Meu namorado, que na época era crush e „ficante‟ ficava me enrolando, enrolando, e eu sofrendo, aí só depois de 5 meses que ele veio falar que ele queria realmente ser meu namorado. E hoje em dia a gente tá namorando já vai fazer um ano. Eu tive que falar: „Se você não me assumir, eu não quero mais nada, não tem mais essa de só „ficar‟ e você fica com mais tantas‟, porque eu me humilhava por ele. (P7/M-G4)
A constatação da presença da violência nos primeiros encontros de uma relação de intimidade se mostrou como uma “tomada de consciência” para o/a adolescente, ressaltando a importância de se estabelecer regras que, acordadas mutuamente, garantissem a fidelidade. No entanto, paradoxalmente, tais regras tenderiam a manter um certo controle mútuo: coibir o/a parceiro/a a beijar ou se relacionar com outra pessoa, e chantageá-lo/a com a possibilidade do rompimento da relação, mesmo que não quisesse assumir compromisso.