permissão deste inquisidor afasta qualquer dúvida que pudesse restar sobre a credibilidade da obra ou do relevo do seu autor.
1.2. Leitores Quinhentistas de Garcia de Orta
1.2.1. D. Garcia ab Horto
A atenção que ŚĂƌůĞƐ ĚĞ ů͛cluse/Carolus Clusius (1526-‐1609) dedicou a
Colóquios dos Simples revela bem o crédito que, de imediato, Orta alcançou
junto do botânico.44 Este, na Carta que dirigiu ao leitor de Aromatum et
Simplicium, afirmou:
͞ƐĐƌĞǀĞƵ ͘ 'ĂƌĐŝĂ ĚĞ KƌƚĂ͕ ŵĠĚŝĐŽ ĚŽ ǀŝĐĞ-‐rei da Índia, um livro sobre plantas e aromas que, fruto de um estudo cuidadoso e aturado, observou entre os índios (onde exerceu medicina por mais de trinta anos). ͟45
44
ŚĂƌůĞƐ ĚĞ ů͛ĐůƵƐĞͬCarolus Clusius foi um dos mais importantes botânicos do seu tempo. Natural de Arras, começou por estudar Leis en Louvain. Apercebendo-‐se da sua fraca afinidade com estes estudos seguiu os conselhos de Philipp Melanchthon (1497-‐1560) e continuou a sua formação médica em Montpellier. A sua passagem por esta escola e a privança com Guillaume Rondelet (1507-‐1566) e o seu círculo de influências, determinou o seu percurso futuro. Homem da confiança de elites, tutor de jovens aristocratas, autor de uma vasta obra, Clusius dedicou-‐se à divulgação europeia de obras descrevendo o mundo natural das Índias Orientais, Ocidentais e Levante. De entre os seus tratados botânicos encontra-‐se também a primeira flora da Península Ibérica assim como a da Hungria. Homem de uma ampla erudição, estabeleceu uma larga rede de correspondentes que lhe forneceram informações e amostras de plantas, animais e minerais oriundos de todas as partes do mundo então conhecido. Entre outras obras, foi o autor do epítome latino de Colóquios dos Simples, assim como dos tratados sobre plantas asiáticas, americanas e levantinas de Cristóvão da Costa, Nicolau Monardes e Pierre Belon que tiveram ampla divulgação na Europa de Quinhentos. Sobre Clusius há uma extensa bibliografia. Importa consultar as obras que reflectem os mais actuais estudos sobre este botânico: Florike Egmond, Paul Hoftijzer and Robert Visser, Carolus Clusius: Toward cultural history of a Renaissance naturalist, assim como Florike Egmond, The world of Carolus Clusius: Natural History in the making: 1550-‐1610 ou Kasper van Ommen (ed.), The exotic world of Carolus Clusius (1526-‐1609). ^ŽďƌĞĂĂƉƌŽƉƌŝĂĕĆŽĚĂŽďƌĂĚĞKƌƚĂƉĞůŽďŽƚąŶŝĐŽĨůĂŵĞŶŐŽ͕ǀĞƌ͗DĂƌşůŝĂĚŽƐ^ĂŶƚŽƐ>ŽƉĞƐ͕͞ revelação das plantas. Garcia de Orta, Carolus Clusius e as esƉĠĐŝĞƐĂƐŝĄƚŝĐĂƐŶĂƵƌŽƉĂ͕͟ƉƉ͘28-‐ 39. Num contexto paralelo, vale a pena considerar a adaptação que Clusius publicou ƌĞůĂƚŝǀĂŵĞŶƚĞĂŽƚƌĂƚĂĚŽĚĞDŽŶĂƌĚĞƐ͘sĞƌ͗:ŽƐĞWĂƌĚŽdŽŵĂƐ͕͞dǁŽŐůŝŵƉƐĞƐŽĨŵĞƌŝĐĂĨƌŽŵĂ ĚŝƐƚĂŶĐĞ͗ĂƌŽůƵƐůƵƐŝƵƐĂŶĚEŝĐŽůĂƐDŽŶĂƌĚĞƐ͕͟ƉƉ͘ϭϳϯ-‐193.
45
No âmbito do presente trabalho, recorremos à versão portuguesa desta obra: Clusius, Aromatum et Simplicium, Antuérpia, Plantin, 1567. Versão portuguesa epítome latino dos Colóquios dos Simples de Garcia de Orta. Introdução e versão portuguesa de Jaime Walter e Pe.
Nas palavras do estudioso encontramos a admiração pelo autor dos Colóquios, que apelidou de homem muito erudito.
A versão latina que Clusius editou em 1567 é bastante diversa do texto original goês. Como disse Ficalho,
͞ůƵƐŝƵƐ ƉŽnj ĐŽŵƉůĞƚĂŵĞŶƚĞ ĚĞ ďĂŶĚĂ Ă ĨŽƌŵĂ ĚŝĂůŽŐĂĚĂ ĚŽ ůŝǀƌŽ portuguez; alterou a ordem das matérias; e distribuiu os assumptos scientificos tratados nos Colóquios, em duas partes, divididas: a primeira em 58 capítulos e a segunda em 28. Escreveu além disso numerosas notas ao texto, e intercalou-‐lhe 17 gravuras em madĞŝƌĂ͘͟
Mais à frente, o Conde lamentou:
͞KƐ ŽůſƋƵŝŽƐ ƉĞƌĚĞƌĂŵ ŶŽ ĂƌƌĂŶũŽ ƵŵĂ ŐƌĂŶĚĞ ƉĂƌƚĞ do seu ƉŝƚŽƌĞƐĐŽ ĞĚĂ ƐƵĂ ĨŽƌŵĂ şŶƚŝŵĂ͘ ͙ ŵ ǀĆŽ ďƵƐĐĂƌşĂŵŽƐ Ăůŝ Ă ŝŵƉƌĞƐƐĆŽ da vida doméstica de Orta, rodeado das suas negras e da sua creada Antónia; ou os interessantes perfis de Sancho Pires, do bispo D. fr. Ambrozio, do Nizamaluco e de tantos outroƐ͘͟ 46
Apesar da fidelidade louvável que manteve relativamente aos conteúdos científicos explanados por Orta, Clusius actuou livremente sobre a figura do médico português criando dele um outro retrato: o de um erudito conforme às expectativas da elite sábia residente na Europa.
O botânico conservou, no entanto, o carácter inovador da modalidade de construção de saber que Orta revelou, baseada no diálogo entre textos, pessoas e experiências.
Mantendo intocável a sua rede de informadores, Clusius ajustou-‐a ao público europeu. Em vez dos aprazíveis Coje Percolim, Jorge Gonçalves, Diogo
Manuel Alves. Lisboa, Junta de Investigações do Ultramar, 1964. Dado o grande número de referências a esta obra, utilizaremos nas notas de rodapé a versão abreviada. No âmbito do presente trabalho recorremos à referência, Clusius, Aromatum et Simplicium, pp.3-‐7.
46
Pereira, Simão Álvares, João de Mascarenhas, André Milanês, Simão Toscano ou do Dr. Malupa surgiram: ͞o varão célebre͟47, ͞o homem honesto, diligente e curioso͟48, ͞os amigos dignos de confiança͟49 ou um ͞varão fidedigno͟.50 A classe médica manteve a sua presença no Aromatum através do ͞médico do Sultão Bahadur͟51 ou dos ͞médicos turcos, persas ou maumetanos͟.52 Um ͞boticário͟53 também informou Orta, assim como ͞comerciantes, sacerdotes e um bispo arménio͟54, ͞negociantes árabes, persas e turcos͟55 e mesmo, os ͞lapidários͟.56
Curiosamente, Clusius sublinhou a relação de Orta com os soberanos locais, aludindo a diálogos que o médico manteve com o Rei do Ceilão57, com o Sultão Bahadur58 ou com Nizamoxa.59 O interesse dos europeus pelas hierarquias do Oriente manifestou-‐se igualmente no capítulo dedicado aos Reis da Índia, que Clusius incluiu no final da História de algumas plantas Indicas.60
Esta releitura que Clusius fez da figura de Orta não minorou, aos olhos do público europeu, as qualidades de investigador e sábio do médico português. A par de uma ampla livraria, o botânico manteve em Orta um espírito curioso e uma atitude sempre cautelosa relativamente ao mundo que descreveu. No
Aromatum, que manteve redigido na primeira pessoa do singular, são assim
ĨƌĞƋƵĞŶƚĞƐ ĞdžƉƌĞƐƐƁĞƐ ĐŽŵŽ͗ ͞ƉŽĚĞ ƐĞƌ ƋƵĞ ŵĞ ĞŶŐĂŶĞ͟61͕ ͞ƐŽƵ ĚĞƐƚĂ ŽƉŝŶŝĆŽ͟62͕ ͞ŽƵƚƌŽƌĂ ĨƵŝ ĚĞƐƚĂ ŽƉŝŶŝĆŽŵĂƐ͙͟63͕ ͞ƐĞ ŵĞ Ġ ƉĞƌŵŝƚŝĚŽĚŝnjĞƌ o que ƉĞŶƐŽ͟64, ou ƵŵƌĞĚŽŶĚŽ͕͞ƐŝŶĐĞƌĂŵĞŶƚĞŝŐŶŽƌŽ͘͟65
47
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.15.
48
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.41.
49
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.68.
50
Clusius, Aromatum et Simplicium, pp. 52, 196, 214.
51
Clusius, Aromatum et Simplicium, p. 17.
52
Clusius, Aromatum et Simplicium, p. 204.
53
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.142.
54
Clusius, Aromatum et Simplicium, p. 38.
55
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.158.
56
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.200.
57
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.205.
58
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.243.
59
Clusius, Aromatum et Simplicium, pp.143, 181, 218.
60
Clusius, Aromatum et Simplicium, pp. 244-‐250.
61
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.146.
62
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.156.
63
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.54.
64
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.44.
65
Palavras que revelam a atitude expectante do físico lusitano e que se alicerçam numa profunda valorização da experiência pessoal. A este Garcia ab
Horto͕ ƋƵĞ ͞ĞdžƉĞƌŝŵĞŶƚŽƵ͟66͕ ͞ǀŝƵ͟67͕ ͞ŽďƐĞƌǀŽƵ͟68 Ğ ͞Ă Ƌuem nunca morreu ŶĞŶŚƵŵƉĂĐŝĞŶƚĞ͟69, a Europa deu crédito.
O grandioso sucesso que esta obra de Clusius alcançou, contribuiu para a difusão, por toda a Europa culta, de uma imagem de um Orta sábio, experiente e criterioso na sua análise do mundo que descreveu. Convém aqui recordar que, ao longo do século XVI, Clusius continuou sempre a actualizar os conteúdos do texto de 1567, complementando-‐o com informes credíveis e imagens sempre mais realistas da natureza descrita.70 Até 1605, foram editadas sucessivas versões, cada vez mais completas, que consolidaram, na Europa, a imagem de Garcia de Orta redesenhada por Clusius.
1.2.2. ŽŶ'ĂƌnjŝĂĚĂůů͛,ŽƌƚŽ
Annibale Briganti, Marrucino de la Cività di Chieti, Dottore et medico essellentissimo, assinou a versão transalpina do epítome de Clusius. O texto
italiano seguiu fielmente o latino, não se tendo registado alterações significativas na versão de Briganti.
Saída em 1576, dos prelos venezianos de Ziletti, esta obra foi posteriormente reeditada em 1582, 1589, 1597, 1605 e 1616. 71 Ao dirigir-‐se a Don Ferrante di Alarcon, et di Mendozza, Marchese della Valle, Briganti referiu-‐ se a Garcia de Orta como Eccellente Dottore ŽŶ 'ĂƌnjŝĂ ĚĂůů͛KƌƚŽ͕ŵĞĚŝĐŽ ĚĞů
66
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.197.
67
Clusius, Aromatum et Simplicium, p. 171.
68
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.189.
69
Clusius, Aromatum et Simplicium, p.249.
70
À edição de 1567, seguiram-‐se as de 1574 e 1579. Em 1582, Clusius publicou algumas notas complementares à obra de Orta fornecidas por Francis Drake. Em 1593 foi editada uma versão um pouco mais completa e, em 1605, o texto foi integrado numa obra dedicada aos exotismos da Ásia, Arábia e América, Exoticorum libri decem. De cada uma destas versões foram tiradas 1250 cópias. Sobre as diferentes versões do Aromatum et Simplicium ver Francine Nave, Botany in the Low Countries-‐ Antérpia, pp.86-‐140.
71
Sobre as sucessivas edições italianas ver, entre ŽƵƚƌŽƐ͕,ƵŵďĞƌƚŽ:ƵůŝŽWĂŽůŝ͕͞/ůůŝďƌŽĚĞ'ĂƌĐŝĂ ĚĞKƌƚĂ͟, pp. 202-‐210.
sŝĐĞƌĞ ĚĞůů͛ /ŶĚŝĞ͘72 Para o amplo público leitor do texto italiano, o médico português divulgou uma descrição inovadora e credível do mundo natural da Ásia.
1.2.3. M. Garcie du Jardin
Apesar de um pouco mais tardia, a versão francesa da obra de Clusius surgiu pela primeira vez em 1602, nas oficinas lionesas de Jean Pillehotte, tendo sido publicada uma versão revista em 1619. O seu autor, o boticário Antoine Colin, referiu-‐ƐĞĂ'ĂƌĐŝĂĚĂKƌƚĂĐŽŵŽƵŵĞƌƵĚŝƚŽ͞DĂŝƐƚƌĞ'ĂƌĐŝĞĚƵ:ĂƌĚŝŶ͘͟No texto que dedicou ao benévolo leitor, Antoine Colin aludiu a Orta como o médico "qui ƉĂƌů͛ĞƐƉĂĐĞĚĞƚƌĞŶƚĞĂŶƐĨƵƚŵĠĚĞĐŝŶĚƵsŝĐĞZŽLJĚƵWŽƌƚƵŐĂůĞƚůĞƉƌĞŵŝĞƌƋƵĞ avec louange a frayé le sentier de la cognoissance des médicaments és Indes Orientales".73
Em alguns momentos, quando uma questão parecia suscitar algumas dúviĚĂƐ͕ ŽůŝŶ ƌĞŵĂƚŽƵ Ž ƐĞƵ ĐŽŵĞŶƚĄƌŝŽ ĂĨŝƌŵĂŶĚŽ ͞Ğƚ ĐĞůĂ ƐĞ ƉƌŽƵǀĞ ƉĂƌ ů͛ĂƵƚŚŽƌŝƚĠĚĞ'ĂƌĐŝĞĚƵ:ĂƌĚŝŶ͟.74 Assim, para este boticário de Lião, a palavra de Garcia de Orta relativamente ao mundo natural da Ásia era uma autoridade. No entanto, não era definitiva. Quando uma descrição não era esclarecedora, Colin sentia-‐se na obrigação de recorrer a outras fontes. Como escreveu a propósito do amomo de Orta: "cette description de Garcie du Jardin et de Charles de ů͛cluse ne nous ayant apporté aucune coigŶŽŝƐƐĂŶĐĞ ĚĞ ů͛ĂŵŽŵĞ͕ ũ͛Ăŝ ĠƚĠ ĐŽŶƚƌĂŝŶƚ ĚĞ ů͛ĞŵƉƌƵŶƚĞƌ Ğƚ ůĂ ƚŝƌĞƌ Ě͛ƵŶ ĠůĠŐĂŶƚ ĚŝƐĐŽƵƌƐ ĚĞ EŝĐŽůĂƵ DĂƌŽŶĠĞ͕ Docteur Médecin de Varonne".75 Outras vezes, Colin admitiu que Orta não estivesse a descrever a mesma droga ou mesmo que este tivesse sido mal informado.
Apesar de não reconhecer infalibilidade no texto de Garcia de Orta, a atitude de Antoine Colin relativamente aos conteúdos divulgados pelo médico
72
Orta, Ğůů͛,ŝƐƚŽƌŝĂĚĞŝƐŝŵƉůŝĐŝĂƌŽŵĂƚŝ, p. 1.
73
Orta, Histoire des drogues, épiceries et de certains médicaments simples..Lião, 1619. Lettre au lecteur. Passaremos a usar a forma abreviada : Orta, Histoire des drogues, p :
74
Orta, Histoire des drogues, p. 8.
75