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Quartiers,  ateliers  et  espaces  ouverts  dans  la  prison  :  organisation  de  l’espace  de  vie

No tratamento do cômico57, considero que não se pode deixar de recorrer a Bakhtin e Bergson. Em Bakhtin (1997:101-180), o autor lança a sua teoria do carnaval e da carnavalização, apresentando, como elemento dessa teoria, o gênero do cômico-sério. Já Bergson (2001) desenvolve uma teoria que tem sido designada como teoria ético-moral para o cômico.

De acordo com Bakhtin, a carnavalização pode ser entendida como uma cosmovisão revitalizadora que tem como princípio o redimensionamento das relações do homem com o mundo. O autor explica que, na história da cultura, particularmente no clima que envolve o riso ou momentos carnavalescos, os símbolos elevados, oficiais e sérios são destronados do seu pedestal, postos em contigüidade com manifestações e símbolos culturais populares, ou seja, o que é sério torna-se cômico. Isso é o que vemos ainda acontecer, por exemplo, quando questões sérias de ordem política e social são transformadas em material para produção do humor.

Também em sua célebre obra, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o

contexto de François Rabelais, Bakhtin (1999) dedica-se ao estudo da cultura cômica. Para ele, na Idade Média existe uma dupla visão de mundo: a visão séria, que é a das autoridades, e a visão cômica, que é a do povo.

Segundo esse autor, os ritos e espetáculos “ofereciam uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferente, deliberadamente não-oficial, exterior à igreja e ao Estado; pareciam ter construído, ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida aos quais os homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporção, e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas” (Bakhtin, 1999: 5). Para ele, o que faz o caráter cômico da visão popular do mundo é o “realismo grotesco”, isto é, a percepção, na origem de todas as realidades, dos processos biológicos fundamentais. O traço marcante desse realismo é o rebaixamento, ou seja, a transferência de tudo o que é elevado, espiritual, ideal e abstrato para o plano material e corporal, aquele da terra e do corpo em sua indissolúvel unidade.

57 O termo cômico, inicialmente, relacionava-se à representação teatral satírica, que deu origem mais tarde aos conceitos de cômico de caráter, cômico de situação e cômico de palavras. Hoje, considera-se que o cômico pode expressar-se por inú- meros meios, tais como a comédia, a sátira, a palhaçada, a paródia, a caricatura, a charge, a ironia, a piada, o trocadilho, o qüiproquó, além das situações imprevistas que se tornam ocasião de riso ou quando fazemos zombarias e caçoadas para ridicularizar alguém.

Para Bergson, o cômico resulta de um enrijecimento, de um automatismo incorporado ao indivíduo, que revela falta de controle ou de adequação às situações. Um dos exemplos que ele dá, para melhor entendermos isso, é o seguinte:

Um homem, correndo pela rua, tropeça e cai: os transeuntes riem. Não ririam dele, acredito, se fosse possível supor que de repente lhe deu na veneta de sentar-se no chão. Riem porque ele se sentou no chão involuntariamente. Portanto, não é sua mudança brusca de atitude que provoca o riso, é o que há de involuntário na mudança, é o mau jeito. Talvez houvesse uma pedra no caminho. Teria sido preciso mudar o passo ou contornar o obstáculo. Mas, por falta de flexibilidade, por distração ou obstinação do corpo, por um efeito de rigidez ou de velocidade adquirida, os músculos continuaram realizando o mesmo movimento quando as circunstâncias exigiam outra coisa. Por isso o homem caiu, e disso riem os transeuntes. (Bergson, 2001: 7).

A distração, aqui, pode ser entendida como a causa do acontecido e ela é, de acordo com o autor, uma das grandes vertentes naturais do riso, cujo efeito pode ser reforçado.

Pode-se dizer que todo indivíduo possui um conceito de comportamento padrão relativo às atitudes em geral e o efeito cômico surge de um desvio de comportamento (Bergson, op. cit.; Almeida, 1999). Bergson acrescenta que quanto mais o desvio for inconsciente e mecânico, maior deverá ser o efeito cômico. A observação do desvio desencadeia o riso, que é um modo de evidenciar essa ruptura e até mesmo de corrigi-la socialmente. “O enrijecimento do indivíduo é cômico, e o riso é o seu castigo”, seguindo o pensamento de Bergson (op. cit.: p.15).

Na perspectiva de Bergson, o cômico estaria ligado à capacidade de explicitar e identificar o ridículo humano projetado no exagero caricaturado58 (como se vê nas charges, por exemplo), na encenação do automatismo extremado, nos gestos de transgressões e nos clichês desgastados. Isso está relacionado às três características que Bergson aponta para obter a fórmula dos procedimentos cômicos: repetição, inversão e interferência das séries.

Segundo o autor, quer haja interferência de séries, inversão ou repetição, o objetivo é sempre o mesmo: obter o que chama de mecanização da vida. Um sistema de ações e de relações é tomado e repetido tal qual, ou então radicalmente invertido, ou transportado em bloco para um outro sistema com o qual coincide em parte (ver oposição de scripts na seção 1.3.2.3) – operações estas que consistem em tratar a vida como um mecanismo de repetição, com efeitos reversíveis e peças intercambiáveis.

58 De acordo com Propp (1992), existem três formas de exagero que produzem o efeito cômico: a caricatura, a hipérbole e o

grotesco. A caricatura teria a função de captar a falha imperceptível e ressaltar um pormenor que demarca um alvo de crítica, resguardo, todavia, alguns pontos positivos sobre a imagem construída. Já a hipérbole é uma variedade da caricatura que ressalta exageradamente os aspectos negativos, não aproveitando nenhum aspecto positivo. Ela pode ser tanto heroizante como depreciativa e, geralmente, é utilizada como pilhéria com objetivos satíricos. Quanto ao grotesco, ele consiste na forma mais extremada de exagero; ele aumenta o alvo do relato em uma proporção monstruosa. Ele explora construções artificiais e fantásticas, ocultando os princípios espirituais para produzir o distanciamento da realidade imediata.

Esses três procedimentos são muito utilizados na produção do humor. Como veremos mais adiante, no humor há uma inversão, uma ruptura do preestabelecido e uma oposição de pelo menos dois scripts (duas séries).

Bergson (2001: 2-5) argumenta que não há comicidade fora daquilo que é propriamente

humano e o seu meio natural é a indiferença. Isto porque “o riso não tem maior inimigo que a emoção”; “a insensibilidade ordinariamente acompanha o riso” (idem, p. 3). O autor chama a atenção também para o fato de que não saborearíamos a comicidade se nos sentíssemos isolados; “parece que o riso precisa de eco, pois nosso riso é sempre o riso de um grupo”. (idem, p. 5). E, para compreender o riso, o autor entende que é preciso colocá-lo em seu meio natural, que é a sociedade, e, sobretudo, determinar sua função útil, que é uma função social. Para ele, o riso, antes de tudo, é um “gesto social”, que vem sancionar um comportamento potencialmente ameaçado pela coesão do grupo. Esse comportamento é, em primeiro lugar, a rigidez dos gestos, que traduz uma mecanização da atitude. Daí a famosa fórmula: o cômico é o “o mecânico sobreposto ao vivo” (idem, p. 36).

Bergson é considerado o autor da tese do riso como trote social. Segundo ele, a função do riso é sempre ser um pouco humilhante para quem é seu objeto, ele embute o sentido de humilhar alguém; “o riso é de fato um trote social” (idem, p. 101). Nunca é um prazer puramente estético. O riso comporta “a intenção inconfessada de humilhar e, dessa forma, é verdade, de corrigir”. (idem, p. 104). Para Minois (2003), que se dedica à história do riso e do escárnio, o riso tanto pode ser um

elemento subversivo quanto um elemento conservador. Segundo ele, atualmente, assiste-se a uma banalização e midiatização do riso. Não se tem mais o contraste com a seriedade do Estado, da religião, do sagrado, da moral, do trabalho, da ideologia, que era aquilo que constituía o vigor do cômico, em séculos passados. “Esse contraste atualmente se atenuou em proveito de um mundo ‘raso’, o da ‘sociedade humorística59’” (idem, p. 620). Nela, o outro não choca mais, independente do que faça e do que conte: “ele diverte e, a rigor, intriga” (idem, p. 625). Este pesquisador comenta que estamos imersos nessa sociedade na qual o riso é multi-utilitário: é receita eleitoral, argumento publicitário, garantia de audiência para os meios de comunicação e até uma incitação à ação caritativa. Nessa sociedade humorística, como explica Minois (2003: 625), “os conflitos são de antemão desarmados; a capacidade de revolta, aniquilada”, e “ostentar a própria intimidade na internet para o mundo inteiro é o último degrau dessa dessacralização humorística voluntária do indivíduo”. E, ainda segundo esse autor,

Esse humor é absolutamente indispensável ao século XXI, que será humorístico ou não. Sem humor, como os dez bilhões de pessoas que nos prometem para 2050, desmoronando sob seus dejetos e sufocando em sua poluição, poderão suportar a vida? O homem não terminou sua evolução; se ele quer sobreviver, precisa adaptar-

59 De acordo com Minois (2003), esse nome foi atribuído por Lipovetsky (1983) à sociedade contemporânea que se banha no culto da descontração divertida.

se...e rir. Geneticamente modificado ou não, ele terá necessidade de uma boa dose de humor. (idem, p. 633).

Tudo isso, sem dúvida, como se verá na próxima seção, tem influenciado a produção do humor nessa sociedade humorística e o desenvolvimento das pesquisas sobre o humor, na sua acepção atual60, como “qualidade de fenômenos relacionados com o riso” (Minois, op. cit.).