Chapitre 6. Acquisition et apprentissage : des concepts à nuancer
1. Que sait-on aujourd’hui sur l’acquisition
[De que vida estamos falando?]
O enunciado presente no título é emblemático, sugere que há mais de uma forma de concepção da vida. Partindo de Bakhtin – que afirma ser justamente no espaço da enunciação que o dialogismo se manifesta e, portanto, as palavras dos outros e sua respectiva ideologia – e partindo do fato de que o gênero editorial é uma forma de posicionamento do veículo de comunicação, cria-se a expectativa de que a revista irá apresentar sua concepção sobre a vida ao longo do texto.
[O projeto de lei sobre biossegurança que está em tramitação no Congresso propõe a liberação de pesquisas com células-tronco embrionárias. O projeto já passou pela Câmara dos Deputados e ainda não tinha sido votado no Senado no momento em que escrevíamos este editorial.
A decisão dos deputados praticamente proíbe a clonagem humana, mesmo para fins terapêuticos.]
Este trecho, na verdade, não está diretamente ligado ao nosso interesse em observar o processo intertextual em CN, mas consideramos importante evidenciá-lo por apresentar uma certa ambiguidade que poderia comprometer a própria compreensão de nossa análise.
O editorialista informa que há um projeto de biossegurança em tramitação no Congresso Nacional que prevê a liberação de pesquisas com células-tronco embrionárias e que, inclusive, já passou pela Câmara dos Deputados.
A forma pela qual o fato é apresentado, enfatizando que o projeto passou pela Câmara Federal brasileira, pode representar para o leitor a certeza da aprovação dos deputados à pesquisa da clonagem feitas a partir de embriões humanos. Mas logo em seguida vem a informação de que a decisão dos deputados praticamente proíbe a clonagem humana até mesmo para fins terapêuticos.
Isso tudo pode gerar uma grande dúvida para o leitor: “Afinal houve ou não a aprovação da pesquisa de células-tronco a partir de embriões humanos?”
Para chegarmos a essa resposta, é necessária a intertextualização com outros textos que tratam do assunto. Isso porque faltou uma informação relevante que não está no texto do editorial: quando o projeto foi levado à Câmara Federal recebeu algumas alterações no texto original, entre as quais estava a que determinava a proibição das pesquisas envolvendo embriões humanos. Portanto a Câmara aprovou o projeto com essa modificação.
[Isso, que nos parece uma grande conquista para o país, foi apresentado pela mídia, em geral, como uma decisão que bloqueia o caminho da ciência, e até irresponsável porque, em nome da defesa de um grupo de células, o embrião, prejudica muitas vidas atormentadas por doenças degenerativas que seriam beneficiadas pela clonagem, com a disponibilização de células-tronco (capazes de se transformar em qualquer tecido)].
Cidade Nova vem continuamente abordando a clonagem humana em suas páginas e, neste trecho, a revista apresenta claramente seu posicionamento contrário ao uso de células-tronco a partir de embriões humanos, mesmo para uso terapêutico. Essa postura está marcada no texto pela expressão “nos parece uma grande conquista para o país” que defende a posição dos deputados da Câmara Federal.
Em seguida, o texto procura descaracterizar a posição da mídia, favorável à clonagem. Mas o editorial não faz isso de forma explícita e sim por meio de uma sutil
conseqüentemente, barrar a ajuda a pessoas doentes, em favor de um grupo de células, o embrião humano?
Aqui também o processo dialógico é essencial. Afinal, o leitor precisa conhecer o arquétipo da ironia e isso só é possível através de experiências anteriores com outros textos irônicos.
Afirmamos que o texto apresenta a posição da mídia de forma irônica pelo seguinte: no início do parágrafo, o editorial se posiciona como sendo favorável à proibição da manipulação dos embriões e sabemos – através do contato com outros textos – que não há, dentro da estrutural textual, mudanças bruscas de opinião num texto escrito. Portanto, o editorial não poderia ter mudado tão repentinamente seu posicionamento, afirmando que o embrião humano não passa de um grupo de células. Nesse sentido, quando a revista chama o embrião de “grupo de células”, na verdade, ela está atribuindo, essa expressão, à mídia.
A seleção lexical evidencia a tentativa de questionamento da posição da mídia: ao invés de colocar apenas a palavra embrião, o autor utiliza a expressão “grupo de células”. Intrinsecamente o autor indica que, para parte da mídia, o embrião não passa de um amontoado de células. E certamente seria uma atitude irresponsável bloquear o trabalho científico por esse motivo, uma vez que ajudaria muitas pessoas vítimas de doenças degenerativas. Mas o texto levanta o seguinte questionamento: o embrião humano é, de fato, apenas um grupo de células?
Dessa forma, o que está subjacente é que a revista pretende mostrar a visão redutora da imprensa relativa à questão embrionária.
Numa perspectiva bakhtiniana das relações dialógicas, na qual há uma dinâmica nas relações tanto consonantes quanto dissonantes, podemos dizer que, neste trecho do editorial, evidencia-se um conflito de ideologias, ou seja, uma relação dissonante na qual o editorialista tenta evidenciar o desacordo de Cidade Nova contra essa parte da mídia que defende a aprovação do projeto de biossegurança.
[Mas de que vida estão falando a mídia e os cientistas?]
Esse trecho retoma o título e mostra o choque de posicionamento da revista contra parte da mídia e dos cientistas no que diz respeito à clonagem.
Aqui, a questão ganha novas proporções, entrando num campo mais complexo: a concepção de vida. Cidade Nova se contrapõe explicitamente à idéia daqueles que não consideram o embrião um ser humano pleno.
[Uma semente, embora pequena e insignificante, possui a mesma vida de uma imensa árvore. O embrião – e não só –, o óvulo fecundado já possui a vida, com todas as informações que farão desenvolver uma pessoa e levá-la à plenitude de sua maturidade física e psíquica.]
O texto faz uma analogia com o reino vegetal para evidenciar que a fase embrionária é tão importante para o ser humano quanto a fase adulta, assim como a semente é vida vegetal tanto quanto a árvore.
No jogo das relações dialógicas, observamos ainda uma intertextualização do editorial com um artigo da mesma edição da revista: “Uma escola pela vida” (CN nº 3, 2004, p. 22 a 25). O artigo trata de a Escola Social Igino Giordani – cursos promovidos pelo MF envolvendo diversos assuntos ligados à sociedade de um modo geral: ética, distribuição de renda, política, economia, ciências, solidariedade etc. – que em 2004 teve como tema “A cultura da vida”, com assuntos ligados à bioética.
Pode-se afirmar que o editorial está diretamente vinculado a essa matéria, funcionando quase como uma espécie de chamada para ela. Um trecho do artigo evidencia a proximidade dos conceitos com o editorial sobre a concepção da vida:
Um dos princípios fundamentais para o juízo ético é que o ser humano é fim e nunca um meio”, disse a biomédica Maria Aparecida de Souza, em conferência sobre bioética (…). E Maria Aparecida frisa ainda que “o embrião deve ser respeitado como pessoa desde o momento de sua concepção”, ou seja, desde a união do espermatozóide com o óvulo. (ibid, p. 24)
Esse trecho também está intertextualizado com as apostilas da Escola Social Igino Giordani de 2004:
No embrião humano, como em todas as substâncias vivas, o princípio do desenvolvimento e da mudança são intrínsecos à sua própria substância. ‘O embrião é uma criança, um adulto ou um velho em potência, mas não um indivíduo humano, pois isso ele já o é em ato’. (Souza, 2004, p. 31)
Esses dois trechos sobre o embrião estão em sintonia com o discurso de Lubich e provavelmente tenham sido influenciados pelo pensamento da fundadora do Movimento dos Focolares:
O nascituro – sabemos – é um ser humano desde a sua concepção. Por isso, o bebê não pode ser considerado um prolongamento da mãe; é um homem. O filho não é, tampouco, propriedade da mãe. Ela não tem direitos sobre sua vida, desde que ele começou a existir. (Lubich, 2002, p. 27).
Assim como os escritos da fundadora dos Focolares são referência para os textos produzidos no universo do Movimento, da mesma forma a Igreja Católica e as escrituras bíblicas desempenham um papel determinante na produção dos discursos de Lubich. Afirmamos isso pela naturalidade e freqüência com que ela evidencia essas duas influências em seu pensamento: “Em teu dizer abastece-te no pensamento da Igreja e nas Escrituras, primeira fonte segura, inexaurível, eterna, em que tu e o teu grupo vos tereis abeberado” (Vandeleene, p.150, 2003).
Nesse sentido, destacamos um documento da Igreja Católica que trata de a clonagem que recorre à manipulação de embriões humanos: ”Como pensar que esse maravilhoso processo de germinação da vida possa subtrair-se, por um só momento, à obra sapiente e amorosa do Criador para ficar abandonado ao arbítrio do homem?”, (João Paulo II, p. 64, 1995).
Colocamos todo esses trechos relacionados à temática da clonagem a partir de embriões humanos para mostrar o funcionamento do processo dialógico no âmbito da revista. Afinal, a ligação entre o texto e o editorial , o artigo da Escola Igino Giordani, o texto de Souza, o discurso de Lubich e os documentos da Igreja, é vista sob o processo de interação entre indivíduos e instituições, que é o grande responsável pela produção cultural, formando sistemas ideológicos na ciência, na arte, na religião etc.
Isso significa que – sendo o dialogismo dos textos um elemento diretamente ligado à formação da consciência dos indivíduos, ou seja, o texto não é um espaço neutro, mas uma forma de comunicação marcada pela interação, pelo contexto histórico – ocorre de um certo modo que as concepções da Escola Social, de Souza, de Lubich e da Igreja sobre a vida influenciam o texto do editorial.
A compreensão da enunciação de alguém significa orientar-se em relação a ela, encontrar seu lugar adequado no contexto correspondente. Nesse sentido, o interlocutor não é um elemento passivo na constituição do signifcado, mas um protagonista de um processo dinâmico, a enunciação. No caso sob análise, a palavra do editorialista nasce de alguém – no caso, da Escola Social, de Souza, de Lubich e da Igreja – e se dirige a alguém, os leitores de Cidade Nova.
Isso significa que essa concepção contrária à clonagem a partir de embriões humanos, colocada em destaque pela revista, atinge um número sempre maior de interlocutores (leitores), gerando a possibilidade de muitas outras adesões.
Na visão bakhtiniana – de que o “eu” social nasce da idéia de que cada indivíduo é constituído partindo do coletivo, ou seja, cada indivíduo constitui-se a partir dos outros, na multiplicidade das vozes dos outros – poderíamos afirmar que esse movimento dialógico é significativo para a formação de uma ideologia que nasce através da Igreja Católica, ou mesmo anterior a ela, das escrituras bíblicas, nas quais o catolicismo se inspira.
Nessa perspectiva – sendo o enunciado uma teia de vozes num contínuo diálogo que deve ser visto não apenas como palavras, mas sobretudo como instrumentos formadores da ideologia – o editorial assume a função não somente de divulgador de uma mentalidade baseada na concepção da plenitude da vida já na forma embrionária, mas, sobretudo, torna-se porta-voz de um conjunto de idéias. E isso está em sintonia com o pensamento bakhtiniano que prevê a formação das ideologias a partir das palavras que são tecidas através de uma multidão de fios ideológicos. Segundo Bakhtin, é dessa forma que nascem as transformações sociais, mesmo aquelas mais incipientes.
[Há pouco tempo um grupo de cientistas italianos descobriu que existe um intenso e constante diálogo molecular entre a mãe e filho, quando este está ainda em estado embrionário. E uma nova corrente da psicologia, a TIP (Terapia de Integração
Pessoal), surgida no Brasil, tem como fundamento justamente a constatação de que a vida, também em sua dimensão psíquica, surge na hora do encontro entre um espermatozóide e um óvulo.]
Por meio da intertextualidade é possível fazer a análise do estilo de um autor ou veículo de comunicação, devido à possibilidade de observação das relações de interdependência entre expressão e conteúdo no conjunto do texto. É justamente isso que destacamos neste trecho do editorial: o argumento de que o embrião é um ser humano em sua plenitude é expresso por meio de uma descoberta científica.
Até então havíamos dado destaque para a ligação da revista com os textos do Movimento dos Focolares, os documentos da Igreja Católica e as escrituras bíblicas, mas agora surge um aspecto que também deve ser considerado significativo no âmbito de Cidade Nova: o conhecimento científico.
Dentro de um universo religioso – Cidade Nova é enquadrada como veículo católico – isso não deve ser considerado como o óbvio, pois a revista poderia optar apenas por argumentos religiosos para fundamentar seu posicionamento, o que não seria tão estranho dentro do contexto em que a revista está inserida, pois, como dissemos, ela é um veiculo diretamente associado à Igreja Católica.
Um olhar mais criterioso sobre a revista irá mostrar que os aspectos religiosos constituem nela uma vertente significativa, mas não são os únicos. Cidade Nova utiliza continuamente os conhecimentos científicos como estratégia argumentativa, ou seja, não há uma predominância de expressões estritamente religiosas como ocorre em alguns outros veículos ligados à Igreja Católica. A ciência, as descobertas tecnológicas, as correntes da psicologia e da sociologia, as teorias econômicas e políticas também encontram espaço em suas páginas. Portanto, o diálogo entre ciência e religião é uma forma de expressão que está continuamente presente em seu conteúdo.
As raízes desse estilo de Cidade Nova estão ligadas por um processo dialógico altamente consonante com o estilo do Movimento dos Focolares que, devido ao seu caráter inter-religioso e intercultural, valoriza muito os dados científicos, assim como evita expressões estritamente religiosas. Os cadernos da Escola Social Igino Giordani, por exemplo, contêm inúmeras informações científicas, todas escritas seguindo os mesmos padrões e rigor dos estudos acadêmicos.
Uma outra evidência da proximidade dos Focolares com o mundo científico são os diversos títulos de doutor honoris causa conferidos a Lubich e o título de Honra ao Mérito, concedido pela Universidade de São Paulo.
[Nessa perspectiva, uma pergunta que devemos continuar fazendo é: por que tanta insistência na clonagem a partir de células embrionárias? Certamente, por ser esse o caminho mais fácil para obter células-tronco; mas também porque da clonagem terapêutica para a clonagem reprodutiva é apenas um passo; e por mais que esta última seja proibida, sabemos muito bem que toda lei tem sempre transgressores.]
Esse talvez seja o trecho em que o editorial se posiciona de forma mais contundente contra a clonagem a partir de células embrionárias. A revista denuncia que há interesse nesse tipo de clonagem porque, além de ser a forma “mais fácil”, é também a que está mais próxima da clonagem reprodutiva.
Esse trecho também exige um recurso intertextual. De outro modo, como distinguir a clonagem embrionária da clonagem reprodutiva sem recorrer a informações que não estão no texto do editorial?
O trecho “sabemos muito bem que toda lei tem sempre transgressores”, com referência à proibição da clonagem reprodutiva, é bastante interessante sob o ponto de vista da intertextualidade. Isso porque procura estabelecer uma relação de proximidade com os leitores através da conjugação do verbo saber, na segunda pessoa do plural do presente do indicativo, ou seja, “nós sabemos”.
Isso significa que o editorial confia que os leitores, por meio do conhecimento prévio, conheçam muitos exemplos de transgressões da lei na sociedade. Baseado nisso, o texto sugere que também a clonagem reprodutiva, que é proibida por lei, poderia ser praticada.
[No entanto, como afirma a médica e membro da Comissão de Bioética da CNBB, Marli Lins e Nóbrega, e muitos cientistas: existem outras possibilidades, eticamente viáveis, que podem substituir a clonagem terapêutica. Ela se refere aos experimentos com células-tronco retiradas não do embrião humano, mas do sangue do
adultos como sangue periférico, medula óssea, tecido epitelial, sistema nervoso central, fígado e pâncreas. Porém, segundo alguns cientistas, tais técnicas têm um potencial terapêutico menor e não são consideradas economicamente viáveis.]
Essa alternativa à utilização de células-tronco de embriões humanos, aproveitando células do sangue do cordão umbilical é uma das bandeiras da revista na questão da clonagem, ou seja, a apresentação desta alternativa científica está intertextualizada com diversas outras matérias publicadas; como exemplo citamos as seguintes: (CN nº 1-2, 2004, p.16 e 17); (CN nº 3, 2004, p 23 a 25); (CN, nº7, 2004, 16 e 17).
O processo intertextual revela que essa concepção de Cidade Nova em evidenciar outras alternativas à retirada de células-tronco de embriões humanos encontra suas origens nos escritos dos Focolares sobre bioética, nos quais essa postura é defendida com bastante contundência.
Nesse sentido, além do diálogo com outras matérias da revista, há ainda um processo dialógico consonante com o pensamento do Movimento sobre essa temática e a intertextualização de forma restrita e implícita do editorial com um dos textos da Escola Social Igino Giordani de 2004 é um bom exemplo disso:
A célula-tronco embrionária teria, teoricamente, maior potencial que qualquer outra. Hoje em dia esta hipótese tem sido contestada, pois as células tronco do cordão umbilical têm se demonstrado com igual potencial e com a mesma capacidade de se transformarem. Além disso, existem outras fontes de células- tronco como a medula óssea, o fígado, o cérebro, a gordura, com capacidade de se diferenciarem em outras tecidos. (Souza, 2004, p. 27)
[Porém, segundo alguns cientistas, tais técnicas têm um potencial terapêutico menor e não são consideradas economicamente viáveis.
Mas será que isso justifica o assassinato de embriões? Nós acreditamos que não.]
Este trecho também evidencia explicitamente a posição da revista que, como vimos, nasce do processo dialógico da revista com diversos outros discursos, com destaque para o discurso da Igreja Católica e da fundadora do Movimento dos Focolares. Portanto, apesar de falar especificamente sobre a condição de ser humano do embrião, o editorial contém, na verdade, a apresentação de conceitos, posicionamentos e concepções que marcam as diretrizes seguidas por aqueles que compartilham as mesmas idéias defendidas pela Igreja Católica e por Lubich.