A análise profunda do Sistema Nacional de CT&I, bem como do volume de conhecimento gerado pelo mesmo, leva à conclusão de que, na busca de maior competitividade da indústria, a prioridade, no caso brasileiro, não é necessariamente aumentar a geração de conhecimento, mas sim utilizá-lo de forma otimizada.
É preciso, antes de tudo, interromper o desperdício de recursos destinados à C&T. Segundo SILVA (in: CERTI/CELTA, 1997, p.4) “o grande desafio atual no Brasil é reduzir o desperdício do conhecimento (...) é preciso reforçar as relações Universidade-Empresa como forma de evitar o desperdício do conhecimento, de elevado custo para a sociedade”.
A redução do desperdício pode ser alcançada por meio de políticas e ações que impeçam a duplicidade de esforços na geração de conhecimento, que equilibrem pesquisa básica com pesquisa aplicada, e que eliminem a ineficiência na transferência do conhecimento da universidade para o setor produtivo. A melhoria nas relações ICT-Indústria pode contribuir muito neste processo.
O desperdício mencionado está claramente ligado aos investimentos feitos pelo Estado, uma vez que o setor privado é mais seletivo no uso dos seus recursos destinados à C&T. Para o MCT (2001, p.83), o Estado sempre foi o principal elemento de sustentação das atividades das entidades de pesquisa e desenvolvimento tecnológico governamentais, através dos investimentos em infra- estrutura, da manutenção dos quadros técnicos e de apoio, e da indução de projetos. Este processo teve como conseqüência, entre outras coisas, uma profunda dependência das ICTs em relação aos recursos de governo. Poucas ICTs buscaram alcançar uma receita expressiva proveniente da comercialização de seus serviços tecnológicos, de modo a reduzir esta dependência em relação às fontes governamentais.
Este processo de acomodação acabou levando as ICTs a se distanciarem do setor produtivo, gerando uma barreira à interação entre as partes. Nos tempos atuais, em que os recursos privados passam a ser elemento importante no orçamento destas instituições, a barreira existente precisa ser rapidamente eliminada.
O processo de interação entre Instituições Científicas e Tecnológicas com a indústria é de vital importância para todos os envolvidos, a saber, Empresas, ICTs, Governo e Sociedade.
Do ponto de vista das empresas, segundo CUNHA (2004, p. 1) “no Brasil, nota-se que ainda não existe uma conscientização, por parte das empresas, acerca das oportunidades e vantagens que podem surgir de uma interação com a universidade”. A autora sugere que a universidade busque esta aproximação, identificando as necessidades das empresas e tentando supri-las, contribuindo desta forma para um crescimento da empresa, da própria universidade e da sociedade em geral.
No atual ambiente de competição internacional, poucas são as empresas que podem dispensar os benefícios da interação com as ICTs, sobretudo aquelas de porte pequeno ou médio, nas quais a manutenção de um aparato científico e tecnológico próprio nem sempre é viável.
O acesso ao potencial tecnológico da ICTs tem o poder de gerar diferenciais competitivos às empresas, cuja competitividade individual reflete diretamente na competitividade nacional, segundo as teorias de PORTER. Para ASSAD (in: IBICT, 1998, p. 241):
A necessidade de fortalecimento da capacitação tecnológica, associada à intensificação das transferências desta capacitação ao setor produtor de bens e serviços, está sendo elemento cada vez mais importante e essencial para o desenvolvimento e crescimento econômico e social e também para a busca de competitividade, principalmente para os países em desenvolvimento.
Do ponto de vista das ICTs, são inúmeros os benefícios advindos da interação com as empresas. Como principais benefícios, pode-se citar:
- Aumento da receita proveniente de projetos e prestação de serviços às empresas;
- Para instituições de ensino, a interação gera laboratórios reais onde o conhecimento pode ser aplicado e testado, contribuindo para a formação de profissionais mais sintonizados com a realidade empresarial. Além disso, a interação contribui para a geração de um currículo mais atualizado;
- Valorização das atividades da ICT por toda a sociedade, por meio do reconhecimento da sua eficácia social.
Por outro lado, diversos são os defensores da idéia de que há uma perda relevante para a atividade científica, quando a mesma passa a se orientar pelos interesses econômicos. BRISOLLA (2004, p. 5) minimiza a percepção deste efeito, tido como negativo, ressaltando que “o aparente declínio acadêmico decorrente da interação pode ser na verdade um prognóstico de seu renascimento, ao tornar essa instituição mais relevante do ponto de vista do desenvolvimento sócio-econômico e portanto legitimá-la junto à sociedade que a mantém.”
Por fim, governo e sociedade são grandes beneficiários dos resultados positivos da interação ICT-Indústria. O governo atinge com menor esforço o seu objetivo de promoção do desenvolvimento econômico e social, otimizando os recursos destinados a C&T. Por sua vez, o desenvolvimento gera renda e melhores condições de vida à sociedade, que financia, com o pagamento de impostos, toda a atividade científica. É a esta sociedade que a comunidade científica precisa prestar contas.
O Livro Branco (MCT, 2002, p. 27) chama a atenção para o fato de que “a experiência de outros países tem demonstrado que a cooperação universidade- empresa é um fenômeno crescente e constitui forte instrumento de promoção da inovação tecnológica e do desenvolvimento em geral.”
PORTER (1989a, p. 97) alerta para o fato de que os investimentos governamentais normalmente se concentram no financiamento da atividade de pesquisa básica e genérica, que nem sempre se reverte em melhoria das vantagens competitivas da indústria. Para PORTER, “os investimentos em pesquisa básica, embora importantes para a criação de possibilidades de inovação comercial, não levarão à vantagem competitiva, a não ser que sejam transmitidos e melhor desenvolvidos pela indústria”. A interação ICT-Indústria é o fator determinante para a conexão entre a atividade científica e a atividade industrial.
Entender a inovação como um processo implica que toda a atividade meio precisa estar conectada ao objetivo final. Neste sentido, manter a integridade dos elos do Sistema Nacional de CT&I, entre eles a ligação entre academia e empresas, é condição necessária para que se atinja o objetivo determinado.
Porém, não basta que as relações estejam estabelecidas. Tais relações precisam ser eficazes do ponto de vista dos resultados gerados.