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Como foi enunciado no capítulo anterior, a consciência compreende dois aspectos, o moral e o ético, possibilitadores da análise e actuação perante uma relação concreta ou ideal, entre sujeitos. Os termos dessa mesma relação são definidos de acordo com determinados valores e princípios normativos que diferem conforme o tipo de sujeito e situação específica.

A natureza do outro sujeito condiciona o tipo de abordagem moral e consequentemente ética que cada indivíduo tem, pois é essência casuística e particularizante das relações que induz a criação das tais normas regulatórias do comportamento humano.

Se para indivíduos humanos as regras estão há muito definidas, ainda que variem contextualmente, no caso de sujeitos não racionais só nos últimos cem anos se tem colocado filosoficamente a questão. Por ser ainda uma matéria moral bastante recente, o desenvolvimento do pensamento ético é igualmente reduzido quando comparado com o esforço produzido na reflexão sobre o comportamento entre seres humanos.

Apesar de toda a novidade que é a consideração moral de outros sujeitos que não os humanos, é de no seio da consciência ético -moral que se ocorrerem os processos mentais que impliquem a interacção entre um Ser Humano e um não racional. Como neste caso, o sujeito considerado moralmente não é humano, a relação não será entendida simplesmente como ético -moral mas sim bioética.

Nesta linha de pensamento toma-se a ideia alargada da Bioética, considerando- se como objectivo desta disciplina, a avaliação da relação do Ser Humano com os restantes seres vivos, do ponto de vista da moralidade de todas as acções que possam ajudar ou prejudicar os organismos de forma directa ou indirecta. Esta concepção inclui todos os factores não vivos do meio uma vez que asseguram a sobrevivência a qualquer forma de vida.

Uma vez que os Seres Humanos são dotados de capacidade de ajuizar moralmente sobre a realidade, independentemente da qualidade do sujeito, a sua acção

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continua a ser regulada por um conjunto de premissas consideradas como correctas. Esta interligação que cai mais uma vez na esfera moral mas agora aberta a novos sujeitos, incapazes de se relacionar da mesma forma com os indivíduos humanos, mas alvo de acção moral.

Quando os objectos de crítica são o comportamento e os pressupostos orientadores da acção humana para com indivíduos vivos e elementos sustentadores dessa forma de vida, então surge um produto ético específico por ser orientado para o valor da vida. Deste modo emerge a bioética, uma acepção alargada e englobante, como disciplina de cariz filosófico que indaga sobre esse mesmo valor.

O conceito de bioética, agora descrito, foge um pouco à visão actual mais popular que a aproxima da ética médica69. Porém, mesmo os autores mais ortodoxos declinam a sobreposição entre ética da medicina com a bioética:

“(A) bioética não é simplesmente a ética aplicada à saúde. A bioética é agora uma prática estabelecida, com a sua história própria, cultura e normas.”70

O conceito tradicional de bioética, nascido nos anos 70 do século passado já demonstrava a autonomia e abrangência do seu objecto de estudo, incluindo não só a área das ciências da saúde mas também da Biologia, em especial em relação à conduta de cientistas e pessoal especializado mas também o tipo de práticas utilizadas neste meio71.

Mas como não são só os profissionais das ciências da vida que lidam e se interrogam sobre a qualidade do relacionamento humano com outros sujeitos (racionais

69 “Bioethics is a large, interdisciplinary field, with contributions from philosophy, theology, literature,

history, law, sociology, anthropology, and the diverse health professions.” KHUSHF, George- Handbook

of Bioethics: Taking Stock of the Field from a Philosophical Perspective. [em linha]. Hingham, MA,

USA: Kluwer Academic Publishers, 2004. p 8. Disponível em WWW:<http://site.ebrary.com/lib/surrey univ/Doc?id=10088568&ppg=8>.

70 “Bioethics is not simply philosophical ethics applied to healthcare. Bioethics is now an established

practice, with its own history, culture, and norms.” KHUSHF, George -cit. 69, p.10.

71“A formidable ideal list of necessary ingredients in the training of a bioethicist: sociological

understanding of the medical and biological communities; psychological understanding of the kinds of needs felt by researchers and clinicians, patients and physicians, and the varieties of pressures to which they are subject; historical understanding of the sources of the regnant value theories and common practices; requisite scientific training; awareness of and facility with the usual methods of ethical analysis as understood in the philosophical and theological communities— and no less a full awareness of the limitations of those methods when applied to actual cases; and, finally, personal exposure to the kinds of ethical problems which arise in medicine and biology.” TUBBS James B. Jr.- Handbook of Bioethics

Terms. [em linha] Washington DC: Georgetown University Press. 2009. p 191. . Disponível em

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ou não), singularizar apenas a Bioética como sendo aposta a estes é reducionista de desvirtuador da própria essência da Ética (não aplicada). Todos somos chamados a reflectir sobre a forma e pressupostos norteadores da acção humana sobre o mundo vivo, ainda que nem sempre da maneira mais sistemática.

Assim nesta tese, pede-se emprestado o conceito de Bioética, entendido enquanto reflexão orientada pelo valor da vida, para caracterizar a faceta da consciência que lida com as relações entre seres humanos e elementos vivos ou sustentadores destes. A noção aqui enunciada relaciona-se com o próprio objecto da ética ambiental mas é mais abrangente. Se a Ética Ambiebtal é comummente descrita enquanto a reconsideração das atitudes e valores humanos que influenciam o comportamento individual perante Natureza72, a faceta bioética da consciência irá actuar globalmente sobre a relação e comportamento humano perante o mundo natural.

Pode então caracterizar-se a consciência bioética como uma particularidade incluída no todo da vertente ético -moral da mesma, que se constituí como um sistema coordenador dos campos emocional, cognitivo e conotativo, quando a questão posta ao indivíduo tem como temática as formas de vida e factores que indirectamente os afectam. Por outras palavras, quando o sujeito está perante uma realidade em que a aquele a quem se dirige a sua consciência não é um ser igualmente racional, impedindo relação moral bidireccional, será a faceta bioética do fenómeno consciencial que irá regular e condicionar a forma como o único ser moral se irá dirigir ao outro.

A consciência bioética destaca-se do fundo ético -moral do indivíduo pela especificidade dos fenómenos sobre os quais opera, sendo ela a estrutura mental responsável pela análise e reflexão deontológicas sobre as relações Homem/Animal e Homem/ Natureza.

72 Consultar capítulo III.2.2.1- “O Reposicionamento do Homem na Relação Ética com o Ambiente: O

Nascimento da Ética Ambiental”. A Ética Ambiental é “a re-examination of the human attitudes and values that influence individual behavior and government policy toward nature”. POST, Stephen G. ed. -

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