os Colóquios, pretendemos salientar aquelas obras que concorreram para descrever a imagem de Garcia de Orta, tal como a historiografia actual a compreende.
1.1. Garcia de Orta
Colóquios dos Simples e Drogas e coisas Mediçinais da India foi publicado
em Goa, em 1563.12 A obra, redigida em português, tornou inteligível a um público ibérico não especializado, um amplo conjunto de notícias sobre os recursos naturais asiáticos. As plantas, os animais e minerais da Ásia, com aplicações medicinais ou utilidade comercial, foram descritos em detalhe neste tratado. Ao longo do texto, Garcia de Orta identificou centros de origem das drogas, dos aromas e especiarias, descreveu as rotas de distribuição dos produtos, assinalou os mercados mais dinâmicos, normalizou a sinonímia, esclareceu a utilidade terapêutica dos simples.13
Os leitores residentes no Oriente tiveram, desde logo, acesso a informações credíveis e inovadoras sobre o mundo natural da Ásia, divulgadas a partir dos prelos de Goa. Dada a extensão deste auditório, não é de estranhar a redacção em português. No entanto, se atendermos aos textos quinhentistas que descreveram as novidades do mundo natural, americano, africano ou asiático, constatamos que os idiomas ibéricos ʹ o castelhano ou o português ʹ foram, com frequência, escolhidos para a divulgação destes exotismos. Os autores peninsulares, fossem eles cronistas, missionários, funcionários régios,
12
As múltiplas gralhas e erros de composição e a invulgar irregularidade ortográfica da edição princeps dificultam a compreensão de algumas passagens do texto publicado nos prelos de Goa. Para além disso, a paginação caótica desta edição impossibilita, por vezes, a localização das referências textuais. Por isso, no âmbito do presente trabalho, optámos por recorrer à 3ª edição portuguesa: Garcia de Orta, Colóquios dos Simples e Drogas da Índia, edição anotada e comentada pelo Conde de Ficalho, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987, [1891-‐1895], 2 Volumes. As constantes alusões a esta edição levaram-‐nos a optar por simplificar as referências que surgem dispersas pelo texto principal ou nas notas de rodapé com o seguinte formato: (Orta, volume: página).
13
Entende-‐ƐĞ ƉŽƌ ͚ƐŝŵƉůĞƐ͛ ĂƐ ƉĂƌƚĞƐ ĚĂƐ ƉůĂŶƚĂƐ͕ ĂŶŝŵĂŝƐ ŽƵ ŵŝŶĞƌĂŝƐ ĐŽŵ ƉƌŽƉƌŝĞĚĂĚĞƐ terapêuticas usadas na composição de medicamentos. No âmbito deste trabalho, sempre que usámos este termo com este sentido, recorremos ao itálico.
boticários ou médicos, elegeram o vernáculo para difundir as notícias sobre estes recursos. Resultantes da observação pessoal ou de testemunhos credíveis, estes novos saberes aliavam o carácter empírico das notícias relatadas ao interesse estratégico das informações recolhidas.
Relativamente aos novos exotismos, Garcia de Orta foi um dos primeiros a eleger o estilo dialogal como modalidade expositiva. Colóquios dos Simples, pela originalidade da forma, reflectiu a novidade do conteúdo.14
Não pretendemos debater neste ponto as razões que terão motivado Orta a preferir esta modalidade discursiva. Parece-‐nos, no entanto, uma escolha bastante engenhosa já que as conversas entre físicos que descreveu, permitiram-‐ lhe questionar saberes fixados nos textos clássicos propondo uma nova dinâmica na apropriação do conhecimento.15 Contestando a aquisição passiva do saber, o médico sugeriu uma nova modalidade de construção do conhecimento, que não prescindia da presença do outro e que se baseava no confronto do texto com a observação do real.
Recorrendo às figuras de dois médicos ibéricos, um chamado Orta e outro Ruano que, em cada capítulo, mantiveram um diálogo aceso e uma saudável controvérsia, Garcia de Orta fez entrar em cena, em diferentes momentos das conversas, muitas outras personagens. Esta participação inesperada de actores verídicos ou verosímeis ʹ moços e empregadas, físicos locais e mensageiros, mercadores e feitores, entre tantos outros ʹ espelhou no texto uma faceta da realidade.
O leitor ibérico de Quinhentos, além de se poder rever em algumas das personagens descritas, reconhecia a sociedade luso-‐indiana que o médico descrevia. A autenticidade dos movimentos de um quotidiano assim relatado, concorreu para a credibilidade das notícias veiculadas.
Mas Orta não pretendia apenas descrever produtos e rotas ao leitor comum. Pela complexidade da argumentação e das referências inter-‐textuais
14
Apesar da forma coloquial ser invulgar nos textos de matéria médica, Orta citou frequentemente a obra de António Musa Brasavola, Examen omnium simplicium medicamentorum, na qual se estabeleciam diálogos entre diversos interlocutores. Também Francisco Lopez Villalobos havia recentemente publicado uma obra médica em diálogo: Francisco Lopez Villalobos, Los problemas de Villalobos.
15
que apresentou, verificamos que o médico tinha a pretensão de surpreender um público letrado. Uma audiência exigente e sábia, que comentava e questionava os textos da Antiguidade e se impacientava com o silêncio das elites eruditas portuguesas relativamente ao mundo natural da Ásia.16
Talvez Orta estivesse consciente do seu anonimato face ao auditório ilustre que pretendia conquistar. A sua prolongada permanência no Oriente tinha relegado para o esquecimento uma remota passagem pelas universidades castelhanas. Para obviar a esta falha, requereu a colaboração do Doutor Dimas Bosque (Orta, I:10-‐11).
Mas, se na Europa erudita poucos o lembravam, no Reino seria ainda mais limitado o número dos que reconheciam o carácter imprescindível da sua actividade clínica. Personalidade esquecida pelos principais cronistas e ausente dos relatos heróicos dos lusitanos estantes no Oriente, Garcia de Orta teve que arquitectar a sua própria memória.17
Revelando a sua vivência no Oriente como se tratasse do modelo de
gentil-‐homem descrito por Baldassare Castiglione (1478-‐1529), Orta revelou-‐se
aos seus leitores como um homem de cortes.18 Foi assim, no fluir das amenas conversas com o seu amigo, que o médico testemunhou, com naturalidade, a sua erudição e as suas qualidades humanas.19
16
Referimo-‐nos às críticas dirigidas aos portugueses e, em especial, à classe médica lusitana, por André Laguna e Pietro Andrea Mathioli, dois dos mais ilustres comentadores de Dioscórides. Vd. Cap. 4.
17
Ao longo da sua permanência oriental, apenas se conhecem duas referências a Garcia de Orta. Uma, de Diogo do Couto, Década 4, liv.8, Cap. 11-‐12. Cit in: Rui Manuel Loureiro, A biblioteca de Diogo do Couto, p.151, e outra do Irmão Luis Froes: ͞ƵŵĂĐĂƌƚĂƋƵĞĞƐĐƌĞǀĞŽŽŝƌŵĆŽ>ƵşƐ&ƌŽĞƐ ĚŽĐŽůĠŐŝŽĚĞ'ŽĂĂŽƉƌŝŵĞŝƌŽĚĞĞnjĞŵďƌŽĚĞϭϱϲϬĂŽƐŝƌŵĆŽƐĚĂĐŽƉǐĚĞWŽƌƚƵŐĂů͘͟ƐƚĂĐĂƌƚĂ encontra-‐se na BAL, 49-‐IV-‐50, fls 113r-‐120 v e foi publicada na Documentação para a história das Missões do padroado português do Oriente, pp.297-‐326.
18
Baldassare Castiglione distinguiu-‐se como diplomata e cortesão. Publicou em 1528, nos prelos venezianos dos herdeiros de Aldus Manutius, Il Libro del Cortegiano. A obra descreveu o carácter exemplar do Duque de Urbino, Guidobaldo de Montefeltro, e constituiu uma homenagem à passagem de Castiglione pela corte de Urbino, uma das mais refinadas na Europa do seu tempo. Redigido em diálogo, o livro descreveu as qƵĂůŝĚĂĚĞƐ Ğ ǀŝƌƚƵĚĞƐ ĚĞ Ƶŵ ĐŽƌƚĞƐĆŽ ͞ŝĚĞĂů͘͟ Ɛ múltiplas traduções em castelhano, francês, polaco e inglês que circularam na Europa de Quinhentos atestam a pronta aceitação deste modelo de gentil-‐homem proposto por Castiglione. Em The fortunes of the Courtier, pp. 158-‐178, Peter Burke enumerou as edições da obra que foram publicadas entre 1528-‐1850 e identificou uma vasta lista de leitores e proprietários da obra. Sobre a recepção de Il Libro del Cortegiano e a sua influência na cultura europeia ver: Peter Burke, The fortunes of the Courtier, pp. 39-‐98 e pp. 139-‐157.
19
Orta, a par de uma enorme curiosidade pelo saber e de um invejável sentido de humor, qualidades que Castiglione enalteceu, revelou a familiaridade com as elites, a amizade com
Para realizar tal tarefa, o médico contou com a colaboração de Luís de Camões que também estanciava no Oriente. (Orta, I:7-‐9).20
No seu poema, o poeta representou Garcia de Orta cantando:
͞ǀĞĚĞĐĂƌƌĞŐƵĂĚŽ
De annos, letras e longua experiencia, Hum velho que insinado
Das guangeticas Musas na sciencia Podaliria subtil, e arte silvestre,
Vence o velho Chiron de Achilles mestre O qual esta pidindo
Vosso favor e ajuda ao grão volume, Que agora em luz saindo
Dará na Medicina um novo lume, E descobrindo irá segredos certos ƚŽĚŽƐŽƐĂŶƚŝŐƵŽƐĞŶĐŽďĞƌƚŽƐ͘͟21
ŝƌŝŐŝŶĚŽƵŵĂƐƷƉůŝĐĂĂŽŽŶĚĞĚĞZĞĚŽŶĚŽ͕ĂŵƁĞƐƉƌŽŵĞƚĞƵ͗͞ũƵĚĂLJ͕ quem ajuda contra a morte/E sereis semelhante ao Greguo ĨŽƌƚĞ͘͟22
Se Camões rogou o apoio do Vice-‐Rei D. Francisco Coutinho a Colóquios
dos Simples, Garcia de Orta dedicou o seu trabalho a Martim Afonso de Sousa
(c.1500-‐1571). Àquele fidalgo, de quem ƐĞ ĂĨŝƌŵŽƵ ͞ĐƌŝĂĚŽ͕͟ KƌƚĂ ƉĞĚŝƵ ƉƌŽƚĞĐĕĆŽ ĐŽŶƚƌĂ Ž ͞ŽĐŝŽƐŽ ƉŽǀŽ Ğ ŵŽƌĚĂĐĞƐ ůşŶŐƵĂƐ͘͟ ŽŵŽ ĞƐĐƌĞǀĞƵ ŶĂ ƐƵĂ ĐĂƌƚĂ ĚĞĚŝĐĂƚſƌŝĂ͗ ͞Ž ƚƌĂƚĂĚŽ ƚŝŶŚĂ ŶĞĐĞƐƐŝĚĂĚĞ ĚĞ Śŝƌ ĂƌƌŝŵĂĚŽ Ă ƋƵĞŵ Ž deffendesse dellas [mordaces línguas] assim como fazem os esprementados
homens de reconhecida bravura e inteligência, a comedida modéstia face aos elogios de outrem, a obediência aos governantes lusos assim como uma preocupação de moderação com as delícias da Ásia. As suas conversas com Ruano sugerem Garcia de Orta como uma personagem amplamente conforme ao modelo descrito no Livro do Cortesão͕ĞŵĞƐƉĞĐŝĂů͗͞K^ĞŐƵŶĚŽ>ŝǀƌŽ ĚŽŽƌƚĞƐĆŽĚŽŽŶĚĞĂůĚĞƐĂƌĂƐƚŝŐůŝŽŶĞĂƐŝƌĞůĨŽŶƐŽƌŝŽƐƚŽ͕͟ in: B. Castiglione, O Livro do Cortesão, pp: 79-‐ 174.
20
Esta Ode do poeta foi a primeira poesia impressa de Camões. Vd. Cap. 2.5.1.
21
Esta descrição que Camões faz de Orta foi, mais tarde, recuperada pelos biógrafos do médico.
22
O Conde de Redondo, D.Francisco Coutinho foi o 8º Vice-‐Rei da Índia (g.1561-‐1564). Este governante assinou o Privilégio que concedia a Garcia de Orta os direitos de Colóquios dos Simples por um período de três anos.
agricultores que, querendo plantar algumas dellicadas plantas as arrimam a alguns fortes arvores pera que as defendam dos tempestuosos ventos e fortes chuivas ĞĄƐƉĞƌĂƐŐĞĂĚĂƐ͘͟;KƌƚĂ͕/͗4-‐5).
Integrando a nova descrição do mundo natural asiático na narrativa das vitórias do distinto lusitano, Orta tornou o ͞invencível capitão͟ parte integrante da sua crónica. Talvez por isso tenha relatado a sua vivência ao lado do Capitão-‐ Mor Martim Afonso de Sousa. Foi como seu médico pessoal que Garcia de Orta se deslocou ao longo do litoral Industânico, desde o Golfo de Cambaia até ao Ceilão.
As referências à visita ao bazar de Diu, onde comprou o turbit (Orta, II:329-‐330), à corte de Nizamoxa, no Decão, onde discutiu com os físicos locais ou à ilha das Vacas, onde assistiu à matança de bodes para a Armada (Orta, II:232), tornaram reais os depoimentos do médico do Capitão.23 Aquele ͞illustrissimo Senhor͟ (Orta, I:4-‐5) que Orta acompanhou nas suas campanhas militares, transmitiu segurança e credibilidade aos seus testemunhos.
Do mesmo modo, as frequentes alusões a feitos de portugueses no Oriente, as importantes conquistas de D.João de Castro (Orta, II:340) ou as extraordinárias notícias oriundas da longínqua China (Orta, I:155-‐158; I:201-‐205; I:260 e Orta II:258-‐270), inscreviam Colóquios dos Simples num género de
História Natural tão em voga na época, um relato a meio caminho entre a
crónica histórica, o tratado de história natural e o compêndio de matéria médica, em que uma grande diversidade de factos se suportava mutuamente.24
Garcia de Orta relatou o seu quotidiano. Homem de uma inteligência fina e de um humor invulgar, arquitectou a sua casa, com múltiplas salas e gabinetes, onde recortou amplas janelas e varandas, de onde avistava a barra de Goa (Orta,
23
͞EŝnjĂŵŽdžĄ͟ƌĞƐƵůƚĂĚĞƵŵĂĂĚĂƉƚĂĕĆŽƉĂƌĂƉŽƌƚƵŐƵġƐĚĞ͞EŝnjĂŵ^ŚąŚ͕͟ƚĞƌŵŽƋƵĞĚĞƐŝŐŶĂǀĂ o Sultão de Ahmadnagar. No período em que Garcia de Orta permaneceu no Oriente reinaram: Burhan Nizam-‐Shâh I (r.1503-‐1553) e Husain Nizam-‐Shâh (r.1554-‐1565). As datas colocadas entre parêntesis, quando acompanhadas de uma abreviatura, indicam o período em que a personalidade em causa desempenhou funções de governação. Neste trabalho quando a ĂďƌĞǀŝĂƚƵƌĂ ͞Ő͘͟ ĂŶƚĞĐĞĚĞƌ ĚƵĂƐ ĚĂƚĂƐ͕ ƐŝŐŶŝĨŝĐĂ Ž ĐŽƌƌĞƐƉŽŶĚĞŶƚĞ ƉĞƌşŽĚŽ ĚĞ ͞ŐŽǀĞƌŶŽ͟ (geralmente empregue relativamente a Vice-‐Reis ou Governadores da India). De igual modo, ƌĞĐŽƌƌĞŵŽƐĂ͞ƌ͘͟ƉĂƌĂŝŶĚŝĐĂƌ͞ƌĞŝŶĂĚŽƐ͟Ğ͞Ɖ͘͟ƉĂƌĂĂƐƐŝŶĂůĂƌƉŽŶƚŝĨŝcados.
24
Referimo-‐nos, por exemplo, à obra de Oviedo, Historia General y natural de las Indias, Madrid, 1535 ou ao texto posterior do jesuíta José de Acosta, Historia Natural y moral de las Indias, Sevilha, 1590.
II:101) ou o jardim de árvores extravagantes (Orta, I:69); descreveu um invejável pomar de frutos exóticos (Orta, II:25); referenciou uma apreciável livraria;25 simulou uma cobiçável colecção de maravilhas (Orta, I:311 e Orta, II:203).
O ritmo das conversas obedeceu assim à cenografia desenhada por Orta. As mangas temporãs, produzidas no quente Verão indiano, transportavam o leitor até à varanda de onde fez crer que se avistava o Mandovi. Degustando esta delícia da Índia, Orta mostrou-‐se bem informado sobre as preciosidades da terra e revelou a atenção que lhe merecia o movimento mercantil na barra de Goa. Avistando uma pequena embarcação que se aproximava do porto, o médico enviou lá um dos moços para que este trouxesse de imediato informações sobre a origem da mercadoria transportada no barco.
No outro extremo da casa, no lado virado ao jardim, Orta possuía um pomar onde as árvores de fruto eram deixadas ao cuidado do seu jardineiro. Podemos assim supor que na sua mesa abundassem, não apenas os brindões, jangomas e carandas, que diariamente as compradeiras lhe traziam do mercado, mas também as jacas, os jambolões, jangomas ou carambolas que cresciam no seu quintal ou na sua fazenda.
Neste amplo e apetecível espaço, circulava a sua fiel e atenta criadagem, que o questionava e servia, num ambiente de franco diálogo e grande cumplicidade.26 Eram moços que davam recados, como aquele que lhe apresentou o cesto de mangas (Orta, II:101-‐102) ou o outro que trouxe o cabaz de ervas enviado pelos frades (Orta, II:17); servos que mostravam ao visitante especiarias (Orta, I:176). Eram servas que anunciavam viajantes, como a que fez entrar na conversa o lapidário (Orta, I:311) ou aquela que apresentou um capitão acabado de chegar de Bombaim (Orta, II:25), ou ainda uma outra que apresentou o Doutor Malupa (Orta, II:331). Eram empregadas que revelavam segredos locais, como a que mostrou a forma de usar o mungo (Orta, II:139) ou a negra que apresentou o negundo (Orta, II:163). Eram moças que traziam à cena produtos locais, como a que ensinou a distinguir o açafrão verde do seco (Orta, I:280), ou a
25
Ver: Rui MĂŶƵĞů >ŽƵƌĞŝƌŽ͕ ͞Garcia de Orta e os Colóquios dos Simples: Observações de um ǀŝĂũĂŶƚĞƐĞĚĞŶƚĄƌŝŽ͟, pp.135-‐145; Conde de Ficalho, Garcia de Orta e o seu tempo, pp.281-‐322.
26
dĞƌĞƐĂEŽďƌĞĚĞĂƌǀĂůŚŽ͕͞Colóquios dos Simples de Garcia de Orta: Conversas no interior da /ŶĚŝĂ͟, pp.165-‐175.
que deu a Ruano um bote de cânfora de Bornéu (Orta, I:152), ou aquela que lhe trouxe uma jarra de gengibre (Orta, II:9), ou ainda, a outra que lhe apresentou o tamarindo em conserva (Orta, II:320). Eram, finalmente, as cozinheiras que o interpelavam sobre a ementa do jantar, como a que lhe perguntou como preferia ƋƵĞ ĐŽnjŝŶŚĂƐƐĞ ĂƐ͞ĐƵƌĐĂƐ ĐŚĞŐĂĚĂƐĚĞ ŽĐŚŝŵ͟ ;KƌƚĂ͕ /͗ϮϳϵͿ͘ ^ƵƌŐŝĂŵƚĂŵďĠŵ rendeiros que traziam cartas ou frutos primores da sua fazenda de Bombaim (Orta, II:101), vendedores de pedras preciosas que vinham buscar esmeraldas para propor a compradores (Orta, I:311) ou o capitão do seu navio, que entregou a Orta cartas e um cesto de jangomas (Orta, II:25). Eram gentes simples, que interrompiam as conversas eruditas trazendo-‐lhes vivacidade e revelando o pragmatismo da realidade subjacente.
Orta descreveu a sua casa como um espaço onde pessoas, frutos e objectos se cruzavam em perfeita harmonia. A diversidade de alimentos foi exposta pelo médico numa farta mesa, que convidava cada leitor a deliciar-‐se.
ƐƐŝŵ͕ƵŵĂĂŵƉůĂůŝƐƚĂĚĞ͞ĐŽŵĞƌĞƐ͟ůŽĐĂŝƐĨŽŝƉŽƌĞůĞĂƉƌĞƐĞŶƚĂĚĂ͘WĂƌĂ ĂůĠŵ ĚĂƐ ĐĂƌŶĞƐ͕ ĐŽŵŽ ĂƐ ŐĂůŝŶŚĂƐ͕ ͞ĐŽŵ ƋƵĞ ƐĞ ĨĂnj Ƶŵ ĐĂůĚŽ ŵƵŝƚŽ ďĞŵ ƚĞŵƉĞƌĂĚŽ͟, as perdizes de Ormuz, tão usadas na dieta dos doentes coléricos (Orta, I:263), ou o carneiro, ͞ideal para comer com curcas͟ (Orta, I:279), Orta sugeriu as canjas (Orta, I:264), os pastéis de carne ou peixe com gengibre (Orta, II:6), as saladas de gengibre verde misturado com ervas, azeite, vinagre e sal (Orta, II:6), o peixe cozido com cardamomo, as galinhas com marmelos, os pastéis de carambola (Orta, I:161-‐162), ou os bredos e as hortaliças.
As frutas frescas e as saborosas conservas, completavam tão variada ementa com uma enorme diversidade de aromas e cores. Orta descreveu os ąŵďĂƌĞƐ͕ ŽƐ ďƌŝŶĚƁĞƐ ;KƌƚĂ͕ /͗ϭϭϳͿ͕ ĂƐ ĐĂƌĂŶĚĂƐ ͞ƋƵĞ ƐĂďĞŵ Ă ŵĂĕĆƐ ǀĞƌĚĞƐ͟ ;KƌƚĂ͕/͗ϭϮϱͿ͕ŽƐĐŽĐŽƐ͕ŽƐŵĞůƁĞƐ͕ŽƐƉĞƉŝŶŽƐ͕ŽƐĚƵƌŝƁĞƐĚĞDĂůĂĐĂ͕͞ĂŵĞůŚŽƌ ĨƌƵƚĂƋƵĞŚĂǀŝĂŶŽŵƵŶĚŽ͟;KƌƚĂ͕/͗ϮϵϳͿ͕ŽƐĨŝŐŽƐque se comiam ͞bem assados e deitados em vinho com canella por cima͟ ;KƌƚĂ͕ /͗332), as limas, laranjas e ůŝŵƁĞƐ͕ ĂƐ ŵĂŶŐĂƐ ͞ĞƐƚŝůĂĚĂƐ Ğŵ ǀŝŶŚŽ ĐŚĞŝƌŽƐŽ ŽƵ Ğŵ ĐŽŶƐĞƌǀĂ ĚĞ ĂĕƷĐĂƌ͟ (Orta, I:103), as patecas, os mungos e saborosos mangustães (Orta, II:161), as tâmaras ou as conservas de pêssegos. (Orta, II:249).
Não deixou escapar os temperos com água de canela ou água de mogory (Orta, I:70) nem as apetitosas cores conferidas pelo açafrão da terra.
Esta mesa recheada de iguarias, capazes de satisfazer os paladares mais exigentes, que o médico ofereceu a cada leitor, convidava todos a aproveitar as delícias do seu quotidiano.
Para além desta enorme diversidade de acepipes e doces, Orta partilhou com cada leitor um pouco mais da intimidade da sua casa, descrevendo alguns dos objectos que nela se podiam achar.
Cada visitante encontrava, numa casa como a de Orta, diferentes tipos de ƌĞĐŝƉŝĞŶƚĞƐ ƉĂƌĂ ŐƵĂƌĚĂƌ ĚƌŽŐĂƐ Ğ ĐŽŶƐĞƌǀĂƐ͗ ŽƐ ͞ďŽƚĞƐ ĚĞ ĐąŶĨŽƌĂ ĚŽ ŽƌŶĠƵ͟ (Orta, I:152), os jarros para gengibre (Orta, II:9), os vasos de casca de coco, jarras e escudelas de berilo (Orta, II:262), porcelanas pequenas de jaspes ou jarras martabanas vidradas.
Entre os seus objectos pessoais, não faltavam cofres e pentes de marfim, ƉĞŶƚĞƐ ĚĞ ůŝŶĂůŽĞƐ͕ ͞ƚĂďŽůĂƐ ĚĞ ĞŶĐŚĂĚƌĞnj ĚĞ ŵĂĚƌĞƉĠƌŽůĂ Ğ ƚĂƌƚĂƌƵŐĂ͟ ;KƌƚĂ͕ //͗ϭϮϰͿ͕͞ƵŵƌĞůſŐŝŽĐŽŵƵŵŵŽƐƚƌĂĚŽƌŵƵŝƚŽďŽŵ͟;KƌƚĂ͕//͗ϮϳϬͿ͕ƉĂƌĂĂůĠŵĚĞ ͞ƵŵĂŶĞůĐŽŵƵŵĚŝĂŵĂŶƚĞ͕ƉĞůŽƋƵĂůůŚĞĚĞƌĂŵϱϬĐƌƵnjĂĚŽƐ͟;KƌƚĂ͕//͗ϮϳϬͿ͘
Como nota final desta passagem pelo quotidiano do médico, convém realçar a importância que este deu à diversidade de moedas, pesos e medidas que a sua aparente frutuosa actividade comercial tornava imprescindível dominar.
WĂƌĂ ĂůĠŵ ĚĂ ĂůƵƐĆŽ ĂŽƐ ͞ĐƌƵnjĂĚŽƐ͕͟ ͞ƉĂƌĚĂƵƐ͕͟͞ůŝǀƌĂƐ͕͟ ͞ǀŝŶƚĞŝƐ͕͟͞ƌĞŝƐ͟ ŽƵ͞ƚĂŶŐĂƐ͕͟KƌƚĂƉƌĞĐŝƐŽƵŽƵƐŽĚĂƐŵĞĚŝĚĂƐĚĞ͞ŐƌĆŽƐĚĞƚƌŝŐŽ͟ƉĂƌĂĂƐƉĠƌŽůĂƐ (Orta, II:ϭϮϮͿ͕ĂƐ͞ŵĆŽƐ͟ƉĂƌĂĂƐ pedras de cevar (Orta, II:195)͕ĂƐ͞ŐĂŶƚĂƐ͟ƉĂƌĂĂ ƌĂŝnj ĚĂ ŚŝŶĂ ;KƌƚĂ͕ //͗ϮϲϭͿ͕ ŽƐ ͞ƌĂƚŝƐ͟ ƉĂƌĂ ĂƐ ĞƐŵĞƌĂůĚĂƐ ;KƌƚĂ͕ //͗ϭϵϲͿ͕ ŽƵ ĚŽƐ ͞ƋƵŝůĂƚĞƐƉĂƌĂĂƐŽƵƚƌĂƐƉĞĚƌĂƐ͟;KƌƚĂ͕//͗ϭϵϲͿ͘
O quotidiano de Orta, passado assim entre a sua casa, o hospital da Misericórdia, as visitas domiciliárias de urgência, o porto e o leilão matinal da cidade, foi apresentado a cada leitor como um invejável dia-‐a-‐dia, próprio do homem dinâmico e curioso em quem pulsava o coração de Goa. Recorrendo a uma judiciosa arte de representação, Orta partilhou os seus espaços com uma
vasta audiência. Mais do que um texto hermético, destinado apenas a um público letrado, Colóquios dos Simples não prescindiu da presença dos seus leitores que eram, em simultâneo, actores e espectadores.
Neste projecto de afirmação, Orta revelou o que outros pensavam dele. Para além de se lamentar cativo do seu saber (Orta, I:151), pretendeu deixar claro o reconhecimento da sociedade luso-‐goesa quanto ao carácter imprescindível da sua presença. Assim se pode interpretar o aparecimento do pagem de D.Jerónimo, que interrompeu uma amena conversa entre os físicos no sossego da noite (Orta, I:261-‐263), ou a chegada da afogueada empregada de Paula Andrade (Orta, I:295-‐296), ambos com pedidos de auxílio urgentes, revelando os perigos que a Índia reservava a cada instante e que apenas Orta parecia conseguir amainar.
Mas o médico não se limitou a expor o seu saber ao escrutínio das elites portuguesas. Ambicionou revelar que o crédito dado à sua capacidade técnica era mais vasto. Descrevendo curas que alcançou nas cortes locais, Orta confessou aos seus leitores o amplo reconhecimento de que foi alvo por parte dos seus soberanos. Para além dos chorudos estipêndios declarados pelo físico (Orta, I:119) ʹ que tanta inveja causara entre os seus semelhantes27 -‐ havia que considerar o valor pragmático das amizades entre o médico e os soberanos (Orta, I:122 e Orta, II:101), que permitiram, certamente, intuir estratégicos acordos e múltiplas benesses.
Mas se Garcia de Orta recorreu a todos estes elementos para construir a sua imagem, esta tarefa teve como fim último desvendar a sua personalidade, dotando-‐a de densidade e memória, e tornar credível o saber que divulgou. Este assentava na sua experiência médica, no seu conhecimento das práticas terapêuticas locais, assim como nas notícias que lhe foram reveladas por agentes em quem acreditava.
Ciente da imagem de médico de confiança que conseguiu transmitir aos seus leitores, Garcia de Orta era assim, seguramente, homem de juízos certos.
27
Já em pleno século XVII, o médico Rodrigo de Castro (1546-‐1627) continuava a sublinhar a extravagância do magnífico estipêndio que Orta afirmara ter recebido de Nizamoxa. Agradecemos ao Prof. Domingos Lucas Dias esta preciosa informação que se encontra no recente estudo: Rodrigo de Castro, O médico político ou o tratado sobre deveres médicos-‐políticos.
Na verdade, os informadores que deixou entrar no seu texto, eram homens e mulheres nos quais acreditava. O médico era o único a poder dar crédito ou a recusar uma informação. Em última análise, foi o seu próprio critério que definiu quem era digno de ser ouvido. O leitor, pela construção da imagem que Garcia de Orta fez de si próprio, foi levado a tomar como certo o entendimento do médico.28
Assim, a vasta panóplia de informadores, enumerada ao longo dos
Colóquios, que era crível aos olhos de Orta, foi aceite pelo seu auditório.
Surgiram então inúmeros mercadores, físicos, boticários, religiosos, empregados, secretários, feitores, funcionários régios, que, devidamente identificados pelo médico, cederam informes fidedignos. Homens e mulheres, portugueses ou estrangeiros, gentes eruditas ou simples, que facultavam segredos e testemunhavam o dinamismo da apropriação do real. O leitor foi assim naturalmente conduzido a crer nas informações cedidas pelos seus múltiplos informantes, depois de estas terem sido por ele validadas.
Ao longo do texto, Orta recordou que, do mesmo modo que nem todos os empregados eram de confiança (como revelou no episódio de Paula Andrade, acima referido), também era preciso cautela na selecção dos informadores. Na verdade, nem todos os mercadores ou viajantes eram dignos de fé. Era assim tarefa de quem procedia a um questionário, saber identificar interlocutores credíveis. Mais uma vez, a revelação de uma verdade dependia da agudeza de espírito do inquiridor, neste caso, da intuição de Orta.
Torna-‐se assim curiosa a alusão de Orta ao engano divulgado por Laguna