8. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
8.1. Mudança Normativa
Pretende-se, em primeiro lugar, verificar se as aulas de EF têm, neste escalão etário, impacto significativo no desenvolvimento dos níveis de expressão das aptidões e habilidades motoras. Posteriormente pretende-se verificar a eficácia relativa de duas formas de abordagem da EF na escola do 1ºCEB - programa oficial e programa alternativo - no desenvolvimento das aptidões e habilidades motoras.
Os propósitos dos dois programas referentes ao desenvolvimento das aptidões são coincidentes. Ambos estabelecem o desenvolvimento da aptidão física como objectivo geral a atingir a longo prazo, e nunca no período de tempo limitado de uma unidade didáctica. Também não é recomendado nenhum procedimento de exercitação (intensidade, frequência, duração) particular. É deixado ao professor o papel de estabelecer para cada aula a carga de exercitação destinada ao desenvolvimento das aptidões, pelo que as aulas a este respeito foram planeadas e conduzidas da mesma forma, o que limita, de algum modo, a expressão na mudança que deve ser atribuída aos próprios programas.
Os dois programas distinguem-se, sobretudo, na forma como abordam a organização do ensino das habilidades motoras. O programa alternativo apresenta e aborda as habilidades motoras de forma específica, isto é, orientadas para um desporto concreto, sendo as unidades didácticas claramente orientadas por modalidades desportivas. O programa oficial apresenta e aborda as habilidades fora do seu contexto específico. As unidades didácticas são organizadas sem qualquer referência a modalidades desportivas, podendo contemplar habilidades de diferentes blocos do programa.
Cada programa foi aplicado experimentalmente com duas frequências semanais de aulas (2 versus 3). A frequência semanal de aulas é uma questão importante ainda sem respostas claras e inequívocas. Não está estabelecido, de forma indubitável, o número de aulas semanais suficiente para produzir o desenvolvimento de aptidões e habilidades motoras. O sistema de ensino em Portugal tem adoptado a frequência de 2 aulas de EF semanais, os textos oficiais de apoio ao novo programa recomendam, sem qualquer justificação empírica, um mínimo de 3 aulas para o 1ºCEB. Pretende-se, portanto, verificar se 2 aulas semanais produzem os mesmos efeitos que 3 aulas semanais no desenvolvimento das aptidões e habilidades motoras.
8.1.1. Aptidão Física
Verificaram-se, tal como era esperado, mudanças significativas nos níveis de expressão de aptidão física das crianças sujeitas aos programas de aulas de EF. No grupo de controlo não ocorreu qualquer mudança significativa. Contudo, as aulas de EF tiveram apenas efeitos positivos na mudança ocorrida na prova de força abdominal (sit- ups) e na prova de elevações modificadas na barra. Na gordura corporal e na flexibilidade (sit and reach) as aulas não produziram qualquer efeito significativo. Na
prova de 9 minutos de marcha/corrida verificou-se uma diminuição significativa da prestação em todos os grupos.
Estes resultados vão de encontro aos da generalidade dos estudos sobre os efeitos das aulas de EF no desenvolvimento da aptidão física das crianças. Ignico (1994) observou melhorias no nível de expressão da aptidão física, avaliada através da bateria AAHERD Physical Best, em crianças de 10 anos de idade sujeitas a aulas diárias de EF ao longo de 3 anos. Gribaudo et al. (1996) verificaram que as crianças de 8 a 11 anos de idade, sujeitas a 3 aulas semanais de EF ao longo de um ano lectivo, evidenciaram melhorias significativamente superiores, na generalidade dos testes de aptidão física que utilizaram, às crianças do grupo de controlo. Também Ignico e Mahon (1995), num estudo delineado para analisar os efeitos de um programa específico - 3 aulas de EF por semana ao longo de 10 semanas - nos níveis de expressão de aptidão física em crianças de 8 a 11 anos com baixa prestação, constataram uma melhoria do nível de expressão da aptidão física significativamente superior à melhoria das crianças do grupo de controlo.
O programa alternativo induziu mudanças significativamente superiores ao programa oficial nos níveis de expressão da aptidão física. Contudo, as diferenças apenas se verificaram na prova de elevações modificadas na barra, na qual as crianças melhoraram a sua prestação, e nos 9 minutos de marcha/corrida, onde a prestação diminuiu. Na prova de elevações modificadas na barra as crianças sujeitas ao programa alternativo tiveram um aumento de prestação significativamente superior ao aumento verificado nas crianças sujeitas ao programa oficial. Na prova de 9 minutos de marcha/corrida as crianças sujeitas ao programa alternativo tiveram uma diminuição da prestação significativamente superior à diminuição ocorrida nas crianças sujeitas ao programa oficial.
Este não era um resultado esperado. Colocamos a hipótese de que os dois programas teriam efeitos idênticos na mudança do nível de expressão da aptidão física, dado que ambos consagram como um dos principais objectivos o desenvolvimento da aptidão física. Nenhum dos programas prescreve os procedimentos de exercitação (intensidade, duração, frequência) para o desenvolvimento da aptidão física. Como princípio geral referem que todas as aulas devem fornecer uma carga suficiente para produzir efeitos na aptidão física, tendo o planeamento e organização das aulas, a este respeito, sido mais ou menos idêntico. Contudo, nunca referem claramente o que entendem por carga suficiente. Assim, dada a indiferenciação dos programas quanto às formas de trabalho e ao tempo gasto em actividades conducentes ao desenvolvimento da aptidão física, pensamos que os seus efeitos deveriam ter sido idênticos. Porém, importa referir que outros factores para além das aulas podem ter influenciado o grau de desenvolvimento da aptidão física como seja a actividade física diária das crianças. É provável que os grupos se distingam quanto à quantidade e tipo de actividade física diária. Assim, e dado que a constituição dos grupos não foi aleatória e que a actividade física diária não foi controlada, este factor pode ter influenciado os resultados obtidos.
Verificaram-se diferenças significativas entre a mudança induzida pelas duas frequências semanais de aulas (2 versus 3) nos níveis de expressão da aptidão física. A frequência de 3 aulas semanais induziu mudanças significativamente superiores à frequência de 2 aulas semanais nas provas de força abdominal (sit-ups) e de elevações modificadas na barra. Por outro lado, a frequência de 2 aulas semanais provocou mudanças significativamente superiores na gordura corporal (soma das pregas geminal
e tricipital). Não houve diferenças significativas entre as duas frequências de aulas na mudança ocorrida nos 9 minutos de marcha/corrida.
A generalidade dos estudos também refere efeitos superiores no desenvolvimento da aptidão física em crianças com uma maior frequência semanal de aulas. Montecinos e Prat (1983) verificaram efeitos superiores de 5 aulas semanais relativamente a de 2 aulas semanais ao longo de dois anos lectivos. Grodjinovsky e Bar-Or (1989) observaram efeitos superiores de 6 aulas semanais relativamente a 2 aulas semanais ao longo de 3 anos lectivos. Mahon, Ignico e Marsh (1993) constataram que aulas diárias tiveram efeitos superiores a 2 aulas semanais ao longo de um ano lectivo. Shephard e Lavallée (1993a) encontraram efeitos superiores de 5 aulas semanais relativamente a 1 aula semanal ao longo de 4 anos lectivos e Brustad e Zehrung (1994) verificaram efeitos superiores de aulas diárias relativamente a aulas em dias alternados ao longo de um ano lectivo.
Passemos agora à análise e interpretação detalhada dos efeitos dos programas e da frequência de aulas por item da aptidão física.
Na prova de flexibilidade (sit and reach) não ocorreu qualquer mudança significativa, isto é, as aulas de EF não tiveram qualquer efeito neste item. No entanto, verificou-se um efeito significativo da frequência semanal de aulas, tendo as crianças com 2 aulas semanais um rendimento superior às crianças com 3 aulas semanais. Este efeito ficou a dever-se às diferenças inicias entre as crianças sujeitas às duas frequências semanais de aulas, que se mantiveram ao longo do ano lectivo. A prestação média dos grupos experimentais no final do ano lectivo manteve-se, ainda que com ligeiras diferenças, ao nível da prestação do início do ano lectivo. Constata-se, contudo, que as ligeiras diferenças se devem à diminuição da prestação em todos os grupos (entre 6,77% e 0,99%), com a excepção do grupo Alternativo 2h que melhorou 2,1%. As várias sessões de aulas, em ambos os programas, incluíam na parte final exercícios de flexibilidade, pelo que seria de esperar alguma melhoria da prestação, ou pelo menos a sua não regressão. Provavelmente a quantidade de exercitação não terá sido a mais adequada para se obterem melhorias.
Os resultados das investigações relativas aos efeitos de aulas de EF no desenvolvimento da flexibilidade são inconsistentes e contraditórios. Mota (1989) verificou uma diminuição da prestação na flexibilidade (sit and reach) ao longo de dois períodos do ano escolar. Por outro lado, Mahon et al. (1993) encontraram diferenças significativas na melhoria da prestação de flexibilidade (sit and reach) num grupo de crianças com aulas diárias de EF relativamente a um grupo com duas aulas semanais ao longo de um ano escolar. Ignico (1994) apenas encontrou melhorias significativas na flexibilidade (sit and reach) nas raparigas (nos rapazes não encontrou melhorias) com aulas diárias de EF, relativamente a raparigas com duas aulas semanais de EF. Gribaudo et al (1996) não encontraram diferenças significativas na mudança ocorrida nas provas de flexibilidade utilizadas num grupo com três aulas semanais de EF relativamente a um grupo de controlo. Ignico e Mahon (1995) verificaram diferenças significativas na melhoria verificada na prestação de flexibilidade (sit and reach) entre um grupo de crianças sujeito a 3 aulas semanais de EF ao longo de 10 semanas e um grupo de controlo. Este quadro de resultados é, de certa forma, coincidente com os resultados da presente investigação, já que a generalidade destes estudos não encontrou melhorias nesta aptidão.