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2 Matériel & Méthode

2.1 Populations non morbides

2.2.1 Protocole des tests

Na tabela 7 encontram-se as informações recolhidas durante a anamnese e o exame físico dos 6 animais. Verifica-se que a presença de anorexia e perda de peso constituíram os sinais clínicos mais frequentes, seguidos da PU/PD.

Tabela 7. Sinais clínicos.

*Animal do Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee; **Animal do Hospital Veterinário de Gaia.

Animal Sinais clínicos

CÃO

1* Perda de peso, polidipsia/poliúria, mucosas pálidas

2* Perda de peso, polidipsia/poliúria, anorexia, letargia

3* Perda de peso, polidipsia/poliúria, anorexia, letargia, desidratação,

vómitos, linfoadenopatia

G

AT

O

1* Perda de peso, anorexia, vómitos, letargia, constipação

2** Desidratação, letargia, vómitos

3** Perda de peso, polidipsia/poliúria, anorexia, desidratação, mucosas

pálidas

Figura 8. Identificação do gato 1, 2, 3, respetivamente. Imagens obtidas durante o exame físico (imagens

gentilmente cedidas pelo Hospital Veterinário de Gaia e Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee)

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3.3.

Diagnóstico

3.3.1.

Exames laboratoriais

No momento da consulta foram realizados o hemograma e a bioquímica sérica em todos os animais, cujo os resultados se encontram na tabela 8.

As alterações mais frequentes foram a anemia não regenerativa, normocrómica e normocítica e a azotemia. A anemia não regenerativa, normocrómica e normocítica estava presente em quase todos os animais, excluindo o cão 2 e o gato 1. A trombocitopenia estava presente em dois animais (cães 1 e 3).

Em relação aos parâmetros bioquímicos, verificou-se que todos os animais apresentavam azotemia. A SDMA foi determinada em todos os cães e apenas no gato 1, encontrando-se aumentada em todos os animais (tabela 8). A concentração sérica de cálcio e fósforo foi avaliada nos seis animais, tendo-se observado apenas o aumento dos valores de fósforo no cão 1 (tabela 8).

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Tabela 8. Resultados dos parâmetros hematológicos e bioquímicos.

ALT- alanina aminotransferase; BUN- ureia; CREA- creatinina; CHCM – Concentração de hemoglobina corpuscular média; FA- fosfatase alcalina; HCM – Hemoglobina corpuscular média; Ht- Hematócrito; VCM – Volume corpuscular médio; SDMA- Dimetilarginina Simétrica. *Animal do Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee; **Animal do Hospital Veterinário de Gaia.

Animal Hemograma Bioquímica Sérica

CÃO

1*

Anemia não regenerativa normocrómica e normocítica (Ht: 29,5%; Hg: 10,7 g/dL; HCM: 19,1 pg; CHCM: 35,3 g/dL; VCM:68,2 fL)

Trombocitopenia (86x103/µL;)

Hipoproteinemia devido a Hipoalbuminemia (5,1 g/dL, 2,4 g/dL, respetivamente)

Azotemia (CREA: 3,3 mg/dL; BUN: 110 mg/dL) SDMA aumentada: 28 µg/dL

Fósforo aumentado: 7,2 mg/dL ALT aumentada: 119 U/L

FA aumentada: 455 U/L Bicarbonato baixo: 13 mmol/L Anion Gap aumentado: 31 mmol/L

2*

Normal (Ht: 40,6)

Azotemia (CREA: 2 mg/dL; BUN: 77 mg/dL) SDMA aumentada: 21 µg/dL

Fósforo normal: 5,5 mg/dL Bicarbonato normal: 18 mmol/L Anion Gap aumentado: 24 mmol/L

3*

Anemia não regenerativa normocrómica e normocítica (Ht: 28,1%; Hg: 11,3 g/dL; HCM: 17,4 pg; CHCM: 35,2 g/dL; VCM: 66,1 fL) Leucocitose (17.6x103/µL) por linfocitose (9,28x103/µL) Trombocitopenia (130x103/µL) Hipoproteinemia (4.9 g/dL; IR: 5.4-6.8 g/dL) Hipoalbuminemia (albumina: 2,8 g/dL) Azotemia (CREA: 3 mg/dL; BUN: 52 mg/dL) SDMA aumentada: 35 µg/dL Fósforo normal: 2,8 mg/dL FA aumentada: 351 U/L G AT O 1* Normal (Ht: 39,6%)

Azotemia (CREA: 2,3 mg/dL; BUN: 43,9 mg/dL;) SDMA aumentada: 19 µg/dL

Fósforo normal: 3,2 mg/dL

2**

Anemia não regenerativa normocrómica e normocítica (Ht: 26%; Hg: 7.85 g/dL; HCM:10,5 pg; CHCM:34,1 g/dL; VCM:44,7fL) Linfopenia (0.6x109/µL) Hiperproteinemia: 8,7 g/dL

Azotemia (CREA: 8 mg/dL; BUN: >140 mg/dL)

3**

Anemia não regenerativa normocrómica e normocítica (Ht:18,4%; Hg: 6,11 g/dL; HCM: 11,8 pg; CHCM:32,6 g/dL; VCM:46,6 fL) Leucopenia (3,2x109/µL) por neutropenia (2x109/µL) Hiperproteinemia: 8 g/dL

Azotemia (CREA: 2,9 mg/dL; BUN: 38,6 mg/dL) Fósforo normal: 5.2 mg/dL

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Em todos os animais realizou-se uma análise de urina tipo II, onde foram observadas as seguintes alterações: DUE baixa (entre 1,014 e 1,020), proteinúria (entre 30 mg/dL e 1000 mg/dL) e sedimento urinário inativo (tabela 9).

Tabela 9. Resultados da análise de urina tipo II.

DUE: densidade urinária específica; Proteínas: 1+ (30 mg/dl); 2+ (100 mg/dl); 3+ (300 mg/dl); 4+ (1000 mg/dl). *Animal do Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee; ** Animal do Hospital Veterinário de Gaia.

O rácio UPC foi determinado em todos os animais, uma vez que na análise de urina tipo II detetou-se proteinúria e sedimento inativo. Os valores do rácio UPC encontravam-se entre 0,35-2,1 (tabela 12).

A determinação da lipase pancreática específica por imunoreatividade (cPLI), os níveis de folato, cobalamina e T4 total, foram determinados no gato 1 para descartar uma

Animal

Resultados

Exame Físico Exame Químico Exame do sedimento CÃO 1* Cor: amarela Turbidez: turvo DUE: 1,023 (ligeiramente diminuída) Proteínas 3+ Sangue 3+ pH 6.5 Inativo 2* Cor: amarela Turbidez: transparente DUE: 1,015 (diminuída) Proteínas 3+ Sangue 2+ pH 6 Inativo 3* Cor: amarela Aspeto: transparente DUE: 1,015 (ligeiramente diminuída) Proteínas 1+ pH 6.5 Inativo G A T O 1* Cor: amarela Turbidez: turvo DUE: 1,030 (diminuída) Proteínas 3+ pH 6 Inativo 2** Cor: amarela Turbidez: transparente DUE: 1,014 (diminuída) Proteínas 4+ pH 7 Inativo 3** Cor: amarela Turbidez: transparente DUE: 1,020 (diminuída) Proteínas 1+ pH 6,5 Inativo

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possível pancreatite, doença inflamatória intestinal, parasitismo, linfoma ou hipertiroidismo.

3.3.2.

Imagiologia

Dentro das técnicas imagiológicas realizadas, apenas na ecografia abdominal se observou alterações significativas.

3.3.2.1.

Ecografia abdominal

Este método de diagnóstico foi realizado apenas em cinco animais (exceto o cão 3). Verificou-se que todos os animais apresentavam alterações ecográficas sugestivas de DRC, ou seja, diminuição do tamanho renal, espessamento da cortical e/ou perda da diferenciação cortico-medular. O cão 2 apresentava uma massa no rim esquerdo, e o gato 2 apresentava rins poliquísticos.

Na tabela 10 são apresentadas as alterações ecográficas observadas nos rins dos seis animais. De seguida, são apresentadas as imagens ecográficas renais de cada animal (Figura 9, 10, 11, 12 e 13) onde é possível observar as alterações mencionadas na tabela 10.

Tabela 10. Alterações ecográficas renais.

*Animal do Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee; ** Animal do Hospital Veterinário de Gaia.

Animal Alterações ecográficas

CÃO

1* Perda da diferenciação cortico-medular e moderada pielectasia

2* Massa renal; Perda da diferenciação cortico-medular; ligeira pielectasia e quistos anecoicos

G

A

T

O

1* Rins pequenos e irregulares

2** Perda da diferenciação cortico-medular

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Figura 9. Imagem ecográfica renal do cão 1. Rins com ligeira perda da diferenciação cortico-medular (setas

brancas) e moderada pielectasia (Imagem gentilmente cedida pelo Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee).

Figura 10. Imagem ecográfica renal do cão 2. Rins com vários quistos anecoicos (seta vermelha) e

diminuição da diferenciação cortico-medular (seta branca). Ligeira pielectasia bilateral (Imagem gentilmente cedida pelo Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee).

Figura 11. Imagem ecográfica renal do gato 1. Rins marcadamente pequenos e irregulares. Não há

evidência de pielectasia (Imagem gentilmente cedida pelo Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee).

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3.4. Outros exames complementares

A PAS foi determinada segundo o método Doppler indireto nos 6 animais e os valores apresentados são a média de várias determinações. Em nenhum dos casos existia evidência de lesões/complicações nos órgãos-alvo. Os valores da PAS variaram entre 90mmHg e 184 mmHg (tabela 12).

No cão 2 foi feita uma citologia por aspiração com agulha fina da massa observada durante a realização da ecografia, que foi posteriormente diagnosticada como carcinoma renal.

No cão 3 como apresentava linfoadenopatia no exame físico, também foi realizada uma citologia por aspiração com agulha fina dos gânglios submandibulares, a qual

Figura 12. Imagem ecográfica renal do gato 2. Rins com perda da diferenciação cortico-medular (seta

branca) (Imagem gentilmente cedida pelo Hospital Veterinário de Gaia).

Figura 13. Imagem ecográfica renal do gato 3. Rins poliquísticos (seta vermelha) e com perda da

diferenciação cortico-medular (seta branca) (Imagem gentilmente cedida pelo Hospital Veterinário de Gaia).

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revelou linfoma. A imunofenotipagem revelou linfoma das células B. Tendo em conta o quadro clínico do animal foi feito o diagnóstico de linfoma multicêntrico das células B.

3.5. Estadiamento e subestadiamento da DRC segundo a IRIS

Segundo a classificação IRIS, foi realizado o estadiamento da DRC em função dos valores da creatinina (tabela 11) e o seu subestadiamento com base nos valores do rácio UPC e da PAS (tabela 12).

Tabela 11. Estadiamento da doença renal crónica segundo a IRIS.

*Animal do Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee; ** Animal do Hospital Veterinário de Gaia.

Tabela 12. Subestadiamento da doença renal crónica segundo a IRIS.

PAS- pressão arterial sistólica; UPC- proteína/creatinina na urina. *Animal do Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee; **Animal do Hospital Veterinário de Gaia.

Animal Creatinina (mg/dL) Estadio

CÃO 1* 2,3 III 2* 2 II 3* 3 III G A T O 1* 2,3 II 2** 4,5 III 3** 2,7 II

Animal Rácio UPC Classificação segundo IRIS PAS (mmHg) Classificação segundo IRIS CÃO 1* 3,35 Proteinúrico 145 mmHg Normotenso 2* 2,1 Proteinúrico 170 mmHg Hipertenso 3* 1,5 Proteinúrico 100 mmHg Normotenso G AT O 1* 0,44 Proteinúrico borderline 110 mmHg Normotenso 2** 3,6 Proteinúrico 176 mmHg Hipertenso 3** 0,35 Proteinúrico borderline 184 mmHg Hipertenso Grave

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3.6. Tratamento

O tratamento implementado a cada um dos animais baseou-se nos princípios gerais do tratamento para a DRC, embora se observem diferenças de caso para caso consoante o estadio da DRC.

Relativamente à abordagem nutricional todos os animais iniciaram dieta renal, de diferentes marcas (tabela 13), embora o cão 3 e o gato 3 a tenham rejeitado.

Tabela 13. Tratamento nutricional.

*Animal do Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee; **Animal do Hospital Veterinário de Gaia.

Na tabela 14, está descrito o tratamento médico instituído a cada animal, bem como as doses, a via e a frequência de administração de cada fármaco.

Animal Dieta

CÃO

1* Hill's® Prescription Diet® k/d® Canine with Lamb

2* Hill's® Prescription Diet® k/d® with chicken + Cesar's wet food

3* Inicialmente Royal Canin® Renal Select Dry e depois alimentação caseira

G

AT

O 1* Hill´s Prescription Diet

® k/d® Feline Vegetable & Tuna

Hill´s Prescription Diet® k/d® Feline with Ocean Fish

2** Royal Canin® Renal feline

3** Inicialmente Royal Canin

® Renal Feline e, depois Ração comercial

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Tabela 14. Tratamento médico.

a neste caso, apenas se optou por tratamento nutricional com dieta renal; ** Telmisartan está licenciado em

gatos na Europa (Semintra®), mas nos EUA o seu uso é off-label quer para cães, quer para gatos. BID: de

12 em 12horas; EOD: a cada 48 horas; kg: quilograma; mL: militro; PO: por via oral; SC: por via subcutânea; SID: de 24 em 24 horas; TID: de 8 em 8 horas. *Animal do Hospital Veterinário da Universidade do Tennessee; **Animal do Hospital Veterinário de Gaia.

Fármacos

administrados Cão 1* Cão 2* Cão 3* Gato 1

*a Gato 2** Gato 3** Enalapril 0,3 mg/kg PO BID 0,3 mg/kg PO BID - - 0,5 mg/kg PO BID 0,5 mg/kg PO SID Amlodipina - 0,22 mg/kg PO SID - - 0,625 mg/gato PO SID - Telmisartan** 0,67 mg/kg PO BID - - - 0,25 mL/kg PO SID - Mirtazapina - - 0,57 mg/kg PO SID - - 1,88 mg/gato PO EOD Citrato de Maropitant - - 1,1 mg/kg SC - 1 mg/kg SC - Hidróxido de alumínio 37 mg/kg PO BID com comida - - - - - Ácidos gordos ómega-3 300 mg/cão SID PO - - - - - Ácido acetilsalicílico 2,5 mg/kg PO SID - - - - - Bicarbonato de sódio 50 mg/kg PO TID com comida - - - - - Suplemento renal WeHemo - - - - - 2 gotas/Kg PO SID Fluídos SC (NaCl 0,9%) - - 150 mL /cão SID - 200 mL/gato SID 150 ml/gato SID

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3.7. Monitorização

Durante o tratamento, o cão 1 manteve-se estável, apesar de na sua reavaliação os valores de fósforo terem aumentado e, por isso, o hidróxido de alumínio foi substituído por o carbonato de lantânio. Os valores renais estabilizaram, pelo que se agendou acompanhamento em 1 mês para avaliar a progressão da doença.

O cão 2 foi diagnosticado com carcinoma renal pelo que se recomendou nefrectomia do rim esquerdo. Antes de prosseguir com a cirurgia, como é protocolo, determinou-se a TFG (através da cintigrafia) dos dois rins, que estava bastante diminuída (rim esquerdo com 2/3 da capacidade de filtração e o direito com 1/3 da capacidade de filtração); devido a estes valores a cirurgia foi cancelada e o animal foi encaminhado para o departamento de oncologia.

O cão 3 como foi diagnosticado com linfoma multicêntrico das células B, iniciou o protocolo quimioterápico da Universidade Wisconsin – Madison (também designado protocolo CHOP - ciclofosfamida, doxorrubicina, vincristina e prednisona) pelo departamento de oncologia. Na 2ª semana de quimioterapia, o estado geral do animal degradou-se bastante e os valores renais agravaram-se e, como tal, o tutor optou pela eutanásia.

O gato 1, por estar no estádio II da DRC foi tratado apenas com dieta renal. Esta opção foi eficaz e o animal manteve-se estável por um longo período de tempo. Foram agendadas reavaliações a cada 6 meses para controlo de hemograma, painel renal, análise de urina tipo II e rácio UPC.

Inicialmente, o gato 2 não respondeu ao tratamento; os valores de BUN e CREA aumentaram bastante e sintomaticamente o animal piorou. Após investigação adicional foi diagnosticado com ITU (cultura urinária positiva para Escherichia coli). Após 5 dias de internamento com administração de fluídos, antibioterapia (ampicilina) e dieta renal, obteve-se uma melhoria clínica significativa e estabilização dos valores renais. Nos acompanhamentos seguintes o animal manteve-se estável.

No gato 3, após o início do tratamento referido na tabela 14 observou-se uma melhoria no apetite e o aumento do peso em cerca de 200g. Os valores renais embora elevados, permaneceram estáveis. No momento da reavaliação, a PAS manteve-se elevada, pelo que foi necessário adicionar amlodipina (0,625 mg/gato PO SID). Ficou agendado novo acompanhamento em 1 mês, para reavaliar parâmetros renais, hemograma, PAS, análise de urina tipo II e rácio UPC.

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4. Discussão

A DRC é uma causa importante de morbilidade e mortalidade em cães e gatos (Grauer, 2016). Na maioria dos casos, a DRC é irreversível e progressiva, mesmo com tratamento (Polzin, 2017a).

Durante o estágio foram acompanhados 6 casos clínicos de DRC com diferentes quadros clínicos, que demonstraram a variabilidade da doença e, por isso, a necessidade de um conhecimento aprofundando da doença.

Neste trabalho observou-se que o maior número de animais afetado foram as fêmeas o que está em desacordo com o estudo de White et al. (2006), que refere que são afetados tanto machos como fêmeas. Também se percebeu que a idade dos gatos oscilou num intervalo compreendido entre os 4 e os 13 anos e, a idade dos cães entre 8 e 15 anos; estes resultados estão de acordo com o encontrado na literatura que diz a DRC é mais frequente em animais geriátricos, mas pode ocorrer em qualquer idade (Foster, 2013).

Relativamente às raças, apenas dois casos (cão 2 e gato 3) coincidem com a literatura, que refere o Cocker Spaniel como a raça mais predisposta a desenvolver DRC, em comparação com os cães sem raça definida (O’Neill et al., 2013b). Nos gatos, 38%

dos gatos Persa são afetados com a doença dos rins poliquísticos (Reynolds e Lefebvre, 2013).

Em relação aos sinais clínicos relatados pelos tutores a perda de peso (5 animais) e a PU/PD (4 animais) foram os mais frequentes e, estão de acordo com o descrito pela literatura (DiBartola e Westropp, 2014; Polzin, 2017a). Já no exame físico as alterações

mais frequentes segundo Couto (2014) são as mucosas pálidas, a fadiga, a fraqueza, a letargia e a inapetência, geralmente relacionados com anemia, tendo também sido as alterações mais frequentes nos animais deste trabalho. Também a náusea, vómitos, úlceras orais, halitose, colite, diarreia ou melena podem ser observadas com a DRC (Polzin, 2017a), no entanto neste trabalho foi apenas observado o vómito no cão 3 e no

gato 3.

Em todos os animais com DRC, a história clínica completa e o exame físico devem ser acompanhados por testes que avaliam a função renal, a hematologia, a análise de urina tipo II e a cultura de urina (Grauer, 2015).

Na maioria dos casos, o diagnóstico de DRC é feito após o aparecimento de azotemia (Paepe e Daminet, 2013). De facto, neste trabalho verificou-se que todos os animais apresentaram aumento das concentrações séricas de creatinina e ureia.

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A concentração sérica de creatinina é um parâmetro utilizado para avaliar a função renal, juntamente com a ureia sérica (Polzin, 2017a). No entanto, a creatinina é pouco

sensível na deteção de lesão renal precoce, uma vez que, é necessário que haja uma redução de pelo menos 75% da TFG para que seja observado um aumento da concentração sérica de creatinina (Lefebvre, 2011). Pelo contrário, a SDMA é um biomarcador precoce da perda da função renal (Relford et al., 2016) já que aumenta em cães e gatos com 25% a 40% de perda de nefrónios (Hall et al., 2014a; Nabity et al., 2015;

Hall et al., 2016). Além disso, ao contrário da creatinina, não é influenciada pela massa muscular (Robertson, 2017). Neste trabalho, este biomarcador foi determinado nos 3 cães e num gato do HVUT, e apresentou-se aumentado. Até agora, em Portugal, ainda não é um parâmetro muito utilizado por isso, não se realizou esta medição nos gatos 2 e 3.

A anemia não regenerativa, normocítica e normocrómica foi observada em 4 dos 6 animais. Este tipo de anemia é característico da DRC uma vez que na DRC ocorre produção inadequada de EPO pelos rins (Quimby, 2016; Polzin,2017a).

No que diz respeito às alterações eletrolíticas, estas foram observadas em alguns animais. Nos gatos com DRC, o cálcio sérico pode estar normal, diminuído ou elevado (Cline, 2016). Neste trabalho, nenhum dos gatos apresentou alterações na concentração sérica de cálcio. Em relação ao potássio, a hipocalemia é mais frequente em gatos do que em cães (Foster, 2013). Embora, neste trabalho nenhum dos gatos tenha apresentado níveis baixos de potássio. Na DRC, como a função renal diminui a retenção de fósforo ocorre (Foster, 2013), tal como foi observado no cão 1.

A acidose metabólica é relativamente frequente na DRC sendo mais relevante em estadios mais avançados da doença (Elliot et al., 2003; de Brito-Ashurt et al., 2009), como foi comprovado pelo cão 1, que se encontrava no estadio III. Nos animais azotémicos a determinação da concentração no plasma, ou no sangue total, do ião bicarbonato ou de dióxido de carbono total é vantajosa (Elliot e Brown, 2004).

Nos animais do trabalho, o processo de recolha de urina foi realizado pelo método de cistocentese ecoguiada, que é a opção de eleição visto que, evita a contaminação da amostra pela uretra ou pelo trato genital e é simples de efetuar quando a bexiga é palpável (DiBartola e Westropp, 2014). Na análise de urina tipo II, as alterações mais frequentes foram a DUE diminuída e a proteinúria.

Em todos os animais avaliou-se a DUE, através do refratómetro, onde os valores de DUE variaram nos cães entre 1,015 a 1,023 e, nos gatos entre 1,014 a 1,030,

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caracterizando-se como urinas pouco concentradas. Estes resultados coincidem com o descrito na literatura, que descreve que a maioria dos cães e muitos gatos com DRC têm valores de DUE entre 1,006 e 1,020 (Polzin, 2017a).

A proteinúria foi detetada em todos os animais na tira reativa de urina. Em qualquer animal com proteinúria e com sedimento urinário inativo, uma avaliação mais específica com o rácio UPC deve ser realizada (Syme e Jepson, 2017).

Antes de realizar o rácio UPC, devem ser realizadas exames complemementares (hemograma, bioquímica sérica e análise de urina tipo II) para descartar causas de proteinúria pré-renal ou pós-renal (Lees et al., 2005), como realizado em todos os animais. É recomendado que o rácio UPC seja reavaliado 2 ou 3 vezes em jejum, durante pelo menos 2 semanas, exceto se marcadamente elevado ou menor que 0,2 (Bartges, 2012). Embora, este tipo de recomendação não tenha sido realizado em nenhum dos animais do trabalho. A avaliação microscópica do sedimento urinário nestes animais não identificou alterações sugestivas de inflamação ou hemorragia que indicassem a presença de proteinúria patológica extra-renal.

A cultura de urina foi realizada apenas num gato de género feminino, pois durante a sua evolução surgiu a suspeita de infeção do trato urinário e, esta revelou-se positiva para E.coli. Confirmando assim, que as ITU’s são mais comuns em fêmeas (Cannon, 2016) e que a E.coli é o organismo mais frequentemente envolvido nestas infeções (DiBartola e Westropp, 2014).

A ecografia renal é uma técnica imagiológica não invasiva, que não depende da função renal, não tem contraindicações e permite a caracterização da arquitetura renal interna (DiBartola e Westropp, 2014). Na DRC, frequentemente o tamanho dos rins é reduzido e há diminuição da diferenciação cortico-medular, independentemente da sua etiologia (Larson, 2009; Debruyn et al., 2012; Berent et al., 2014; Kulendra et al., 2014). Neste trabalho realizou-se o estudo ecográfico em 5 animais, visto que por motivos económicos dos tutores um dos animais (cão 3) não foi sujeito a esta técnica imagiológica. Foi frequente observar alterações da ecogenicidade com perda de definição cortico- medular (5 animais), como descrito pela literatura. Alterações menos frequentes incluíram: a presença de quistos (cão 2 e gato 3) no parênquima renal e a presença de massa renal (cão 2).

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As radiografias são usadas para obter informações sobre o tamanho renal e a silhueta renal (Syme e Jepson, 2017). Neste trabalho, foram realizadas radiografias aos 6 animais, mas nenhum apresentava alterações dignas de registo.

Com base nos dados das concentrações séricas de creatinina obtidos, foi realizado o estadiamento da DRC dos 6 animais, de acordo com o sistema de classificação da IRIS (2016). Neste sentido, 3 animais (cão 2, gatos 1 e 3) foram classificados no estadio II e os restantes 3 animais (cães 1 e 3 e, gato 2) no estadio III da DRC. Neste trabalho, o estadiamento da DRC foi realizado antes da estabilização do animal, o que não terá sido o ideal, uma vez que se deve preconizar a estabilização da concentração sérica de creatinina. Além disso, esta deveria ter sido determinada após um período de jejum de 8- 12 horas (Paepe e Daminet, 2013; Syme e Jepson, 2017). Não foram diagnosticados animais no estadio I da DRC, que como já foi referido anteriormente, é raro detetar animais nesta fase tão precoce da doença (Polzin, 2017a).

Todos os animais realizaram o rácio UPC, uma vez que apresentaram proteinúria e sedimento inativo na análise de urina tipo II, permitindo a classificação destes animais como proteinúricos boardline (gatos 1 e 3) e proteinúricos (3 cães e o gato 2). Os animais proteinúricos boardline devem ser reavaliados 2 meses depois e, classificados novamente se necessário (IRIS, 2016a). A classificação da proteinúria, em alguns animais, pode

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