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7.3 Méthodes basées sur l’auto-organisation

7.3.4 Mécanismes d’auto-organisation

A pesquisa efetuada possui um carácter marcadamente narrativo, não apenas pelo tipo de material com que trabalhamos, mas também pelo modo como produzimos a nossa análise. Assim sendo, quando nos questionámos acerca do modo de apresentação das nossas conclusões, rejeitámos, desde logo, voltar a fragmentar o texto das entrevistas, transformando-o num conjunto de excertos ilustrativos ou confirmatórios117 da análise a expor, do que resultaria uma

“intervenção analítica reducionista e desestruturadora das modalidades enunciativas”

(Arfuch, 2010: 267). No entanto, a apresentação do texto integral das entrevistas mostrava-se inviável, dada a sua extensão. Optámos, então, por apresentar o que designámos por narrativa biográfica comentada, a qual consiste numa reconstrução do material biográfico recolhido acompanhada dos nossos comentários analíticos118. A partir do trabalho sobre o material relativo a cada jovem obtivemos dez narrativas biográficas acompanhadas das respetivas reflexões de análise. A construção das biografias comentadas exigiu novamente o retorno ao texto integral das entrevistas para, considerando os comentários produzidos, selecionar as passagens que era importante manter, de modo a não comprometer a compreensão da análise produzida. O recurso ao discurso direto dos jovens institucionalizados não assenta, porém, na pretensão de que a investigação possa dar-lhes voz, pois, em rigor, quem fala é sempre a investigadora, no sentido em que há um trabalho reconstrutivo nosso sobre as narrativas por eles produzidas. Não pretendemos, portanto, esconder a nossa presença. O facto de, por exemplo, termos anulado a nossa participação no diálogo da entrevista, não apresentando as questões por nós colocadas ou outras

117 Bertaux (1997: 113) assinala como erro frequente do trabalho com biografias a exposição de uma

hipótese na sequência da qual o investigador cita um excerto da história de vida particularmente ilustrativo da hipótese avançada, o que corresponde a uma inversão artificial pela qual o caso particular passa a assumir o estatuto de confirmação ou prova quando, efetivamente, é o caso particular que serve de pista conducente à elaboração da hipótese exposta.

118 Não podemos deixar de assinalar que a nossa escolha por este formato de apresentação foi, em

larga medida, inspirada pela obra de Oscar Lewis (1963) Os filhos de Sanchez: “Ao preparar a

publicação das entrevistas, eliminei as minhas questões e selecionei, arranjei e organizei os materiais, de modo a tornar os relatos coerentes” (Lewis, 1963: 25).

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intervenções, não tem como objetivo transformar-nos num autor indiferente que, assim, acede a uma verdade. O nosso posicionamento epistemológico, assente no reconhecimento do carácter construído da realidade e do conhecimento, obriga-nos a assumir a nossa presença e, portanto, a proceder a uma reflexão sobre a autoria dos enunciados produzidos a partir das palavras de outrem. Talvez possamos, assim, falar numa “trama significante de vozes” pela qual o “desdobramento da

singularidade” torna possível a “constituição de sujeitos coletivos” (Arfuch, 2010:

266). Não obstante, a voz dos jovens institucionalizados não deixa de estar presente, sendo a partir dela que trabalhamos, usando as suas palavras. A análise da especificidade dos processos de subjetivação dos jovens institucionalizados no C.E.S.A. confronta-nos com a sua voz sociológica e com o modo como ela se torna possível a partir da condição de internamento em que se encontram, traduzindo-se numa infrapolítica (Scott, 2013: 253-275) de resistência a essa mesma condição e numa luta por diferentes possibilidades-de-ser119.

No que diz respeito à construção das narrativas biográficas a apresentar, a especificidade de cada entrevista, decorrente da aplicação de um conjunto de questões particulares dirigidas a cada jovem, obrigou-nos a seguir a orientação temática proposta pelo guião comum e, sempre que necessário, a reagrupar passagens relativas aos mesmos temas120. Por vezes, recorremos aos restantes instrumentos utilizados, o questionário e as histórias da vida e do futuro, como fontes complementares, de onde retirámos algumas passagens devidamente identificadas. A reconstrução narrativa realizada pela investigadora assume, portanto, uma dimensão temporal passado-presente-futuro, correspondente à orientação dos temas propostos na entrevista, os quais remetem para uma das três dimensões temporais, dado que a existência humana não existe fora do tempo, sendo experienciada por referência a uma dimensão temporal que lhe confere unidade (Delory-Momberger,

119 Cf. IV. Analítica.

120 De acordo com Poirier et al (1995: 66-67), o estabelecimento de uma ordem temática exige uma

análise de conteúdo prévia que permite proceder a uma organização do material biográfico em função de categorias que dele emergem. No que ao nosso estudo diz respeito, a análise descritiva previamente levada a cabo constitui-se, de facto, como um instrumento auxiliar à identificação das principais “unidades de significação” (Poirier et al, 1995: 66) que, posteriormente, sustentam o nosso trabalho de construção das narrativas biográficas comentadas.

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2009: 27). O exercício de biografização consiste, portanto, em inscrever a experiência humana em esquemas temporais, configurando-a, por meio do recurso a um “razão narrativa” (Delory-Momberger, 2009: 30), como uma história e obedecendo a uma lógica de tipo narrativo. Não pretendemos, contudo, ceder à

ilusão biográfica de que fala Bourdieu (1986), na medida em que reconhecemos que

os jovens não apresentam espontaneamente as suas narrativas numa linha temporal orientada do passado para o futuro, sendo esta uma criação artificial nossa com vista a facilitar a compreensão das trajetórias descritas e servindo, assim, os interesses da investigação. A reconstrução da estrutura diacrónica dos percursos biográficos dos jovens institucionalizados no C.E.S.A. não reflete, contudo, a preocupação do estabelecimento de uma cronologia, até porque não dispúnhamos de dados suficientes que nos permitissem datar todos os acontecimentos narrados. Bertaux (1997: 76-79) distingue diacronia de cronologia, sendo que a primeira se refere à sucessão temporal dos acontecimentos e a segunda à sua datação, e considera que a reconstrução diacrónica e a reconstrução cronológica permitem cruzar, respetivamente, o tempo biográfico e o tempo histórico coletivo, favorecendo a compreensão do impacto dos fenómenos históricos e dos processos de mudança social sobre os percursos de vida individuais. No nosso caso, o facto de não termos procedido a uma datação cronológica não nos parece relevante, dado que o material biográfico analisado se encontra devidamente localizado num espaço de tempo relativamente curto, se considerarmos a idade dos jovens que integram esta pesquisa.

Deste modo, a reconstrução narrativa efetuada segue o mesmo esquema de apresentação em todos os casos, integrando as referências ao vivido relativas aos temas da família, escola, amigos, bairro, acontecimentos marcantes, mas também respeitantes à configuração do trajeto desviante e conducente à institucionalização. São, em seguida, integradas as referências à situação de internamento e às expectativas futuras em termos do pós-internamento, incluindo ainda a reflexão sobre a questão da vida em sociedade. O recurso a este esquema visa facilitar ao leitor a comparação entre as diferentes narrativas apresentadas. Os comentários

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analíticos introduzidos interrompem o discurso direto e referem-se às passagens imediatamente anteriores, configurando possibilidades interpretativas das mesmas.

Em termos formais, podemos acrescentar que o uso de reticências entre parêntesis reto corresponde a supressões realizadas, nomeadamente em termos das questões de entrevista colocadas pela investigadora, de nomes de pessoas ou locais que pudessem pôr em causa o anonimato dos jovens e de passagens das entrevistas que, uma vez omissas, não comprometem o sentido das narrativas produzidas pelos jovens nem foram diretamente relevantes para a produção dos comentários analíticos da investigadora. As expressões que aparecem entre parêntesis retos não constituem afirmações dos jovens, mas encontram-se implícitas no discurso oral, tendo sido por nós acrescentadas, de modo a facilitar a compreensão das narrativas. O uso de parêntesis curvo serve para introduzir esclarecimentos nossos ou dar conta de aspectos formais do discurso oral, como, por exemplo, risos, silêncios ou hesitações.

Utilizamos sempre nomes fictícios e, por vezes, surgem referências às cidades de proveniência de cada jovem. Na sua maioria, os jovens entrevistados são provenientes de bairros de habitação social, sendo que os restantes habitam zonas desfavorecidas das cidades de proveniência. Não identificamos propositadamente esses locais, frequentemente sujeitos, na comunicação social e em alguma literatura científica, a processos de estigmatização para os quais não pretendemos contribuir. Além disto, consideramos que esta omissão contribui para a manutenção do anonimato dos jovens entrevistados.

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