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PROGRAMME DE SUIVI

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Programme de surveillance

11. Programme de surveillance et de suivi

11.2 PROGRAMME DE SUIVI

Não somente os cientistas sociais perceberam e analisaram a emergência da sociedade de mercado. A sua maneira também os romancistas do século XIX retrataram as características dessa emergência e daí, talvez, a recorrência em seus romances de temas como o dinheiro, o consumo, o comércio, as operações financeiras, onde são apontados os conflitos decorrentes de uma sociedade organizada segundo o padrão de mercado. Dessa abordagem da realidade, enfocando os seus conflitos e contradições nas narrativas do século XIX, nasce o romance moderno. Nessa perspectiva, o romance moderno é também um instrumento de crítica às instituições burguesas.

Segundo Zola (1995, p.39), a principal caracterização do romance moderno é a substituição da imaginação pela observação, ao que ele chamou de "senso do real". E continua: o "romancista parte da realidade do meio e da verdade do documento humano; se em seguida ele a desenvolve num certo sentido, já não é imaginação, a exemplo dos contistas, é dedução, como entre os cientistas". Contudo a observação pela observação não é suficiente para categorizar o romance moderno, é preciso que esses “pintores da vida”, ao traduzir sua observação imprimam a ela a sua “expressão pessoal”. “Todavia, ver não é tudo, é preciso reproduzir. É por isso que, depois do senso do real, há a personalidade do escritor. Um grande romancista deve ter o senso do real e a expressão pessoal” (ZOLA, 1995, p.30).

Esse movimento literário que teve como base a observação e a descrição da realidade, em oposição ao idealismo típico do romantismo, é denominado “Realismo” e tem o século XIX como seu marco histórico. “Caracteriza-se pela intenção de uma abordagem objetiva da realidade e pelo interesse em temas sociais. O engajamento ideológico faz com que muitas vezes a forma e as situações descritas sejam exageradas para reforçar a denúncia social”.29

O romance passa a ser a história de homens simples, no seu quotidiano. “O caráter puramente humano destes personagens, aquilo que eles têm de mais profundamente singular e típico, [...] nada de tudo isto pode ser separado do seu enraizamento concreto no seio de relações concretamente históricas, humanas e sociais que são a contextura de sua existência” (LUKACS, 1969, p.37). E, portanto, por maior que seja o “tom” de ficção de um romance,

este não pode fugir àquilo que é possível, ou seja, não pode externalizar-se a partir de uma idéia órfã de realidade. O imaginado só pode estar compreendido no plano do imaginável. Seguindo com Lukács (1969, p.42), “É tão somente através duma interação viva e concreta entre o homem e o mundo ambiente, que as possibilidades concretas dum indivíduo podem libertar-se das suas possibilidades abstratas e revelar-se como realidades concretas[...]”.

Dessa forma, podemos inferir que mesmo o escritor sendo o árbitro do destino de suas personagens, bem como do desfecho de seu romance, ainda assim o seu conteúdo não pode negar a realidade da qual ele participa. Se os imortaliza como heróis da vida privada, ou submete-os a um fim trágico, como expiação pelas suas atitudes, não pode deixar de ser fiel ao seu pano-de-fundo, aqui entendido como a realidade social. “[São essas] imagens do mundo, que os escritores nos comunicam através das suas obras, entre as atitudes, que eles mesmos tomam em relação à sua própria apreensão do real, entre os juízos de valor que fazem sobre esse objetivo [...] [que] condicionam verdadeiramente o estilo duma obra e o seu sentido objetivo” (LUKACS, 1969, p.36). Ante o exposto, aceitaremos a tese da função dialética da literatura como um veículo que absorve os elementos externos de uma determinada realidade servindo em seguida como meio de compreensão dessa mesma realidade formando opiniões e refletindo modos de comportamento de uma dada época.

Tanto a literatura quanto a história buscam estimular comportamentos e formas de pensamento desejados, propondo modelos e pondo em ação estratégias discursivas tais como a persuasão, a sedução, a verossimilhança, a credibilidade e a autoridade das palavras. Sendo assim, literatura e história, ao oferecer modelos de comportamento, participam do processo histórico, político e social da definição das identidades nacionais, sociais e individuais, seguindo trilhas ao mesmo tempo divergentes e paralelas (LEMAIRE, 2000, p.12).

Entre as 'pérolas' do realismo francês está o romance Madame Bovary (1857) de Gustave Flaubert, em que a personagem principal, na ânsia de satisfazer os desejos de um amor proibido, projeta na aquisição de bens materiais a realização do seu prazer. Nesse romance "vislumbra-se essa alienação que um século mais tarde aprisionará, nas sociedades desenvolvidas, homens e mulheres (mas sobretudo estas últimas, por suas condições de vida): o consumismo como um desafogo para a angústia, tentar povoar com coisas o vazio que a vida moderna instalou na existência do indivíduo" (LLOSA, 1979, p.108). Nessa tragédia provinciana, Flaubert anuncia o espetacular fenômeno da sociedade moderna, onde os homens

se transformam em escravos dos objetos materiais30, fenômeno igualmente analisado pelos sociólogos, como vimos anteriormente.

Em outros países também teve expressão a literatura realista. Na Rússia, Feódor Dostoievski foi um dos expoentes dessa escola com romances como Os Irmãos Karamazov e, sobretudo, Crime e Castigo, um drama moral que narra o assassinato de uma usurária por um estudante que precisou matá-la para roubar dinheiro e salvar sua família.

Todavia é com Balzac que se origina o verdadeiro romance moderno. Ele é considerado o “[...] chefe incontestado da escola realista dos romancistas franceses, que teve, depois, em Flaubert e Maupassant dois grandes continuadores [...]” (PERDIGÃO, [?], p.10). É o que parece indicar Balzac (1981, p.225) no posfácio da primeira edição de Eugênia

Grandet, ao apresentar o seu romance como uma descrição em miniatura dessas “imagens do

mundo”, sendo as suas personagens a representação ficcional de incontáveis personagens da vida real.

Aqui, nenhuma invenção. A obra é uma humilde miniatura, que exigiria mais paciência do que arte. Cada departamento tem o seu Grandet. Apenas, o Grandet de Mayenne ou de Lille é menos rico que o antigo prefeito de Saumur. É possível que o autor tenha forçado um traço, esboçado mal os seus anjos terrestres, posto cor de mais ou de menos em seu papel [...].

Partimos do pressuposto de que uma leitura atenta e não fragmentada do romance

Eugênia Grandet possa nos fornecer dados que subsidiarão nossa análise a respeito do

comportamento do ator econômico no século XIX. No prefácio, o próprio Balzac dá algumas dicas que servem de orientação para a leitura do romance e que são fundamentais para atingirmos nosso objetivo. Primeiramente, ele introduz suas personagens numa dinâmica social que em princípio parece ausente na província, e que se outros escritores não o fizeram, não foi por falta de observação ou desprezo pela simplicidade da vida provinciana, mas por “impotência”, por quererem os “dramas já prontos”. Entretanto, “encontram-se, em certas cidades de província, alguns tipos dignos de um estudo sério, caracteres cheios de originalidade, existências tranqüilas na superfície, e devastadas secretamente por tumultuosas paixões; porém as asperezas mais marcadas [...], as exaltações mais apaixonadas acabam por cessar ali, na constante monotonia dos costumes” (BALZAC, 1981, p.7). Balzac vai buscá-los justamente onde eles parecem não existir, vai colorir e vivificar a pacata aldeia de Saumur.

A seguir, finaliza seu prefácio recomendando que tenhamos cuidado com o julgamento que fazemos da província, cenário por excelência de sua descrição neste romance. “Cuidado! Há moralidades nessa tradição campestre” (BALZAC, 1981, p.9). Aparentemente uma simples advertência, mas já indicando que seremos introduzidos num conjunto de signos e valores que caracterizam a vida em sociedade.

Apesar de terem vivido aproximadamente no mesmo período, os sociólogos e economistas citados tiveram percepções diferentes dos fenômenos econômicos, conforme vimos na unidade 2. Resta-nos, portanto, verificar como Balzac vê o ator econômico moderno e como ele analisa as conseqüências sociais de seu comportamento.

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