novidades, que foi ordenado em modernas enciclopédias sobre o mundo natural do Oriente. 93 Os extensos e circunstanciados volumes que então foram produzidos, como os de Van Reede (1636-‐1691), Rumphius (1627-‐1702) ou Hermann (1646-‐1695), reformularam e complementaram o saber até então recolhido pelos portugueses e contribuíram para atenuar o curto momento de ouro que o nome de Garcia de Orta alcançara. 94
1.3. Garcia de Orta visto através do Aromatum de Clusius
1.3.1. Proregis Indiae Medici
A partir de meados do século XVII e durante o século XVIII, foram muito escassas as alusões à vida e obra de Garcia de Orta. 95 Destacam-‐se, no entanto, três curtas notas biográficas. A primeira, encontra-‐se na lista de autores nomeados por Caspard Bauhin no Pinax Theatri Botanici. Nesta, pode ler-‐se:
͞'ĂƌnjŝĂĞ Ăď ,ŽƌƚŽ ƉƌŽƌĞŐŝƐ /ŶĚŝĂĞ DĞĚŝĐŝ͕ ĚĞ ĂƌŽŵĂƚŝďƵƐ Ğƚ ƐŝŵƉůŝĐŝďƵƐ medicamentis apud Indos nascentium historia ordine Alphabetico, per
93
Jacob de Bondt foi um dos primeiros médicos holandeses a viajar para Oriente. Como resultado da sua experiência asiática, redigiu um pequeno tratado escrito em diálogo, De Medicina Indorum, no qual questionava muitas dos saberes divulgados por Orta. Sobre esta interessante obra de Bondt e a sua relevância na época, ver o recente trabalho de Harold J. Cook. Matters of Exchange, pp.175-‐225.
94
Estes holandeses, destacados no Oriente ao serviço da Vereenigde Oost-‐Indische Compagnie (VOC) reuniram informações detalhadas e produziram imagens muito pormenorizadas da flora do Malabar, Molucas e Ceilão. Os seus trabalhos foram publicados na Europa entre os finais do século XVII e os princípios do século XVIII. Hendrik van Reede, Hortus Indicus Malabaricus, Amesterdão, 1678-‐1693, 12 volumes; G. E. Rumphius, Herbarium Amboinense, Amesterdão, 1741-‐1750, 6 volumes e Paul Hermann, Paradisus Batavus, Leiden, 1698. Ver Kapil Raj, Relocating modern science, pp. 35-‐59.
95
Apesar da aparente discrição da obra ortiana, durante o século XVII surgiram algumas alusões dispersas a Garcia de Orta, fosse em relatos de viajantes, como o de Pedro Teixeira ou Pietro della Valle, como em comentários de médicos, de que se destaca o de Rodrigo de Castro, ou compêndios botânicos, como o de Caspard Bauhin. No que diz respeito aos comentários de Pedro dĞŝdžĞŝƌĂ ă ŽďƌĂ ĚĞ KƌƚĂ͕ ǀĞƌ͗ ZƵŝ DĂŶƵĞů >ŽƵƌĞŝƌŽ͕ ͞ƌŽŐĂƐ ĂƐŝĄƚŝĐĂƐ Ğ ƉƌĄƚŝĐĂƐ ŵĠĚŝĐĂƐ ŶĂƐ Relaciones ĚĞ WĞĚƌŽ dĞŝdžĞŝƌĂ ;ŶƚƵĠƌƉŝĂ͕ ϭϲϭϬͿ͘͟ (CD-‐Rom). Relativamente a Pietro della Valle, consultar: Viaggi di Pietro della valle il pellegrino... Sobre Rodrigo de Castro, ver: Roderici a Castro Lusitani, Medicus politicus.
Dialogos lingua Lusitanica conscripta, à Clusiu in epitomen contracta & >ĂƚŝŶğĨĂĐƚĂ͘͟96
A segunda, redigida por Nicolàs Antonio, surgiu na Bibliotheca Hispana
Nova:
͞'ĂƌƐŝĂƐ ĚĞ KƌƚĂ͕ >ƵƐŝƚĂŶƵƐ͕ ƉƌŽƌĞŐŝƐ /ŶĚŝĂĞ ŽƌŝĞŶƚĂůŝƐ͕ ŵĞĚŝĐƵƐ͕ ĞdžŝŵŝŽ ingenio & multa vir doctrina, rerumque, inprimis Indicarum, peritia, cum ƚƌŝŐŝŶƚĂŝďŝΘĂŵƉůŝƵƐĂŶŶŽƐŵĞĚŝĐŝŶĂŵĨĞĐŝƐƐĞƚ͕ŝŶƐƚƌƵĐƚŝƐƐŝŵƵƐ͘^ĐƌŝƉƐŝƚ͙ libros duos vernacula lingua, quos primum Latine conscripserat: De los Aromas e simples medicamentos, que nacem em a India. Hos in Latinum ǀĞƌƚŝƚ͕͚džŽƚŝĐŝƐ͛ƋƵĞƐƵŝƐŝŶƚĞdžƵŝƚĂƌŽůƵƐůƵƐŝƵƐƐĞƉƚŝŵŽΘŽĐƚĂǀŽůŝďƌŝƐ͕ĂĚ quos & annotationes sedit Jacobus Bontius, Batavus Leidinensis, qui in eadem India Orientali fecerat medicinam, extanque ex cum aliis Bontii Lugduni Batav. Editae 1642, in 12°.͟97
A terceira, encontra-‐se em Nicolas Lémery. Nesta, pode ler-‐se:
͞'Ăƌnj͘ 'ĂƌnjŝĂƐ Ăď ŚŽƌƚŽ͖ Ŷ ĨƌĂŶĕŽŝƐ͕ 'ĂƌĐŝĞ ĚƵ :ĂƌĚŝŶ͗ 'ĂƌnjŝĂĞ Ăď ŚŽƌƚŽ Proregis Indiae Medici, de aromatibus & simplicibus medicamentis apud Indos nascentibus historia ordine alphabetico, per dialogos lingua Lusitanica conscripta repetitut à Clusio in Epitomen contracta & latine facta. Ce livre a été traduit en françoiƐ ƐŽƵƐ ůĞ ƚŝƚƌĞ ĚĞ ů͛,ŝƐƚŽŝƌĞ ĚĞs Drogues, Epiceries & Médicaments Simples, in-‐8°.͟98
A entrada resumida que se regista na Bibliotheca Luzithana de Barbosa de Machado é ainda mais sucinta. O religioso resumiu a vida do nosso médico a umas breves linhas:
96
Caspard Bahuin, Pinax Theatri Botanici, XIV.
97
Nicolàs Antonio, Bibliotheca Hispana Nova, vol. 1, p.515.
98
͞Garcia de Orta, Medico, n. de Elvas, Lente de Filozofia na Universidade de Lisboa em 1ϱϯϰ͚͘͘ŽůůŽƋƵŝŽƐĚŽƐ^ŝŵƉůĞƐĞĐŽƵƐĂƐŵĞĚŝĐŝŶaes da India & Đ͛͘ 'ŽĂ ϭϱϲϯ͘ Esta obra foi traduzida em Hespanhol, Latim, Italiano, e Francez.͟99
No entanto, se consultarmos a versão alargada, encontramos uma entrada mais detalhada. Escreveu assim Barbosa de Machado:
͞EĂƚƵƌĂů ĚĂ ĐŝĚĂĚĞ ĚĞ ůǀĂƐ ĚŽŶĚĞ ĚĞƉŽŝƐ ĚĞ ĞƐƚĂƌ ŝŶƐƚƌƵşĚŽ ĐŽŵ ŽƐ primeiros rudimentos passou a Castela, e nas Universidades de Alcalá e Salamanca frequentou o estudo de Medicina em que recebeo o grau de Licenciado. Restituído a Portugal, foi Lente de Filosofia na Universidade de Lisboa até ao ano de 1534 em que se embarcou com o lugar de Medico del Rey para a Índia na armada composta por cinco naus de que era Capitão-‐ Mor Martim Afonso de Sousa de cuja família era doméstico, e come le se achou no ano seguinte de 1535 na Fundação da fortaleza de Diu como escreve no Colóquio 35°. Tendo adquirido a mais profunda arte médica praticada pela larga experiência de quarenta anos, assim na Europa como na Asia, se aplicou à investigação das virtudes das plantas, e ervas que produziam as regiões Orientais devendo-‐se à sua incansável diligência manifestar as qualidades que estavam ocultas naquela vegetatica república, das quais, por falta de exame e conhecimento tinham escrito tantas fábulas muitos autores assim antigos como modernos. O método com que triunfou das doenças mais rebeldes e a vasta ciência que tinha da Botânica, lhe conciliaram não somente a estima dos Governadores do Estado da Índia, mas ainda muitos reis Gentios principalmente do Nizamaluco que muitas vezes o chamou para o curar. Dando-‐lhe cada vez que vinha à sua presença 12000 pardaus e oferecendo-‐lhe 4000 de estipêndio se quisesse assistir-‐lhe quatro vezes por ano. Para utilizar o publico com as continuas vigílias que aplicara na investigação das plantas medicinais de que he fecundo terreno a Índia Oriental compôs : Colóquios
99
dos Simples ͙ ƐƚĂ ŽďƌĂ͕ ƋƵĞ ƚŝŶŚĂ ĨĞŝƚŽ Ğŵ ůşŶŐƵĂ ůĂƚŝŶĂ Ă ƉƵďůŝĐŽƵ ŶĂ
materna por satisfazer à surpresa de alguns amigos empenhados em que fosse mais proveitosa a todo o género de pessoas, e a dedicou a Martim Afonso de Sousa, havendo 18 anos que com ele se embarcou para a Índia quando já assistia em Portugal gozando o ócio de paz à sombra das palmas ĐŽŵ ƋƵĞ ƐĞ ĐŽƌŽŽƵ ƚƌŝƵŶĨĂŶƚĞ Ğŵ Ž KƌŝĞŶƚĞ͘ ƐƚĞ ŐƌĂŶĚĞ ŵĞĐĞŶĂƐ ͙ Ěe dedicatória está um Soneto cujo assunto declara com este título/͚ŽĂƵƚŽƌ ĨĂůĂŶĚŽ ĐŽŵ Ž ƐĞƵ ůŝǀƌŽ͛ ͙ ^ĞũĂ Ž ƉƌŝŵĞŝƌŽ ĞůŽŐŝŽ ĚĞƐƚĂ ŽďƌĂ Ă ĞƌƵĚŝƚĂ informação do Doutor Dimas Bosque, médico Valenciano, que naquele tempo vivia em Goa, e saiu impresso no princípio dizendo entre outros louvores ͗ ͚&ŽƌĕĂ ƚĂŵďĠŵ Ă ĂƵƚŽƌŝĚĂĚĞ ĚŽ ĂƵƚŽƌ͙͛ K ĐĠůĞďƌĞ ƉŽĞƚĂ Henrique Cayado lhe dedicou também o seguinte epigrama em louvor da sua obra. ͙ŵĚŝǀĞƌƐĂůşŶŐƵĂ͕ŵĂƐĐŽŵŵĂŝŽƌĞŶĞƌŐŝĂ͕ůŚĞĐŽƌƌĞƐƉŽŶĚĞŽ mais caloroso cisne do Parnaso Português, o divino Camões, assistente naquele tempo em Goa, na ode dirigida a D. Francisco Coutinho, Conde de ZĞĚŽŶĚŽ͕sZĚĂ1ŶĚŝĂ͙͘͟100
O religioso indicou ainda outros autores que aludiram a Garcia de Orta nas suas obras, ainda que de forma breve, salientando os termos em que se lhe referiram:
͞EŝĐŽůĂ͘ Ant. Biblio. Hisp. Tomo 1, 395, col.1 ͞eximio ingenio & multa y vir doctrina, rerumque impumis /ŶĚŝĐĂƌƵŵƉĞƌŝƚŝĂŝŶĨƌƵƚŝƐƐŝŵƵƐ͟
Zacuto Lusitano, Med. Princip. Hist. Lib. 5, hist 28. 1642͘͞ĚŝůŝŐĞŶƚŝƐƐŝŵƵƐƐĐƌŝƉƚŽƌ͟ Joan Soar de Brito, Thetr. Lusit. Litter. Lit. G. ŶΣϲ͘ϭϲϰϭ͘͞ŵĞĚŝĐƵƐĐůĂƌŝƐƐŝŵƵƐ͟ Dimas Bosque ĂdZsĞŝŐĂ͞ƉƌƵĚĞŶƚŝƐƐŝŵƵƐƐĞŶĞdž͟
Severine, Dic. De Var. Hist͘&ŽůϱϬ͞cƵũƵƐůŝǀƌŽƐƐĆŽŵƵŝƚŽĞƐƚŝŵĂĚŽƐ͟ Leitão, Mem. Chronol de Univ. Coimbra, 515-‐7. 29.
100
Diogo Barbosa de Machado, Bibliotheca Lusitana, vol.2,pp.325-‐327.
Destas últimas anotações tão sumárias podemos presumir a discreta relevância que o médico português gozava nos meios eruditos ibéricos de Setecentos. Note-‐se que Nicolàs Antonio, talvez devido à raridade da obra, nem sequer conheceu a edição goesa de Colloquios, registando como ponto de partida, o epítome latino de Clusius.
Este panorama só viria a modificar-‐se no século XIX quando as elites cultas portuguesas redescobriram Colóquios dos Simples e fizeram renascer do esquecimento uma figura indelével da nossa História Científica.
1.4. O Romantismo de Oitocentos
Em 1889, Paris foi palco de uma extraordinária Exposição Universal. Vindos dos quatro cantos do mundo, acorreram à cidade-‐luz milhares de visitantes: aristocratas, homens de Estado, da cultura, da ciência ou simples curiosos. Segundo testemunhou Gerson da Cunha, a comunidade de eruditos portugueses estava bem representada. Foi nesta ocasião que o estudioso teve oportunidade de conhecer o Conde de Ficalho, assim como outras importantes personalidades da nossa história cultural.
No seu The origin of Bombay, podemos ler:
͞In the cultural society of the Count of Valbon, the Portuguese Ambassador
in Paris; of Eça de Queiroz, the renowned novelist and Consul of Portugal in ƚŚĞ ĐĂƉŝƚĂů ŽĨ &ƌĂŶĐĞ͖ ŽĨ ZĂŵĂůŚŽ Ě͛KƌƚŝŐĆŽ͕ Ă ĚŝƐƚŝŶŐƵŝƐŚĞĚ ͚ůŝƚƚĞƌĂƚĞƵƌ͕͛ ƚŚĞ'ƵƐƚĂǀĞ&ůĂƵďĞƌƚŽĨWŽƌƚƵŐĂů͖ŽĨĂƌůŽƐĚ͛ǀŝůĂ͕ƚŚĞƉƌŽŵŝƐŝŶŐƐŽŶŽĨƚŚĞ Ambassador, whose premature death has cast a deep gloom over his country; Batalha Reis, and some others, including a few Brazilian scholars, who followed with patriotic interest the subject of our conversation, the figure of Garcia de Orta often assumed almost Homeric proportions͘͟ 101
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Para além deste detalhado estudo sobre Bombaim, Gerson da Cunha dedicou-‐se ao estudo de alguns aspectos relcionados com a obra de Orta. Assim, em 1870, mencionou os Colóquios na sua History and Antiquities of Chaul and Bassein; em 1877, integrou a descrição que Orta fez do Templo da Elefanta, a primeira descrição feita por um europeu, nas Transactions of the Literary Society of Bombay; em 1878, apresentou, em Florença, uma intervenção no International