6.4 Les différents protocoles existant
6.4.2 Les protocoles de routage proactifs
Uma vez cumprida a tarefa, dissimulam-se as dificuldades para só se conservar o aspecto final, bem polido; não se dão, em anexo, os sucessivos planos progressivamente elaborados (Poirier et al,1995: 43).
Não é, contudo, nossa intenção oferecer a quem nos lê uma peça de investigação acabada, polida ou bem oleada. Ao contrário, pretendemos dar conta de um trajeto que se constitui para nós como exigente do ponto de vista das preocupações teórico-metodológicas, mas também éticas e epistemológicas. Esta
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exigência reclamou de nós um conjunto de opções e deixou-nos muitas vezes em momentos de indecisão para os quais procurámos uma solução possível. É, portanto, uma peça artesanal que apresentamos, a qual, não obstante todos os cuidados da artesã, permanece tosca e em aberto. Por outro lado, reconhecemos que a utilização do material biográfico introduz na pesquisa uma dimensão marcadamente narrativa, não apenas ao nível dos dados recolhidos, mas também na própria reflexão desenvolvida sobre os mesmos, a qual se encontra, por isso, sujeita ao esquema dialético pelo qual a investigadora se move entre as observações, a análise e a escuta (Bertaux, 1997: 107). Procuremos, então, dar conta dos caminhos percorridos.
O primeiro contacto com o C.E.S.A. foi realizado informalmente, no sentido de averiguar a disponibilidade da instituição para acolher este processo de investigação, ao que o centro educativo, na pessoa do seu diretor, respondeu afirmativamente. Assim sendo, realizámos o pedido formal via correio eletrónico, no dia 03 de dezembro de 2012, o qual foi prontamente reencaminhado pelo diretor do C.E.S.A. para a Direção de Serviços de Estudos e Planeamento (D.S.E.P.) da Direção Geral
de Reinserção e Serviços Prisionais. Recebemos resposta diretamente da D.S.E.P.
em 10 de dezembro de 2012, autorizando a realização da pesquisa. Notámos que, ao contrário do que havia acontecido em 2006, as instâncias superiores que dão resposta a este tipo de pedidos foram não só mais céleres, mas também se mostraram menos interferentes ao nível das questões colocadas acerca do projeto a realizar.
Uma vez recebida a autorização, contactámos com o C.E.S.A, no sentido de reunirmos com o diretor, a fim de apresentarmos, com maior detalhe, o plano da pesquisa a realizar, os instrumentos que pretendíamos utilizar, o tempo que prevíamos passar na instituição, mas também com vista a sabermos o modo como a instituição pretendia receber-nos e quais os procedimentos que deveríamos observar. Sabíamos de antemão que os centros educativos funcionam de forma bastante estruturada, seguindo uma rotina e um conjunto de regras devidamente definido.
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O segurança encaminhou-me até ao Dr. Viana [diretor do C.E.S.A.], o qual me recebeu de forma bastante cordial. Reunimos num gabinete junto ao corredor das salas de aula. Perguntou o que é que eu necessitava. Expliquei-lhe em que consiste a pesquisa e em que moldes pretendia fazê-la. Não colocou quaisquer entraves, nem mesmo relativamente ao uso do computador. Acertámos pormenores relativamente à minha presença no C.E.S.A.: virei dois dias por semana, à tarde, conforme a minha disponibilidade e a do centro educativo.” (Diário de bordo, 14.01.2013)
Curiosamente, se ao nível das instâncias superiores denotámos uma maior abertura ou, pelo menos, uma preocupação menos excessiva em controlar todos os detalhes do processo de pesquisa, dado que, ao contrário da experiência anterior, não nos foi solicitado mais do que uma apresentação genérica do projeto (tema, objetivos, técnicas), no que concerne ao próprio C.E.S.A. pareceu-nos que a nossa presença seria mais ‘dirigida’, ainda que tal não interferisse diretamente com a realização do estudo a efetuar.
Constato que, desta vez, há regras mais claras. O funcionamento da instituição parece-me ainda mais estruturado. O Dr. Viana aponta os dias e as horas em que estarei presente, destina uma sala de aula (a sala 3) onde efetuarei as entrevistas e explica-me que cada educando será encaminhado à minha presença por um segurança. Não terei acesso às unidades residenciais, como em 2006, nem circularei sozinha pelos edifícios (Diário de bordo, 14.01.2013).
Em 2006, escrevíamos:
O contacto inicial com uma instituição que se constitui como desconhecida, porque nova, implica sempre algum sentimento de algum desconforto, pelo facto de não nos sentirmos parte integrante, ignorando os seus hábitos, regras de funcionamento e mesmo a totalidade das pessoas que a integram (Manso, 2006: 247).
Ora, se desta vez a instituição e muitas das pessoas que nela trabalham já não se constituem como desconhecidas, assumimos, no entanto, que voltámos a sentir o mesmo desconforto pelo facto de, apesar da disponibilidade revelada pelas pessoas que nos receberam, nos reconhecermos como elemento exterior ao centro
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educativo e pela sensação de intromissão que não conseguimos evitar. Não obstante, durante o período de tempo em que permanecemos no terreno foi-nos prestado todo o apoio necessário por parte dos funcionários com quem contactámos diretamente, nomeadamente os monitores, a equipa de segurança e o diretor do C.E.S.A., tendo sido sempre respeitada a autonomia da investigação.
O primeiro contacto com os jovens institucionalizados decorreu em 21 de janeiro de 2013. Na sala que nos foi destinada para realizarmos todo o processo, demos início a uma série de sessões individuais, durante as quais, feitas as apresentações e uma vez explicadas as razões da nossa presença, solicitávamos a participação dos jovens, os quais nos foram recebendo numa atitude reveladora de um misto de indiferença – julgo que justificada pela referida presença frequente de investigadores no C.E.S.A. e pelo desinteresse dos jovens pelas atividades desenvolvidas pelos mesmos-, e de curiosidade – decorrente do facto de representar um elemento exterior à instituição e, de algum modo, introduzir alguma quebra na realização da rotina diária destes jovens. O facto de se tratar de uma investigadora do sexo feminino também pode ajudar a compreender o interesse revelado por alguns jovens na nossa presença.
Passei por uma série de miúdos que eu já tinha conhecido. Cumprimentaram-me de forma educada e simpática. […] Os que não me conheciam espreitavam pelo vidro da sala com muita curiosidade e riam-se entre eles. Ouvi um deles gritar “Chama-me!” para que eu o chamasse para a entrevista (Diário de bordo, 07.02.2013).
As perguntas que nos foram colocadas pelos jovens não incidiam tanto sobre o conteúdo do nosso trabalho, mas mais sobre a nossa pessoa. Queriam saber quem era a investigadora, por que razões estava no C.E.S.A. e quais as suas pretensões. A estas questões procuramos dar uma resposta pronta e consistente, construindo aquilo que Bertaux (1997: 52) designa por “identidade de investigador”.
Os jovens implicados na pesquisa foram informados acerca dos objetivos de investigação e das atividades que com eles pretendíamos desenvolver. Todos os participantes foram previamente esclarecidos dos diferentes momentos do processo de pesquisa, bem como do tipo de instrumentos que utilizaríamos em cada sessão.
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Foi ainda obtido o seu consentimento relativo à gravação das entrevistas a efetuar, de acordo com o artigo 176.º da L.T.E..
Uma vez aceite a participação na pesquisa, iniciámos a aplicação do questionário. Este instrumento encontrava-se em formato informatizado pelo que utilizámos o nosso computador pessoal, onde gravámos cada questionário num ficheiro individual. Como já referimos, o preenchimento deste instrumento foi realizado pela própria investigadora, à medida que os jovens respondiam aos diferentes itens, sendo que a presença do computador não constituiu elemento inibidor. Por vezes, ocorriam situações caricatas:
Assim que entrou na sala e eu me apresentei, o David teve um ataque de riso. Não parava de rir a cada pergunta que lhe fazia, parecia nervoso. (…) A meio do preenchimento do questionário, mostrou desconfiança: “Por que é que está a escrever tudo o que eu digo? Você não é da polícia, é?” Lá tive de voltar a explicar-lhe do estudo.” (Diário de campo, 28.01.2013)
Foram realizadas 30 sessões individuais para aplicação deste instrumento, sendo que, em cada visita ao C.E.S.A., conseguíamos efetuar 2 a 3 sessões, dependendo do tempo que os jovens utilizavam para dar resposta às questões colocadas. Finda a aplicação do questionário, interrompemos as idas à instituição, de modo a procedermos a uma análise exploratória dos dados obtidos com vista a afinar alguns aspectos, nomeadamente em termos do grupo de jovens a integrar no estudo e do conteúdo dos instrumentos de recolha de dados a utilizar posteriormente, conforme explicitámos anteriormente106.
De regresso ao C.E.S.A., procedemos à consulta da documentação necessária para confirmar alguns dados oficiais acerca destes jovens, nomeadamente o regime de internamento, a duração da medida de internamento, o tempo de internamento à data do início do estudo e a reincidência no cumprimento de medidas tutelares. Nesta altura, tivemos ainda oportunidade de reunir com o diretor do C.E.S.A., na medida em que nos interessava recolher a sua opinião acerca
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do modo de aplicação do instrumento de recolha de dados seguinte, as histórias da
vida e do futuro, pois que constituía para nós uma indecisão utilizar esse instrumento
em formato informatizado ou em papel.
Hoje vim ao CESA para fazer trabalho de gabinete. Fui recebida pelo Dr. Viana. […] Pedi-lhe ainda opinião acerca da aplicação do 2.º instrumento de recolha de dados (as histórias da vida e do futuro), no sentido de saber se devia apresentá-lo em papel ou em formato digital. Como o centro não tem computadores para todos os jovens, teria de trazer o meu portátil e aplicar o instrumento individualmente. O Dr. Viana foi de opinião que a utilização do computador seria mais apelativa para os jovens, tendo-me dito que os jovens frequentam a disciplina de TIC [tecnologias da informação e comunicação] e que muito deles estão familiarizados com o uso do computador (Diário de bordo, 28.02.2013).
Apesar de considerarmos válida a argumentação apresentada pelo diretor do C.E.S.A., optámos por apresentar as histórias da vida e do futuro em formato de papel, como um pequeno livro a redigir por cada um dos jovens. Esta decisão foi tomada considerando as seguintes razões: por um lado, a utilização do formato digital ou informatizado implicaria que os jovens tivessem de utilizar o computador para preencher o documento e nem todos os jovens se encontram devidamente familiarizados com o seu uso, o que poderia exigir a nossa intervenção e, assim, causar alguma perturbação ou inibição no relato das temáticas biográficas; por outro, ao utilizar a versão em papel seria possível realizar sessões de grupo, permitindo- nos criar um outro espaço de relacionamento com os jovens não apenas centrado na relação investigadora-jovem, o que, de algum modo, poderia conferir menos formalidade à sessão e, assim, propiciar mais espontaneidade por parte dos jovens, o que, esperávamos, poderia refletir-se no preenchimento do documento. No entanto, viemos a verificar que os jovens pouco se falavam durante as sessões. Cada um ocupava um lugar, ouvia as minhas indicações e cumpria a tarefa.
Notei que, apesar de estarem em conjunto, os jovens não interagiam entre eles, não se falavam. Ouviram atentamente as minhas indicações iniciais e começaram de imediato a escrever (Diário de bordo, 11.03.2013).
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A reação dos jovens à tarefa solicitada foi bastante positiva. Ao contrário do que temíamos, e apesar da frequente resistência inicial ao uso da escrita, os jovens acabavam por se envolver no preenchimento de todos os campos.
(…) mostraram-se muito recetivos ao preenchimento do instrumento, do qual fiz uma leitura prévia conjunta, a fim de explicar-lhes o que se pretendia em cada capítulo. Não tiveram grandes dúvidas. Pediram apenas que esclarecesse se os acontecimentos marcantes para o capítulo I tinham de ser bons ou maus. Eu disse-lhes que eles é que escolhiam. Julgo que acharam piada ao “Diário de Amanhã”, pois sorriam enquanto lhes explicava o que se pretendia (Diário de bordo, 11.03.2013).
Foram realizadas 6 sessões de grupo, nas quais participaram, no mínimo, dois jovens e, no máximo, quatro.
Terminada a aplicação das histórias da vida e do futuro, interrompemos novamente as idas ao terreno, de modo a proceder a uma análise exploratória dos dados obtidos. Este exercício permitiu-nos estruturar o guião da entrevista, tendo originado um segundo momento de indecisão, pois, apesar de querermos garantir a sistematicidade da pesquisa pela aplicação de um único guião, reconhecíamos, porém, que os instrumentos anteriormente aplicados nos colocavam perante um conjunto de interrogações particulares a que pretendíamos dar resposta. Assim sendo, decidimo-nos pela elaboração de uma série de questões dirigidas especificamente a cada jovem, de forma a explorar de modo mais detalhado alguns dos aspectos já aferidos. A entrevista é, então, composta por um guião comum a que todos os jovens respondem, acompanhado por um conjunto de questões especificamente pensadas para cada caso. Esta opção encontra-se em consonância com o nosso posicionamento metodológico, permitindo que os dados emergentes no terreno conduzam o próprio processo de pesquisa e que os diferentes momentos de análise se desenvolvam paralelamente à recolha de testemunhos (Bertaux, 1997: 65).
A entrevista semiestruturada, de carácter biográfico, permitiu-nos fechar o ciclo de recolha de dados, sendo que a aplicação dos três instrumentos não foi feita de forma estanque, mas procurando antes que a sua sucessiva aplicação e análise
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exploratória permitisse que a investigação fosse imergindo num nível de maior profundidade. Foram realizadas 19 sessões individuais para realização e gravação das entrevistas107. Como já mencionámos, a presença do gravador não constituiu elemento inibidor. A transcrição das entrevistas foi realizada de modo uniforme, estabelecendo-se um pequeno número de regras que garantiram a regularidade dos procedimentos de redação das narrativas produzidas pelos jovens e de modo a facilitar a sua posterior leitura e análise (Flick, 2004: 189; Bogdan e Biklen, 1994: 172).
A adoção dos procedimentos até aqui descritos teve por base um conjunto de preocupações de carácter metodológico e ético.
No que diz respeito aos aspectos metodológicos, as nossas preocupações incidiram, sobretudo, sobre a necessidade de clarificação das etapas fundamentais do processo de pesquisa. Em virtude da opção metodológica assumida, o trajeto de pesquisa é marcado por uma dialética que nos coloca num exercício de constante movimento do suporte teórico para os dados empíricos e destes novamente para a teoria, obrigando-nos a sucessivas reformulações, reconstruções e reconfigurações de diversos aspectos do projeto numa postura de abertura e espírito crítico face à necessidade de questionar opções anteriormente feitas (Almeida e Freire, 2003: 215). O trabalho com material biográfico parece, então, exigir, um exercício de ativo construcionismo, desde o momento em que se escolhe o sujeito da narrativa até à recolha dos dados, à seleção dos temas e assuntos a abordar e à construção do “retrato final” (Smith, 1998: 218), podendo o acaso jogar, neste processo, um importante papel de condução do investigador, alterando o curso da pesquisa. Por este motivo, havia que tornar claras as diferentes etapas, as diversas opções e os vários momentos do estudo, em termos da formulação das questões e dos objetivos, da definição do grupo a integrar o estudo, da construção e aplicação dos diferentes instrumentos de recolha de dados e das opções de análise do material empírico, de modo a que o mesmo pudesse fazer um outro sentido para nós, como quem olha de
107 Relembramos que um dos jovens terminou o cumprimento da medida de internamento, não tendo
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forma mais distanciada, mas também de modo a permitir que quem nos lê nos acompanhe por entre os rumos que traçámos e os desvios que fomos fazendo.
No que concerne às questões éticas, as nossas preocupações foram, essencialmente, relativas à proteção dos jovens que participaram na pesquisa, considerando os dois princípios éticos apontados por Lessard-Hébert et. al (2008: 84-85): o de informar e o de proteger os participantes que integram uma investigação. Desde logo, a preocupação pela proteção da sua identidade pelo que utilizamos nomes fictícios, tendo destruído as entrevistas gravadas imediatamente após a sua transcrição para efeitos de análise. Fomos ainda sensíveis a eventuais
“riscos psicológicos ou sociais” (Lessard-Hébert et al., 2008: 85) que o processo de
pesquisa pudesse comportar, não apenas nos jovens participantes, mas também no funcionamento quotidiano do C.E.S.A.. Deste modo, cumprimos o horário acordado com o centro educativo para o contato com os jovens, ocupando o espaço cedido e observando a solicitação de cumprimento das as regras de convivência (por exemplo, cumprimentar os jovens com um aperto de mão ou acompanhá-los na circulação pelos corredores, uma vez findas as sessões).
Quanto aos jovens, respeitámos sempre o facto de não quererem aprofundar determinado aspecto referido ou a recusa de resposta a alguma das questões colocadas. Trata-se, portanto, de considerar o outro não como um ‘caso’ ou ‘informante’, mas como um interlocutor.
Mas, o nosso maior dilema ético prende-se, paradoxalmente, com o carácter biográfico da própria pesquisa. O que nos autoriza a produzir as narrativas biográficas dos jovens institucionalizados no C.E.S.A?
No contexto da modernidade avançada, a retórica neoliberal toma o fracasso da afirmação do sujeito no mundo como dependente da responsabilidade individual e da incapacidade aproveitar as oportunidades do mercado globalizado, desconsiderando-se as condições contextuais e estruturais que determinam as existências individuais108. O sujeito é, assim, tomado como sede de um conjunto de recursos que deve saber gerir. A afirmação de si no mundo constitui-se como
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principal tarefa existencial, dependendo o sucesso da mesma de competências próprias que o sujeito deve ser capaz de mobilizar, sendo confrontado consigo mesmo e institucionalmente constrangido à autoconstrução. A relação do sujeito com os dispositivos de poder que garantem a manutenção da ordem vigente assenta, deste modo, numa coerção à exposição biográfica do sujeito. As próprias políticas sociais, dirigidas àqueles que se encontram em situação de maior fragilidade económica, social e política, reclamam um trabalho da individualidade assente na identificação de necessidades, dificuldades e competências pessoais. O sujeito é, assim, instigado a delinear um projeto existencial alicerçado na auto-reflexão e auto- responsabilização, sendo coagido a expor-se para, em troca, poder aceder a determinado tipo de instrumentos de apoio social. Neste contexto, a biografia constitui-se como instrumento da ação social (Delory-Momberger, 2009: 44 e 82), pois que, uma vez tornada pública e objecto de análise institucional, possibilita ou inviabiliza o acesso a formação, estágios, prestações sociais, reconhecimento de competências, entre outros. Ora, a instrumentalização da história de vida na sociedade biográfica gera novas formas de desigualdade pela exposição das narrativas ao reconhecimento social, sendo que o “capital biográfico” (Delory- Momberger, 2009: 47) de cada indivíduo é definido pela diversidade de experiências, tendencialmente favorecidas pelas condições socioeconómicas e culturais de cada um, mas também pela capacidade de produção da história de si, da auto-narrativa, sendo que esta, uma vez submetida a julgamento público, favorecerá ou dificultará a afirmação do sujeito na ordem dominante.
Deste modo, ao assumir a biografia como objeto de análise e opção metodológica sentimos que, de algum modo, a nossa pesquisa se aproximaria de uma lógica de auto-responsabilização dos jovens institucionalizados pela qual se exige que realizem um trabalho reflexivo sobre si mesmos, inscrevendo-se, desse modo, numa história e projeto singulares e encontrando em si mesmos formas de lidar com as contradições de um sistema social que os ultrapassa, lógica que, evidentemente, rejeitamos. Havia, portanto, que descentrar a pesquisa do indivíduo, num duplo sentido. Por um lado, inscrever as existências individuais dos jovens institucionalizados num quadro histórico e social, identificando, por essa via, as
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condições estruturais que determinam as trajetórias de vida dos sujeitos. Por outro, e no que ao desvio diz respeito, desmontar exercícios de auto-responsabilização falaciosos pelos quais os jovens assumem como decisões pessoais determinantes que são de ordem contextual. Em última análise, a reflexão sobre o carácter biográfico da pesquisa constitui, para nós, uma questão ética e política, na medida em que, de acordo com o nosso posicionamento epistemológico, o modo como o investigador constrói a realidade que estuda possibilita determinados usos e alimenta determinados interesses e, por isso, a opção por uma ou outra prática metodológica exige uma reflexão sobre a legitimidade das realidades produzidas e sobre as relações de poder e saber que tais construções admitem.